Como escrever um livro: o passo a passo, da ideia ao ponto final
Para escrever um livro, siga sete etapas nesta ordem: ter a ideia, testá-la como premissa, decidir quanto planejar, fixar uma meta de trabalho, terminar o primeiro rascunho, revisar e entregar o texto a primeiros leitores; publicar vem depois. Na nossa leitura, o caminho trava mais em terminar a primeira versão: no NaNoWriMo, desafio de escrever 50 mil palavras em um mês, só 14% a 19% dos inscritos chegaram lá em 2008, 2010 e 2011. Por isso a revisão vem depois do ponto final.
Você já começou este livro mais de uma vez. O primeiro capítulo foi reescrito até perder a graça, há um texto sobre jornada do herói aberto numa aba, e o arquivo parou pouco depois do começo, sem que dê para saber se faltou plano ou se sobrou.
O caminho inteiro do livro, da ideia ao manuscrito revisado e lido por outras pessoas, com a decisão de cada etapa tomada (quanto planejar, que meta diária, quando revisar, quem lê) e o guia que executa cada uma.
Começou o livro várias vezes, reescreveu o primeiro capítulo até cansar, leu sobre jornada do herói e três atos sem saber se planeja tudo ou se sai escrevendo, e o arquivo parou poucos capítulos depois do começo.
Nesta página
- Quais são as etapas para escrever um livro?
- Qualquer pessoa pode escrever um livro?
- Como transformar a ideia do livro em premissa?
- Planejar o enredo antes ou descobrir escrevendo?
- Que estrutura usar no livro?
- Quanto escrever por dia e de que tamanho fica o livro?
- Como terminar o primeiro rascunho?
- Como revisar o livro depois de terminar?
- Quem deve ler o livro antes de publicar?
- O que fazer depois de terminar o livro?
- Checklist antes de passar para a próxima etapa
- Perguntas frequentes
- O que fazer com isso
Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.
Quais são as etapas para escrever um livro?
As etapas são poucas; o que muda de um autor para outro é quanto tempo ele passa em cada uma e quando revisa (leitura nossa, a partir dos casos desta página). A ordem do fim do caminho também é conhecida: a Reedsy, plataforma de serviços editoriais, descreve em 2025 várias rodadas de autoedição, depois alguns leitores beta e, com o máximo da revisão feito, o editor.
A tabela abaixo é o mapa do caminho. Cada linha diz a decisão da etapa, o que a muda, o prazo quando há número para isso e o que se tem na mão ao sair; a última coluna leva à seção ou ao guia que executa a etapa.
| etapa | decisão | o que muda a decisão | prazo | o que se tem na mão ao sair | onde aprofundar |
|---|---|---|---|---|---|
| 1. ideia | guardar a ideia que gera uma pergunta ("e se...?") | — | pode levar anos (Alencar, Itamar Vieira Junior) | uma situação ou uma personagem que pede história | ideia e premissa; ideias para escrever um livro |
| 2. premissa | escrever a premissa numa frase: personagem, conflito, desfecho | premissa como tese (o que a história prova) ou como situação de partida | — | a frase da premissa | ideia e premissa; premissa |
| 3. quanto planejar | planejar o enredo antes ou descobri-lo escrevendo, e o que preparar em cada caso | o meio emperra (falta plano) ou a escaleta não vira cena (sobra) | — | uma escaleta, ou um caderno de notas e a próxima cena | planejar; como fazer a escaleta do livro; como estruturar um livro |
| 4. meta | quantas palavras por dia, medidas num registro | o tempo que a vida deixa livre | 80 mil palavras a mil por dia, o ritmo de King em 2006: 80 dias (conta nossa) | uma meta escrita e um registro | meta; rotina de escrita; quantas páginas |
| 5. primeiro rascunho | ir até a última cena antes de consertar | reler a véspera para retomar, sem reescrever o começo | — | o rascunho inteiro, mesmo ruim | terminar; bloqueio criativo |
| 6. revisão | revisar o livro inteiro antes da frase | revisar a véspera todo dia ou só depois de uma pausa | pausa de pelo menos seis semanas, no caso do romancista Stephen King | uma segunda versão | revisar; do manuscrito ao livro |
| 7. primeiros leitores | dar o texto a quem lê como leitor, depois da autoedição e antes do editor | um leitor ou vários: com vários, vale o que se repete | — | a lista do que os leitores apontaram | leitores; beta reader |
| depois | editora ou autopublicação | — | — | o manuscrito pronto para o caminho escolhido | publicar; como publicar um livro |
Qualquer pessoa pode escrever um livro?
