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Gêneros punk da ficção: a lista de cyberpunk a solarpunk, com o traço de cada um

Os gêneros punk da ficção são subgêneros que ligam uma tecnologia ou uma época a uma atitude, que vai da contestação do cyberpunk à escolha por energia limpa do teslapunk: cyberpunk (rede e computador), steampunk (vapor), dieselpunk (entreguerras), atompunk (era atômica), clockpunk (engrenagens), teslapunk, biopunk (biologia) e solarpunk (energia renovável). O "punk" do nome é a gíria do rock dos anos 1970 para jovem, de rua e ofensivo ao establishment. O erro comum é pôr o aparelho sem a atitude, e sobra cenário retrô.

Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados do gênero, como Bruce Bethke e Jay Lake; no Brasil, Alexander Meireles da Silva.

Você digitou "gêneros punk" atrás da lista inteira e só achou os três de sempre: cyberpunk, steampunk, solarpunk. Dieselpunk, atompunk e biopunk aparecem em nomes soltos, sem dizer o que separa um do outro. Fica a pergunta: o que, afinal, faz um gênero ser "punk"?

O que você leva

saber os gêneros punk da ficção, tendo visto o movimento feito num trecho de obra real e com um exercício para aplicar

Pra quem é

Quem busca quer a lista completa da família -punk (dieselpunk, biopunk, atompunk, clockpunk...) com o traço de cada um, não a comparação dos grandes subgêneros.

Nesta página
  1. Qual é a lista dos gêneros punk e o traço de cada um?
  2. Como reconhecer um gênero punk num trecho de obra?
  3. Como usar um gênero punk num texto seu? Um exercício em cinco passos
  4. Como saber que o texto virou um gênero punk de verdade?
Engrenagens de latão e de aço de um mecanismo de relógio em close, com parafusos e rubis.
Cada gênero punk escolhe uma tecnologia e uma época; engrenagens, corda e molas são as do clockpunk. Foto de Pixabay no Pexels

Qual é a lista dos gêneros punk e o traço de cada um?

A tabela segue a ordem em que cada gênero costuma ser situado no tempo, do passado remoto ao futuro; as colunas e a ordem são nossas, e o conteúdo de cada célula vem da fonte etiquetada. Os traços de quatro deles vêm da Encyclopedia of Science Fiction (SFE), a obra de referência do gênero. A escolha entre os três grandes (cyberpunk, steampunk, solarpunk) está no guia sobre os tipos de ficção científica; aqui eles ganham uma linha cada, ao lado de todos os outros.

gênero tecnologia e época o traço onde ver
stonepunk, sandalpunk, middlepunk pré-história, Antiguidade, Idade Média sem fonte histórica confiável sobre a tecnologia da época, o que abre espaço para inventar gadgets Far Cry: Primal (2016), no stonepunk
clockpunk Renascença: engrenagens, corda, molas, roldanas Leonardo da Vinci é o patrono; como a energia mecânica não basta, a magia costuma entrar Assassin's Creed 2 (2009)
steampunk século XIX de história alternativa; vapor o vapor como força motriz e a relação estreita homem-máquina; nos romances de Blaylock, Jeter e Powers, a visão é gótica e a Londres dickensiana é personagem Morlock Night (K. W. Jeter, 1979); A mão que cria (Octavio Aragão, 2006), em que Júlio Verne vira presidente da França
teslapunk vida de Nikola Tesla (1856–1943): bobinas, rádio, neon utópico, enquanto cyberpunk, steampunk e dieselpunk são predominantemente distópicos; o "punk" é escolher energia limpa em vez de vapor e diesel antologias Teslapunk (2017, 2019)
raypunk revistas pulp dos anos 1920–30 nome das armas de raios de Buck Rogers e Flash Gordon; celebra o caráter juvenil do pulp pulps da Amazing Stories
dieselpunk entre as duas guerras mundiais; art déco; dirigíveis termo de 2001, criado para preencher o vão entre steampunk e cyberpunk; depende de sinais visuais Metropolis (Fritz Lang, 1926) como mina de imagens
decopunk e nazipunk (vertentes do dieselpunk) mesma era a otimista, em que a Grande Depressão não aconteceu (decopunk), e a pessimista, em que a Alemanha vence (nazipunk) Capitão Sky e o mundo de amanhã (2004); Wolfenstein: The New Order (2014)
atompunk 1945–1965: bomba atômica e Guerra Fria oscila entre advertência e celebração; carros, televisores e cortadores de grama movidos a átomo Perdidos no espaço (1965–68); Fallout 4 (2015)
transistorpunk décadas de 1960 e 1970 extrapola a eletrônica da época em dispositivos usados para atacar ou denunciar o poder os primeiros filmes de James Bond (1962–64)
cyberpunk futuro próximo; computador, rede, corpo alterado "punk" jovem, de rua, agressivo e alienado; a densidade de informação marca o estilo Blade Runner (1982) como molde visual
biopunk a biologia no lugar da informática para a Writer's Digest (2008), mistura de noir, anime e elementos pós-modernos numa sociedade biotecnológica subterrânea e niilista; a SFE vê nos contos de Ribofunk (Paul Di Filippo, 1996) a biologia tratada em termos de cyberpunk Ribofunk
solarpunk energia renovável, tecnologia antiga revivida o "punk" é a política contra a miopia ecológica do capitalismo, uma rebelião contra a rebelião nascida do cansaço de distopia (guia sobre os tipos de ficção científica) Always Coming Home (Le Guin, 1985); Pacific Edge (Robinson, 1990)

