A ONU tentou calcular quanto o Brasil exporta em cultura e não conseguiu.
Está escrito no relatório da UNCTAD: o Brasil está entre as economias que "não têm dados de comércio de serviços adequados para calcular as exportações de serviços criativos". Em bens criativos, o Brasil não aparece em nenhum ranking de exportadores, nem com os dados de 2020 nem com os de 2022.
No mesmo período, o agronegócio brasileiro exportou US$ 164,37 bilhões, quase metade de tudo que o país vendeu ao mundo em 2024.
A gente mede grão por grão o que sai do porto. Não sabe medir uma música, um livro, uma série.
Este estudo mostra três coisas.
-
A demanda existe
A demanda por cultura brasileira existe e está crescendo sem nenhuma ajuda do Estado.
-
Falta infraestrutura, não talento
O que falta não é talento, é infraestrutura, e existe um manual pronto, escrito pela Coreia do Sul a partir de 1998 e copiado com adaptações pela Turquia.
-
Um mercado novo está abrindo agora
Está se abrindo agora um mercado novo, o de licenciamento de texto para treinamento de inteligência artificial, com preço de tabela já formado em dólar, e o Brasil está entrando nele sem nada. Nem dado, nem lei, nem acordo.
A Verse Media tem interesse comercial direto na terceira parte. Está declarado no fim do documento
Já perdemos essa briga antes
No nosso manifesto sobre inteligência artificial, a gente contou uma história em três atos. Este estudo é sobre um quarto ato, que na verdade é o mais antigo de todos e ainda está aberto: a onda da exportação cultural.
- 2007–2012
Ebooks
O mercado editorial brasileiro resistiu ao digital com medo. Quando acordou, a Amazon respondia por mais de 80% das vendas de e-books nos Estados Unidos e definia preço e royalty do livro digital.
- 2012–2020
Audiobooks
Enquanto o setor tratava áudio como curiosidade, a Audible, comprada pela Amazon em 2008, trancou o mercado.
- 2022–
Inteligência artificial
A mesma dinâmica, de novo.
- 1998–
Exportação cultural
A Coreia do Sul pegou essa onda em 1998. A Turquia, nos anos 2000. A gente está em 2026 ainda discutindo se cultura é gasto ou investimento.
O padrão é sempre o mesmo. A oportunidade aparece, o Brasil hesita, e quando resolve olhar alguém de fora já definiu as regras do jogo.
- Câmara dos Deputados dos EUA, Investigation of Competition in Digital Markets, 2020
O que a Coreia decidiu em 1998
Quase todo mundo acha que o K-pop aconteceu. Que foi uma explosão espontânea de talento asiático.
Não foi.
Em 1997 a Coreia do Sul quebrou na crise asiática. O presidente Kim Dae-jung sentou com sua equipe econômica e escolheu dois setores para tirar o país do buraco: tecnologia da informação e indústria cultural. Cultura, como escolha de política econômica, no mesmo balcão que semicondutor.
Vinte e seis anos de política de Estado
- 1998 6×
Kim Dae-jung leva a verba da divisão de indústria cultural de ₩ 16,8 bi para ₩ 100 bi
- 1999 Lei 5.927
Lei Básica de Promoção da Indústria Cultural
- 2001 KOCCA
nasce a agência de conteúdo que hoje se chama KOCCA
- 2024 ₩ 1 tri
orçamento público para conteúdo passa de 1 trilhão de wons pela primeira vez
- 2025 ₩ 609,3 bi
orçamento anual da KOCCA
Media Today (Coreia), 2022; Arquivo Nacional da Coreia; portal korea.kr; Kyungje Ilbo, 2024
| O resultado | 2024 | 2025 |
|---|---|---|
| Exportação de conteúdo | US$ 14,08 bi | US$ 14,91 bi |
| Importação de conteúdo | US$ 915,6 mi | |
| Saldo | +US$ 13,16 bi | |
| Receita do setor | ₩ 157,4 tri (~US$ 107 bi) | ₩ 161,5 tri |
| Empregos | 688.121 |
MCST 2024, via Korea Herald e Korea JoongAng Daily; KOCCA 2025, via Seoul Economic Daily
Vinte e seis anos de política de Estado, atravessando governos de sinais opostos, sem interrupção.
