Clichês de terror em livros: o checklist do que o leitor já viu demais e como fugir deles ou usá-los a seu favor
Entre os clichês de terror em contos que a revista de ficção especulativa Strange Horizons diz receber demais estão o aviso ignorado, o lugar assombrado sem enredo, o protagonista que no fim estava morto, a criança com amigo imaginário maligno e o monstro que escapa para matar de novo. Clichê só pesa quando é o único motor do texto; cada item abaixo vem com o critério para cortar, trocar, virar ou assumir.
O rascunho do conto está pronto e, ao reler, cada cena parece já lida: o aviso que ninguém ouve, a casa com passado, o fim em que tudo se explica. Cortar tudo deixaria o texto sem terror; deixar tudo deixaria o texto sem dono. Falta um critério para saber qual desses elementos fica, qual muda e qual vira o motor da história.
A peça de clichês de terror pronta para copiar (checklist em branco e preenchido numa obra real), com o critério para decidir entre cortar, trocar, virar ou assumir cada clichê.
Checklist do que o leitor de terror já viu demais; o EN (horror tropes list, to avoid, in books) mostra busca forte de lista.
Nesta página
Quais clichês de terror o leitor já viu demais?
A lista de referência é a da Strange Horizons, que mantém a página "Horror Stories We've Seen Too Often", atualizada em 30/03/2012, e avisa que não é uma lista canônica de clichês nem de histórias ruins: é o que chega com frequência à redação. A lista mede o que o editor recebe, não uma lei do gênero; por isso serve de ponto de partida, e o guia sobre como escrever terror cuida do que vem antes dela, o mundo comum e a dose do que se mostra.
A tabela agrupa os dez itens pelo ponto em que o desgaste aparece. A coluna "O que decide" é o critério de leitura desta página (análise nossa), não regra das fontes.
| Clichê | Como a fonte o descreve | O que decide se pesa | Fonte |
|---|---|---|---|
| Aviso ignorado | A pessoa é avisada para sempre fazer ou nunca fazer algo, desobedece e solta o Mal sem nome | O aviso diz algo que o leitor ainda não sabe, ou só anuncia o que vem? | |
| Lugar assombrado | O lugar é assustador, mas a revista observa que isso não é enredo e recebe descrições de lugar sem trama | O lugar muda o que a personagem faz? | |
| Protagonista que no fim estava morto ou era um assassino em série | A pessoa fica parada um tempo e, no fim, revela-se que estava morta ou que era um assassino em série | A cena anterior ao fim existiria sem a revelação? | |
| "Era tudo um sonho" | Final listado na lista geral (não só de terror) da revista | Há consequência fora do sonho? | |
| Vingança | Alguém se vinga do mal que lhe fizeram; o escritor Tim Waggoner diz que não há tensão, porque o leitor sabe como termina | O leitor sabe o fim já na primeira página? | |
| Criança com amigo imaginário | Os adultos não acreditam e, no fim, o amigo é real e maligno | O que a criança sabe que o adulto não vê? | |
| Monstro que escapa no fim | A criatura mata muita gente e, no fim, escapa para matar de novo, ou está disfarçada de algo fofo | O escape é consequência ou gancho de continuação? | |
| Mal explicado no fim | O escritor H. P. Lovecraft, no ensaio Supernatural Horror in Literature (1927), exclui do medo cósmico genuíno o conto em que os horrores são explicados por meios naturais e critica, na romancista gótica Ann Radcliffe, o costume de destruir os próprios fantasmas com explicações mecânicas trabalhosas | A explicação responde ao que o leitor sentiu, ou cancela o que ele sentiu? | |
| Adereços de receita | Lovecraft cita o assassinato secreto, os ossos sangrentos e o vulto de lençol arrastando correntes conforme a regra, e o castelo gótico de estoque | O adereço está ali por regra ou porque a cena precisa dele? | |
| Figuras de uso extremo | A Strange Horizons diz que histórias com zumbis são venda extremamente difícil; a The Dread Machine inclui pastiche de Lovecraft e histórias de pandemia entre o que dificilmente aceita; Waggoner chama de clichê o palhaço assustador | O que este texto faz com a figura que os outros não fazem? |
Há outra forma de agrupar a lista: pelas três convenções do horror gótico, o lugar opressivo, o passado que volta e a personagem monstruosa. Na leitura desta página, o aviso e o lugar caem na primeira gaveta, o mal explicado e a vingança na segunda, o monstro e a criança na terceira; saber a gaveta ajuda a ver se o texto repete três vezes a mesma convenção.
