Como fazer um conto de ficção científica: abertura, ideia única e exercício
Um conto de ficção científica se faz com uma ideia só, levada a um efeito escolhido antes da primeira frase, e com a novidade já instalada na abertura. A armadilha é gastar a abertura explicando o mundo em vez de mostrá-lo funcionando. Esta página reúne o método de Poe, três aberturas de Wells, Forster e Machado de Assis e um exercício de cinco passos.
Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados do conto de ficção científica, como Edgar Allan Poe, H. G. Wells e E. M. Forster; no Brasil, Machado de Assis e Bráulio Tavares.
Você tem a ideia, abre o documento em branco e escreve três parágrafos explicando como o mundo funciona. Relê e percebe que a história ainda não começou. "Onde é que isso vira conto?"
saber como fazer um conto de ficção científica, tendo visto o movimento feito num trecho de obra real e com um exercício para aplicar
A tarefa tem forma própria (uma ideia científica só, poucas páginas, a novidade instalada já na abertura), que o guia do gênero cobre de passagem.
Nesta página
O que decidir antes de escrever um conto de ficção científica?
Decida o efeito e o desfecho antes de escrever a abertura. É o método de Edgar Allan Poe, autor de "The Philosophy of Composition" (1846), ensaio em que ele reconstitui como compôs "The Raven": "I prefer commencing with the consideration of an effect". Para Poe, todo enredo digno do nome precisa estar elaborado até o desfecho antes de a pena tocar o papel, porque só com o fim à vista os incidentes e o tom caminham na mesma direção. Ele fala do poema, mas fixa uma medida que serve de régua para o conto: o limite de uma leitura de uma sentada, pois o que exige duas sentadas perde a unidade de impressão.
Na prática, o efeito é uma linha e o desfecho é uma frase. Em "The Star" (1897), H. G. Wells, o autor de A máquina do tempo (1895), faz um astro desconhecido perturbar o movimento de Netuno, colidir com ele e ameaçar a Terra, e fecha trocando o ponto de vista: astrônomos de Marte olham a Terra e a última frase mede quanto a maior catástrofe humana parece pequena a poucos milhões de milhas. O efeito do conto é essa escala, e só chega no fim.
O guia sobre como escrever ficção científica mostra de onde vem a ideia (a conexão entre dois itens sem relação, em Asimov e Card); aqui ela já chega pronta, e a pergunta é o que o leitor deve sentir ao terminar.
O erro típico é começar pelo mundo e deixar o efeito para depois. Reconhece-se quando a primeira página poderia estar num manual técnico: descreve o que a tecnologia faz e ainda não promete nada ao leitor. Poe admite a exceção: certas prosas que não pedem unidade, como "Robinson Crusoe", podem passar do limite de uma sentada; o conto de ideia única não é uma delas.
Como começar um conto de ficção científica?
Comece instalando a novidade nas primeiras frases, sem exigir ação. Para Bráulio Tavares, escritor e pesquisador do gênero, autor do manual O que é ficção científica? (1986), a abertura de soco não é obrigatória: ele responde a um colega que, no café da manhã de um evento, disse gostar do conto que começa in media res, com um soco ou uma explosão. Tavares observa que nenhum conto de Machado de Assis começa com um corte brusco de ação física e que Machado sabe usar com economia "fórmulas mágicas", como "Era uma vez" ou "Conta um velho manuscrito beneditino que...".
A "abertura Mike Tyson" é uma escolha entre outras, e o que importa é o começo que a história pede.
Wells, Forster e Machado mostram três desses começos para a novidade da ficção científica: o anúncio, o cenário e a fala que o leitor estranha. Wells abre "The Star" pelo anúncio: no primeiro dia do ano, três observatórios declaram quase ao mesmo tempo que o movimento de Netuno "had become very erratic". Não há personagem nem cena, só um fato científico dito com autoridade, e o conto já está em marcha.
E. M. Forster abre pelo cenário em "The Machine Stops" (1909), noveleta de três capítulos. O narrador pede ao leitor que imagine "a small room, hexagonal in shape, like the cell of a bee", sem janela nem lâmpada e mesmo assim iluminada, sem abertura para ventilação e com o ar fresco, sem instrumento e com música. A novidade aparece como fato comum do quarto, e a tecnologia nunca é explicada: a mulher no centro toca um interruptor e a música cala.
Machado de Assis, em "O imortal" (1882), instala a novidade numa fala. O conto abre com "— Meu pai nasceu em 1600...", o ouvinte corrige para 1800, o Dr. Leão insiste, e poucas linhas adiante a ideia está dita: ele conheceu "um homem imortal". O leitor estranha a data antes de saber a razão.