O detalhe que devia doer mais no Brasil
Han Kang ganhou o Nobel de Literatura em 2024, e o mundo achou que foi talento.
Foi talento, sim. Mas antes disso foi orçamento.
O LTI Korea, o instituto coreano de tradução literária, investiu cerca de US$ 720 mil na obra dela, entre traduções para 28 idiomas e a presença dela em eventos literários pelo mundo, ao longo de anos, quando ninguém fora da Coreia sabia quem ela era. Até 2024, o instituto tinha apoiado mais de 2.170 títulos, e em 2025 operou com ₩ 9,85 bilhões, algo como US$ 7,23 milhões.
Entre 2021 e 2025, os livros coreanos apoiados pelo instituto venderam 3,58 milhões de exemplares no exterior.
Nobel não cai do céu. Ele é colhido de um investimento público paciente, feito com décadas de antecedência, em uma coisa aparentemente burocrática: pagar tradutor.
Não é coisa de asiático disciplinado
A Turquia fez a mesma coisa com novela.
Em 2024, exportou mais de 300 produções para 200 países, com receita acima de US$ 500 milhões. É o terceiro maior exportador de séries de televisão do mundo, atrás de Estados Unidos e Reino Unido, com audiência estimada em 750 milhões de pessoas em mais de 170 países.
Eles descobriram que dava pra competir por preço e volume, e o Estado entrou com programa de apoio à exportação.
E o aviso que vem da Argentina
Em 2009, a Argentina criou o Programa Sur, de apoio à tradução. Em 2011 ele foi declarado política de Estado permanente, por resolução ministerial, não por lei. Já subsidiou mais de 1.650 obras traduzidas para 50 idiomas.
Em 2023, apoiou 123 traduções com um orçamento de US$ 319 mil. Em 2024, depois do corte orçamentário, apoiou 17 livros com US$ 33,5 mil.
Política de exportação cultural que não está blindada em lei morre em um ano. E leva junto vinte anos de relacionamento com editoras estrangeiras.
- Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia, relatórios anuais da indústria de conteúdo 2024 e 2025
- KOCCA, relatório de tendências 2025
- LTI Korea, orçamento 2025 e dados de apoio à tradução, via Korea Times (outubro de 2024 e julho de 2026) e Korea Herald
- Duvar English, citando CNBC-e, janeiro de 2025; The Economist, via Daily Sabah, fevereiro de 2024
- Cancillería argentina, página do Programa Sur; La Nación, fevereiro de 2025
O Brasil já exporta. Sem ajuda nenhuma.
Aqui o estudo vira a chave, porque a essa altura o leitor brasileiro já está se sentindo um lixo, e não é esse o caso.
Música
Em 2025 o Brasil se tornou o oitavo maior mercado fonográfico do mundo, crescendo 14,1% e passando o Canadá. A América Latina foi a região que mais cresceu no planeta pelo décimo sexto ano seguido.
E tem um dado melhor. Segundo o relatório Loud & Clear do Spotify, entre os gêneros que geraram mais de US$ 50 milhões em royalties em 2025, o funk brasileiro foi o que mais cresceu no mundo: 36%, na frente do K-pop, com 31%. E entre as línguas que geraram mais de US$ 100 milhões, o português foi a que mais cresceu, com 26%.
Ninguém fez política pública de funk. Pelo contrário: o funk passou trinta anos sendo criminalizado, com baile fechado pela polícia. E ele está exportando.
Livro
O Brazilian Publishers, programa de internacionalização da Câmara Brasileira do Livro com a ApexBrasil, somou mais de US$ 24 milhões em negócios fechados e previstos em 2025. E dentro desse programa tem uma virada que quase ninguém notou: a venda de direitos de tradução, que era 17,34% do que se negociava em 2025, virou 44,65% no primeiro semestre de 2026.
