Como criar personagens para um livro
Uma personagem funciona quando chega à primeira cena querendo alguma coisa e disposta a pagar por ela. Como chegar lá, os romancistas resolvem de jeitos opostos: Vladimir Nabokov fixava o desenho do livro antes e dizia que as personagens dele eram escravas de galé; Zadie Smith começa na primeira frase sem saber o final. Quanto planejar se diagnostica pelo sintoma que E. M. Forster descreveu: a personagem solta demais desmonta o livro, a presa demais morre dentro dele. E o teste final é o do roteirista Robert McKee: o caráter verdadeiro aparece na escolha feita sob pressão.
Este guia foi feito com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da ficção, como Aristóteles, E. M. Forster, Lajos Egri, Jane Austen, Fiódor Dostoiévski, Vladimir Nabokov e Zadie Smith; no Brasil, Machado de Assis e Itamar Vieira Junior.
Você tem o nome, a idade e o passado da personagem anotados, e na hora de escrever a primeira cena ela não faz nada que ninguém mais faria. Relê o que preparou e tudo parece certo, mas nada ali empurra a história. É esse intervalo entre a lista e a cena que as seções abaixo percorrem.
A decisão de como começar e quanto planejar a própria personagem, o desejo dela posto numa frase e um diagnóstico para descobrir por que uma personagem ficou rasa.
Começou a criar uma personagem, juntou traços e histórico, e ela continua parecendo uma lista: não sabe por onde começar, quanto preparar nem o que falta para ela ganhar vida.
Nesta página
- Por onde começar a criar uma personagem do zero: por ela ou pelo enredo?
- Planejar ou descobrir: quanto construir antes de escrever?
- Como dar motivação à personagem: o que ela quer e por que isso move a história?
- Como criar a personalidade de uma personagem?
- Quanto passado a personagem precisa ter?
- Como mostrar quem ela é sem explicar?
- Como fazer uma personagem profunda: quanto aprofundar cada uma do elenco?
- A personagem precisa ser simpática?
- Por que a personagem ficou rasa?
- Perguntas frequentes
- O que fazer com isso
Por onde começar a criar uma personagem do zero: por ela ou pelo enredo?
Dá para começar pela personagem ou pela situação, e os dois caminhos têm romances importantes atrás de si. O que não se sustenta é um sem o outro: a personagem sem uma situação que a obrigue a agir, ou a situação montada para alguém que ainda não existe.
Na Poética, Aristóteles já tomava partido: a tragédia imita ações, e não pessoas; pode existir tragédia sem caráter, mas não sem ação; o enredo é a alma, e o caráter vem em segundo lugar. Mais de dois mil anos depois, o dramaturgo e professor Lajos Egri abriu The Art of Dramatic Writing acusando Aristóteles de ter negado a importância da personagem e, retomando uma frase de John Galsworthy, concluiu o contrário: "character creates plot, not vice versa", é a personagem que cria o enredo. Egri relê o próprio Édipo Rei para provar: se Édipo não fosse esquentado, não mataria o estranho na estrada; se não fosse teimoso, não forçaria a investigação sobre a morte de Laio.
Forster, em Aspects of the Novel (1927), discorda de Aristóteles pelo lado do romance. A felicidade e a miséria, escreve ele, existem na vida secreta de cada um, e é a essa vida que o romancista tem acesso; no romance, o enredo trava uma batalha perdida com as personagens.
Começar pela pessoa, portanto, é um caminho com tradição. Henry James conta, no prefácio de Retrato de uma senhora, que o livro inteiro partiu de uma única pedra fundamental, a ideia de uma jovem enfrentando o próprio destino, e que a construção foi erguida depois, em volta dela. No mesmo texto, relata o método que ouviu de Turguêniev: ver as figuras com nitidez, como pessoas disponíveis, e só então inventar as relações e situações que melhor as revelem. Itamar Vieira Junior começou a escrever a história das irmãs de Torto arado aos 16 anos, numa máquina de escrever; as 80 páginas se perderam, e as personagens ficaram com ele por cerca de vinte anos antes de virar livro.
