Literatura fantástica
Literatura fantástica é a expressão da crítica para dois conjuntos de histórias: em sentido restrito, as de Tzvetan Todorov, em que um acontecimento incomum admite explicação natural ou sobrenatural; em sentido amplo, toda ficção que não é realista. No Brasil há um terceiro uso, em que o rótulo reúne ficção científica, fantasia e horror. Quem escreve fantasia pode usar o rótulo como guarda-chuva, mas o leitor de Todorov espera outra coisa, a hesitação diante do inexplicável; o guia sobre como escrever fantasia trata do gênero em si.
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O que Todorov chamou de fantástico?
Nos anos 1970, o crítico Tzvetan Todorov definiu "o fantástico" como o gênero das histórias em que os acontecimentos incomuns podem ter explicação natural ou sobrenatural; o exemplo preferido é A volta do parafuso, de Henry James (1898). No esquema dele, o fantástico fica entre o estranho, quando o acontecimento recebe explicação natural, e o maravilhoso, quando recebe explicação sobrenatural. O livro dele chegou ao Brasil como Introdução à literatura fantástica, na tradução de Maria Clara Correa Castello, pela editora Perspectiva.
O crítico Gary Westfahl, na Encyclopedia of Fantasy, observa que o esquema parece marginalizar ou até trivializar a fantasia tradicional e a ficção científica, embora críticos acadêmicos o usem com resultados às vezes frutíferos. Para John Clute, organizador da enciclopédia, a definição serve pouco ao estudo da fantasia, onde o maravilhoso não é um problema a resolver, mas um dado. O escritor Stanisław Lem atacou a teoria num artigo na revista Science Fiction Studies em 1974.
Como a crítica usa "o fantástico" em sentido amplo?
No sentido amplo, a crítica usa "o fantástico" como termo geral para a ficção não realista, incluindo a fantasia, a ficção científica, o realismo mágico e o surrealismo, segundo Westfahl, que escrevia em 1997. A origem do uso é anterior: nos anos 1930 e 1940, a comunidade da ficção científica já empregava "fantastic" para cobrir ficção científica e fantasia, como no título do The Checklist of Fantastic Literature (1948), de E. F. Bleiler, e na revista Famous Fantastic Mysteries (1939–1953). Em 1997, havia até uma Associação Internacional para o Fantástico nas Artes, que promovia uma conferência anual.
Fantástico e fantasia são a mesma coisa?
Segundo o artigo de Jacques (2017), no francês fantastique é o gênero estreito, e no inglês fantastic virou sinônimo amplo de fantasia, o que explica parte da confusão no Brasil entre "literatura fantástica", de Todorov, e "fantasia", o gênero de mercado.
Como o termo é usado no Brasil?
O escritor e pesquisador Roberto de Sousa Causo afirmou em 2017 que "literatura fantástica" virou rótulo de ficção científica, fantasia e horror no Brasil por descuido conceitual ou por estratégia de dar respeitabilidade aos gêneros populares; para ele estão no fantástico, entre outros, Hoffmann, Kafka, Borges, Murilo Rubião e J. J. Veiga, e ele prefere "literatura especulativa" como termo coletivo.
O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, criado em 2000 pelo Clube de Leitores de Ficção Científica, tem categorias de romance, conto e antologia, e não uma só de fantasia.
Sobre o contista Murilo Rubião, o crítico Davi Arrigucci Jr. escreveu que o mundo dele nasce da intenção de um autor que busca a construção harmoniosa dos elementos insólitos no contexto da realidade habitual, mediante a "paralisação da surpresa".
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O guia completoComo escrever fantasia: do mundo ao subgênero, pelos mestres do gênero — Escrever fantasia passa por oito decisões, e para cada uma há um mestre do gênero a ouvir: a coerência do mundo (Tolkien), quanto dele mostrar (N.Termos vizinhos
Lidas no texto integral
- Gary Westfahl, "Fantastic", em John Clute e John Grant (org.), The Encyclopedia of Fantasy, 1997. https://sf-encyclopedia.com/fe/fantastic
- John Clute, "Todorov, Tzvetan", em The Encyclopedia of Fantasy, 1997. https://sf-encyclopedia.com/fe/todorov_tzvetan
- Flavio García e Marisa Martins Gama-Khalil, "Entrevista com Roberto de Sousa Causo", Abusões (UERJ), v. 5, n. 5, 2017, p. 378–379. https://doi.org/10.12957/abusoes.2017.31475
Lidas em resumo ou pela referência
- Stanisław Lem, "Todorov's Fantastic Theory of Literature", Science Fiction Studies, n. 4, 1974. https://www.depauw.edu/sfs/backissues/4/lem4art.htm
- Jean-Luc Steinmetz, La littérature fantastique, PUF, 2008; Jacques, "Les difficultés dans la définition de la fantasy", 2017, p. 10–11.
- Peres, dissertação, Universidade Federal de Viçosa, 2022, lista de referências (ficha da edição brasileira de Todorov).
- Davi Arrigucci Jr., "Minas, assombros e anedotas", em Enigma e comentário, Companhia das Letras, 1987, p. 141–165, citado por Suzana Yolanda L. Machado Cánovas, "O universo fantástico de Murilo Rubião", Organon (UFRGS). https://seer.ufrgs.br/organon/article/view/30066
- "Acaso Cultural recebe cerimônia de entrega do Prêmio Argos 2025; veja os finalistas", PublishNews, 18/12/2025. https://www.publishnews.com.br/materias/2025/12/18/acaso-cultural-recebe-cerimonia-de-entrega-do-premio-argos-2025-veja-os-finalistas
VERSE MEDIA. Literatura fantástica. Enciclopédia Verse, 30 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/fantasia/literatura-fantastica. Acesso em: [data].
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