O mundo parou de comprar exemplar brasileiro e começou a comprar licença brasileira.
Guarde essa frase. Ela volta no capítulo 6.
Audiovisual e games
Aqui a gente não sabe. Sério.
O Fundo Setorial do Audiovisual investiu R$ 653,7 milhões em 2023 e R$ 600 milhões em 2024 em produção, e a política de fomento somou R$ 2,6 bilhões em 2024. Mas isso é dinheiro entrando na produção, não receita saindo pra fora.
O único número de saída é do Banco Central: US$ 516,9 milhões de receita com "serviços audiovisuais e relacionados" em 2024. Só que a categoria mistura rádio, TV e gravação musical, e não separa filme de série. A Ancine chegou a publicar o comércio exterior do audiovisual, e parou no ano-base 2017.
Em games, mesma coisa: o Brasil é o maior mercado da América Latina, com cerca de US$ 2,6 bilhões em 2023, e ninguém mede quanto a gente vende pra fora.
A demanda existe. O talento existe. O que não existe é medição, e onde não há medição não há política, e onde não há política a coisa acontece por acidente.
- IFPI, Global Music Report 2026
- Spotify, Loud & Clear 2026 e newsroom Spotify Brasil, maio de 2026
- CBL, resultados do Brazilian Publishers 2025 (fevereiro de 2026) e do 1º semestre de 2026, via PublishNews
- Ministério da Cultura e Ancine, Fundo Setorial do Audiovisual, 2023 e 2024
- Banco Central do Brasil, série SGS 22792, serviços audiovisuais e relacionados, receita
- Newzoo, via TechTudo, novembro de 2023
O Brasil vende o episódio. A Coreia vende a série.
Análise, não estatística. Não existe indicador internacional de "franquias exportadas por país". O que tem lastro aqui são os números coreanos e o fato verificável de que o Brasil exporta música e licença de livro, não universo.
Tem um buraco no meio disso tudo que é o mais difícil de enxergar, porque ele não aparece em estatística nenhuma.
O Brasil exporta obra. Não exporta universo.
Uma música do funk que faz sucesso lá fora é receita de uma música. Um direito de tradução vendido é receita de um livro, num país, numa língua. São vendas avulsas.
O que a Coreia exporta é outra coisa. É o mesmo IP atravessando webtoon, drama, jogo, turnê, boneco e parque, durante dez anos, com cada camada alimentando a seguinte. Solo Leveling nasceu como webtoon e só depois virou franquia de animação. Quando virou, cada formato novo foi uma linha de receita nova sobre o mesmo ativo que já estava pago.
Nós não temos isso. E não é por falta de paixão.
O brasileiro é um fã extraordinário e um produtor de objeto de fandom tímido
Em música, o fandom brasileiro é potência mundial reconhecida, aparece em toda métrica de engajamento de artista internacional e tem organização própria em torno de artista nacional.
Em televisão, a novela criou um dos fandoms mais massivos da história, com discussão coletiva diária por décadas. Mas nunca virou fandom no sentido moderno, com fã produzindo fanfic, arte, teoria, continuação.
Em cinema, quase nada de nacional. "Ainda Estou Aqui" mostrou o potencial e não virou hábito.
Em games e animação, somos um dos maiores públicos do mundo. De produto dos outros.
A energia existe, em quantidade absurda. Falta obra nacional que dure tempo suficiente pra ela se prender.
Por quê
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Não temos indústria de franquia.
Fandom não nasce de gostar. Nasce de continuidade. E a nossa produção é feita de obra avulsa. Filme nacional é um filme, não o primeiro de cinco. Série raramente passa da segunda temporada. Novela, que é a única coisa que dura de verdade, morre por design: acaba, o personagem não volta, o universo não se expande.
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Financiamento é por projeto, não por propriedade.