O alerta de Aristóteles continua valendo para quem começa: os iniciantes, observou ele, conseguem trabalhar a linguagem e o retrato moral das personagens antes de saber armar os acontecimentos. Se depois de conhecer bem a sua personagem você ainda não sabe o que vai obrigá-la a agir, o trabalho que falta é de situação.
Planejar ou descobrir: quanto construir antes de escrever?
Construir de menos e construir de mais falham de jeitos diferentes, e o sintoma diz qual dos dois erros você está cometendo. A quantidade certa de preparação varia de escritor para escritor; os sinais de que ela passou do ponto, não.
Os dois polos têm porta-vozes claros. Nabokov, perguntado pela Paris Review em 1967 se as personagens às vezes tomavam conta do livro, como dizia Forster, respondeu que isso era fantasia antiga e que as dele obedeciam: "My characters are galley slaves." Escrevia fora de ordem, em fichas pautadas, preenchendo lacunas num desenho que já existia: "The pattern of the thing precedes the thing." Zadie Smith, numa palestra na Universidade Columbia em 2008, chamou esse tipo de Macro Planner, o que organiza notas, enredo e estrutura antes da folha de rosto, e se declarou do outro tipo, o Micro Manager, que começa na primeira frase e termina na última. Para ela, estrutura, enredo e personagens estão contidos no tom de uma frase: retrabalhou as primeiras vinte páginas de On Beauty por quase dois anos e, com o tom encontrado, terminou o romance em cinco meses.
Entre os dois, a preparação muda de lugar sem desaparecer. Faulkner, numa aula na Universidade da Virgínia em 1958, ensinava a deixar a personagem conduzir, bastando "trot along behind him and put down what he does and what he says", mas avisava que o esforço vinha antes do lápis: conhecer a personagem e acreditar nela; escrever seria a parte mecânica. Stephen King, lembrado como o escritor que não planeja o enredo, contou à Paris Review em 2006 que passou a codificar notas das linhas de enredo e a anotar datas de nascimento para saber a idade de cada personagem em cada momento, porque um erro de continuidade custa caro depois. A ficha, no caso dele, nasce durante a escrita. No extremo oposto, Egri quer que o autor saiba tudo, até uma doença que a própria personagem ignora, porque ela condiciona a atitude da personagem.
Forster deixou o instrumento de diagnóstico. As personagens chegam quando chamadas, escreve ele, mas cheias de espírito de motim: com liberdade completa, desmontam o livro a pontapés; presas demais, vingam-se morrendo e o apodrecem por dentro. Traduzido para o trabalho: se a personagem toma decisões que não servem a história nenhuma, falta desenho; se faz tudo o que o enredo precisa e nada do que ela mesma faria, sobra plano.
No conto, o cálculo encurta. Edgar Allan Poe defendia que um texto longo demais para ser lido de uma sentada perde a unidade de impressão. A personagem de conto se revela num gesto, e a preparação que não aparece na página é menor; a de romance sustenta centenas de escolhas, e a preparação costuma crescer junto com o livro. Um modelo de ficha de personagem pensado como ferramenta de descoberta, com um critério para cada campo, ajuda nos dois casos.
Como dar motivação à personagem: o que ela quer e por que isso move a história?
A motivação convence quando vira um ato que custa alguma coisa. Explicada, ela informa; paga, ela prova.
Os manuais construíram sistemas para descrever essa matéria. Na síntese corrente do método de John Truby, a fraqueza e a necessidade da personagem (psicológica, quando o defeito fere só a ela; moral, quando fere os outros) ficam separadas do desejo, a meta externa que move o enredo. K. M. Weiland chama de Mentira a crença falsa que a personagem carrega e que a impede de ver o que precisa; Lisa Cron, segundo os resumos de Story Genius, situa essa crença numa cena concreta do passado, em choque com o desejo. Os três giram em torno da mesma estrutura, alguém que quer uma coisa e precisa de outra; Weiland e Cron a completam com a crença errada que mantém as duas separadas.