Nanopunk e hopepunk entram na mesma leva do biopunk e do solarpunk, a das formas ambientadas no futuro depois do cyberpunk; Alexander Meireles da Silva, professor da Universidade Federal de Catalão, especula que nasceram em fóruns estrangeiros de RPG, sem ponto de origem preciso. Para ele, as distinções entre os subgêneros retrofuturistas "não são completamente claras", e o capítulo trata só de alguns dos mais de trinta mundos retrofuturistas.

Além das antologias de steampunk e dieselpunk que o guia sobre os tipos de ficção científica registra, o Brasil tem Retrofuturismo (Tarja, 2013), com stonepunk, bronzepunk, middlepunk, clockpunk, dieselpunk, nazipunk, atomicpunk e transistorpunk, as duas Teslapunk (2017 e 2019, org. Maurício Coelho) e Mundo punk (Cyberus, 2022), com contos de 13 vertentes, de stonepunk a cyberpunk. Meireles da Silva aponta o sertãopunk, o amazofuturismo e o afrofuturismo como expressões de uma quarta onda da ficção científica do país, e a jornalista e pesquisadora Lidia Zuin registra a ascensão do cyberagreste. O cyberpunk brasileiro tem nome próprio, o tupinipunk, dado pelo pesquisador Roberto de Sousa Causo e tratado no guia sobre os tipos de ficção científica.

Como reconhecer um gênero punk num trecho de obra?

Fluxograma de perguntas para identificar o gênero punk de um trecho.
O caminho de perguntas da seção para reconhecer o gênero. Diagrama: Verse

Procure a tecnologia-assinatura e a atitude na mesma cena. O trecho literal que esta página lê é o de Bruce Bethke, escritor que deu nome ao cyberpunk; os outros dois exemplos vêm da análise da SFE e de um texto de 2008 sobre o solarpunk. No conto "Cyberpunk" (1983), a tecnologia é a rede: os adolescentes combinam "our own little code to keep our Net private", longe dos adultos, os "Olders". A atitude é o desvio: eles chamam um táxi automático e o cobram de uma firma de advocacia, "We charged the smartcab off to some law company". A rede sozinha seria só cenário; a cobrança trocada é o que a faz punk.

No steampunk, a leitura dá outra cena. A SFE descreve Morlock Night (1979), de K. W. Jeter, um dos três amigos californianos em cujos livros o steampunk ficou visível: os Morlocks de H. G. Wells viajam no tempo e invadem os esgotos da Londres do século XIX. A tecnologia-assinatura é a máquina do tempo de Wells; a atitude, nesses romances, é o olhar gótico sobre a cidade, mais horror do que contestação.

No solarpunk, o post de 2008 que deu nome ao gênero, lembrado no guia sobre os tipos de ficção científica, separa os dois pelo motivo: no steampunk, a tecnologia vitoriana é guia para imaginar outro mundo; no solarpunk, a tecnologia antiga volta porque a economia da energia mudou. O movimento é o mesmo em toda a lista: uma tecnologia-assinatura e uma atitude que o texto justifica.