Rouanet, edital estadual, fundo setorial, prêmio literário: tudo financia uma obra. Ninguém financia a construção de um universo ao longo de dez anos. O criador brasileiro é treinado a fechar a obra e correr atrás do próximo edital. Não é treinado a construir IP.
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A cultura de massa foi centralizada demais.
Por décadas, uma emissora foi quase o único canal. Isso criou audiência gigantesca, mas audiência de tela única não vira fandom, porque fandom precisa de espaço pro fã produzir, e o objeto inteiro estava sob controle de quem transmitia.
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E a nossa ficção é realista.
A tradição brasileira, da literatura à novela, é o drama social e o cotidiano. Fandom se prende com mais facilidade em fantasia, ficção científica, mitologia e aventura, que são gêneros com regra de mundo pra explorar e personagem pra remixar. Esses gêneros foram tratados com desprezo pela elite cultural brasileira por praticamente um século.
Financiamento é por projeto, não por propriedade. Essa é a frase que resume o estudo inteiro.
As quatro travas
Tradução
O Programa de Apoio à Tradução da Fundação Biblioteca Nacional existe desde 1991 e já viabilizou quase 1.600 projetos em cerca de 70 países. É um bom programa. O último edital com valor publicado, o de 2024, tinha R$ 1 milhão.
O equivalente coreano tem US$ 7,23 milhões. A diferença é de 35 a 40 vezes, para um país com um quarto da nossa população.
Livro não atravessa fronteira sozinho. Alguém precisa pagar o tradutor antes de existir editora interessada. Esse é o custo que trava a exportação de ficção brasileira, e é o mais barato de resolver de tudo que está neste estudo.
Língua
O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas. Pelas projeções da ONU citadas pelo Instituto Camões, serão quase 400 milhões em 2050 e mais de 500 milhões em 2100, puxados principalmente pelo crescimento populacional da África.
E não existe mercado do livro em português.
Existem ilhas: Brasil de um lado, Portugal de outro, mercados africanos crescendo sozinhos. Direito vendido por território, logística cara, nenhuma instituição fazendo o livro circular.
Compare com o espanhol. Segundo o Instituto Cervantes, com dados do CERLALC, a produção editorial em espanhol dobrou entre 2001 e 2020, de 92.921 para 185.217 livros, e a América Latina responde por 56% dessa edição, puxada por México, Colômbia e Argentina. Isso não aconteceu por acaso: tem Instituto Cervantes, tem CERLALC, tem circulação pensada como política.
Não existe um Cervantes lusófono. Não existe um Programa Sur da CPLP. O edital 2026 da Biblioteca Nacional passou a contemplar editoras da CPLP, o que é um começo. Mas o edital nem publica valor: o apoio fica "vinculado à disponibilidade orçamentária".
Regulação do streaming
O PL 2331/2022, que cobra Condecine das plataformas de vídeo sob demanda, tramita desde 2022. Foi aprovado no Senado em abril de 2024 com teto de 3% sobre a receita bruta. A Câmara aprovou um substitutivo em novembro de 2025, com alíquotas de 0,1% a 4%, e o texto voltou ao Senado, onde aguarda votação final.
A União Europeia exige que 30% do catálogo das plataformas seja de obras europeias.
Enquanto isso não anda, uma plataforma estrangeira opera no Brasil sem as obrigações de fomento que a TV por assinatura tem. É assimetria regulatória pura, e ela drena o dinheiro que financiaria a produção nacional.
O mercado interno encolhendo
O setor editorial brasileiro vendeu R$ 4,2 bilhões ao mercado em 2024, com queda real de 1,1% descontada a inflação. Foram 44 mil títulos produzidos.
Um autor brasileiro hoje disputa um bolo que diminui há quase vinte anos. Exportar deixou de ser ambição e virou sobrevivência.