Na nossa leitura, sim: o que separa quem termina de quem desiste é tomar a decisão de cada etapa, mais do que talento. Querer escrever um livro é comum nos Estados Unidos, segundo uma pesquisa de 2002, e no NaNoWriMo, o desafio de que esta página tem números, só uma minoria chegou ao fim. Num artigo de opinião no New York Times, em 2002, Joseph Epstein abriu o texto com essa pesquisa: 81% dos americanos sentiam ter um livro dentro de si e achavam que deviam escrevê-lo; a amostra era de 1.006 pessoas, e a pesquisa fora patrocinada por uma pequena editora de Michigan. Epstein citava o número para discordar da ideia.
Do lado de quem tenta, a conta muda. O NaNoWriMo, desafio de escrever o rascunho de um romance de 50 mil palavras em novembro, registra que, no segundo ano, 2000, 21 dos 140 inscritos chegaram ao fim. Em escala, a proporção ficou parecida: 21.683 vencedores entre 119.301 participantes adultos em 2008, 37.479 entre 200.530 em 2010 e 36.843 entre 256.618 em 2011, entre 14% e 19% a cada ano, pela nossa conta. A organização anunciou o encerramento em 2025, citando seis anos de luta para se sustentar financeiramente.
No Brasil, a Retratos da Leitura de 2024 registra que 41% da população diz escrever "sempre" no tempo livre, numa pergunta que não separa ficção de qualquer outra escrita.
Lidos juntos, e com a ressalva de que medem populações diferentes (americanos em 2002, inscritos de um desafio), os números sugerem que querer não basta para terminar; nenhum deles mede quem termina um romance fora de um desafio. Cada etapa tem uma decisão, e o livro costuma parar onde ela não foi tomada.
Como transformar a ideia do livro em premissa?
Uma ideia rende livro quando vira premissa: uma personagem, um conflito e um desfecho que a história vai provar. A lição é de Lajos Egri, que abre The Art of Dramatic Writing pela premissa e diz que toda boa premissa tem três partes: na dele, Frugality leads to waste (a frugalidade leva ao desperdício), a primeira sugere a personagem, a segunda o conflito e a terceira o fim. Egri diz que 999 de cada 1.000 dramaturgos começam por uma ideia ou uma situação incomum, e que nenhuma ideia nem situação foi forte o bastante para levar o autor até a conclusão lógica sem uma premissa bem definida.
A ideia vem antes da premissa: o escritor Neil Gaiman diz que ela sai de devanear e de se entediar, e de perguntas como e se...? Onde procurar ideias e como medir se uma rende um romance está em ideias para escrever um livro.
No cinema, "premissa" tem outro sentido: é o que a logline condensa, o conflito principal da história numa frase. Os dois sentidos e de onde vêm estão no termo premissa.
A ideia pode levar anos para ficar pronta. O romancista José de Alencar conta em Como e porque sou romancista que a inspiração do Guarani, escrito aos 27 anos, caiu na imaginação do menino de nove, numa viagem pelos sertões do Norte, e que na adolescência ele devorava crônicas coloniais em busca de "um protogonista, uma scena e uma epocha". O escritor Itamar Vieira Junior começou Torto arado aos 16 anos, não terminou e perdeu as páginas, e diz que aquela versão não valia muita coisa; a reportagem da Forbes Brasil que conta isso liga o livro a quinze anos de andanças pelo Nordeste. O tempo que as personagens ficaram com ele está no guia sobre criar personagens.
