Ficção científica
Ficção científica é o conjunto de narrativas passadas em mundos que não existem, mas que, em tese, poderiam existir, na descrição da Encyclopedia of Science Fiction (SFE). A fantasia, na mesma obra, é a que se passa em mundos impossíveis nos quais a história acredita. Nenhuma definição do gênero deu conta de tudo, e a própria SFE diz não haver razão para esperar que uma dê. Quem quer escrever no gênero encontra o caminho no guia sobre como escrever ficção científica.
Nesta página
De onde vem o nome ficção científica?
O nome é de revista. Hugo Gernsback, editor das revistas pulp Amazing Stories e Wonder Stories, chamou de scientifiction o tipo de história de Jules Verne, H. G. Wells e Edgar Allan Poe, no editorial do primeiro número de Amazing Stories, em abril de 1926. A SFE registra science fiction num editorial dele para o primeiro número da Wonder Stories, em junho de 1929, e diz que o termo se firmou na década de 1930. O crítico brasileiro Bráulio Tavares, em O que é ficção científica (1986), lembra que science fiction foi um nome "sonoro e simpático" escolhido por Gernsback, e que os mal-entendidos sobre o gênero vêm de defini-lo a partir do nome com que foi batizado ao acaso.
A abreviação sci-fi tem história própria. O editor Forrest J. Ackerman costuma ser creditado como o primeiro a usá-la, por volta de 1954. Nos anos 1970, críticos do campo como Damon Knight e Terry Carr a empregavam para separar o trabalho medíocre da ficção científica séria, e o crítico Peter Nicholls registrou por volta de 1993 que "SF" é a abreviação preferida de quem escreve e lê o gênero.
Como a ficção científica foi definida?
Algumas das definições que a SFE reúne, agrupadas aqui pela ênfase:
- Pela ciência. O acadêmico J. O. Bailey, em Pilgrims through Space and Time (1947), descreveu a ficção científica (scientific fiction) como a narrativa de uma invenção ou descoberta imaginária nas ciências naturais. Para o escritor Robert A. Heinlein, em 1959, uma definição curta de quase toda ficção científica seria a especulação realista sobre eventos futuros possíveis, baseada em conhecimento adequado do mundo real.
- Pelo método. John W. Campbell Jr., editor da Astounding, propôs que a ficção científica faça o que a metodologia científica faz, prever o que uma teoria bem construída produz, e conte em forma de história o resultado quando aplicada às máquinas e também à sociedade humana.
- Pelas pessoas. O escritor Brian Aldiss ofereceu, em Billion Year Spree (1973), o que a SFE lê mais como observação do que como definição: a ficção científica como a busca de uma definição do homem e de seu lugar no universo; ele pôs Frankenstein (1818) na origem da tradição.
- Pela forma. O teórico Darko Suvin definiu em 1972 o gênero pela interação de estranhamento e cognição, numa moldura imaginativa alternativa ao ambiente do autor, e a SFE diz que talvez tenha sido a mais útil de todas para provocar o debate, embora poucos concordem com ela inteira.
- Pelo mercado. O escritor Damon Knight escreveu em 1952 que ficção científica é aquilo para que apontamos quando dizemos o nome, e o escritor Norman Spinrad, que é tudo o que se publica como tal.
Por que nenhuma definição fechou o gênero?
A SFE observa que toda definição mistura descrição (o que os autores costumam fazer) e prescrição (o que deveriam fazer), e que quase sempre se acha um exemplo que não se encaixa. Lembra também que o gênero cresceu da fusão de formas distintas, das utopias às aventuras espaciais, e diz que talvez nem seja um gênero em sentido estrito. Para a SFE, há bastante acordo sobre o centro do gênero, e as brigas ficam nas margens.
O escritor Lester del Rey, em 1980, disse que até o fã dedicado tem dificuldade de explicar o que é ficção científica. Tavares resumiu, em 1986, que o gênero antes era "um saco-de-gatos" e que então era uma arca de Noé.