- Fundação Biblioteca Nacional, editais do Programa de Apoio à Tradução 2024 e 2026
- LTI Korea, orçamento 2025, via Korea Times; IBGE e Ministério de Dados e Estatística da Coreia, população 2025
- Instituto Camões, dados sobre a língua portuguesa, 2022, a partir de projeções da ONU
- Instituto Cervantes, Anuario 2024, "El español y las industrias culturales", com dados do CERLALC
- Tramitação do PL 2331/2022 no Senado e na Câmara; Agência Senado, janeiro de 2026
- Diretiva de Serviços de Comunicação Social Audiovisual da União Europeia, artigo 13
- SNEL, CBL e Nielsen BookData, Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, ano-base 2024
Direito é o produto. E ele já tem preço.
Agora a parte que quase ninguém no Brasil percebeu, e que muda o que significa "exportar cultura".
Existe um comprador novo no mercado, e ele não quer o seu livro. Ele quer o direito de ler o seu livro para aprender a escrever.
O português é 2,5%
No Common Crawl, a base de texto raspado da internet que alimenta os grandes modelos de linguagem, o inglês representa 40,45% das páginas. O português representa 2,53%. Dezesseis vezes menos, numa língua falada por mais de 260 milhões de pessoas.
- Inglês 40,45%
- Português 2,53%
Common Crawl, estatísticas oficiais do crawl CC-MAIN-2026-34
E o viés piora no caminho até o modelo. Um estudo de 2026 sobre os datasets efetivamente usados em treinamento mostrou que o inglês ocupa 57,4% do volume dos datasets do Hugging Face, contra 42,1% das páginas do Common Crawl analisado. A curadoria amplifica a distorção.
Isso significa duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira é de soberania. Os modelos que milhões de brasileiros usam todos os dias pensam pouco em brasileiro. Aprenderam o mundo em inglês e traduziram pra cá.
A segunda é comercial. Existe um buraco de conteúdo em português nos dados que treinam a inteligência artificial mundial. E buraco em mercado que cresce tem outro nome: oportunidade.
O preço já está na mesa
Não é especulação. Os contratos existem, e alguns valores são públicos.
| Acordo | Valor | Ano |
|---|---|---|
| News Corp e OpenAI | mais de US$ 250 milhões em cinco anos, segundo o Wall Street Journal | 2024 |
| HarperCollins e Microsoft | US$ 5.000 por livro, metade para o autor | 2024 |
| Anthropic, acordo judicial | US$ 1,5 bilhão, cerca de US$ 3.000 por obra | 2025–2026 |
Wall Street Journal; Publishers Weekly e Authors Guild; Bloomberg; autos de Bartz contra Anthropic
O caso da HarperCollins é o mais instrutivo, porque foi o primeiro a estabelecer preço público de dado de treinamento. Cinco mil dólares por livro de não ficção, divididos meio a meio entre editora e autor, com adesão voluntária e limite de uso. Num livro de 75 mil palavras, isso dá algo em torno de sete centavos de dólar por palavra.
O acordo da Anthropic veio por outro caminho. Um juiz americano decidiu que treinar com livro comprado é uso legítimo, mas que baixar de biblioteca pirata não é. O resultado foi o maior acordo de direitos autorais da história dos Estados Unidos: US$ 1,5 bilhão, cerca de US$ 3 mil por obra, para cerca de 480 mil livros, com aprovação final em julho de 2026.
Também fecharam acordo com empresas de IA, nos últimos dois anos: Axel Springer, The Atlantic, Vox Media, Financial Times, Reuters, Taylor & Francis, Wiley.
Nenhum deles em português.
O que isso quer dizer, em português claro
O imaginário brasileiro está sendo levado de graça enquanto os detentores anglófonos estão negociando preço.
E tem um agravante de calendário. O projeto de lei que regula a inteligência artificial no Brasil, o PL 2338/2023, foi aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 com uma seção de direitos autorais nos artigos 62 a 66, prevendo transparência sobre as obras usadas no treinamento, direito do titular de vetar o uso e remuneração pelo uso comercial.