O teste prático é escrever a premissa numa frase com os três elementos; se a frase só tem cenário ou tema, a ideia ainda não é livro (leitura nossa). O que fazer antes da primeira página está em quero escrever um livro: por onde começar.
Planejar o enredo antes ou descobrir escrevendo?
Nos casos desta página, quem descobre o enredo escrevendo não dispensa preparo: muda o que prepara (leitura nossa). Os romancistas desta seção que contam o próprio método estão todos do lado de quem descobre. A mesma escolha, vista pela personagem, com Nabokov e Zadie Smith, está em planejar ou descobrir, no guia sobre criar personagens; aqui ela é sobre o enredo.
O autor de fantasia George R. R. Martin dividiu os escritores, num evento do Wheeler Centre, em Melbourne, em 2013, entre arquitetos e jardineiros: o arquiteto planeja o romance como um prédio, sabendo quantos andares terá e onde vai cada tomada; o jardineiro cava um buraco, joga a semente, rega com o próprio sangue e espera que saia algo interessante. Martin se põe muito mais do lado do jardineiro.
Do lado do jardineiro, os relatos coincidem. O romancista Haruki Murakami disse à Paris Review, em 2004, que começa sem plano nenhum, espera a história vir e liga uma imagem à outra; Norwegian Wood foi a exceção, porque decidiu escrevê-lo no registro realista. O romancista inglês Anthony Trollope, que escrevia com o relógio à frente, partia do fio mais estreito de um enredo e de personagens nítidas, sem nada decidido sobre o desfecho, e se lançava como um cavaleiro a uma cerca que não vê. Ele dizia também que muitos jovens falham porque tentam contar histórias quando não têm nenhuma: a cabeça não trabalhou o bastante antes de começar.
Quem descobre também não força o rumo: Stephen King comparou, à Paris Review em 2006, tentar dirigir o livro ao arremessador que tenta guiar a bola rápida, citou o escritor Alfred Bester (o livro é o chefe) e contou que precisou forçar Rose Madder. No Brasil, Alencar começou a publicar o Guarani em folhetim com só os dois primeiros capítulos escritos, sem medir o alcance da tarefa; o apoio que levava era um caderno de notas da pesquisa sobre a natureza e os indígenas. Ele planejou o material, não o enredo.
Do lado do arquiteto, nenhum dos relatos lidos aqui é de romancista contando o próprio plano de enredo; o que há é a descrição de Martin e os métodos. O método do floco de neve, que Randy Ingermanson publica no site dele, Advanced Fiction Writing, é o exemplo extremo: dez passos, em que os nove primeiros vão do resumo de uma frase à lista de todas as cenas e o décimo é escrever o primeiro rascunho.
Os sinais, no enredo, são de dois tipos (leitura nossa): quando o meio emperra ou o rumo muda a cada capítulo, falta plano; quando a escaleta está pronta há semanas e não vira cena, sobra. Um modelo de escaleta capítulo a capítulo está em como fazer a escaleta do livro.
Que estrutura usar no livro?
Na nossa leitura, o modelo de estrutura narrativa serve mais para diagnosticar um rascunho emperrado do que para escrever o primeiro: nenhum estudo citado aqui mostra que seguir um modelo faça o livro ser mais lido, e achar a forma no livro pronto não diz se o autor partiu dela.
Três modelos aparecem nos manuais: os três atos, divisão que ganhou páginas marcadas em Screenplay (1979), primeiro livro do professor de roteiro Syd Field, e que não é de Aristóteles; a jornada do herói, que vem de O herói de mil faces, de Joseph Campbell (1949), e circulou em Hollywood por um memorando interno em que Christopher Vogler, analista de histórias da Disney, aplicou Campbell a filmes; e o Save the Cat, do roteirista Blake Snyder (2005), que a autora Jessica Brody estendeu ao romance em Save the Cat! Writes a Novel, com as batidas marcadas em porcentagem.