Os romances chegam ao mesmo lugar pela cena. Em O cortiço (1890), Aluísio Azevedo nomeia no primeiro parágrafo o "delírio de enriquecer" de João Romão, que dormia sobre o balcão da própria venda; no mesmo capítulo, prova o desejo com um ato: a carta de alforria que Bertoleza pensa ter comprado com as próprias economias foi forjada por ele, com um selo reaproveitado. O leitor não precisa de explicação sobre a ganância de João Romão, porque viu quanto ela custou a outra pessoa.
A ordem pode ser a inversa. Em Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), Lima Barreto explica cedo a paixão do major, um patriotismo "sério, grave e absorvente", e usa o livro inteiro para testá-la até a ruína que o título anuncia. Antes da explicação, mostra o homem que há mais de vinte anos chega em casa às quatro e quinze da tarde: a rotina prepara a ideia fixa.
Na escala da cena, a distinção que o material de escrita criativa da Universidade Purdue ensina resolve muito: a personagem tem um objetivo grande, o da história, e objetivos pequenos, os de cada cena. Quando uma cena emperra, a pergunta útil é o que ela quer nos próximos cinco minutos e o que isso tem a ver com o que ela quer no livro. A mudança que esse desejo provoca ao longo do romance, e os casos em que a personagem termina igual e quem muda é o mundo, estão no arco de personagem.
Como criar a personalidade de uma personagem?
A personalidade que prende nasce de uma contradição com lógica interna. Aristóteles já admitia a inconstância, desde que tivesse regra: mesmo uma personagem inconstante precisa ser, na tradução inglesa clássica, "consistently inconsistent", coerentemente incoerente.
A contradição pode ser a própria voz da personagem. O narrador das Memórias do subsolo (1864), de Dostoiévski, se diz doente, rancoroso e pouco atraente na primeira página, se declara supersticioso e culto demais para sê-lo, e recusa o médico por despeito, contra o próprio interesse. Nada disso é descrito de fora.
Ou pode ser uma falha que só o leitor vê. A primeira frase de Emma (1815) apresenta a heroína de Jane Austen como bonita, inteligente e rica; poucas linhas depois, a narradora nomeia os dois defeitos que vão mover o romance, o poder de fazer tudo do seu jeito e a tendência a se achar um pouco demais, e avisa que o perigo, por enquanto, passava despercebido. A personalidade é a tensão entre o dom e a falha, e a falha é invisível para a própria Emma.
O romancista David Corbett resume essa matéria em quatro elementos: um desejo forte, um segredo, uma contradição e uma vulnerabilidade, e os lê em Blanche DuBois, de Um bonde chamado desejo, que precisa de abrigo, esconde a bebida e os casos do passado, e é frágil e férrea ao mesmo tempo. Itamar Vieira Junior conta que tirou as mulheres de Torto arado das mulheres da própria família, personagens fortes "não no sentido de que são boas": cada uma tem a sua força, e às vezes faz coisas que machucam.
O caminho oposto, empilhar traços, costuma dar errado. Zadie Smith diz que a personagem acontece com as pinceladas mais leves e se destrói com a mesma leveza, e que Odradek, criatura de uma página de Kafka, lhe é mais memorável do que personagens em que ela gastou três anos e quinhentas páginas.
Tipologias de personalidade ajudam pouco a organizar isso. Um estudo de Robert McCrae e Paul Costa com 468 pessoas não encontrou apoio para a ideia de que o MBTI, o teste das quatro letras, mede tipos distintos: ele mede quatro dimensões contínuas, ligadas a quatro dos cinco grandes fatores de personalidade. David Pittenger concluiu que o instrumento tem apelo intuitivo, mas talvez ainda não sustente o que promete. Na prática: escolha o traço mais forte da personagem e ponha-a numa cena em que esse traço atrapalha o que ela quer.
Quanto passado a personagem precisa ter?
O passado rende quando volta em cena; despejado, ele pesa. E há ficção funda sem ferida nenhuma.