Nos três, a novidade está na página antes da explicação, e esse é o critério para o conto de ficção científica. O vício oposto, a personagem que explica a outra o que ela já sabia, se resolve no guia sobre diálogo natural, que mostra como cortar a fala que informa só o leitor.
Como levar a única ideia até o fim sem abrir uma segunda?
Para Poe, os incidentes e o tom precisam tender todos ao desenvolvimento da intenção, sem o que se perde a unidade de impressão; no conto de ficção científica, isso quer dizer consequências da mesma novidade, nunca uma segunda. Wells a faz crescer em degraus: o astro aparece além de Netuno, o matemático prevê que ele colidirá com Netuno e, depois, que passará muito perto da Terra. Cada degrau é a mesma ideia em escala maior, e nenhum traz um segundo "e se".
Machado faz o mesmo ao longo de séculos: tudo o que o pai vive, até esperar o carrasco na Torre de Londres em 1686, decorre do mesmo elixir, e no fim o Dr. Leão descreve o que o esgotou, "a repetição, a monotonia, sem esperanças", até que o princípio homeopático o leva a beber a metade do elixir que faltava, a que dá a morte. O conto fecha deixando em aberto se o médico falava sério ou só queria propagar a homeopatia, e entrega o enigma com "Dou este problema aos estudiosos".
O erro típico é o conto que, a meio caminho, descobre uma ideia melhor e a empilha sobre a primeira. Reconhece-se pelo resumo: se o conto só cabe em duas frases com dois "e se" diferentes, são dois contos.
Como aplicar isto no seu conto? (exercício)
Faça os cinco passos nesta ordem, em meia página cada um.
- Efeito. Complete: "Quero que o leitor termine sentindo ____." (Poe)
- Última frase. Escreva-a antes da primeira, de modo que entregue o efeito do passo 1. (Poe)
- Novidade. Complete: "Neste mundo, ____ é diferente: ____." Uma só.
- Primeira frase. Escolha o jeito (anúncio como em Wells, cenário como em Forster, fala estranha como em Machado) e escreva a frase de modo que ela não caiba no mundo real.
- Três degraus. Liste três consequências da mesma novidade, cada uma maior ou mais cara que a anterior.
Preenchido com "The Star": efeito, a escala da catástrofe vista de longe; última frase, a dos astrônomos de Marte; novidade, um astro desconhecido perturba Netuno; primeira frase, o anúncio dos três observatórios; degraus, Netuno, colisão prevista, Terra.
Funcionou quando a primeira frase já não cabe no mundo real, a última entrega o efeito do passo 1, nenhuma segunda novidade aparece entre as duas e o conto se lê numa sentada.
Continue por aqui
O guia-mãeComo escrever ficção científica: hard, soft e o que muda — Os mestres do gênero ensinam a escrever ficção científica a partir de uma novidade que muda o mundo, o novum do teórico Darko Suvin, seguindo as consequências dela nas pessoas e revelando esse mundo por implicação, sem despejar explicação.Guias do mesmo assunto
Quem fala sobre isso 6pessoas
- Orson Scott Cardromancista de ficção científica e fantasia (nascido em 1951); autor de How to Write Science Fiction and Fantasy (Writer's Digest Books, 1990)
Obra sobre como escrever ficção científica: How to Write Science Fiction and Fantasy, Writer's Digest Books, 1990.
Página ↗ - Robert A. Heinlein †escritor de ficção científica e engenheiro aeronáutico (1907–1988)
Escreveu sobre como escrever ficção científica no simpósio Of Worlds Beyond: The Science of Science Fiction Writing (org. Lloyd Arthur Eshbach), 1947, em que propôs o termo ficção especulativa.
Página ↗ - Lewis Shinerescritor (nascido em 1950); começou na ficção científica e foi membro da oficina Turkey City, no Texas (Wikipedia, 2026)
Organizou o Turkey City Lexicon: A Primer for SF Workshops, glossário de oficina de ficção científica publicado pela SFWA em 2009, com segunda edição de Bruce Sterling.
Página ↗ - Ursula K. Le Guin †escritora de ficção científica e fantasia (1929–2018)
Ensaio sobre a personagem na ficção científica: "Science Fiction and Mrs. Brown", em Science Fiction at Large (org. Peter Nicholls), Gollancz, 1976.
Página ↗ - Bráulio Tavaresescritor, compositor e pesquisador de literatura fantástica (nascido em 1950, Campina Grande); organizou antologias de literatura fantástica e de ficção científica
Entrevista pública sobre a própria escrita na ficção científica, na literatura fantástica e no cordel, publicada no Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea (UFRJ) em 2018.
