Arco de personagem: como construir a mudança (e quando ela não muda)
Arco de personagem é a mudança da natureza interior da personagem ao longo da história, para melhor ou para pior, na definição de Robert McKee, autor de Story; o dramaturgo Lajos Egri chamava isso de crescimento. Nem toda personagem precisa mudar: Egri admite a que muda pouco e obriga as outras a mudar, e Weiland, autora de manuais, chama de arco plano o da que já sabe a verdade. Quando muda, Egri quer semente desde o começo, e a romancista Nancy Kress, um ato e uma prova no fim.
Este guia foi feito com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados do ofício, como Aristóteles, Lajos Egri, E. M. Forster, Robert McKee, John Truby, Michael Hauge, K. M. Weiland e Nancy Kress; no Brasil, os estudos de Antonio Candido e Roberto Schwarz e os romances de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Lima Barreto.
Você chegou ao último capítulo e a personagem precisa ser outra pessoa, porque todo manual diz que ela tem de mudar. Escreveu a cena da virada e, relendo, a mudança parece cair do céu. Ou ela termina igual ao que começou, e você já não sabe se isso é um defeito ou é o livro.
- Saber se a personagem precisa mudar e, se precisa, de onde para onde: a crença errada do começo, o ponto em que a história a obriga a encará-la, a escolha do fim que prova a mudança
- e um diagnóstico para conferir o arco no rascunho.
Leu que todo protagonista precisa de arco, escreveu uma virada no último capítulo e o leitor de teste disse que a mudança veio do nada; ou a personagem é a mesma do começo ao fim e ele não sabe se isso é defeito.
Nesta página
- O que é arco de personagem (e é o mesmo que desenvolvimento de personagem)?
- A personagem precisa mudar?
- O que faz a personagem mudar: a mentira, a verdade e a autorrevelação
- Quais são os tipos de arco de personagem?
- Como fazer um arco de personagem ao longo da história?
- Como fazer a mudança convencer?
- E quando a personagem não muda?
- Como a literatura brasileira mostra a mudança?
- Como saber se o arco está funcionando: o diagnóstico
- Perguntas frequentes
- O que fazer com isso
Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.
O que é arco de personagem (e é o mesmo que desenvolvimento de personagem)?
Para Robert McKee, professor do seminário Story e autor do livro Story (1997), a melhor escrita não só revela o caráter verdadeiro da personagem como "arcs or changes that inner nature, for better or worse" (arqueia ou muda essa natureza interior, para melhor ou para pior) ao longo da narrativa. É dele também a régua de chegada: no clímax, as escolhas que a personagem fez já mudaram profundamente a humanidade dela.
Meio século antes, o dramaturgo e professor húngaro-americano Lajos Egri deu ao mesmo movimento o nome de crescimento. Em The Art of Dramatic Writing, o livro que Woody Allen chamou de o melhor já escrito sobre o assunto, ele o define como a reação da personagem a um conflito em que está metida, e acrescenta que ela pode crescer pelo movimento certo ou pelo errado, mas "he must grow, if he is a real character" (precisa crescer, se é uma personagem de verdade). Para Egri, toda boa peça cresce de um polo a outro: do ódio ao amor, da timidez à desfaçatez, da fidelidade à infidelidade.
Na Poética, o arco descrito não é de interior. Aristóteles fala da mudança de fortuna: a tragédia perfeita leva um homem nem perfeitamente bom nem mau da prosperidade à adversidade, por causa de um grande erro, a hamartia, e não de um vício. A disputa entre Aristóteles, que punha o enredo antes do caráter, e Egri, que inverteu a ordem, está no guia sobre como criar personagens.
"Desenvolvimento de personagem" se usa em português nos dois sentidos: o trabalho de construir a personagem, assunto do guia sobre como criar personagens, e a mudança dela ao longo da história, assunto desta página (leitura nossa do uso). Nancy Kress, romancista de ficção científica e autora de Dynamic Characters, divide as personagens entre as que mudam (changers) e as que ficam (stayers), e as duas podem ter motivações que avançam. E arco narrativo é termo de vários sentidos: a estrutura da linguagem de um texto, a curva de emoção da história e, nos guias de escrita, a própria mudança da personagem.
