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Recursos narrativos: o que são, quais são e quais viraram clichê

Recursos narrativos são as técnicas com que o autor decide o que o leitor sabe, quando sabe e o que move a trama: prenúncio, pista falsa, reviravolta, flashback, MacGuffin e deus ex machina, entre outros. Um recurso vira clichê por dois caminhos: falta de preparo, quando resolve o que a história não plantou, e excesso de uso, quando o leitor reconhece a peça antes do efeito. Em 1928, as regras do romance policial de Van Dine já exigiam culpado com papel de certo destaque e listavam truques gastos.

Você leu que a reviravolta prende o leitor e, na mesma semana, que deus ex machina é erro de iniciante. Tem uma virada pronta para o fim do livro e não sabe se ela é um achado ou um clichê que todo leitor do gênero vai ver chegando.

O que você leva

O mapa dos recursos narrativos por função (o que cada um controla, o que precisa estar plantado antes e quando vira clichê) e três perguntas para testar os recursos do próprio manuscrito.

Pra quem é

Ouviu falar de plot twist, arma de Tchekhov, deus ex machina e MacGuffin como nomes soltos, uns como elogio e outros como insulto, e não sabe o que cada um resolve nem por que o mesmo truque funciona num livro e estraga outro.

Nesta página
  1. O que são recursos narrativos?
  2. Quais são os principais recursos narrativos?
  3. Como usar prenúncio e pista falsa sem entregar o final?
  4. Plot twist ou trapaça: o que faz uma reviravolta convencer?
  5. Como usar flashback sem travar a história?
  6. Quais recursos viraram clichê, e por quê?
  7. Perguntas frequentes
  8. O que fazer com isso
Folhas de um manuscrito sobre uma mesa, com anotações de caneta nas margens
Recurso narrativo é decisão sobre o que o leitor sabe e quando, e essa decisão aparece na revisão do manuscrito. Foto de Ron Lach no Pexels

Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.

O que são recursos narrativos?

Um recurso narrativo é uma decisão sobre informação e tempo: o que o leitor sabe, em que momento, por quem, e o que empurra ou resolve a trama (definição desta página). O nome inglês, plot device, cobre qualquer técnica usada para mover o enredo adiante, na definição de Fred Pfeil em Another Tale to Tell (1990), e o teórico francês Gérard Genette, em Figures III (1972), chama de anacronias as duas formas de mexer na ordem do relato, a volta ao passado (analepse) e a antecipação do futuro (prolepse). Lidas juntas, as duas definições sugerem que o recurso trabalha no nível do enredo, e não no da frase.

Por isso recurso narrativo não é figura de linguagem. A metáfora e a ironia de frase decidem como uma coisa é dita, e moram no guia das figuras de linguagem que o ficcionista usa; o recurso decide o que o leitor fica sabendo. A primeira frase de "Missa do galo" (1894), de Machado de Assis, não tem figura nenhuma e faz trabalho de recurso: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora". O leitor entra no conto sabendo que a cena não vai se resolver, e lê cada fala procurando o que ficou por dizer (leitura nossa).

Também não é tropo. Tropo, na definição desta página, é um conteúdo que se repete entre obras, como o casal que se odeia antes de se amar; o guia sobre o que é trope trata dele. Os traços esperados de um gênero são as suas convenções, e a obra costuma ser bem recebida quando anda na borda delas, sem cumpri-las à risca nem rejeitá-las, segundo Heather Murray no Cambridge Handbook of Literacy (2009). Um mesmo livro pode usar um recurso, como a pista falsa, a serviço de uma convenção do gênero.

As técnicas de narração, como escolher quem conta a história e de que ponto de vista, são vizinhas e se cruzam com os recursos, mas são outra decisão: o guia sobre tipos de narrador trata delas. Separadas as camadas, a lista de recursos pode ser organizada pelo que cada um controla.

Quais são os principais recursos narrativos?

Na divisão desta página, os principais recursos narrativos se agrupam por cinco funções: antecipar o que vem, revelar o que estava escondido, reordenar o tempo, mover a trama e resolvê-la. As colunas "o que precisa estar antes" e "quando vira clichê" são leitura nossa, tirada da tese do topo e dos casos das seções seguintes; os exemplos vêm das obras.