Como fugir de um clichê de terror ou usá-lo a seu favor?
A saída mais barata é desconfiar da primeira ideia. Tim Waggoner, autor do manual Writing in the Dark (2020), recomenda não ficar com a primeira ideia, nem com a segunda, e ser suspeito com a terceira, porque as primeiras costumam ser repetição de algo já visto ou lido; no exemplo dele, os palhaços assustadores são um clichê. Ele diz também que os tropos do gênero foram usados tantas vezes que perderam o poder de afetar o leitor, mas que dá para cumprir a expectativa do gênero sem o clichê.
Cinco movimentos:
- Cortar. Quando o clichê é o único motivo da cena, a cena inteira sai com ele (análise desta página).
- Trocar o detalhe. A cena mantém a função e muda o que o leitor já viu: o objeto, o tom ou a ordem em que as coisas aparecem (análise desta página).
- Começar pelo clichê. Waggoner sugere partir do "era tudo um sonho" em vez de chegar nele, e construir a história a partir daí.
- Virar. Manter o clichê e inverter o que ele costuma fazer: Waggoner cita o espelho que só mostra o reflexo de vampiros, no conto "Alacrity's Spectatorium", e o fantasma de vingança que na verdade está sozinho, em "Blackwater Dreams".
- Assumir. O crítico australiano Philip Brophy observou, em 1983, que o filme de terror contemporâneo raramente nega os próprios clichês: aceita-os e cria uma corrente por baixo exagerando-os, como na fogueira da abertura de The Fog (1980), vivida por inteiro e sem quebra. O podcast Tales to Terrify aceita tropos e monstros-padrão desde que com visão própria, e só aceita o clichê usado de propósito e com inteligência.
Para escolher entre os cinco, três perguntas (análise desta página). Se o clichê é a única coisa que sustenta a cena, corte ou vire. Se a cena tem outra função e o clichê só a veste, troque o detalhe, não a função. Se o texto dá ao clichê um propósito reconhecível (a tradição que o leitor espera, uma piscadela, um exagero), assuma. Assumir tem custo: Lovecraft separa o conto estranho puro do conto de fantasma convencional ou humorístico, em que o formalismo ou a piscadela do autor tira o senso do mórbido. Assumir o clichê de propósito pode entregar outro efeito, não o mesmo com mais jeito.
Qual é o checklist de clichês de terror para copiar?
Cada clichê do rascunho recebe um bloco com seis campos. A versão explicada vem primeiro; depois, a versão em branco e um exemplo preenchido.
Campo a campo:
- Clichê: o nome na tabela da primeira seção, ou o nome que você der a uma convenção que o texto repete (ex.: aviso ignorado; a personagem cética).
- Onde: a cena e o parágrafo em que aparece no seu texto.
- Função: o que a cena faz no livro que outra cena não faria.
- Previsível?: o leitor adivinharia o fim da cena nas duas primeiras frases? (sim/não)
- Decisão: cortar, trocar o detalhe, começar pelo clichê, virar ou assumir.
- Como fica: a frase ou a cena reescrita, ou o motivo de manter.
Versão para copiar:
CHECKLIST DE CLICHÊS DE TERROR
Texto: ____________________ Data: ________
Clichê 1: ______________
Onde (cena/parágrafo): ______________
Função (o que só esta cena faz): ______________
Previsível pelas duas primeiras frases? ( ) sim ( ) não
Decisão: ( ) cortar ( ) trocar o detalhe ( ) começar pelo clichê ( ) virar ( ) assumir
Como fica: ______________
Clichê 2: ______________
Onde: ______________
Função: ______________
Previsível? ( ) sim ( ) não
Decisão: ( ) cortar ( ) trocar o detalhe ( ) começar pelo clichê ( ) virar ( ) assumir
Como fica: ______________
(repita para cada clichê; ao final, conte quantos estão na
mesma gaveta: lugar, passado ou monstro)
Exemplo preenchido: "The Rose Garden", de M. R. James. O conto, do contista inglês M. R. James, em More Ghost Stories of an Antiquary (1911), é de domínio público e usa o aviso ignorado sem a cena do "não entre aí": o aviso vem polido, prático e interrompido. O preenchimento abaixo, com quatro clichês, é leitura desta página.