A personagem precisa mudar?
Para Egri, sim; para Lee Child, criador do detetive Jack Reacher, não necessariamente; e o próprio Egri admite uma personagem que muda bem menos. Ninguém, escreve Egri, atravessou uma série de conflitos que afetassem seu modo de viver e continuou o mesmo; por necessidade, a personagem muda.
A personagem que muda menos é a pivô, a que move a ação. Ela cresce muito menos do que as outras, porque já tomou sua decisão antes de a história começar: "He is the one who forces the others to grow" (é ela quem força as outras a crescer). O exemplo de Egri é o filme Juarez (1939), em que o presidente mexicano empurra o imperador Maximiliano para a mudança.
Na ficção de gênero, há quem dispense o arco. Num painel sobre mudança de personagem no congresso Bouchercon, relatado por James Scott Bell, autor de Write Great Fiction: Plot & Structure, no blog The Kill Zone em 2010, Lee Child disse que não precisa haver mudança: "We don't need no stinkin' arcs" (a gente não precisa de arco nenhum). Bell concordou que a protagonista não precisa mudar de modo fundamental, e Joe Moore, também do blog, escreveu nos comentários que quer constância na personagem de série.
O que Egri condena é a personagem estática, e ele a define pela falta de decisão. A mulher que percebe que a própria vida é estéril e chora andando pelo quarto, sem fazer nada a respeito, é estática por mais bonitas que sejam as falas que o autor lhe der: "Grief is not enough to create conflict; we need a will" (a dor não basta para criar conflito; é preciso uma vontade). Quando a personagem decide e muda, a pergunta seguinte é o que a faz mudar.
O que faz a personagem mudar: a mentira, a verdade e a autorrevelação
Para K. M. Weiland, autora da série de manuais Helping Writers Become Authors e de Creating Character Arcs (2016), a mudança começa numa crença errada, que ela chama de Mentira, e termina numa percepção. A Mentira é uma crença específica sobre si ou sobre o mundo, que deve caber numa frase curta e que fica entre a personagem e o que ela quer.
Scrooge, de Um conto de Natal, acredita que o valor de um homem se mede pelo dinheiro que ganhou. "The Lie is the reason for all character arcs" (a Mentira é a razão de todo arco), escreve Weiland, e o que a personagem precisa é a Verdade que a desmente, quase sempre nada mais do que uma percepção.
O consultor de roteiro John Truby, autor de The Anatomy of Story (2007; no Brasil, Anatomia da história), põe as duas pontas do arco no mesmo eixo: a necessidade é o começo da mudança, e a autorrevelação, o momento em que o herói cresce como ser humano, é o fim dela. A necessidade é a marca da imaturidade do herói no início. Truby observa ainda que o herói costuma estar errado, no começo, sobre a razão verdadeira de perseguir a meta, e que precisa ver através da grande ilusão em que vive para vencer a grande fraqueza.
Michael Hauge, consultor de roteiro e autor de Writing Screenplays That Sell, põe a mudança em outro lugar: a passagem gradual do medo à coragem, "from identity to essence" (da identidade à essência). Para ele, a ferida leva a personagem a montar uma identidade, a máscara que apresenta aos outros para se sentir segura, e a essência é quem ela é por baixo. Em Gênio indomável, o exemplo dele, o arco se completa quando Will deixa Skylar ver quem ele é.
Na nossa leitura, Weiland e Truby põem a mudança numa percepção, a Mentira desfeita, a autorrevelação; Hauge, num ato de coragem, largar a máscara. Pelas datas, a sequência vai do trajeto de polo a polo de Egri à necessidade e à autorrevelação de Truby (2007) e à Mentira de Weiland, cujos posts sobre o tema são de 2014.
A relação entre o que a personagem quer e o que ela precisa está no guia sobre como criar personagens, e a crítica ao excesso de ferida no romance contemporâneo, na seção sobre quanto passado a personagem precisa ter. Weiland lembra que a ferida nem precisa aparecer: em Carros, a origem da crença do protagonista nunca é mostrada.
Quais são os tipos de arco de personagem?