Página ↗ - Ana Rüscheescritora e pesquisadora de literatura; doutora em Letras pela USP, onde fazia pós-doutorado em 2023 (Literartes); professora substituta de Teoria Literária na Universidade de Brasília desde 2025 (ORCID)
Entrevista sobre escrever e pesquisar ficção científica: "A ficção científica, a urgência climática e a importância de diálogo entre os saberes", Literartes (USP), 2023.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
YouTubeRecebe o escritor e pesquisador Roberto de Sousa Causo para responder o que uma história precisa ter para ser considerada ficção científica e como se escreve o gênero, num momento em que o interesse por ele cresce.
Manual Prático do Criador de Histórias, com Roberto de Sousa CausoYouTube ↗
YouTubeDá seis dicas para escrever uma história de ficção científica e põe a fronteira com a fantasia no quanto a história é palpável; indica Solaris e Eu, Robô como leitura.
Novo OrbeYouTube ↗
YouTubeTrata a diferença entre a ficção científica hard e a soft como um assunto polêmico entre quem lê e escreve o gênero, e pergunta o que ela muda na hora de escrever.
T. Conto Ficção CientíficaYouTube ↗
YouTubeLembra que ficção científica, fantasia e romance histórico pedem conhecimento específico de quem constrói um mundo e chama um convidado para ensinar a pesquisar com eficiência antes e durante a escrita.
Guia de WorldbuildingYouTube ↗
TikTokDefende, a partir da própria prática na ficção científica, que o gênero e a fantasia bons vivem da tensão entre duas forças que parecem se contradizer, a fuga e a relevância, e mostra isso com romances e filmes.
@shawn_whitney_writerTikTok ↗
TikTokLista os erros que quem escreve ficção científica deve evitar, num perfil dedicado a uma série do gênero.
@vitaleriumseriesTikTok ↗
O que está acontecendo
- Ursula K. Le Guin em 10 frases afiadas sobre morte, livros e ficção científica ↗
Escritora completaria 97 anos nesta quarta-feira, 21 de outubro
- Crítica: Ursula Le Guin desdenha de Flaubert e Tolstói em entrevistas irreverentes ↗
Livro reúne conversas da autora de 'Os Despossuídos'
- Cixin Liu, o autor futurista chinês que conquistou Barack Obama e a Netflix ↗
Ele fala com exclusividade a VEJA sobre a arte de escrever ficção científica
- Bienal dá palco a ficção científica brasileira e 'romances páprica' em dia tranquilo ↗
Ale Santos, Felipe Castilho e Jana Bianchi defendem sci-fi como gênero político
- Tecno-otimismo de Asimov x tecno-solucionismo do Vale do Silício ↗
Enquanto formadores de opinião do Vale prometem vencer a morte, Asimov continua nos fazendo perguntar o que a tecnologia faz conosco.
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Os textos de Poe, Machado de Assis e Tavares foram lidos inteiros; o de Forster, no primeiro capítulo, e o de Wells, em trechos. Os exemplos vêm de obras de domínio público, e cada trecho citado foi conferido no texto. O exercício é aplicação nossa do que esses autores mostram. Revisão em 26/10/2026.
Lidas no texto integral
- Edgar Allan Poe, "The Philosophy of Composition", Graham's Magazine, 1846 · https://en.wikisource.org/wiki/The_Philosophy_of_Composition
- E. M. Forster, "The Machine Stops", cap. I, 1909 · https://en.wikisource.org/wiki/The_Machine_Stops/Chapter_I
- Machado de Assis, "O imortal", 1882 · https://pt.wikisource.org/wiki/O_imortal/I
- Bráulio Tavares, "Como começar um conto", Mundo Fantasmo, 12/07/2016 · http://mundofantasmo.blogspot.com/2016/07/4133-como-comecar-um-conto-1272016.html
Lidas em resumo ou pela referência
- H. G. Wells, "The Star", em Tales of Space and Time, 1920 (lido em trechos) · https://en.wikisource.org/wiki/Tales_of_Space_and_Time/The_Star
- Bráulio Tavares, entrevista no Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, v. 10, n. 20, 2018 · doi 10.35520/flbc.2018.v10n20a22864
- Adam Roberts, A verdadeira história da ficção científica, 2018, p. 37, apud EDUFMA cap. 1
VERSE MEDIA. Como fazer um conto de ficção científica: abertura, ideia única e exercício. Enciclopédia Verse, 26 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/sci-fi/como-escrever-um-conto-de-ficcao-cientifica. Acesso em: [data].
Achou um erro ou um número vencido? Escreva para enciclopedia@versemedia.com.br com o endereço desta página.
Enciclopédia Verse · Sci-fi Voltar ao topo