As duas metades dessa resposta vêm de correntes que hoje discordam. Uma parte dos manuais trata a ferida como motor: Weiland a chama de ghost, Cron a situa numa cena do passado, e a crença falsa nasce dela. A crítica Parul Sehgal, num ensaio na New Yorker de 2021, argumentou contra esse "enredo de trauma": em vez de aprofundar, ele reduz a personagem a um conjunto de sintomas, e o trauma virou sinônimo de passado, como se todo mistério do presente se resolvesse lá atrás. Ela lembra que a convenção é recente: as personagens de Austen não são perfuradas por memórias súbitas, e as de George Eliot, Henry James e Virginia Woolf trazem do passado só o que serve ao presente.
Entre as duas posições há um terreno prático: o passado que funciona aparece como sintoma antes de aparecer como explicação. Em Grandes esperanças (1861), Dickens mostra Miss Havisham vestida de noiva, com um sapato só e os relógios parados às vinte para as nove; a razão, o noivo que não veio, chega catorze capítulos depois, contada por outra personagem, que liga o horário dos relógios à hora da carta. O leitor carrega o enigma por catorze capítulos.
Machado de Assis faz o passado voltar como ato. Em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), o menino Brás monta no escravo Prudêncio como num cavalo e responde aos gemidos dele com "Cala a boca, besta!". Cinquenta e sete capítulos depois, Brás encontra Prudêncio liberto, surrando o próprio escravo e gritando a mesma frase; o narrador conclui que era o modo de Prudêncio se desfazer das pancadas recebidas. A cena da infância reaparece no presente e condena o narrador sem que ele perceba.
A ordem da revelação também é escolha de ofício. Itamar Vieira Junior sabia desde o início que Belonísia era muda, e o leitor não. Depois de umas cinquenta páginas, escreveu como ela perdeu a fala, leu para algumas pessoas, viu a curiosidade que o trecho despertava e decidiu que aquele seria o primeiro capítulo.
Orson Scott Card acrescenta um cuidado técnico em Characters & Viewpoint (1988, p. 113): se a personagem poderia ter se lembrado de algo a qualquer momento, lembrar exatamente na hora da decisão parece coincidência; a memória que motiva a escolha precisa ser provocada por algo no presente. Quando a ferida ocupa o lugar da pessoa, o resultado é o que Sehgal vê em Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara: um contorno de giz, um verbete ambulante de manual de diagnóstico.
Como mostrar quem ela é sem explicar?
A primeira aparição é uma decisão de ponto de vista: ela decide o que o leitor vai acreditar primeiro, e o romance pode viver de desmontar essa crença. A caracterização direta tem lugar; o que muda o resultado é quem olha e em que momento.
A fala pode chegar antes do resumo. No primeiro capítulo de Orgulho e preconceito (1813), os Bennet aparecem só conversando, ela ansiosa e tagarela, ele seco e irônico; a narradora resume a mãe numa frase, "a woman of mean understanding, little information, and uncertain temper", quando o leitor já chegou lá sozinho. Dois capítulos depois, a primeira impressão de Darcy é dada pelo salão de baile, que o admira pela renda na primeira metade da noite e o detesta pela arrogância na segunda: uma leitura coletiva que o romance vai desmontar.
O olhar de outra personagem pode plantar o conflito. Anna Kariênina entra no romance de Tolstói vista por Vronski, na estação; o que ele nota não é a beleza, mas uma vitalidade que transborda contra a vontade dela, no brilho dos olhos e num sorriso que ela tenta apagar. Em Dom Casmurro, Capitu chega ao leitor pela boca do agregado José Dias, que descreve os olhos dela como "de cigana oblíqua e dissimulada", dentro da narração de um Bento que anos depois vai desconfiar dela.
A primeira ação pode fazer o trabalho da biografia. Crime e castigo abre com Raskólnikov passando escondido pela cozinha da senhoria a quem deve, e Dostoiévski avisa logo que não era covardia. E o narrador pode entrar no vocabulário da personagem: em Vidas secas (1938), Graciliano Ramos deixa Fabiano dizer em voz alta que é um homem, recuar com medo de ter sido ouvido e se corrigir, é um bicho, e se orgulha disso. A autoimagem e a classe aparecem sem uma linha de explicação.