Clichê 1: aviso ignorado. Onde: a conversa de Mr Anstruther com o jardineiro Collins sobre o poste do futuro roseiral. Função: plantar o aviso sem que ninguém o reconheça como aviso. Previsível? Não: o jardineiro diz que aquele não é o lugar que ele escolheria para um roseiral e o patrão corta a conversa. Decisão: trocar o detalhe; o aviso vem em tom prático, interrompido, e o leitor não sabe o que foi calado. Como fica: a frase de Collins, "this ain't the place I should have picked out for no rose garden myself", e a resposta de Anstruther, "I'm sorry, Collins, but I must be getting on now".
Clichê 2: o velho que sabe e não conta. Onde: a lembrança de infância de Miss Wilkins, contada como conversa de visita. Função: nomear a ameaça sem explicá-la. Previsível? Não, porque o tom de conversa desarma a cena. Decisão: assumir a convenção em tom de fofoca. Como fica: o velho diz que "ele" está bem preso lá dentro, e quando ela pergunta quem é, não obtém resposta satisfatória.
Clichê 3: a personagem cética. Onde: depois que o poste é arrancado, Collins adoece de um resfriado, Mrs Anstruther culpa vagabundos e corujas e explica o pesadelo do marido como leitura de pensamento. Função: adiar a revelação com explicações do cotidiano. Previsível? Não: cada sinal tem uma explicação doméstica (resfriado, vagabundos, corujas). Decisão: trocar o detalhe; o cético vira hábito social, não discurso contra o sobrenatural. Como fica: "I suppose this is an instance of a kind of thought-reading".
Clichê 4: o passado do lugar por documento. Onde: o fim, quando uma carta de sociedade arqueológica cita o registro paroquial de que o juiz foi assentado com uma estaca num campo junto ao cemitério. Função: confirmar, não expor. Previsível? Sim, para quem conhece a convenção; por isso o documento vem só no fim. Decisão: trocar o detalhe, no caso a ordem: o documento vem depois da aparição, que é curta e concreta. Como fica: "It was not a mask. It was a face--large, smooth, and pink".
Resultado: quatro clichês, nenhum cortado, nenhum virado: três com o detalhe trocado e um assumido. O aviso vem pela metade, a explicação do cético vem antes da prova, e o documento vem depois do rosto.
Como adaptar o checklist ao próprio texto?
Comece pelos clichês da tabela que o rascunho usa na abertura e no fim. Preencha o campo "Previsível?" depois de deixar o texto de lado por um dia; se a resposta for sim em dois clichês seguidos, uma dessas cenas precisa trocar o detalhe. O resultado esperado é uma folha em que cada clichê tem decisão e cena nova ao lado, e o rascunho volta com menos itens da lista e mais cenas que só ele tem.
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O guia-mãeComo escrever terror: do gótico ao slasher — Para escrever terror, escolha que medo o livro vai causar (o pavor do que se anuncia, o horror do que aparece ou a repulsa do corpo), monte um mundo comum crível antes de a ameaça entrar, adie e dose o que mostra e escolha o subgênero pela fonte do medo.Guias do mesmo assunto
Quem fala sobre isso 6pessoas
- Tim Waggonerromancista norte-americano de horror e fantasia sombria (nascido em 1964); professor de escrita criativa no Sinclair College, em Dayton (Ohio), em 2020
Obra sobre o tema: "Done to Death: How to Avoid Horror Genre Clichés", Writer's Digest, 2020, trecho do guia Writing in the Dark.
Página ↗ - Philip Brophycineasta, músico, escritor e professor australiano (nascido em 1959, em Melbourne)
Obra sobre o tema: o ensaio "Horrality", 1983, sobre o filme de horror contemporâneo que aceita os próprios clichês em vez de negá-los.
Página ↗ - H. P. Lovecraft †contista e ensaísta norte-americano (1890–1937), autor de ficção estranha (weird fiction)
Obra sobre o tema: o ensaio "Notes on Writing Weird Fiction", 1937, sobre como escrever a história de horror sobrenatural.
Página ↗ - M. R. James †contista, medievalista e reitor britânico (1862–1936), autor de histórias de fantasma
Obra sobre o tema: o ensaio "Some Remarks on Ghost Stories", The Bookman, 1929, sobre como a história de fantasma provoca medo no leitor.
Página ↗ - Stephen Kingromancista norte-americano (nascido em 1947), autor de romances de horror
Obra sobre o tema: Danse Macabre, 1981, estudo de não ficção sobre o gênero de horror em livros, filmes e televisão.