Os doze recursos, pelo que cada um controla
função recurso o que faz o que precisa estar antes quando vira clichê exemplo
antecipar prenúncio sugere o que vem sem dizer um aviso que já tem sentido na cena em que aparece quando o aviso só serve para avisar O Alienista: o narrador diz que ninguém reparou na "frase final do § 4º"
antecipar arma de Tchekhov promete que o objeto mostrado vai servir o objeto com um uso próprio antes do uso decisivo quando a ênfase entrega o fim Panorama visto da ponte, de Arthur Miller: o canivete do primeiro ato mata no segundo
antecipar pista falsa aponta para a conclusão errada uma explicação que o leitor aceite sozinho quando o suspeito é óbvio demais para o leitor do gênero "The Adventure of the Speckled Band": a "faixa" (band) que Helen liga ao bando de ciganos
revelar reviravolta muda a direção do enredo as peças da virada mostradas como outra coisa quando nada a preparou, ou quando é a virada de sempre do gênero "The Gift of the Magi", de O. Henry: ela vende o cabelo para dar a ele uma corrente para o relógio; ele vende o relógio para dar a ela pentes
revelar narrador não confiável dá ao leitor uma só versão, que falha frases verdadeiras com lacunas quando o narrador mente sem deixar rastro O assassinato de Roger Ackroyd: os dez minutos que o narrador não conta
reordenar flashback volta a um fato anterior uma pergunta aberta no presente quando abre o livro ou despeja passado Memórias póstumas de Brás Cubas: a volta ao nascimento no cap. IX
reordenar prolepse antecipa um fato posterior um interesse que sobreviva a saber o fim quando antecipa só para criar mistério A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, começa pelo epílogo
reordenar começo no meio abre com a ação já andando o passado recuperado depois quando o passado nunca chega Os Lusíadas: a frota já chegando à África, e a partida de Portugal contada depois
reordenar moldura uma história serve de ocasião para outras uma razão para contar quando a moldura é um sonho que desfaz o resto As Mil e Uma Noites: Sherazade conta histórias ao sultão
mover MacGuffin dá às personagens algo para perseguir que as personagens se importem com ele quando vira coleção de objetos trocados pelo final Os 39 degraus, de Hitchcock: os segredos militares
mover cliffhanger corta no perigo uma pergunta grande ainda aberta quando todo capítulo termina igual A Pair of Blue Eyes, de Thomas Hardy: Knight pendurado no penhasco
resolver deus ex machina resolve com algo de fora a possibilidade à vista antes quando o resgate não foi plantado O Senhor das Moscas: o oficial que chega à ilha

As três perguntas para testar os recursos do seu livro

Para cada recurso do manuscrito, três perguntas (ferramenta nossa, tirada da tese):

  1. Voltando as páginas, o leitor acha o que foi plantado? Vale para os recursos de antecipar e revelar. Um "não" é falta de preparo: a solução existe, mas só o autor sabia dela.
  2. Se a saída vem de fora da personagem, o texto deixou essa possibilidade à vista antes? Vale para os recursos de revelar e resolver. Um "não" também é falta de preparo, e é o caso do deus ex machina.
  3. Um leitor do gênero adivinharia a peça antes do efeito? Vale para todos. Um "sim" é excesso de uso: a peça funciona, mas o leitor já a viu muitas vezes.

As três primeiras linhas da tabela dependem de uma coisa só, plantar.

Como usar prenúncio e pista falsa sem entregar o final?

Lupa pousada sobre as páginas de um livro antigo aberto
O plantio funciona quando o leitor, voltando as páginas, encontra o que estava à vista. Foto de Саша Алалыкин no Pexels

O plantio funciona quando o objeto tem uma função visível na cena em que aparece e outra, escondida, que só o fim revela; a pista falsa é o mesmo gesto, com a função escondida apontada para o lugar errado (leitura nossa). O dramaturgo russo Anton Tchekhov resumiu o lado da promessa numa carta de 1889 a um colega: não se põe no palco um fuzil carregado que ninguém pretende disparar. As versões da frase com a arma pendurada na parede são memória de terceiros, e a história delas está no termo arma de Tchekhov.

Nem todo mundo aceita a regra. Ernest Hemingway, no ensaio "The Art of the Short Story", zomba dela e valoriza o detalhe que não leva a nada, e Andrea Phillips, num texto de 2010 chamado "The case against Chekhov's gun", diz que dar função a todo detalhe deixa a história previsível.