Quando usar cada um e como aplicar está em como estruturar um livro; as quinze batidas com porcentagens, em beat sheet do Save the Cat; a jornada aplicada a obras conhecidas, em exemplos de jornada do herói.
Os dois estudos com muitos textos citados aqui medem coisas diferentes. Os pesquisadores Ryan Boyd, Kate Blackburn e James Pennebaker mediram a linguagem de cerca de 40 mil narrativas, entre romances e roteiros, extraíram delas um arco narrativo comum (ambientação, progressão do enredo e tensão) e não acharam ligação entre seguir esse arco normativo e a popularidade ou a avaliação da história (Science Advances, 2020); o estudo não testa três atos, jornada nem Save the Cat.
A forma aparece nos livros prontos: Jodie Archer e Matthew Jockers, autores do Bestseller Code (2016), acharam em parte significativa dos maiores best-sellers dos últimos 30 anos um enredo de ritmo regular e "a clear three-act structure" (uma estrutura clara em três atos), segundo o resumo da Publishers Weekly.
Como prender o leitor nas primeiras páginas está em como começar um livro e prender o leitor, e como sustentar a tensão até o clímax, em como manter a tensão no meio do livro.
Quanto escrever por dia e de que tamanho fica o livro?
Na nossa leitura, a meta diária que se consegue manter é a que se mede; nos três autores desta página que deram números, a produção vai de cerca de 450 palavras (o menor número no quadro do romancista Ernest Hemingway) a cerca de 2.500 por dia (Anthony Trollope).
Trollope conta em An Autobiography (1883) que escrevia com o relógio à frente e exigia de si 250 palavras a cada quarto de hora, em três horas de trabalho antes do café, das quais a primeira meia hora ia para reler a véspera; isso dá, pela nossa conta, cerca de 2.500 palavras, e ele mesmo fala em mais de dez páginas por dia. Para ele, três horas por dia era o máximo que um escritor devia produzir.
Para cada livro, Trollope abria um diário dividido em semanas e anotava as páginas escritas a cada dia, com a página fixada em 250 palavras: a média ficou em 40 páginas por semana, com mínimo de 20 e máximo de 112. Foi o diário, diz ele, que o fez nunca correr o risco de atrasar uma entrega, e ele mal continha o desprezo por quem espera a inspiração.
Hemingway marcava a produção num quadro de papelão na parede, "so as not to kid myself" (para não se enganar), segundo George Plimpton, que o entrevistou para a Paris Review em 1958: os números iam de 450 a 1.250 palavras, e os dias altos eram trabalho extra para pescar no dia seguinte sem culpa. Stephen King disse à mesma revista, em 2006, que escrevia 2.000 palavras por dia, às vezes mais, e que tinha caído para mil; e que o importante é trabalhar todo dia que puder. O NaNoWriMo pedia 50 mil palavras em novembro, 1.667 por dia.
A meta muda com a vida de quem escreve. A romancista Toni Morrison contou à Paris Review, em 1993, que começou a escrever antes do amanhecer por necessidade, com filhos pequenos, e só depois viu que era mais lúcida de manhã. Como montar a semana de escrita está no guia sobre rotina de escrita.
O tamanho do livro dá a conta dos dias. O romancista E. M. Forster, nas palestras de Aspects of the Novel (1927), pôs o piso do romance em 50 mil palavras, só para os fins daquelas palestras; a faixa de palavras de cada gênero está em quantas páginas deve ter um livro.
Pela nossa conta, 80 mil palavras a mil por dia, o ritmo de King em 2006, dão 80 dias de escrita; a conta para o próprio livro, com o prazo que outros autores levam, está em quero escrever um livro: por onde começar.
Como terminar o primeiro rascunho?
Nos relatos lidos aqui, o que leva o rascunho até o fim é parar cada dia sabendo como começa o seguinte e aceitar que a primeira versão saia ruim; é leitura nossa, e nenhuma fonte mede quem termina. Hemingway descreveu o método à Paris Review em 1958: escrevia de manhã, relia o que tinha escrito e, como sempre parava sabendo o que ia acontecer a seguir, continuava dali; parava enquanto ainda tinha fôlego, e o difícil era esperar o dia seguinte.