Onde os autores discordam: o que é o "punk". Para a SFE, no cyberpunk ele é jovem, de rua e ofensivo ao establishment. No teslapunk, para Meireles da Silva, é só a escolha consciente por energia limpa; no middlepunk e nos vizinhos, é menos contestação e mais criação de gadgets. No solarpunk, é política. O escritor Jay Lake desloca a pergunta no steampunk: trata-o como uma pele, um estilo, e não como gênero profundo; o autor procura as interseções entre o gênero-base da história e o lampejo steampunk. Estendida ao resto da família, a regra vira esta: o -punk vem em cima de outro gênero (mistério, aventura, romance) e precisa de uma razão para estar ali.

O erro típico. Pôr o aparelho e esquecer a atitude, ou ficar no cenário que todo mundo usa: para Lake, Londres e o Império Britânico viraram clichê do steampunk, e quem for usá-los precisa fazer bem. Lake lembra ainda que a ficção especulativa concede uma coisa impossível de graça e que tudo o que vem depois dela precisa ser justificado no texto.

Como usar um gênero punk num texto seu? Um exercício em cinco passos

O exercício aplica o que os mestres acima ensinam: a justaposição que Bethke quis nomear, "punk attitudes and high technology"; a regra de Lake (gênero-base e uma só impossibilidade de graça); e a diferença que Meireles da Silva descreve entre o cyberpunk, que extrapola as imperfeições de hoje para o amanhã, e o steampunk bem feito, que manipula as imperfeições de ontem no próprio ontem.

  1. Escolha a tecnologia-assinatura e a época da tabela acima (vapor no século XIX, átomo em 1950, biologia, energia solar). Se a época é passada, mexa nas imperfeições de ontem no próprio ontem; se é futura, estique as de hoje.
  2. Escolha o gênero-base da história: mistério, aventura, romance. É nele que a trama anda; o -punk é a camada por cima.
  3. Diga quem contesta o quê. Uma frase: "[personagem] usa [tecnologia] contra [quem manda]". Se a resposta for "ninguém", a cena fica do lado dos gadgets, que Meireles da Silva aceita como punk no middlepunk e nos vizinhos, mas que já não é a contestação do cyberpunk nem a política do solarpunk; decida qual dos dois você quer.
  4. Escolha a única coisa impossível concedida de graça e justifique o resto no texto.
  5. Escreva uma cena de 100 a 150 palavras em que a tecnologia apareça numa ação que quebra uma regra, como na cobrança do táxi no conto de Bethke, e faça o teste da troca: troque a tecnologia por outra (vapor por diesel, rede por genes). Se a cena continua funcionando igual, a tecnologia era decoração.

Versão em branco, para copiar:

Tecnologia-assinatura: ______
Época ou lugar: ______
Gênero-base (mistério, aventura, romance...): ______
A coisa impossível concedida de graça (uma só): ______
Quem contesta o quê (uma frase): ______
Cena (100–150 palavras): ______
Teste da troca (a cena sobrevive a outra tecnologia?): ______

Versão preenchida, sobre o conto de Bethke: tecnologia-assinatura, a rede privada e o táxi automático; época, o futuro próximo do conto; gênero-base, a aventura de transgressão juvenil; a coisa impossível de graça, a rede privada dos adolescentes; quem contesta o quê, adolescentes contra os adultos que vigiam a rede, cobrando o táxi de uma firma de advocacia; teste da troca, tire a rede e o táxi vira um passeio de carro roubado: a cena muda, então a tecnologia estava fazendo trabalho.

Como saber que o texto virou um gênero punk de verdade?

Releia a cena e confira três coisas: dá para apontar a tecnologia-assinatura em uma frase; dá para dizer, em outra, o que ela permite aos personagens fazerem contra quem manda; e a cena quebra quando a tecnologia sai. Se as três respostas existem, o texto é um gênero punk de contestação, como o conto de Bethke. Se só a primeira existe, é o punk de gadget que Meireles da Silva descreve no middlepunk, ou só cenário; a tabela acima mostra os caminhos para a atitude que falta.