Na ficção de gênero, um defeito vizinho tem nome: o plot voucher, que Nick Lowe descreveu num ensaio de 1986 no fanzine Ansible como o objeto entregue ao herói no começo, sem propósito declarado, que num ponto arbitrário vira exatamente a saída do aperto. Lido ao lado de Tchekhov, o voucher é a arma plantada sem função visível: o leitor não a guardou como coisa nenhuma, e por isso o pagamento parece conveniência (leitura nossa).

"The Adventure of the Speckled Band" (1892), conto de Arthur Conan Doyle com Sherlock Holmes, mostra os dois gestos ao mesmo tempo. A irmã de Helen Stoner morre gritando "the speckled band!" (a faixa malhada), e Helen liga a palavra band, que em inglês também quer dizer bando, aos ciganos acampados na propriedade e aos lenços pintados que eles usam na cabeça. O assobio baixo que a irmã ouvia às três da manhã chega dito por Helen, e ela mesma o empurra para os ciganos. A pista falsa não precisa de mentira do autor: precisa de uma explicação que a personagem aceita e o leitor aceita com ela.

O plantio verdadeiro vem na vistoria do quarto, cada objeto com uma esquisitice nomeada: o cordão de campainha que não toca, o respiradouro que dá para o quarto vizinho, o pires de leite numa casa sem gato, a cama presa ao chão. O leitor vê tudo o que Holmes vê, sem a ligação.

No fim, a faixa malhada é a cobra enrolada na cabeça do assassino, e Holmes repete a frase da morta no momento da revelação. Depois, ele admite ter chegado a "an entirely erroneous conclusion" (uma conclusão inteiramente errada) por causa dos ciganos e da palavra, e refaz a cadeia do respiradouro à cama. O conto mostra ao leitor como foi enganado, e é essa volta que faz o engano parecer justo.

Não pagar também pode ser escolha. "Missa do galo" carrega uma conversa noturna cheia de sinais e fecha sem disparar nada: no dia seguinte, Conceição está "como sempre", o marido morre, e a última frase diz só que ela se casou com o escrevente dele. Na nossa leitura, num conto de ambiguidade a promessa que não se cumpre é o assunto; numa trama de mistério, a mesma recusa seria furo de enredo, e o que separa os dois é o pacto do gênero com o leitor, o mesmo que decide quando uma reviravolta convence.

Plot twist ou trapaça: o que faz uma reviravolta convencer?

A reviravolta convence quando muda o sentido do que o leitor já leu sem mudar os fatos que ele leu; parece trapaça quando o autor escondeu um fato, e não um sentido (leitura nossa). A base é antiga: o filósofo grego Aristóteles, na Poética, diz que o efeito é maior quando os acontecimentos surpreendem e, ao mesmo tempo, decorrem uns dos outros, ideia que o guia sobre tensão narrativa desenvolve no clímax. O que hoje se chama de reviravolta corresponde em boa parte ao que ele chamava de reconhecimento, a passagem da ignorância ao conhecimento, ao lado da peripécia.

O romance policial transformou isso em regra escrita. Em 1928, o romancista policial S. S. Van Dine abriu as suas "Twenty Rules for Writing Detective Stories" dizendo que o romance policial é uma competição e que o autor precisa jogar limpo com o leitor; a regra 1 diz que o leitor deve ter a mesma chance que o detetive de resolver o mistério, com todas as pistas declaradas. Entre as outras: o detetive nunca pode ser o culpado, o que seria "bald trickery" (trapaça descarada), e a verdade deve estar sempre à vista do leitor perspicaz.

No ano seguinte, o autor Ronald Knox publicou um decálogo cuja primeira regra diz que o criminoso deve ser mencionado no começo da história e não pode ser alguém cujos pensamentos o leitor acompanhou.

O assassinato de Roger Ackroyd (1926), romance policial de Agatha Christie, é o caso que mede a regra: o narrador, o médico Sheppard, é o assassino, e no último capítulo mostra que só escreveu frases verdadeiras, deixando de fora os minutos do crime; como ele esconde sem mentir, frase a frase, está em como fazer um plot twist.

O livro teve elogio na estreia: a resenha do New York Times disse que ele "cannot be too highly praised" (não pode ser elogiado o bastante), e uma defesa é que Sheppard não mente ao leitor, só deixa lacunas, como resume Caroline Crampton num texto de 2019 no site oficial de Christie. Na nossa leitura, o livro fere a letra da regra de Knox, escrita três anos depois, porque o leitor acompanha os pensamentos do culpado, e cumpre a de Van Dine, porque a verdade esteve à vista o tempo todo.