McKee, Egri e Truby concordam que o arco pode ir para os dois lados: McKee fala em mudança para melhor ou para pior, Egri em crescer pelo movimento certo ou pelo errado, e Truby escreve que a autorrevelação faz o herói crescer, a não ser que o conhecimento seja tão doloroso que o destrua. Weiland separa cinco arcos, no livro de 2016 e num resumo de 2019 no blog dela: dois que chama de heroicos, o de mudança positiva e o plano, e três negativos, de desilusão, de queda e de corrupção.
Truby põe numa frase só a autorrevelação que faz crescer ou destrói; Weiland separa o desfecho negativo em três arcos, conforme o que a personagem faz com a Verdade. A tabela resume os cinco pelo desfecho, com os exemplos que a própria Weiland dá.
| arco | o que acontece com a crença | exemplo de Weiland |
|---|---|---|
| mudança positiva | ela supera a Mentira, e a Verdade a liberta | Now, Voyager (1942) |
| plano | ela já tem a Verdade e a usa contra a Mentira do mundo | Gladiador |
| desilusão | ela supera a Mentira, e a Verdade é trágica | A rainha (2006) |
| queda | ela se agarra à Mentira e termina numa pior | O morro dos ventos uivantes |
| corrupção | ela vê a Verdade e escolhe a Mentira | Michael Corleone, em O poderoso chefão |
Os três últimos são variantes do arco negativo. Egri chama de positivo o crescimento de Nora, de Casa de bonecas, e mostra o do rei Lear como o desenvolvimento lógico de um erro, que vai da dúvida à fúria e à loucura. O de Scrooge é o positivo comprimido numa noite: o "tight-fisted hand at the grind-stone" (mão fechada no rebolo) da primeira estrofe diz, na quarta, "I am not the man I was" (não sou mais o homem que eu era).
O de Policarpo Quaresma, no romance de Lima Barreto (1915), cabe na desilusão (leitura nossa): preso e condenado, o major revê a vida e conclui que "a pátria que quisera ter era um mito", um fantasma criado por ele no silêncio do gabinete. O arco de quem cai e se reergue tem nome próprio, arco de redenção.
Arcos prontos, positivos, negativos e planos, lidos em livros e filmes conhecidos, estão nos exemplos de arco de personagem; aqui eles servem de prova, um por tipo.
Como fazer um arco de personagem ao longo da história?
Truby manda decidir a mudança pelo fim, e Weiland a compromete cedo, no primeiro grande ponto de virada. Para Truby, o primeiro passo é a autorrevelação, no fim da história; só depois se volta ao começo para fixar a necessidade e o desejo.
Weiland põe o compromisso no primeiro plot point. É ali que a história arranca a personagem da acomodação e a põe no caminho de destruir a Mentira, saiba ela ou não; dali em diante, cada recuo para os velhos medos tem consequência. Em Um conto de Natal, é a chegada do Fantasma do Natal Passado. O meio da história é assunto do guia sobre tensão narrativa.
Entre o compromisso e o fim, Egri pede gradação. Em Casa de bonecas, do dramaturgo Henrik Ibsen, ele acompanha Nora da irresponsabilidade à ansiedade, da ansiedade ao medo, do medo ao desespero, até a decisão final e irrevogável, "as logical as the blooming of a flower" (lógica como o desabrochar de uma flor): "Growth is evolution; climax is revolution" (crescimento é evolução; clímax é revolução). No rei Lear, o erro do começo, dividir o reino e pedir palavras em vez de atos, gera dúvida, suspeita, fúria, vergonha e loucura, e cada erro nasce do anterior.
McKee fecha a conta no clímax. No exemplo dele, Frank Galvin, de O veredicto, sai da batalha no tribunal transformado num advogado sóbrio, ético e excelente; Hamlet chega a uma maturidade serena quando a inteligência viva amadurece em sabedoria.
O arco também pode terminar no limiar. O romancista russo Fiódor Dostoiévski leva Raskólnikov até o ponto em que ele se sente renascido e encerra Crime e castigo avisando que o resto, a renovação gradual de um homem, "is the beginning of a new story" (é o começo de uma nova história). O livro entrega a decisão de mudar e deixa a mudança fora dele.