A pesquisa sobre leitura mediu o efeito dessa escolha. Em dois experimentos com 120 pessoas cada, Hans Hoeken e colegas contaram o mesmo conflito pelo ponto de vista de uma ou de outra personagem: quem leu pelos olhos de uma delas se identificou mais com ela, e essa identificação mudou a atitude do leitor sobre o caso. Ponto de vista é alavanca.
O conselho de "mostrar, e não contar" tem contraponto na teoria: Wayne C. Booth abre The Rhetoric of Fiction (1961) com um capítulo chamado "Telling and Showing" e dedica outros aos usos do comentário do narrador. Contar é recurso; o que falha é contar o que a cena já mostrou. Corpo, gesto e emoção na página são o terreno de como descrever uma personagem.
Como fazer uma personagem profunda: quanto aprofundar cada uma do elenco?
A profundidade se distribui pelo elenco; aprofundar todo mundo apaga o protagonista. Forster, que criou a divisão entre personagem plana e redonda, é o primeiro a defender a plana.
A plana, construída em torno de uma única ideia, tem para Forster a vantagem de ser reconhecida pelo olho emocional do leitor sempre que entra, sem precisar ser reapresentada. Ele chega a dizer que Dickens é um dos grandes escritores da língua quase só com tipos, e que esse sucesso sugere que há mais na planura do que os críticos severos admitem. O teste da redonda é outro: ela é "capable of surprising in a convincing way"; se surpreende sem convencer, é uma plana fingindo ser redonda.
As planas memoráveis quase sempre têm um gesto ou uma fala que as fixa. Uriah Heep, em David Copperfield (1850), repete a própria humildade até ela virar ameaça, "I am well aware that I am the umblest person going", e esfrega as mãos úmidas. José Dias é anunciado por Machado numa frase: "José Dias amava os superlativos". O ensaísta Aatif Rashid, na Kenyon Review, leva o argumento ao cânone: a redondeza de Hamlet só funciona contra um Laertes, um Fortinbrás e um Horácio planos.
A personagem plana pode ser escolha de projeto, com custo. Iracema, no romance de José de Alencar (1865), é apresentada por uma cadeia de comparações com a natureza, os cabelos mais negros que a asa da graúna, o sorriso mais doce que o favo da jati; ela existe para encarnar uma ideia de terra americana, e paga por isso com a falta de contradição interna.
No Brasil, a distinção tem genealogia própria: Antonio Candido, no ensaio "A personagem do romance", retoma de Samuel Johnson, do século 18, a divisão entre personagens de costumes e personagens de natureza, e aproxima as segundas das redondas de Forster, na leitura de Elvis Paulo Couto. Quem aprofundar também desenha o elenco por contraste: em Torto arado, uma irmã segue os estudos e caminha para a consciência social, a outra se liga à terra e ao Jarê, e cada uma define a outra.
O limite prático é o leitor. Numa compilação da Writer's Digest de motivos de recusa de originais, Hallie Ephron diz que, se precisa fazer uma lista para acompanhar os nomes, larga o livro. As funções que cada personagem ocupa no conflito estão em protagonista, antagonista, vilão e anti-herói.
A personagem precisa ser simpática?
Não. Ela precisa prender, e a pesquisa sobre ficção mostra que gostar de uma personagem e se envolver com ela são coisas diferentes.
Num experimento com 313 pessoas, K. Maja Krakowiak e Mary Beth Oliver compararam personagens boas, más e moralmente ambíguas. As ambíguas foram menos queridas do que as boas, mas igualmente capazes de transportar o público para a história, gerar suspense e dar prazer; até as más, as menos queridas, prenderam tanto quanto as outras. O pesquisador Jonathan Cohen já tinha argumentado que identificar-se com uma personagem é uma reação distinta de gostar dela. E Melanie Green e Timothy Brock mostraram que, quanto mais o leitor mergulha na história, mais favorável fica a sua avaliação do protagonista. Quem se envolve julga com mais boa vontade.
A literatura brasileira tem o caso canônico. Brás Cubas se apresenta pela infância cruel, o "menino diabo" que quebrou a cabeça de uma escrava porque ela lhe negou uma colher de doce, e conta tudo sem remorso; o leitor não gosta dele e continua lendo pela voz. Em Dias perfeitos, o thriller de Raphael Montes, o narrador é um sequestrador sem empatia, e uma análise publicada da obra observa que a aparência dele quase não é descrita, mas a personalidade é nítida. Montes diz que o ingrediente é a empatia do autor: vestir cabeças que não são as nossas.
