Hamartia
Hamartia é o erro sem vício nem maldade que leva o herói da tragédia grega da boa à má fortuna, segundo a Poética de Aristóteles. A palavra vem do verbo grego hamartánō, errar o alvo, dito de uma lança que não acerta. A crítica de língua inglesa a chamou de tragic flaw, falha trágica, uma leitura de caráter; em 1975 já era consenso lê-la como erro, e esse consenso ainda tem contestação.
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Origem: o capítulo 13 da *Poética*
Aristóteles usa a palavra ao descrever o melhor enredo trágico. O herói ideal fica entre dois extremos: não se destaca pela virtude e pela justiça, e cai no infortúnio não por vício ou perversidade, mas por alguma hamartia; é alguém de grande reputação e fortuna, como Édipo. Linhas depois, ele insiste: a mudança deve ir da boa para a má fortuna, não por vício, mas por uma grande hamartia. Na tradução brasileira de referência, de Eudoro de Souza, o herói cai "não porque seja vil e malvado, mas por força de algum erro".
O que Aristóteles entende por erro aparece em outro livro dele. Na Ética a Nicômaco, ele separa três jeitos de causar dano: o acidente, que ninguém poderia prever; o erro (hamártēma), feito sem má intenção, mas por uma ignorância cuja causa está no próprio agente; e a injustiça, feita sabendo. É por essa passagem que a pesquisadora Filomena Yoshie Hirata, da USP, entre outros, lê a hamartia da Poética como um erro nascido de não saber alguma coisa.
Erro ou falha de caráter?
A leitura que prevaleceu no século 20 é a do erro; a da falha de caráter veio das traduções e da crítica de Shakespeare, e ainda há quem estenda a palavra ao defeito moral.
A leitura moral é antiga. As primeiras traduções latinas da Poética verteram hamartia por peccatum, scelus e flagitium, palavras de pecado e crime, segundo Hirata. Na tradução inglesa canônica, de S. H. Butcher (1895), a palavra virou error or frailty, erro ou fraqueza, e a fraqueza abriu a porta para ler um traço de caráter. Hirata liga o tragic flaw aos heróis de Shakespeare: Hamlet arruinado pela indecisão, Macbeth pela ambição, Otelo pelo ciúme. O crítico que mais pesou nessa leitura foi A. C. Bradley, que em Shakespearean Tragedy (1904) descreveu nesses heróis uma tendência fatal a se identificar por inteiro com um único interesse, paixão ou hábito. A expressão tragic flaw não aparece no livro; Bradley fala em erro trágico, mas um erro que vai da precipitação de Romeu à ambição assassina de Ricardo III, e que portanto inclui o caráter.
A pesquisa sobre Aristóteles trocou essa leitura pela do erro. Em 1969, o helenista Jan Maarten Bremer publicou um livro inteiro sobre o termo, com o subtítulo Tragic Error. No Brasil, Eudoro de Souza, desde a sua tradução de 1966, seguiu a tese do classicista Gerald Else: o erro não é parte do caráter do herói, mas parte da estrutura do enredo, e pode ter acontecido antes da ação, como em Édipo, cujo erro vem de anos antes da peça. Hirata explica a origem do equívoco: leu-se o capítulo 13 como um estudo sobre o herói, quando ele é uma reflexão sobre o enredo; e, a rigor, só uma tragédia que sobreviveu tem a hamartia aristotélica, Édipo Rei.
O helenista T. C. W. Stinton contestou o consenso já em 1975. Ele registrava que era geral a leitura da hamartia como erro de fato e propôs mostrar que ela restringe Aristóteles: para ele, a palavra cobre um espectro que vai da ignorância de um fato ao defeito moral.
O caso de Hipólito, de Eurípides, mostra a diferença na prática. O herói tem o que se chamaria de falha trágica, a pureza devotada a Ártemis que vira desprezo por Afrodite, um defeito que, para o helenista W. S. Barrett, citado por Hirata, é o avesso da virtude; para Hirata, isso não é hamartia nem causa da queda, porque a responsabilidade se divide com duas deusas.