Continue por aqui

O guia-mãeTipos de ficção científica: distopia, cyberpunk, space opera e os outros subgêneros — Entre os tipos de ficção científica que a Encyclopedia of Science Fiction trata em verbetes próprios estão a distopia, o cyberpunk, a space opera, o steampunk, o solarpunk, a história alternativa, a viagem no tempo, a ficção pós-apocalíptica e a ficção científ

Termos usados nesta página

Quem fala sobre isso 6pessoas

  • Margaret Atwoodromancista, poeta e ensaísta canadense (nascida em 1939); autora de O conto da aia (1985)

    Ensaio sobre utopia e distopia na ficção científica: "The road to Ustopia", The Guardian, 2011, em que propõe a palavra "ustopia".

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  • Bruce Sterlingescritor de ficção científica (nascido em 1954); organizador da antologia Mirrorshades (1986)

    Prefácio de Mirrorshades: The Cyberpunk Anthology (Arbor House, 1986), em que descreve o cyberpunk como movimento da ficção científica.

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  • Roberto de Sousa Causoescritor, editor e tradutor de ficção científica (nascido em 1965); doutor em Letras pela USP (2013)

    Tese de doutorado sobre a New Wave e o cyberpunk no Brasil: Ondas nas praias de um mundo sombrio: New Wave e cyberpunk no Brasil, USP, 2013.

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  • Gerson Lodi-Ribeiroescritor de ficção científica (nascido em 1960, Rio de Janeiro); organizador de antologias da editora Draco

    Organizou as antologias Vaporpunk (com Luís Filipe Silva, Draco, 2010) e Solarpunk (Draco, 2013), registradas pela Encyclopedia of Science Fiction.

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  • Lu Ain-Zailapedagoga e escritora de ficção científica e fantasia, de Nova Iguaçu (RJ)

    Entrevista sobre afrofuturismo na literatura: "Quando a literatura, oralitura: diálogos afrofuturistas com Lu Ain-Zaila", Palimpsesto (UERJ), 2025.

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  • Adam Flynnescritor; publicou no Project Hieroglyph, da Universidade do Estado do Arizona, em 2014

    Ensaio sobre o solarpunk: "Solarpunk: Notes toward a manifesto", Project Hieroglyph (Arizona State University), 2014.

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O que a rede diz 6 vozes

  • Capa do post de Guia de Worldbuilding: Os subgêneros da ficção científicaYouTube

    Percorre os subgêneros da ficção científica um a um, do hard e do soft à space opera, à distopia, à viagem no tempo, ao cyberpunk e ao steampunk, como um mapa para quem constrói mundos.

    Guia de WorldbuildingYouTube ↗
  • Capa do post de Bruna Miranda: QUAL A DIFERENÇA: Distopia x Ficção Científica #BrunaExplica | Bruna MirandaYouTube

    Pergunta o que separa distopia de ficção científica: se é preciso ter adolescentes lutando pela vida, robôs, previsão do futuro ou guerra para a história contar como distopia.

    Bruna Miranda (Bruna está lendo)YouTube ↗
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    Numa conversa com Matheus e Sora, do canal Central Pandora, tenta explicar de uma vez o que define vertentes como cyberpunk, dieselpunk e steampunk, entre os grandes subgêneros e conceitos do gênero.

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    Responde a quem escreve se a ficção científica combina com outros gêneros literários, a dúvida de quem quer misturar o especulativo com romance, policial ou outra trama.

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    Uma autora de ficção científica lista os subgêneros que primeiro lhe vêm à cabeça e defende que cada um traz algo diferente ao gênero como um todo.

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Autoria: Verse MediaRevisado em 27 out. 2026Passos conferidos em 27 out. 2026Publicado em 27 out. 202612 fontes · 8 no integral

As entradas da *Encyclopedia of Science Fiction* sobre cyberpunk, steampunk, dieselpunk e solarpunk, o conto de Bethke, o post de 2008 e o capítulo de Meireles da Silva foram lidos no texto integral, e os trechos em inglês entre aspas foram conferidos contra eles; as traduções são nossas e vão sem aspas. Os artigos da *Writer's Digest* e a entrada de Di Filippo foram lidos em resumo. Não há trecho literal de ficção brasileira da família punk nem de *Morlock Night* nesta página: os exemplos brasileiros e as obras de cada linha da tabela são os apontados pelas fontes. A tabela, a ordem das colunas e o exercício são nossos.

Lidas no texto integral

Lidas em resumo ou pela referência

Cite esta página
VERSE MEDIA. Gêneros punk da ficção: a lista de cyberpunk a solarpunk, com o traço de cada um. Enciclopédia Verse, 26 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/sci-fi/generos-punk. Acesso em: [data].

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