Alencar fazia algo parecido sob prazo de jornal: escreveu o Guarani "dia por dia para o folhetim do Diario", em 1857, enquanto redigia e administrava o Diário do Rio de Janeiro. De manhã terminava o capítulo começado na véspera e o mandava para a tipografia; depois do almoço entrava num capítulo novo e o deixava pela metade. O romance ocupou o rodapé do jornal em 52 edições.
A outra metade é aceitar o rascunho ruim. A escritora Anne Lamott, no capítulo "Shitty First Drafts" de Bird by Bird (1994), diz que todos os bons escritores escrevem primeiros rascunhos ruins e que é assim que chegam a bons segundos rascunhos e a terceiros excelentes; chama o primeiro de rascunho da criança, em que tudo sai sabendo que ninguém vai ver e que dá para dar forma depois. A frase "the first draft of anything is shit", que circula como de Hemingway, não aparece em texto dele, segundo o Quote Investigator: a primeira evidência é a memória de Arnold Samuelson, que trabalhou para ele em 1934, publicada em 1984.
Reler a véspera não impediu os dois de terminar: Trollope começava cada sessão relendo o trabalho do dia anterior, e Hemingway reescrevia todo dia até o ponto onde tinha parado. Na nossa leitura, o que trava é voltar ao começo para reescrevê-lo antes de chegar ao fim.
O rascunho também pode terminar em pedaços. Os capítulos de Vidas secas (1938), do romancista Graciliano Ramos, foram produzidos como contos e publicados em jornais do Rio e de São Paulo antes do livro, segundo a revista Pesquisa FAPESP. E o que fica parado pode voltar: Alencar abandonou A Viuvinha no meio do folhetim e só escreveu o final três anos depois, para uma segunda edição de Cinco minutos.
Quando a parada vira bloqueio, o guia sobre bloqueio criativo e síndrome do impostor trata do que a trava tem de emocional; como escrever o final da história, que é outra pergunta, está em como terminar um livro.
Como revisar o livro depois de terminar?
A revisão que muda o livro trabalha o texto inteiro antes da frase, e pede distância para isso (leitura nossa). Os relatos lidos aqui mostram dois momentos para começar a revisar. Um é todo dia: Trollope começava cada sessão relendo, por meia hora, o trabalho da véspera, pesando o som das frases, e recomendava a prática aos iniciantes. O outro é depois do fim: King prefere deixar o primeiro rascunho descansar por pelo menos seis semanas, porque na volta ele parece escrito por outra pessoa, o autor está menos apegado e acha tanto os erros horríveis quanto os trechos bons.
As duas práticas se somam nos relatos. Hemingway contou em 1958 que revisava em camadas, todo dia até o ponto onde tinha parado, de novo ao terminar, quando o texto voltava datilografado e por fim nas provas, e que reescreveu a última página de Adeus às armas 39 vezes. King, em Lisey's Story, pôs a cópia ao lado do computador e redigitou o livro inteiro em documentos em branco, o que para ele é escrever o livro de novo.
O romancista Machado de Assis revisou o mesmo romance duas vezes depois de publicado. No prólogo da terceira edição das Memórias póstumas de Brás Cubas, conta que a primeira saiu "aos pedaços na Revista Brasileira, pelos anos de 1880"; que, posta em livro, ele corrigiu o texto em vários lugares; e que, para a terceira, emendou mais alguma coisa e suprimiu duas ou três dúzias de linhas. Para um editor, o fim pede revisão com frequência: Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, escreveu em 2016 que perdeu a conta das vezes em que sugeriu mudanças nas últimas páginas de livros de ficção, e que o escritor deixa sinais de esgotamento pelo caminho, antes do fecho.