Na Câmara, parou. A comissão especial é presidida por Luisa Canziani, com relatoria de Aguinaldo Ribeiro. O relator declarou dúvidas sobre a operacionalidade da remuneração, e circulou entre as entidades a informação de que estudaria um substitutivo sem a parte autoral. Em maio de 2026, o Ecad e entidades da cultura e do livro, entre elas a Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, a Abrelivros e a ABDR, entregaram carta à comissão pedindo a manutenção dos artigos.
Em setembro de 2026, o projeto segue aguardando o parecer do relator, sem data para votar.
- Common Crawl, estatísticas de idioma do crawl CC-MAIN-2026-34
- Wilson et al., "How Hyper-Datafication Impacts the Sustainability Costs in Frontier AI", FAccT 2026
- Publishers Weekly e Authors Guild sobre o acordo HarperCollins, novembro de 2024; Bloomberg, fevereiro de 2025
- Wall Street Journal sobre News Corp e OpenAI, maio de 2024
- Decisões e acordo em Bartz contra Anthropic, 2025 e 2026; Authors Guild, julho de 2026
- Tramitação do PL 2338/2023 na Câmara dos Deputados; carta das entidades da cultura e do livro, maio de 2026
O que os presidenciáveis enxergam disso
Este capítulo é curto de propósito. O assunto do estudo é uma política de vinte anos. A eleição é um evento de quatro.
Lemos os cinco planos de governo registrados no TSE procurando não "apoio à cultura", mas outra coisa: alguém que trate cultura como coisa que se vende pro mundo.
Cada linha conta cinco elementos: menção, ação, instrumento, meta ou público, e fonte de recurso. Quatro ou cinco elementos é cobrável: dá pra cobrar. Dois ou três é vago: promessa sem como nem quanto. Zero ou um é ausente, e proposta na direção contrária também.
- Cobrável (verde na régua)
- Vago (amarelo)
- Ausente (vermelho)
Toque numa célula para ver o que o plano diz e em que página.
| Tema | Lula PT | Flávio Bolsonaro PL | Augusto Cury Avante | Renan Santos Missão | Ronaldo Caiado PSD |
|---|---|---|---|---|---|
| Leitura e bibliotecas | |||||
| Autores e editoras independentes | |||||
| Economia criativa e trabalho cultural | |||||
| Direitos autorais | |||||
| Uso de obras por IA | |||||
| Rouanet e Aldir Blanc | |||||
| Preço e imposto do livro | |||||
| Cultura como indústria exportadora |
A linha nova é a última, e ela é o motivo deste estudo.
Lula fala em diplomacia cultural e internacionalização da produção brasileira. Isso é prestígio, e prestígio é bom, mas não é balança comercial. Caiado é o único que nomeia a ApexBrasil no contexto de cultura, junto com tradução e feiras internacionais. Cury cita exportação de conteúdo cultural numa linha, sem nenhum instrumento. Flávio e Renan não tocam no assunto.
Nenhum dos cinco planos usa a palavra exportação junto com a palavra livro. Nenhum menciona direito de tradução. Nenhum menciona licenciamento de catálogo para inteligência artificial. Nenhum trata a língua portuguesa como mercado.
E nenhum dos cinco fala de preço do livro ou de imposto sobre o livro, que são as duas pautas mais concretas do setor editorial hoje.
O que está escrito
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Quem cria não pode ser o único a não ganhar.
Lula p. 42
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O país precisa proteger direitos autorais, diversidade, dados e patrimônio.
Ronaldo Caiado p. 28
-
Não devemos optar por eliminar o fomento à cultura... devemos delinear os traços de um saneamento dos vícios do fomento.
Renan Santos p. 28
-
Aperfeiçoaremos as leis de incentivo, corrigindo distorções e favorecendo o desenvolvimento de outros polos regionais.
Flávio Bolsonaro p. 41
Planos registrados no TSE (cópias Poder360)
- Lula (PT): Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil, 84 p.