Como fazer a mudança convencer?
Kress põe a prova da mudança nos acontecimentos da história; Aristóteles e Egri, na coerência da própria personagem. Para Kress, a mudança precisa vir em resposta a acontecimentos, a personagem precisa reagir a eles com emoção, a mudança tem de ser dramatizada, mostrada em coisas que ela passa a fazer e antes não fazia, e no fim é preciso uma validação que prove que ela não é passageira. Para chegar lá, Kress repete o conselho de Somerset Maugham: "Devise incidents" (invente incidentes).
Aristóteles admitia a personagem inconstante, desde que fosse coerentemente incoerente. Egri mostra que tudo o que Nora faz no fim já estava discernível nela no começo da peça. E o romancista E. M. Forster, de Aspects of the Novel (1927), deu o teste da personagem redonda: ela é "capable of surprising in a convincing way" (capaz de surpreender de modo convincente).
Dois sinais de mudança que não convence, com um caso e uma contraprova:
- A mudança chega tarde. Egri critica Idiot's Delight, de Robert E. Sherwood, que ganhou o Pulitzer: não se vê crescimento possível nas personagens, e quando ele aparece, no fim, a peça já acabou.
- A mudança é anunciada, não feita. A contraprova está em Orgulho e preconceito, em que a mudança de Elizabeth Bennet tem um ato na página: ela lê a carta de Darcy, relê, e se reconhece cega, parcial e vaidosa, "Till this moment, I never knew myself" (até este momento, eu nunca me conheci).
E quando a personagem não muda?
Para Weiland, a personagem que não muda pode mudar os outros; para Egri, a pivô, que cresce menos que as outras, é a que as força a crescer; Kress lista personagens que não mudam e funcionam. No arco plano de Weiland, a personagem já sabe a verdade e a usa para mudar o mundo em volta. Respondendo a um leitor, Weiland disse que no romance policial esse parece ser o arco mais comum: a crença do detetive de que a justiça deve ser feita é a Verdade que não muda. Entre os exemplos de Kress estão James Bond, que vive para a missão, e Jane Eyre, de personalidade firme e motivações que mudam.
O arco plano não é a personagem plana de Forster, construída em torno de uma única ideia; no arco plano de Weiland, a personagem só não muda, porque já sabe a verdade. Também não é a estática de Egri, que sofre e não faz nada: falta a ela vontade.
A literatura brasileira tem um caso em que a não mudança é a tese do narrador. No último capítulo de Dom Casmurro (1899), do romancista Machado de Assis, Bento conclui que a Capitu adulta já estava dentro da menina "como a fruta dentro da casca".
Como a literatura brasileira mostra a mudança?
Antonio Candido, crítico e professor da USP, lê S. Bernardo como confissão, e o crítico Roberto Schwarz lê o ciúme de Bentinho como devastação. Candido, autor de Formação da literatura brasileira (1959), vê no romance de Graciliano Ramos (1934) a análise psicológica do sentimento de propriedade numa personalidade incansável: Paulo Honório é a forma de uma força que o transcende e em função da qual ele vive.
Para Candido, o drama do livro é a negação desse sentimento. Madalena, com quem Paulo Honório se casa por amor, desafia as hierarquias da fazenda; o ciúme dele é a extensão da posse; e da violência de Paulo Honório contra Paulo Honório nasce o livro, pelo desejo de confissão, como resume um artigo de 2020 na Revista de Literatura, História e Memória.
Graciliano abre o romance com o fazendeiro tentando escrevê-lo do jeito que administra a fazenda, "pela divisão do trabalho": cada amigo com uma tarefa, ele com o plano e o nome na capa. Num trecho do capítulo final citado por José Weis no Extra Classe (2024), o mesmo homem faz o balanço de cinquenta anos perdidos, gastos sem objetivo, maltratando a si mesmo e aos outros.
Em Machado de Assis, a mudança é contada por quem mudou. Bento abre Dom Casmurro dizendo que seu fim evidente era "atar as duas pontas da vida", restaurar na velhice a adolescência. Schwarz, em Duas meninas (1997), lê nele um ciúme que era um entre os vários destemperos do menino e que, somado à autoridade do proprietário e marido, vira força de devastação.