A ordem de trabalho que sai disso, na nossa leitura: primeiro o que muda o livro inteiro (o que sobra, o que falta, a ordem dos capítulos), depois a cena, por último a frase. As etapas de edição feitas por profissionais, da preparação à prova, estão em do manuscrito ao livro, e quem faz cada uma, em quem edita seu texto.
Quem deve ler o livro antes de publicar?
O primeiro leitor entra depois da autoedição e antes do editor, e lê como leitor. É a ordem que a Reedsy descreve em 2025, numa página que também separa o leitor beta do parceiro de crítica e do editor. O que cada um faz, e como achar e orientar esses leitores, está no guia sobre beta reader e sensitivity reader.
O primeiro leitor pode ser alguém de casa: King disse em 2006 que costuma dar os rascunhos para a mulher, Tabby, ler; Cemitério maldito foi a exceção, guardado na gaveta sem leitor. O editor entra depois e pode mudar o livro: Nan Graham, editora dele na Scribner, mandou tirar uma parada inteira de Lisey's Story porque atrasava a narrativa, e a primeira reação dele foi achar que ela não entendia o gênio dele, antes de experimentar.
Com vários leitores, a Reedsy recomenda olhar o padrão que se repete entre eles. No Brasil, a oficina é um dos lugares onde o texto encontra leitores antes do editor (leitura nossa): a de criação literária que o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil começou em 1985 na PUCRS, descrita pela universidade como "a oficina ininterrupta mais antiga do Brasil", formou autores como Daniel Galera, Michel Laub e Carol Bensimon. Onde achar leitores de confiança, ou como montar um grupo de escrita com eles, está em como encontrar ou montar um grupo de escrita.
O que fazer depois de terminar o livro?
Depois do ponto final, a decisão passa a ser de caminho: mandar o livro para editoras ou publicá-lo por conta própria. As editoras brasileiras lançaram 10.663 títulos novos impressos em 2025, segundo a pesquisa de produção da CBL e do SNEL com a Nielsen BookData, número que o guia sobre como funciona a impressão de um livro põe em contexto; é com esses títulos que um manuscrito enviado a editoras disputa espaço (leitura nossa). Os caminhos, o que cada um pede e o que costuma travar em cada um estão em como publicar um livro.
Checklist antes de passar para a próxima etapa
Na ordem do caminho, cada item com a seção que o resolve:
- a premissa escrita numa frase, com personagem, conflito e desfecho (ideia e premissa);
- a decisão de planejamento tomada: uma escaleta pronta, ou um caderno de notas e a próxima cena (planejar);
- um modelo de estrutura só se ajudar a destravar o enredo (estrutura);
- a meta diária escrita e um registro do que se escreveu a cada dia (meta);
- o rascunho com a última cena escrita, sem voltar ao começo para reescrevê-lo (terminar);
- uma pausa antes de revisar, e a revisão do livro inteiro antes da frase (revisar);
- os primeiros leitores escolhidos, e o que se repetiu entre eles anotado (leitores);
- o caminho de publicação escolhido (depois).
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para escrever um livro?
Depende do tamanho do livro e de quantas palavras por dia se escreve; a conta, com o prazo que outros autores levam, está em quero escrever um livro: por onde começar. Trollope, a cerca de 40 páginas de 250 palavras por semana, fazia umas 10 mil palavras por semana (conta nossa).
Como começar a escrever um livro hoje?
Pela premissa: uma frase com a personagem, o conflito e o desfecho. O que vale decidir antes da primeira página está em quero escrever um livro: por onde começar; as primeiras linhas do texto, em como começar um livro e prender o leitor.
Preciso fazer um curso para escrever um livro?
As etapas de escrever um livro, da premissa aos primeiros leitores, não dependem de curso. Um curso ou uma oficina encurta a etapa dos leitores, porque dá prazo e crítica (leitura nossa); como escolher entre curso, oficina, mentoria e pós está em curso de escrita criativa vale a pena.
Dá para escrever um livro no celular ou no Word?