A antipatia pode ser programa. Austen, segundo o sobrinho, avisou ao começar Emma que ia escrever sobre uma heroína de quem ninguém além dela gostaria muito. Em 2013, perguntada pela Publishers Weekly se seria amiga da narradora do próprio romance, Claire Messud respondeu que quem lê para achar amigos está em apuros, e que a pergunta relevante é se a personagem está viva, numa troca que a revista Slate reproduziu. A romancista Jennifer Weiner respondeu que lê, sim, para achar amigos; para ela, o desprezo pela simpatia virou um código para rebaixar a ficção comercial escrita por mulheres, e a exigência pesa mais sobre personagens mulheres.
A pesquisa também tem limites que convém conhecer. Suzanne Keen, em Empathy and the Novel (2007), concluiu que a tese de que ler romances gera empatia que vira altruísmo é inconclusiva e exagerada por quem defende a leitura literária. E o estudo que afirmava que ler ficção literária melhorava de imediato a capacidade de entender os outros não se repetiu quando três grupos independentes refizeram o experimento com 792 pessoas. Para quem escreve, a pergunta de trabalho é o que faz o leitor continuar, e a simpatia é só uma das respostas.
Por que a personagem ficou rasa?
Personagem rasa, ou personagem raso, como aparece na maioria das buscas, costuma ser falta de uma das peças das seções anteriores, ou excesso de outra. A tabela liga o que se sente na leitura à causa provável e à correção.
| sintoma na leitura | causa provável | correção |
|---|---|---|
| Ela sempre vence, e nada parece custar | Desejo sem preço: a escolha não tira nada dela | Faça cada vitória custar algo que ela quer |
| O leitor sabe tudo sobre ela e não sente nada | Caracterização sem escolha: o texto descreve, ela não decide | Ponha-a numa escolha que custe caro |
| A ferida explica tudo e a pessoa sumiu | O trauma ocupou o lugar da personagem | Deixe o passado voltar como ato no presente |
| Muitos adjetivos, pouca presença | Traços empilhados no lugar de um gesto nítido | Troque três adjetivos por uma ação ou fala que só ela faria |
| O narrador disseca tudo o que ela sente | Exposição interior sem silêncio | Corte o que a cena já mostrou; deixe algo sem dizer |
| Faz tudo o que o enredo precisa, nada do que ela faria | Plano imposto: a personagem "morreu" | Pergunte o que ela escolheria se o enredo não precisasse |
| Toma decisões que não servem a história nenhuma | Falta desenho: liberdade demais | Defina o desejo e o obstáculo antes da próxima cena |
| A virada dela ninguém engole | Surpresa que não convence | Plante antes o que torna a surpresa possível |
| O leitor precisa de uma lista para acompanhar o elenco | Personagens demais com o mesmo peso | Decida quem é redonda; as outras, planas nítidas |
Perguntas frequentes
Como fazer um personagem do zero?
Comece por três respostas numa frase: o que ele quer, por que quer e o que o impede. Com isso dá para escrever a primeira cena; o resto se descobre escrevendo, e o sintoma de Forster (personagem solta demais ou presa demais) mostra quando ajustar.
Como fazer uma ficha de personagem?
Uma ficha útil responde às perguntas que a história vai fazer à personagem, e não a todas as perguntas possíveis. Quem descobre escrevendo costuma montá-la durante o livro, como Stephen King com as datas de nascimento. Critérios, um modelo para copiar e um exemplo preenchido em ficha de personagem para livro.
Como escolher o nome da personagem?
O nome chega antes de qualquer cena e diz época, lugar, classe e origem; o som ainda sugere um temperamento. Escolher bem é acertar isso para a história e fazer cada nome soar diferente dos outros do elenco, para o leitor não confundir quem é quem. Critérios, exemplos e onde achar nomes por época em nome de personagem: como escolher e onde achar nomes.