Lima Barreto conta a mudança de fora. Quaresma não narra o próprio livro, e a desilusão chega a ele em terceira pessoa, preso, quando entende que a vida inteira foi um encadeamento de decepções.
Como saber se o arco está funcionando: o diagnóstico
A tabela transforma em perguntas sobre o rascunho o que cada mestre sustenta (a formulação das perguntas e o teste por cena logo abaixo são nossos, montados a partir de Weiland e Kress). Cada linha tem a pergunta, o que a resposta "não" indica e quem sustenta a leitura.
| pergunta sobre o rascunho | se a resposta é não | quem sustenta | caso |
|---|---|---|---|
| No começo, ela acredita em algo errado sobre si ou sobre o mundo? | ela já sabe a verdade: o arco é plano, e quem muda é o mundo em volta | Weiland (arco plano); Egri (a pivô) | Juarez, para Egri |
| Ela decide e age diante do que a faz sofrer? | personagem estática: falta vontade | Egri ("we need a will") | a mulher que chora no quarto, de Egri |
| Os acontecimentos testam essa crença, a partir de um ponto de virada? | a mudança não tem causa na história | Kress (resposta a acontecimentos); Weiland (primeiro plot point) | Scrooge e o Fantasma do Natal Passado |
| A mudança aparece num ato que ela antes não fazia? | a mudança foi anunciada, não dramatizada | Kress | Elizabeth relendo a carta de Darcy |
| Há, no fim, uma prova de que a mudança não é passageira? | falta a validação final | Kress; McKee (o clímax) | Frank Galvin, em O veredicto |
| A virada tinha semente no começo? | a mudança cai do céu | Egri (as sementes); Aristóteles (a coerência) | Nora, em Casa de bonecas |
| Dá para dizer se a verdade nova a liberta, a desilude ou a destrói? | o arco ainda não tem tipo | Weiland (cinco arcos); Truby (a autorrevelação que destrói) | Scrooge, Quaresma, Lear |
| Ela é personagem de livro único? | é de série: para Lee Child e Joe Moore, a constância é aceitável | Lee Child; Joe Moore | Jack Reacher |
O teste por cena aplica a crença de Weiland e a dramatização de Kress, uma cena de cada vez:
Cena: ______
1. Qual crença da personagem esta cena pressiona? ______ (a mesma das outras cenas?)
2. O que ela faz por causa dessa crença? ______
3. O que isso custa a ela? ______
4. Ela age diferente do que agiria no começo do livro? ______ (se sim, a mudança está dramatizada)
Perguntas frequentes
Todo personagem precisa ter um arco?
Não. Nancy Kress divide as personagens entre as que mudam e as que ficam, e dá James Bond e Jane Eyre como personagens que funcionam sem mudar de personalidade. O que nenhuma pode é sofrer sem decidir nem agir: essa é a personagem estática, que Lajos Egri condena.
O detetive de série que não muda é um defeito?
Para Lee Child, criador de Jack Reacher, não: num painel relatado por James Scott Bell, ele disse que não precisa haver mudança. K. M. Weiland acha que no policial o arco plano é o mais comum, porque a crença do detetive de que a justiça deve ser feita não muda; nesse arco, quem muda é o mundo em volta.
Qual a diferença entre arco de personagem e arco narrativo?
O arco de personagem é a mudança interior dela. Arco narrativo é termo mais largo: nomeia a curva de emoção da história, a estrutura da linguagem de um texto e, nos guias de escrita, também essa mudança. Os três sentidos, com os estudos que mediram a forma das histórias, estão em arco narrativo.
O que é a mentira do personagem?
É o nome que K. M. Weiland dá à crença errada que a personagem carrega no começo e que a impede de conseguir o que quer; deve caber numa frase curta. Scrooge acredita que o valor de um homem se mede pelo dinheiro; o arco é a Verdade desfazendo essa crença.
O que é arco de redenção?
É o nome do arco de quem cai e se reergue; origem do termo e casos estão em arco de redenção. Nesta página, o caso mais próximo é Raskólnikov, que no epílogo de Crime e castigo se sente renascido e que Dostoiévski deixa no começo de uma nova história.