"O Alienista" (1882), de Machado de Assis, faz a reviravolta sem esconder fato nenhum. A regra é dada no capítulo IV: a razão é "o perfeito equilíbrio de todas as faculdades". No capítulo XI, o médico Simão Bacamarte inverte a teoria, solta os internados e declara doente quem tem equilíbrio, e o narrador avisa que ninguém reparou na "frase final do § 4º", uma frase "cheia de experiências futuras".

No XIII, depois de curar todos, Bacamarte acha em si mesmo o perfeito equilíbrio e se recolhe à Casa Verde. A virada vem da regra do próprio conto, levada ao único caso que faltava; e a última frase, sobre o boato de que nunca houve outro louco em Itaguaí, deixa o sentido aberto.

Quando o sentido nunca fecha, a reviravolta vira dúvida. Em Dom Casmurro (1899), o leitor só tem a versão de Bento, e o livro termina perguntando se a Capitu adulta já estava dentro da menina. Críticos brasileiros como Lúcia Miguel-Pereira (1936) deram o adultério como certo; a estudiosa Helen Caldwell, em 1960, leu o romance contra o narrador, pelo laço com Otelo, segundo um balanço da recepção publicado na revista Machado de Assis em Linha. O narrador de cuja versão o leitor aprende a desconfiar tem nome próprio: narrador não confiável.

Um estudo sugere que saber o final não estraga o conto para o leitor. Num artigo publicado na Psychological Science em 2011, os pesquisadores Jonathan Leavitt e Nicholas Christenfeld deram a 819 participantes da Universidade da Califórnia em San Diego contos com final surpresa, de mistério e literários, em versões com e sem spoiler; as versões com spoiler foram avaliadas igual ou um pouco melhor. O resultado sugere, na nossa leitura, que a reviravolta agrada mais pela cadeia que o leitor refaz do que pelo susto.

Duas páginas tratam do resto do assunto. O passo a passo de armar a virada, plantar e esconder sem trapacear está em como fazer um plot twist que o leitor não adivinha. As viradas famosas de livros e filmes, uma a uma, estão em exemplos de plot twist.

Como usar flashback sem travar a história?

O flashback serve quando responde a uma pergunta que o presente já abriu; trava quando entra antes dela ou sem avisar que entrou (leitura nossa). A autora Nancy Kress, num artigo de 2008 na Writer's Digest, dá três regras: o flashback vem depois de uma cena forte e nunca é a primeira cena; logo no começo situa o leitor no tempo e no espaço, porque há transições tão desajeitadas que o leitor nem tem certeza, até a metade da cena, de que está num flashback; e usa o tempo verbal para marcar a entrada e a saída.

Antecipar o futuro é raro, e Genette explica por quê: em Figures III, ele observa que a prolepse é bem menos frequente que a analepse na tradição ocidental, porque o cuidado com o suspense do romance clássico se acomoda mal a ela, e acha poucas em Balzac, Dickens e Tolstói.

As exceções que ele dá são Manon Lescaut, em que se sabe antes de começar a história que ela termina numa deportação, e A morte de Ivan Ilitch, que começa pelo epílogo. Antecipar o fim troca a pergunta do leitor, de "o que vai acontecer" para "como se chegou lá" (leitura nossa), troca que o guia sobre tensão narrativa trata como a diferença entre suspense e curiosidade.

Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) é o caso brasileiro dessa família: começa pela morte do narrador, escolha que o guia sobre como começar um livro examina. O que interessa aqui é a volta. O nascimento só chega no capítulo IX, e Machado exibe a costura, gabando-se da "fina arte" com que faz "a maior transição deste livro": desce do delírio a Virgília, de Virgília à juventude, da juventude à meninice, da meninice ao nascimento, em 20 de outubro de 1805. É o que a regra de Kress pede, feito às claras: o leitor sabe onde está, sabe que entrou no passado e sabe por quê.

Abrir com a ação já andando e recuperar o antes depois é o começo no meio, e contar histórias dentro de uma história é a narrativa moldura. Os dois correm o mesmo risco do flashback: o passado que chega antes da pergunta.

Quais recursos viraram clichê, e por quê?