Como descrever uma personagem?
Pelo ponto de vista de quem olha e pela ação, antes do resumo: Austen apresenta os Bennet conversando e só depois resume a mãe numa frase. Mais em como descrever uma personagem.
Como escrever uma personagem diferente de você?
Com pesquisa e empatia de ofício: Raphael Montes fala em vestir cabeças que não são as nossas, e Itamar Vieira Junior tirou as mulheres de Torto arado das mulheres da própria família e diz que as personagens ganharam nuances com os anos de trabalho de campo junto a comunidades rurais. É uma das dúvidas mais votadas em fóruns de escrita; o caminho completo está em como escrever personagens diferentes de você.
A personagem precisa mudar ao longo do livro?
Não necessariamente: há arcos em que ela termina igual e quem muda é o mundo em volta. Os tipos de arco, e o que fazer quando a personagem não muda, estão em arco de personagem.
O que fazer com isso
Escolha o seu caminho, planejar ou descobrir, sabendo que os dois têm romances importantes atrás de si, e use o sintoma de Forster para saber quando está errando para um lado. Depois teste a personagem pela escolha: na cena mais difícil do livro, o que ela faz, e o que isso custa a ela? Quem ocupa cada função no conflito, do protagonista ao antagonista, e como a personagem muda ao longo do livro, no arco de personagem, são os passos seguintes.
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Guias que saem daqui
Também nesta enciclopédia
Termos usados nesta página
Quem fala sobre isso 6pessoas
- E. M. Forster †romancista e crítico inglês (1879–1970)
Obra sobre o tema: Aspects of the Novel, 1927, cujas duas palestras "People" separaram as personagens planas das redondas.
Página ↗ - Lajos Egri †dramaturgo e professor de escrita criativa húngaro-americano (1888–1967)
Obra sobre o tema: The Art of Dramatic Writing, 1942, cuja parte "Character" ensina a montar a personagem por fisiologia, sociologia e psicologia.
Página ↗ - Orson Scott Cardromancista norte-americano de ficção científica (Ender's Game); autor de manuais de escrita, entre eles Characters & Viewpoint (1988)
Obra sobre o tema: Characters & Viewpoint, 1988, manual dividido em inventar, construir e pôr em cena personagens.
Página ↗ - Robert McKeeprofessor de roteiro norte-americano, conhecido pelo seminário Story; autor de Story (1997), Dialogue (2016) e Character (2021)
Obra sobre o tema: Character: The Art of Role and Cast Design for Page, Stage, and Screen, 2021, livro sobre construir a personagem e o elenco.
Página ↗ - David Corbettromancista norte-americano; colaborador da Writer's Digest e autor do manual The Art of Character (2013)
Obra sobre o tema: "How to Craft Compelling Characters", Writer's Digest, 2011, artigo sobre desejo, segredo, contradição e vulnerabilidade da personagem.
Página ↗ - Antonio Candido †crítico literário, sociólogo e professor brasileiro (1918–2017)
Obra sobre o tema: "A personagem do romance", 1963, ensaio do livro A personagem de ficção (Perspectiva, 1968).
Na Wikipedia ↗
O que a rede diz 6 vozes
TikTokPensa as personagens em camadas, porque assim fica mais fácil entender como cada uma reage ao mundo em volta e como os outros reagem a ela.
@a.g.ferreiraaTikTok ↗
TikTokDá dicas para fugir da personagem genérica, de molde, e deixar a história mais própria.
@autora.lyTikTok ↗
TikTokDefende criar personagens que não sejam só um nome no papel, mas pessoas vivas na cabeça de quem lê, e responde a uma seguidora que pediu o assunto.
@leize.heitlingTikTok ↗
YouTubePara quem sente que as personagens saíram rasas, genéricas ou pouco envolventes, mostra como aprofundar a psicologia delas com ajustes práticos.
Olivia LoberYouTube ↗
YouTubeConta que, ao reescrever o próprio livro, descobriu que personagens reais dependem da motivação, e mostra como a atualizou junto com o mundo da história.