Dá. O programa não muda as etapas nem a decisão de cada uma, só onde o texto é escrito e guardado (leitura nossa); qual usar, do Word ao Google Docs e aos aplicativos de celular, está em qual app ou programa usar para escrever um livro.
Posso escrever um livro com ajuda de IA?
As etapas de escrever um livro, da premissa aos primeiros leitores, valem com ou sem IA (leitura nossa). As regras das plataformas de publicação e do direito autoral para texto feito com IA estão em dá para escrever um livro com IA.
Como escrever um livro sobre a minha vida?
O caminho é o mesmo, com uma decisão a mais: memória, autobiografia ou autoficção. Essa escolha e o que muda em cada forma estão em como escrever a história da sua vida.
O que fazer com isso
Com a premissa escrita e uma meta que se mede, o que decide se o livro existe é chegar à última cena antes de consertar; a revisão e os primeiros leitores trabalham sobre esse rascunho inteiro, e não sobre o primeiro capítulo reescrito. Os guias vizinhos tratam do que acontece dentro do texto: as primeiras páginas, o meio e o clímax, os recursos narrativos e as personagens.
Continue por aqui
Guias que saem daqui
Também nesta enciclopédia
Termos usados nesta página
Em breve
Quem fala sobre isso 3pessoas
- Anne Lamottromancista e escritora de não ficção norte-americana, professora de escrita (nascida em 1954)
Obra sobre o tema: Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life, 1994, livro de conselhos sobre escrever, com o capítulo "Shitty First Drafts".
Página ↗ - Stephen Kingromancista norte-americano (nascido em 1947)
Obra sobre o tema: On Writing: A Memoir of the Craft, 2000, memória e conselhos para quem quer escrever.
Página ↗ - Lajos Egri †dramaturgo e professor de escrita criativa húngaro-americano (1888–1967)
Obra sobre o tema: The Art of Dramatic Writing, 1942, manual de escrita que abre pela premissa de três partes.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
TikTokRespondendo a uma seguidora, uma autora lista todos os passos da escrita e da publicação de um livro, do começo ao fim, e promete um vídeo para cada etapa e outro sobre quando mandar o texto a um profissional.
@leize.heitlingTikTok ↗
YouTubeDiz que escrever um livro não é tentar resolver tudo de uma vez, mas entender em que etapa focar a cada momento, e mostra o passo a passo de uma ideia inicial até o livro terminado.
Novo OrbeYouTube ↗
YouTubeAntes de começar um livro, recomenda planejá-lo com algumas dicas práticas, para ter mais chance de escrever até o fim sem cair no bloqueio criativo.
FicçomosYouTube ↗
TikTokConta que não esperou o momento perfeito: começou por uma cena que já tinha na cabeça, escreveu primeiro o que já estava definido e fixou metas pequenas, 15 minutos por dia, um ou dois parágrafos.
@carolina.fdmTikTok ↗
YouTubeMostra como planeja os próprios livros: um processo apoiado nos três atos, que vai da etapa de "apenas pensar" até os pontos de virada anotados numa planilha.
Bianca JungYouTube ↗
TikTokReúne o que serviu a ela para escrever um livro do zero sem desabar no meio do caminho e pergunta aos seguidores qual parte acham mais difícil (em espanhol).
@memorieskeeper._TikTok ↗
O que está acontecendo
- Vendas de livro de autor canadense acusado de escrever com uso de IA disparam na França ↗
Obra de Thélyson Orélien, retirada da seleção do Prêmio Goncourt, teve mais de 18 mil exemplares vendidos em uma semana na França
- Jeferson Tenório, do best-seller 'O Avesso da Pele', estreia curso de escrita na CasaFolha ↗
Aulas com vencedor do Prêmio Jabuti já estão disponíveis para assinantes da plataforma
- When bots write books ↗
Artificial intelligence is transforming the publishing industry. What does that mean for human authors?
- I Asked AI to Write a Novel. It’s Not So Bad. ↗
What does this tell us about the future of writing?