Diagrama dos dois caminhos do clichê: falta de preparo e excesso de uso
O clichê não é o recurso: é o recurso que ficou visível antes do efeito, por um de dois caminhos. Diagrama: Verse

O clichê não é o recurso: é o recurso que ficou visível antes do efeito, por falta de preparo ou por excesso de uso; a convenção que o gênero promete ao leitor não é clichê (leitura nossa). A palavra vem da gráfica: cliché, termo do jargão gráfico francês registrado em 1825, era a chapa de estereótipo que reproduzia o mesmo texto ou imagem muitas vezes. Um clichê é, ao pé da letra, uma peça que sai igual a cada impressão.

O caminho da falta de preparo já era criticado na Antiguidade, e já tinha exceção. Aristóteles pede, na Poética, que o desenlace saia da própria trama e não da "máquina" do teatro, como na Medeia de Eurípides, ideia que o guia sobre tensão narrativa aplica ao clímax; o poeta latino Horácio, na Arte poética, admite: que um deus não intervenha, a menos que o nó seja digno de tal libertador.

O termo deus ex machina passou a nomear, segundo o Concise Oxford Dictionary of Literary Terms (2004), qualquer artifício improvável que resolve a trama sem ter sido preparado, o oposto do final resolvido do guia sobre como terminar um livro; o recurso favorito do romance vitoriano era a descoberta de um testamento perdido. O romancista William Golding chamou de "gimmick" (truque) o final de O Senhor das Moscas, em que um oficial da Marinha resgata os meninos.

A defesa da saída de fora existe e tem condição. J. R. R. Tolkien, autor de O Hobbit, no ensaio "On Fairy-Stories" (1947), chamou de eucatástrofe a virada súbita e alegre do conto de fadas, uma graça "never to be counted on to recur" (com que nunca se pode contar de novo). Ela só vale, para ele, porque a derrota era possível: a possibilidade da tristeza e do fracasso é necessária à alegria da libertação. É a segunda pergunta da tabela: a saída de fora funciona quando o leitor sabia que o mundo da história a permitia.

O romance A Guerra dos Mundos (1898), de H. G. Wells, está na fronteira. A Greenwood Encyclopedia of Science Fiction and Fantasy (2005) o lista entre os exemplos de deus ex machina: os marcianos morrem de bactérias, sem ação humana.

Mas, na nossa leitura, o livro planta a saída. Ao descrever o corpo dos marcianos, o narrador diz, como detalhe "very trivial" (muito trivial), que os micro-organismos nunca apareceram em Marte ou foram eliminados pela ciência sanitária de lá; e a erva vermelha que eles trouxeram morre de uma doença bacteriana antes deles. O próprio narrador escreve que ele e muitos outros "might have foreseen" (poderiam ter previsto) o desfecho e, no epílogo, diz que a explicação bacteriana lhe parece tão provável que quase se pode tê-la como provada, e que foi ela que ele assumiu no corpo da narrativa. A saída vem de fora das personagens, mas não de fora do texto.

O caminho do excesso de uso aparece nas listas de proibição. A última das regras de Van Dine, de 1928, abre com uma lista de recursos de que "no self-respecting detective-story writer" (nenhum autor de romance policial que se respeite) vai mais se servir: truques que ele já via como gastos. Outra regra veta o criado como culpado, por ser solução fácil demais. Knox, em 1929, proíbe o veneno desconhecido e o aparelho que precisa de longa explicação científica no fim, e admite gêmeos só se o leitor tiver sido preparado para eles.

Nick Lowe fez o mesmo para a ficção de gênero em 1986: além do plot voucher, nomeou o plot coupon, os objetos que o herói coleciona e troca pelo desfecho. Nem tudo nessas listas era lógica do recurso. Van Dine também proibia romance amoroso no policial e descrição longa, e Knox tinha uma regra racista sobre personagens chineses: parte das regras era o gosto e o preconceito da época. Lidas hoje, as listas sugerem que o clichê é relativo ao leitor de cada gênero e de cada época (leitura nossa).

Dois clichês de que muito se fala ficam fora da tabela. O "era tudo um sonho", que desfaz o que o leitor viveu, é a moldura de sonho, variante da narrativa moldura; o despertar e o tempo nas primeiras linhas são problema de abertura, e o guia sobre como começar um livro mostra quando eles funcionam.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre recurso narrativo e figura de linguagem?