Lendas & LoreYouTube ↗
YouTubeAbre uma série sobre como escrever personagens pela empatia: o que aproxima a personagem de quem lê.
raoni marqsYouTube ↗
O que está acontecendo
- Carrie: Duas teorias do livro são confirmadas na nova adaptação ↗
Novidade, que já está disponível no Prime Video, é comandada por Mike Flanagan, de A Maldição da Mansão Hill e Missa da Meia-Noite
- "Traçando Veríssimo": mostra revela o processo criativo do cronista | Radioagência Nacional ↗
“A passa é a múmia da fruta”. Frases como essa, escritas à mão em cadernos de rascunho dão uma noção do processo criativo de uma das mentes mais geniais do humor brasileiro. Criador de personagens como o analista de Bagé, Ed Mort e a família Brasil, Luis Fernando Veríssimo escreveu mais de 80 livro…
- Há 30 anos, Taís Araújo vivia 1.ª protagonista negra de novela no Brasil em ‘Xica da Silva’ ↗
Relembre crise nos bastidores da produção e como fato histórico foi (pouco) abordado à época
- A febre Raphael Montes: o sucesso, o cinema e seu novo romance, ‘A Estranha na Cama’ ↗
Autor se aproxima dos 36 anos com três projetos importantes, dá nome a uma coleção de suspense na maior editora do país, acaba de ganhar uma edição especial do seu livro favorito e de lançar um novo romance na Bienal do Livro de São Paulo.
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Lidas no texto integral
- Aristóteles, Poética, VI e XV (trad. inglesa S. H. Butcher, Macmillan, 1895, p. 25–27 e 51; archive.org).
- Lajos Egri, The Art of Dramatic Writing (ed. de 1942 digitalizada no archive.org), Introdução, p. xiv; p. 32–37; cap. "Plot or Character: Which?", p. 92–96.
- E. M. Forster, Aspects of the Novel (Harcourt, 1927), caps. IV e V.
- Henry James, prefácio de The Portrait of a Lady (New York Edition, 1908), em The Art of the Novel (Scribner, 1934).
- Wayne C. Booth, The Rhetoric of Fiction (University of Chicago Press, 1961), sumário.
- Orson Scott Card, Characters & Viewpoint (Writer's Digest Books, 1988), p. 113.
- Robert McKee, Story (1997); no Brasil, Arte & Letra, 2006.
- John Truby, The Anatomy of Story (2007); no Brasil, Anatomia da história (Seiva, 2024). K. M. Weiland, Creating Character Arcs (2016). Lisa Cron, Story Genius (2016).
- David Corbett, The Art of Character (Penguin, 2013), e "How to Craft Compelling Characters", Writer's Digest.
- Purdue Online Writing Lab, "Writing Compelling Characters".
- Edgar Allan Poe, "The Philosophy of Composition" (1846).
- Antonio Candido, "A personagem do romance", em A personagem de ficção (Perspectiva), na leitura de Elvis Paulo Couto, Cadernos do IL, n. 58, 2019.
- Parul Sehgal, "The Case Against the Trauma Plot", The New Yorker, 27/12/2021.
- Aatif Rashid, "In Defense of Flat Characters", Kenyon Review, 27/08/2018.
- Vladimir Nabokov, "The Art of Fiction No. 40", The Paris Review, n. 41, 1967.
- William Faulkner, aula na Universidade da Virgínia, 21/02/1958 (Faulkner at Virginia, transcrição).
- Zadie Smith, "That Crafty Feeling", Columbia University, 2008 (The Believer, jun. 2008; Changing My Mind, 2009).
- Stephen King, "The Art of Fiction No. 189", The Paris Review, n. 178, 2006.
- Itamar Vieira Junior, entrevista a Natália Souza Noro e Marta Aparecida Garcia Gonçalves, Via Atlântica, n. 41, 2022, doi:10.11606/va.i41.188769.
- Raphael Montes, entrevista à Wook/Cultura Editora.
- J. E. Austen-Leigh, A Memoir of Jane Austen (1870), cap. X.
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VERSE MEDIA. Como criar personagens para um livro. Enciclopédia Verse, 23 set. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/personagem/como-criar-personagens. Acesso em: [data].
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