- Flávio Bolsonaro (PL): Para o Brasil Vencer o Atraso, 76 p.
- Augusto Cury (Avante): O Brasil dos Nossos Sonhos, 200 p.
- Renan Santos (Missão): Livro Amarelo, resumo executivo, 51 p.
- Ronaldo Caiado (PSD): Plano de Governo 2027 a 2030, 100 p.
O que falta, na ordem em que precisa acontecer
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Medir
Antes de qualquer coisa. O Brasil não tem estatística oficial de exportação cultural, e por isso a UNCTAD não consegue nos calcular. Uma conta satélite de cultura com módulo de comércio exterior, feita por IBGE, Ministério da Cultura e Ministério do Desenvolvimento, é barata e destrava todo o resto.
Sinal de que funcionou O Brasil aparecer nas tabelas da UNCTAD.
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Pagar tradutor
Levar o programa da Biblioteca Nacional de R$ 1 milhão para algo comparável ao coreano é a medida de melhor retorno simbólico e comercial deste estudo, e custa menos que uma campanha publicitária de estatal. Com uma condição inegociável: blindar em lei, pra não virar Programa Sur em 2027.
Sinal de que funcionou Passar de dezenas para centenas de títulos apoiados por ano.
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Aprovar a regulação do streaming com cota de verdade
Está em tramitação agora. Cota de catálogo nacional em patamar competitivo e Condecine que sustente fomento, não simbolismo.
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Tratar o texto em português como ativo estratégico
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões até 2028 e fala em "aprimoramento de bases de dados nacionais para treinamento", sem nenhuma estratégia de aquisição ou licenciamento de acervo cultural com repartição para autores. É preciso ter as duas coisas: a seção de direitos autorais aprovada no PL 2338, e uma política de compra de corpus que pague quem escreveu.
Sinal de que funcionou O primeiro acordo público de licenciamento de catálogo brasileiro para IA.
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Construir o mercado lusófono
É o único lugar do mundo onde o Brasil já é o maior sem precisar convencer ninguém. Começar por onde o espanhol começou: circulação editorial, harmonização de direitos territoriais, um fundo comum de tradução e distribuição.
Parar de financiar obra e começar a financiar propriedade.
Isso vale para edital público, mas vale principalmente para quem escreve. Enquanto o incentivo for fechar o livro e correr para o próximo edital, o Brasil vai continuar produzindo obras excelentes e nenhuma franquia.
Metodologia, lacunas e conflito de interesse
Como lemos os planos
Os cinco documentos registrados no TSE foram lidos na íntegra. Cada linha do farol conta cinco elementos: menção, ação, instrumento, meta ou público, e fonte de recurso. Quatro ou cinco elementos é cobrável, dois ou três é vago, zero ou um é ausente. Proposta concreta na direção contrária também é ausente. É uma régua auditável: qualquer pessoa abre o PDF e confere.
Todo número desta página foi conferido na fonte primária ou em imprensa de referência antes da publicação. O que não se confirmou saiu do texto.
O que não conseguimos apurar
Somos obrigados a listar, porque metade do argumento deste estudo é sobre falta de dado. Cada item abaixo foi procurado e não existe publicado.