Como saber se o arco está funcionando?
Pelas perguntas do diagnóstico: a crença errada do começo, a decisão, o teste pelos acontecimentos, o ato que mostra a mudança e a prova final, que Nancy Kress chama de validação. Cada resposta "não" aponta o que falta no rascunho.
Onde ver exemplos de arco de personagem?
Nesta página há um por tipo: Scrooge (positivo), Gladiador (plano), Policarpo Quaresma, lido aqui como desilusão, O morro dos ventos uivantes (queda) e Michael Corleone (corrupção). O catálogo, com a cena em que a mudança acontece, está nos exemplos de arco de personagem.
O que fazer com isso
Para aplicar o que Weiland ensina, a primeira decisão é de quem é a crença errada: no arco plano, a verdade já está com a personagem e quem muda é o mundo; nos outros, a Mentira é dela. Truby manda começar pela autorrevelação do fim e só depois voltar ao começo para fixar a necessidade e o desejo. O diagnóstico acima reúne as perguntas para conferir o rascunho. Quem a personagem é antes de mudar está no guia sobre como criar personagens; o papel dela no conflito, de protagonista a vilã, no guia sobre protagonista, antagonista, vilão e anti-herói.
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Guias que saem daqui
Também nesta enciclopédia
Termos usados nesta página
Quem fala sobre isso 6pessoas
- K. M. Weilandromancista norte-americana de ficção histórica e especulativa; publica guias de escrita pela própria editora, PenForASword (2016)
Obra sobre o tema: Creating Character Arcs, 2016, livro sobre os arcos de mudança positiva, plano e negativo.
Página ↗ - Lajos Egri †dramaturgo e professor de escrita criativa húngaro-americano (1888–1967)
Obra sobre o tema: The Art of Dramatic Writing, 1942, com o capítulo "Character Growth" sobre a mudança da personagem de um polo a outro.
Página ↗ - Michael Haugeconsultor de roteiro e de história norte-americano; autor de Writing Screenplays That Sell (1991) e Selling Your Story in 60 Seconds
Obra sobre o tema: "Understanding Inner Conflict", 2016, artigo sobre a transformação gradual da personagem, da identidade à essência.
Página ↗ - James Scott Bellromancista e professor de escrita norte-americano, ex-advogado; foi colunista de ficção da Writer's Digest e lecionou escrita na Pepperdine University
Obra sobre o tema: "Writers of the Lost Arc", The Kill Zone, 2010, post sobre quando a protagonista precisa ou não mudar.
Página ↗ - Dara Marksconsultora de roteiro norte-americana; conduz o curso Inside Story, ligado ao livro
Obra sobre o tema: Inside Story: The Power of the Transformational Arc, livro sobre o arco de transformação da personagem.
Página ↗ - Nancy Kressescritora de ficção científica norte-americana (nascida em 1948); colunista da Writer's Digest
Obra sobre o tema: "4 Ways to Motivate Characters and Plot", Writer's Digest, artigo sobre personagens que mudam e personagens que não mudam.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
YouTubeArco de personagem são as mudanças internas que a personagem atravessa ao longo da história até se tornar um ser humano "completo".
FicçomosYouTube ↗
YouTubeAvisa quem acha que toda personagem precisa mudar para a história ser boa: há quatro tipos de arco, positivo, plano, negativo e aberto, e cada um sustenta uma narrativa forte.
Ficção em focoYouTube ↗
YouTubeCompara o arco positivo com o neutro, a partir de Weiland, e mostra o que Katniss Everdeen e Soluço têm em comum: os dois provocam mudança no mundo em que vivem.
Olivia LoberYouTube ↗
YouTubeDefende que, à medida que os conflitos acontecem, a personagem precisa mudar para conseguir enfrentá-los, e que essa mudança tem de estar sob controle de quem escreve; por isso apresenta três tipos de arco.
Marcus BeckYouTube ↗
TikTokPede que os seguidores contem o arco da própria personagem, positivo, negativo ou neutro, e lembra que ele vai pesar na história inteira: tudo depende de qual história se quer contar.