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Lidas no texto integral
- Anthony Trollope, An Autobiography, 1883, caps. VII, IX, X, XII e XV (Project Gutenberg #5978).
- José de Alencar, Como e porque sou romancista, escrito em 1873 e publicado em 1893, caps. I, VI e VII (Wikisource).
- Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, prólogo da 3ª edição (Wikisource).
- Ernest Hemingway, "The Art of Fiction No. 21", entrevista a George Plimpton, The Paris Review, n. 18, 1958.
- Stephen King, "The Art of Fiction No. 189", entrevista a Nathaniel Rich e Christopher Lehmann-Haupt, The Paris Review, n. 178, 2006.
- Aristóteles, Poética, trad. S. H. Butcher.
- Lajos Egri, The Art of Dramatic Writing, Simon and Schuster, cap. I, "Premise".
- Anne Lamott, Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life, 1994, cap. "Shitty First Drafts" (excerto distribuído pelo Writing Program da Brandeis University).
- E. M. Forster, Aspects of the Novel, 1927, cap. 1.
- Neil Gaiman, "Where do you get your ideas?", neilgaiman.com.
- Joseph Epstein, "Think You Have a Book in You? Think Again", The New York Times, 28/09/2002.
- NaNoWriMo, "History", nanowrimo.org (captura de 2016 no Internet Archive).
- Emma Keates, "NaNoWriMo to shut down a year after sharing controversial stance on AI", The A.V. Club, 01/04/2025.
- The Wheeler Centre, "Architects, Gardeners and Game of Thrones", 25/11/2013.
- Garson O'Toole, "The First Draft of Anything Is Shit", Quote Investigator, 20/09/2015.
- Randy Ingermanson, "The Snowflake Method", advancedfictionwriting.com.
- Blake Snyder e Jessica Brody, tabela das 15 batidas, savethecat.com, consultada em 04/10/2026.
- Ryan L. Boyd, Kate G. Blackburn e James W. Pennebaker, "The narrative arc: Revealing core narrative structures through text analysis", Science Advances, 6(32), 2020.
- Jim Milliot, "What Makes a Bestseller? Two SMP Authors Say They Know the Formula", Publishers Weekly, 27/06/2016.
- Instituto Pró-Livro e Itaú Cultural, Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, 2024.
- CBL, SNEL e Nielsen BookData, Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, ano-base 2025.
- Cristina Ferreira e Thiago Lenz, "O Guarani (1857), um romance entre o indianismo e a etnografia", Organon, v. 37, n. 74, 2022.
- PUCRS, "Era uma vez, um Assis Brasil e a Escrita Criativa", 03/03/2020.
Lidas em resumo ou pela referência
- Haruki Murakami, "The Art of Fiction No. 182", entrevista a John Wray, The Paris Review, n. 170, 2004.
- Toni Morrison, "The Art of Fiction No. 134", entrevista a Elissa Schappell e Claudia Brodsky Lacour, The Paris Review, n. 128, 1993.
- Martin Cavannagh, "Beta readers", Reedsy Blog, 14/10/2025.
- Christina Queiroz, "Intimidade sertaneja", Pesquisa FAPESP, agosto de 2019.
- Mariana Weber, "Como Itamar Vieira Junior transformou andanças de 15 anos pelo Nordeste no livro mais vendido do Brasil", Forbes Brasil, 06/06/2021.
- Luiz Schwarcz, "É pau, é pedra, é o fim do caminho, ou: romances e contos nem sempre acabam quando terminam", blog da Companhia das Letras, 25/10/2016.
- Jodie Archer e Matthew Jockers, The Bestseller Code, St. Martin's Press, 2016.
- Syd Field, Screenplay: The Foundations of Screenwriting, Dell, 1979.
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- NPR, All Things Considered, 07/11/2002 (NaNoWriMo).
VERSE MEDIA. Como escrever um livro: o passo a passo, da ideia ao ponto final. Enciclopédia Verse, 4 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/estrutura/como-escrever-um-livro. Acesso em: [data].
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