O que separa a ficção científica da fantasia e dos termos vizinhos?
A SFE cita o argumento de Peter Nicholls: a ficção científica segue a lei natural, e a fantasia pode suspendê-la, e a explicação sobrenatural está no coração da fantasia. A SFE também diz que a presença de uma novidade em relação ao mundo real não basta, porque a fantasia depende dela do mesmo modo.
A SFE diz ainda que a ficção científica se mistura com a fantasia de um lado e, de outros lados, com as ficções pós-modernistas (fabulações), os thrillers tecnológicos e políticos e os romances sobre descoberta científica, além das utopias, dos mundos perdidos e das histórias de guerra futura.
O rótulo também tem subdivisões e nomes alternativos: hard sci-fi e soft sci-fi, o conto de ficção científica e a ficção especulativa.
E a ficção científica no Brasil?
Um estudo pioneiro do tema é Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, 1875 a 1950 (2003), do crítico Roberto de Sousa Causo, que abre o panorama em 1875 com O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar, livro que classifica como "romance científico". Jerônymo Monteiro (1908–1970) é considerado o primeiro autor brasileiro especializado em ficção científica. Para Ginway (2005) e para Matangrano e Tavares (2018), a maturidade da ficção científica brasileira é dos anos 1960, com casos pontuais desde o fim do século XIX, inclusive de nomes canônicos.
O que o rótulo muda para quem escreve?
A SFE nota que a etiqueta num livro depende dos editores e que escritores como Kurt Vonnegut Jr., John Wyndham e, mais tarde, Margaret Atwood lutaram para evitá-la, e que as editoras raramente a põem em apostas de best-seller.
Continue por aqui
O guia completoComo escrever ficção científica: hard, soft e o que muda — Os mestres do gênero ensinam a escrever ficção científica a partir de uma novidade que muda o mundo, o novum do teórico Darko Suvin, seguindo as consequências dela nas pessoas e revelando esse mundo por implicação, sem despejar explicação.Termos vizinhos
Lidas no texto integral
- Stableford, Clute e Nicholls, "Definitions of SF", The Encyclopedia of Science Fiction, atualizado em 26/05/2025. https://sf-encyclopedia.com/entry/definitions_of_sf
- John Clute, "Science Fiction", The Encyclopedia of Science Fiction, atualizado em 01/12/2025. https://sf-encyclopedia.com/entry/science_fiction
Lidas em resumo ou pela referência
- Bráulio Tavares, O que é ficção científica, Brasiliense, 1986, p. 7 e 11, lido em EDUFMA, cap. 1 (nota 15).
- Heinlein, "Science Fiction: Its Nature, Faults and Virtues", em Davenport (org.), The Science Fiction Novel, Advent, 1959.
- Asimov, "How Easy to See the Future!", Natural History, abril de 1975, p. 92. https://archive.org/details/naturalhistory84newy/page/n379/mode/1up?view=theater
- Del Rey, The World of Science Fiction 1926–1976, 1980.
- Forrest J Ackerman, 92; Coined the Term 'Sci-Fi', The Washington Post, 07/12/2008. https://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/12/06/AR2008120602021.html
- Clute (org.), The Encyclopedia of Science Fiction, 1993, artigos "Sci fi" e "SF" (Peter Nicholls).
- Causo, Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, 1875 a 1950, Editora UFMG, 2003, e EDUFMA (2023), cap. 1.
- Ginway, Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, Devir, 2005; Matangrano e Tavares, Fantástico brasileiro, 2018, ambos em EDUFMA, cap. 1.
VERSE MEDIA. Ficção científica. Enciclopédia Verse, 26 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/sci-fi/ficcao-cientifica. Acesso em: [data].
Achou um erro ou um número vencido? Escreva para enciclopedia@versemedia.com.br com o endereço desta página.
Enciclopédia Verse · Sci-fi Voltar ao topo