Personagem plana e redonda
Personagem plana e redonda é a divisão que o romancista E. M. Forster propôs em Aspects of the Novel (1927): a plana, na forma mais pura, é construída em torno de uma única ideia ou qualidade, e a redonda é a que consegue surpreender de modo convincente. É uma das réguas dos tipos de personagens, ao lado das de ação, de juízo moral e de importância.
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De onde vem a divisão?
Forster apresenta a divisão no capítulo "People": as personagens se dividem em planas e redondas. As planas, escreve, eram chamadas de humours no século 17 e às vezes são chamadas de tipos ou de caricaturas; quando há mais de um fator nelas, começa a curva em direção à redonda. A plana de verdade cabe numa frase: a de Mrs. Micawber é "I never will desert Mr. Micawber" (nunca abandonarei o sr. Micawber); ela diz isso, não abandona, e lá está ela.
O segundo exemplo de Forster é Caleb Balderstone, em The Bride of Lammermoor, o criado que esconde a pobreza da casa do patrão; para Forster, ele não tem existência fora dessa ideia. O terceiro vem de Proust: a princesa de Parma, cuja frase seria "I must be particularly careful to be kind" (preciso ter o cuidado particular de ser gentil).
Qual é o teste da redonda?
O teste, diz Forster, é se a personagem é capaz de surpreender de modo convincente; se nunca surpreende, é plana, e se não convence, é uma plana fingindo ser redonda. Ele lista como redondas as personagens principais de Guerra e paz, todas as de Dostoiévski, Madame Bovary, Tom Jones e Lucy Snowe.
Para mostrar a diferença, Forster compara a condessa de Evan Harrington a Becky Sharp, personagem de Thackeray. Da condessa o leitor lembra a figura e a fórmula, "Proud as we are of dear papa, we must conceal his memory" (orgulhosos do querido papai, precisamos esconder a memória dele); Becky também quer subir na vida, mas não se resume a uma frase, e o leitor a lembra pelas grandes cenas por que passou e por como elas a modificaram.
Plana é defeito?
Para Forster, não necessariamente: as planas têm vantagens, mas são realização menor que as redondas. Elas são fáceis de reconhecer sempre que entram, o leitor as reconhece pelo olho emocional, e ficam na memória depois. Ele as vê como melhores quando cômicas: uma plana séria ou trágica tende a ser enfadonha. Só as redondas, diz ele, estão aptas a atuar tragicamente por muito tempo. Em Jane Austen, Forster acha o exemplo da redondeza: todas as personagens dela são redondas ou capazes de redondeza, e Lady Bertram, de Mansfield Park, plana, vira "a little globe" (um pequeno globo) quando a cena pede. A defesa que ele faz das planas de Dickens está no guia de como criar personagens.
Plana e redonda são o mesmo que arco plano?
Não. A plana de Forster descreve como a personagem é construída; no arco plano, a personagem pode ser redonda e não mudar.
E no Brasil?
A dissertação de Vinício Lima Berbat, da UERJ (2021), registra em seu resumo que críticos como Antonio Candido se apoiaram na tipologia de Forster. A leitura de Candido está no mesmo trecho do guia de como criar personagens.
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O guia completoComo criar personagens para um livro — Uma personagem funciona quando chega à primeira cena querendo alguma coisa e disposta a pagar por ela.Também nesta enciclopédia
Lidas no texto integral
Lidas em resumo ou pela referência
- Vinício Lima Berbat, "Da tipologia à imagologia: personagem e ponto de vista em E. M. Forster", dissertação, UERJ, 2021 (resumo). https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UERJ_17070e72ac0ecc6b48276955f4e727ec
- Guia sobre os tipos de personagens desta enciclopédia.
VERSE MEDIA. Personagem plana e redonda. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/personagem/personagem-plana-e-redonda. Acesso em: [data].
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