Hamartia, hybris e os vizinhos da tragédia
Hamartia e hybris se opõem pela intenção. Segundo o Oxford Classical Dictionary, que cita a definição de Aristóteles na Retórica, hybris é fazer ou dizer coisas que envergonham a vítima pelo prazer disso, uma ofensa deliberada contra a honra de outro, e o termo cobre tanto o ato quanto uma disposição. O classicista Douglas Cairns, num artigo cujo título liga hybris a pensar grande (Thinking Big), discute e em parte contesta o estudo de referência de N. R. E. Fisher. A hamartia fica do outro lado: um erro sem má intenção, e é nela que a Poética põe a queda do herói trágico.
Eudoro, seguindo Else, lê a hamartia como correlato da anagnórise, o reconhecimento; Hirata explica que a ignorância que mais conta é a da identidade de alguém, e que por isso a hamartia só aparece no enredo complexo, o que tem peripécia e reconhecimento.
Hamartia na Bíblia
Fora da tragédia, hamartía é uma das palavras que o Novo Testamento usa para pecado. O léxico grego de Liddell, Scott e Jones registra primeiro os sentidos de falha e falta, e, com dóxēs, de erro de julgamento em Tucídides; o sentido de culpa ou pecado aparece na filosofia e na religião, em Platão, no próprio Aristóteles da Ética a Nicômaco, na tradução grega da Bíblia hebraica e no Evangelho de João. A ordem do léxico sugere que o pecado é um sentido desenvolvido a partir da ideia de errar o alvo.
Para quem escreve
As duas leituras servem à ficção, e de modos diferentes. A do erro produz a queda de quem age de boa-fé sem saber de algo, como Édipo, que mata o pai e se casa com a mãe sem saber quem eles são; a investigação da peça só traz o reconhecimento. A do caráter produz a queda empurrada por um traço, e é assim que o dramaturgo Lajos Egri relê o mesmo Édipo, esquentado e teimoso, no guia de como criar personagens, que faz parte do sistema Personagem.
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O guia completoComo criar personagens para um livro — Uma personagem funciona quando chega à primeira cena querendo alguma coisa e disposta a pagar por ela.Termos vizinhos
Em breve
Lidas no texto integral
- Aristóteles, Poética, cap. 13, 1453a7-22; texto grego e tradução de S. H. Butcher (Macmillan, 1895, p. 42–43; archive.org). Tradução de Eudoro de Souza, em Os Pensadores (Abril, 1973), cap. XIII, §70–71, e comentário (primeira edição: Globo, 1966).
- Aristóteles, Ética a Nicômaco, 5.8, 1135b11-25, trad. H. Rackham (Loeb, 1934; Perseus).
- Liddell, H. G.; Scott, R.; Jones, H. S. A Greek-English Lexicon (Oxford, 1940), s.v. ἁμαρτάνω e ἁμαρτία (Perseus).
- A. C. Bradley, Shakespearean Tragedy (Macmillan, 1904), Lecture I (Project Gutenberg).
- Filomena Yoshie Hirata, "A hamartía aristotélica e a tragédia grega", Anais de Filosofia Clássica (UFRJ), 2(3), 2008, p. 83–96.
- T. C. W. Stinton, "Hamartia in Aristotle and Greek Tragedy", The Classical Quarterly, 25(2), 1975, p. 221–254. doi:10.1017/S0009838800030068 (abertura do artigo).
- "Hybris", Oxford Classical Dictionary (2015). doi:10.1093/acrefore/9780199381135.013.3172 (resumo; cita Aristóteles, Retórica 2.2). Douglas Cairns, "Hybris, Dishonour, and Thinking Big", Journal of Hellenic Studies 116, 1996 (resumo).
- J. M. Bremer, Hamartia: Tragic Error in the Poetics of Aristotle and in Greek Tragedy (Hakkert, 1969) (referência bibliográfica).
- W. S. Barrett, Euripides' Hippolytus (Oxford, 1964), citado por Hirata.
VERSE MEDIA. Hamartia. Enciclopédia Verse, 23 set. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/personagem/hamartia. Acesso em: [data].
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