18 coisas que procuramos e não existem publicadas
Comércio exterior
- Valor exato das exportações brasileiras de bens criativos
- Valor das exportações brasileiras de serviços criativos
- Exportação de filmes e séries, separada do resto do audiovisual
- Exportação brasileira de games
Livro e tradução
- Títulos brasileiros traduzidos e publicados no exterior por ano
- Percentual de obras traduzidas do estrangeiro entre os títulos publicados no Brasil
- Bolsas do Programa de Apoio à Tradução concedidas por ano
- Número de agentes literários atuando no Brasil
- Valor da Lei Rouanet captado por literatura
- Volume anual de títulos autopublicados
Língua portuguesa
- Tamanho dos mercados editoriais de Portugal, Angola e Moçambique
- Quantificação das barreiras de circulação entre países lusófonos
- Política integrada de livro na CPLP
Propriedade intelectual
- Indicador internacional de franquias exportadas por país
- Dados do mercado brasileiro de webtoon
Política e IA
- Posição de cada bancada partidária sobre a seção de direitos autorais do PL 2338
- Ações judiciais no Brasil sobre uso de obras em treinamento de IA
- Acordo público de licenciamento de catálogo brasileiro para IA
Natureza das fontes
A Firjan é entidade setorial, não órgão oficial de estatística, e o número de 3,59% do PIB é a melhor referência disponível, não conta nacional. Os valores de exportação de séries turcas e de mercado de games são estimativas de associações e imprensa. Os valores dos acordos de IA vêm de reportagem e de autos judiciais, nem todos confirmados oficialmente pelas empresas. O capítulo 4, sobre IP e fandom, é análise nossa, não estatística.
Conflito de interesse
A Verse Media constrói infraestrutura para autores independentes e tem interesse comercial direto no capítulo 6 deste estudo. Nosso modelo envolve registro de origem de obra e licenciamento de catálogo, inclusive para treinamento de inteligência artificial, sempre com autorização e repartição para o autor. A gente acha que um país que licencia é melhor que um país que é raspado. E a gente ganha dinheiro se estiver certo.
Preferimos dizer isso do que fingir neutralidade. Já assumimos contradição parecida no nosso manifesto sobre IA, quando reconhecemos que usamos modelos das mesmas empresas que criticamos, porque entre esperar o mundo se arrumar e construir algo útil agora, a gente escolheu construir.
Fontes
Firjan, Mapeamento da Indústria Criativa 2025 (8ª edição, base RAIS 2023). UNCTAD, Creative Economy Outlook 2022 e 2024, e painel UNCTADstat. Ministério da Agricultura e Pecuária, Balança Comercial do Agronegócio 2024.
Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia, relatórios anuais da indústria de conteúdo 2024 e 2025. KOCCA, relatório de tendências 2025. LTI Korea, orçamento 2025 e dados de apoio à tradução. Korea Herald, Korea Times, Korea JoongAng Daily e Seoul Economic Daily, cobertura de 2024 a 2026. Arquivo Nacional da Coreia. The Economist e CNBC-e sobre séries turcas. Instituto Cervantes, Anuario 2024, com dados do CERLALC. Cancillería argentina e La Nación sobre o Programa Sur.
SNEL, CBL e Nielsen BookData, Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, ano-base 2024. CBL e ApexBrasil, resultados do Brazilian Publishers 2025 e primeiro semestre de 2026. IFPI, Global Music Report 2026. Spotify, Loud & Clear 2026. Ministério da Cultura e Ancine, Fundo Setorial do Audiovisual, 2023 e 2024. Banco Central do Brasil, série SGS 22792. Newzoo, via TechTudo, 2023. Câmara dos Deputados dos EUA, Investigation of Competition in Digital Markets, 2020.
Fundação Biblioteca Nacional, editais do Programa de Apoio à Tradução 2024 e 2026. Instituto Camões, dados sobre a língua portuguesa 2022, a partir de projeções da ONU. IBGE e Ministério de Dados e Estatística da Coreia, estimativas populacionais 2025.
Common Crawl, estatísticas de idioma do crawl CC-MAIN-2026-34. Wilson et al., FAccT 2026, sobre datasets do Hugging Face. Publishers Weekly e Authors Guild sobre o acordo HarperCollins; Bloomberg, 2025. Wall Street Journal sobre News Corp e OpenAI, 2024. Decisões e acordo em Bartz contra Anthropic, 2025 e 2026. Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028. Tramitação do PL 2338/2023 na Câmara dos Deputados. Carta das entidades da cultura e do livro à Comissão Especial, maio de 2026. Tramitação do PL 2331/2022 no Senado e na Câmara.
Documentos registrados no TSE por Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), disponíveis no DivulgaCandContas.
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