Página ↗ - Júlio Françaprofessor associado de Teoria da Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); coordenador do grupo de pesquisa Estudos do Gótico e coeditor da revista Abusões, em 2025
Obra sobre o tema: "O medo na ficção literária brasileira", Abusões, 2025, panorama de duas décadas de pesquisa sobre a ficção gótica e de medo no Brasil.
Página ↗
O que a rede diz 5 vozes
YouTubeDiz que adora terror mas detesta alguns dos clichês e tropos mais comuns do gênero, e aponta cinco que os escritores deveriam abandonar (em inglês).
Writer Brandon McNultyYouTube ↗
YouTubeDefende que assustar o leitor fica muito mais fácil quando ele não vê o que vem pela frente, e por isso lista clichês de escrita a evitar no terror (em inglês).
Cam Wolfe is WritingYouTube ↗
TikTokLista clichês de filmes de terror que, na própria opinião, não funcionam mais.
@onecroterioterrorTikTok ↗
TikTokConta como o que chama de pior clichê dos filmes de terror começou sem querer; o post é marcado com Sexta-Feira 13, Halloween, Jason Voorhees e Michael Myers.
@alasecretaTikTok ↗
TikTokDeclara que ama os clichês do terror, num post marcado como de livros e de histórias de terror (em espanhol).
@lectores_constantesTikTok ↗
O que está acontecendo
- Stephen King e Mike Flanagan explicam por que fizeram de 'Carrie' série focada na crueldade em tempos de redes sociais ↗
Série de oito episódios traz uma abordagem na qual humilhação da protagonista vira cyberbullying e os horrores incluem simulações de ataques a tiros na escola
- HWA Cancels Their Member Sèphera Girón After Pro-AI Newsletter Column Sparks Backlash ↗
The Horror Writers Association voted to strip Sèphera Girón of her trustee position after a column she wrote for the organization’s official member newsletter argued the group’s anti-AI culture had curdled into hypocrisy and witch-hunting.
- O que explica o sucesso de ‘Não Mexa’, duologia de terror japonês recém-publicada no Brasil ↗
Escritor Mikito Chinen fala a VEJA sobre nova obra de terror que mistura lendas urbanas japonesas a traumas contemporâneos
- The Black List and Zando are hunting for the next great horror novel. ↗
Attention, thrill-seekers. The Black List and Zando are teaming up on a mission to identify the next great horror novelist. Could it be you? The inaugural Evil Twin Manuscript Initiative will selec…
- Universo dos Livros anuncia “Betwixt”, antologia de terror com participação de Junji Ito ↗
“Betwixt: A Horror Manga Anthology” será lançado no Brasil pela Universo dos Livros. A antologia de terror conta com capa de Junji Ito.
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Os clichês da tabela vêm da lista de recusa de uma revista (uma das duas páginas dela foi lida em resumo), das diretrizes de duas outras publicações e de ensaios de Lovecraft e Brophy lidos no texto integral; a escolha de quais entram e o critério de cada um são análise desta página. O exemplo preenchido usa um conto de domínio público lido por inteiro. A página não mede quais clichês são os mais usados: só registra o que a *Strange Horizons* diz receber.
Lidas no texto integral
- Strange Horizons, "Horror Stories We've Seen Too Often", atualizado em 30/03/2012. http://strangehorizons.com/submit/fiction-submission-guidelines/horror-stories-weve-seen-too-often/
- The Dread Machine, "Submission Guidelines", consulta em 16/10/2026. https://dreadmachine.com/submissions
- Tales to Terrify, "Submission Guidelines", consulta em 16/10/2026. https://talestoterrify.com/submissions/
- H. P. Lovecraft, Supernatural Horror in Literature, 1927.
- Philip Brophy, "Horrality: The Textuality of Contemporary Horror Films", Screen, 1986 (orig. 1983).
- M. R. James, "The Rose Garden", em More Ghost Stories of an Antiquary, Londres, Edward Arnold, 1911. Project Gutenberg #9629.
- Tim Waggoner, "Done to Death: How to Avoid Horror Genre Clichés", Writer's Digest, 30/09/2020. https://writersdigest.com/write-better-fiction/done-to-death
- Tim Waggoner, "The Horror of It All", timwaggoner.com. https://timwaggoner.com/the-horror-of-it-all/
Lidas em resumo ou pela referência
VERSE MEDIA. Clichês de terror em livros: o checklist do que o leitor já viu demais e como fugir deles ou usá-los a seu favor. Enciclopédia Verse, 16 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/terror-e-suspense/cliches-de-terror. Acesso em: [data].
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