Arma de Tchekhov
A arma de Tchekhov é o princípio dramático, associado ao dramaturgo russo Anton Tchekhov, de que todo elemento posto em cena com peso precisa entrar em jogo antes do fim. Em uso recente, o termo também passou a nomear um elemento plantado cedo cuja importância só aparece depois. Quanto à literatura em geral, o guia sobre recursos narrativos mostra onde a regra se encaixa e onde seus críticos a contestam.
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Tchekhov escreveu mesmo essa frase?
Escreveu uma versão dela. Em carta de 1º de novembro de 1889 a A. S. Lazarev (Grúzinski), que lhe mandara um vaudeville, Tchekhov diz que não se pode pôr no palco um fuzil carregado se ninguém pretende disparar, e acrescenta que não se pode prometer. O contexto é um conselho sobre um monólogo do vaudeville, não sobre uma arma real; o trecho sobre o monólogo de Dacha está no guia sobre como começar um livro. Na carta, o fuzil serve de comparação para o ponto central: não se deve prometer ao espectador o que não será cumprido. Para quem escreve, o critério que a carta oferece é o da promessa: o que se mostra com peso ao leitor pede um uso depois.
Quais são as outras versões da frase?
A nota que a edição russa da carta (Moscou, Naúka, 1976) põe ao lado do trecho registra que Tchekhov dissera a ideia a I. Gurliand, em Ialta, no verão de 1889: se no primeiro ato se pendurou uma pistola na parede, no último ela deve disparar, e do contrário não se deve pendurá-la. Gurliand, que depois escreveu reminiscências sobre Tchekhov, publicou a versão em 1904.
Uma terceira versão vem das memórias de S. Chtchukin sobre Tchekhov (1911): se no primeiro ato se diz que há um fuzil na parede, no segundo ou no terceiro ele tem de disparar. O biógrafo Ernest J. Simmons (1970) observa que Tchekhov repetiu a ideia várias vezes, o que pode explicar as variantes. Isso pode explicar por que a arma muda de lugar (palco, parede) e de tipo (fuzil, pistola) conforme quem conta.
O próprio Tchekhov seguia a regra?
Nem sempre. Segundo o biógrafo Donald Rayfield (2000), em O jardim das cerejeiras há duas armas carregadas que não disparam, e isso se liga ao tema da peça, a ação que não se completa.
Onde se vê a arma de Tchekhov hoje?
Nos filmes de James Bond, por exemplo, o espião recebe aparelhos novos no início da missão, como o dardo de pulso de Moonraker. Quem quer separar a arma de Tchekhov do prenúncio encontra a distinção no guia sobre recursos narrativos.
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O guia completoRecursos narrativos: o que são, quais são e quais viraram clichê — Recursos narrativos são as técnicas com que o autor decide o que o leitor sabe, quando sabe e o que move a trama: prenúncio, pista falsa, reviravolta, flashback, MacGuffin e deus ex machina, entre outros.Também nesta enciclopédia
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Lidas no texto integral
- Anton Tchekhov, carta a A. S. Lazarev (Grúzinski), 1º/11/1889, em Polnoe sobranie sotchinenii i pisem v 30 t., Pisma, t. 3, Moscou, Naúka, 1976, p. 273–275, com a nota da edição que cita I. Gurliand, Teatr i iskusstvo, nº 28, 11/07/1904, p. 521. Lida no texto russo local, com trechos de codificação ilegível omitidos:
tools/enciclopedia/fontes/textos/chekhov-1889-11-01-lazarev-gruzinsky-ru.txt.
Lidas em resumo ou pela referência
- S. Chtchukin, "Iz vospominanii ob A. P. Tchekhove", 1911, p. 44; Ernest J. Simmons, Chekhov: A Biography, University of Chicago Press, 1970, p. 190.
- Donald Rayfield, Anton Chekhov: A Life, 2000, p. 580.
- Petr Bitsilli, Chekhov's Art: A Stylistic Analysis, 1983; John Miles Foley (org.), A Companion to Ancient Epic, 2005.
- Britt, "Pay attention 007! 7 Bond gadgets which defy reason and practicality", Tor.com, 08/11/2012. https://www.tor.com/2012/11/08/pay-attention-007-7-bond-gadgets-which-defy-reason-and-practicality/
VERSE MEDIA. Arma de Tchekhov. Enciclopédia Verse, 5 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/estrutura/arma-de-tchekhov. Acesso em: [data].
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