@autorjefersonlimaTikTok ↗
TikTokDiz que nenhuma personagem funciona se não muda: o arco é o percurso emocional e psicológico de como ela se transforma, o que perde e o que aprende, e vale tanto para romance quanto para série.
@_paolavinciTikTok ↗
O que está acontecendo
- A Leste do Éden na Netflix traz Florence Pugh como Cathy ↗
A Leste do Éden na Netflix adapta o clássico de John Steinbeck com Florence Pugh, mas sua abordagem de Cathy enfraquece o dilema moral da obra.
- Carrie: Duas teorias do livro são confirmadas na nova adaptação ↗
Novidade, que já está disponível no Prime Video, é comandada por Mike Flanagan, de A Maldição da Mansão Hill e Missa da Meia-Noite
- "Depois Daquele Ano" amplia arcos de personagens pouco explorados no livro ↗
Nova série do Prime Video é uma adaptação do livro "Depois Daquele Verão", de Carley Fortune
- "Off Campus": as principais diferenças entre a nova série e os livros ↗
Adaptação foi lançada pelo Prime Video nesta quarta-feira (13)
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Lidas no texto integral
- Aristóteles, Poética, caps. XIII e XV, trad. inglesa de S. H. Butcher (Macmillan; archive.org).
- Lajos Egri, The Art of Dramatic Writing (edição de 1942 digitalizada no archive.org), p. 49, 60–61, 70, 73–75, 108–110, 136–137.
- E. M. Forster, Aspects of the Novel (Harcourt, 1927), cap. IV.
- Robert McKee, Story (ReganBooks, 1997), "Structure and Character", trecho publicado com permissão pela Writers Store, 24/11/2020.
- K. M. Weiland, "Creating Stunning Character Arcs", partes 2, 3, 4 e 8, Helping Writers Become Authors, 16/02, 23/02, 02/03 e 30/03/2014; "Learn 5 Types of Character Arc at a Glance", partes 1 e 2, 29/07 e 05/08/2019.
- Michael Hauge, "Understanding Inner Conflict with Story Expert Michael Hauge", Writers Helping Writers, 01/11/2016.
- Nancy Kress, "4 Ways to Motivate Characters and Plot", Writer's Digest.
- James Scott Bell, "Writers of the Lost Arc", The Kill Zone, 10/10/2010.
- Charles Dickens, A Christmas Carol (1843), Project Gutenberg #46. Jane Austen, Pride and Prejudice (1813), cap. XXXVI, Project Gutenberg #1342.
- Machado de Assis, Dom Casmurro (Garnier, 1899), caps. II e CXLVIII. Graciliano Ramos, S. Bernardo (Ariel, 1934), cap. I (Wikisource).
- Artigo sobre S. Bernardo e as leituras de Antonio Candido e João Luiz Lafetá, Revista de Literatura, História e Memória (Unioeste), v. 16, n. 28, 2020, p. 256–272.
Lidas em resumo ou pela referência
- Fiódor Dostoiévski, Crime and Punishment (1866), epílogo, trad. Constance Garnett, Project Gutenberg #2554 (por trechos).
- Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), parte III, cap. V, Wikisource (por trechos).
- John Truby, The Anatomy of Story (Faber, 2007); no Brasil, Anatomia da história (Seiva, 2024). Trechos por destaques de leitores.
- K. M. Weiland, Creating Character Arcs (PenForASword, 2016). Nancy Kress, Dynamic Characters (Writer's Digest Books). James Scott Bell, Write Great Fiction: Plot & Structure (Writer's Digest Books, 2004).
- Antonio Candido, "Ficção e confissão", em Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos (Ouro sobre Azul, 2006), p. 32–39.
- Roberto Schwarz, Duas meninas (Companhia das Letras, 1997), p. 29.
- Graciliano Ramos, S. Bernardo, cap. XXXVI, citado por José Weis, Extra Classe, 15/01/2024.
- Eric Lax, Woody Allen: a biography (Da Capo, 2000), p. 74.
- Henrik Ibsen, Casa de bonecas (1879), e William Shakespeare, Rei Lear, na leitura de Egri.
VERSE MEDIA. Arco de personagem: como construir a mudança (e quando ela não muda). Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/personagem/arco-de-personagem-como-muda. Acesso em: [data].
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