Na definição desta página, o recurso narrativo decide o que o leitor sabe e quando, e trabalha no enredo; a figura de linguagem decide como uma frase diz alguma coisa, e trabalha na frase. A metáfora é figura; a pista falsa é recurso. As figuras estão no guia das figuras de linguagem que o ficcionista usa.

Qual a diferença entre arma de Tchekhov e prenúncio?

O prenúncio sugere ao leitor o que vem; a arma de Tchekhov é o princípio de que o elemento mostrado com peso precisa servir para alguma coisa. Um olha para o futuro, o outro cobra o que foi mostrado. As definições estão nos termos prenúncio e arma de Tchekhov.

Plot twist e reviravolta são a mesma coisa?

Sim: reviravolta é o nome em português para plot twist, a mudança radical na direção do enredo, e, quando ela vem perto do fim, fala-se em final surpresa. O termo está em reviravolta, e o passo a passo de armar uma, em como fazer um plot twist.

Deus ex machina é sempre um erro?

Não; a crítica e a defesa do recurso, do teatro grego aos críticos de hoje, estão no termo deus ex machina. Pela segunda pergunta da tabela, a saída de fora funciona quando o texto a deixou à vista antes, a condição que Horácio e Tolkien já punham.

MacGuffin é clichê?

Não por si; o debate sobre quanto o público deve se importar com o objeto, de Hitchcock a George Lucas, está no termo MacGuffin. Na nossa leitura, vira clichê quando a trama é só uma coleção de objetos trocados pelo final, o que Nick Lowe chama de plot coupon.

Clichê e tropo são a mesma coisa?

Não. Tropo é um conteúdo que se repete entre obras; clichê, na definição desta página, é uma peça gasta, que o leitor vê chegar antes do efeito. Um tropo vira clichê quando é usado sem nada novo; o que é tropo está no guia sobre o que é trope.

O que são técnicas narrativas modernas?

A expressão não tem definição única; nesta página, ela aponta para escolhas de narração, como quem conta e de que ponto de vista, e para a quebra da ordem linear, a anacronia, que os romancistas modernistas experimentaram. As escolhas de quem conta e de que ponto de vista estão no guia sobre tipos de narrador.

Como saber se meu livro está cheio de clichês?

Passe cada recurso pelas três perguntas da tabela: o leitor acha o plantio voltando as páginas, a saída de fora estava à vista, e um leitor do gênero adivinharia a peça. Os dois primeiros "não" pedem plantio; o "sim" do terceiro pede outra peça ou outro lugar para ela.

O que fazer com isso

Antes de cortar um recurso por medo de clichê, passe-o pelas três perguntas. O que falha na primeira pede plantio mais cedo, com uma função visível na cena; o que falha na segunda pede que a possibilidade da saída apareça antes; o que falha na terceira pede outra peça, ou a mesma num lugar onde o leitor do gênero não a espera.

O resto do livro está nos guias vizinhos: como estruturar um livro, para os modelos; como começar um livro, para a abertura; como manter a tensão no meio do livro, para o meio e o clímax; como terminar um livro, para os tipos de final; e o guia geral da estrutura narrativa, para o tema inteiro.

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Guias que saem daqui

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Termos usados nesta página

TermoPrenúncioPrenúncio é o sinal que anuncia algo antes de acontecer; o dicionário Priberam o define como "sinal precursor", ao lado dos primeiros sintomas de um fenômeno e do prognóstico.TermoPista falsaPista falsa é, na ficção, um indício que pode ser plantado para levar o leitor a uma conclusão errada, segundo o livro How To Study Literature (2010), de Nozar Niazi.TermoReviravoltaReviravolta é a alteração brusca de um estado, condição, direção ou resultado para outro, na definição do dicionário Priberam; na narrativa, é a mudança de direção do enredo.TermoFlashbackFlashback é a sequência de uma narrativa, de cinema ou de literatura, que se refere a uma ação ou fato passado em relação ao que a história está narrando; o dicionário Priberam o dá como equivalente de analepse.TermoMacGuffinNa ficção, MacGuffin é um objeto, dispositivo ou evento necessário ao enredo e à motivação das personagens, mas insignificante em si, segundo o Brewer's (1992).TermoDeus ex machinaDeus ex machina é o recurso em que um problema aparentemente insolúvel da história é resolvido de repente por uma ocorrência inesperada e improvável, que a trama não preparou.TermoAnacroniaAnacronia é, na teoria da narrativa, a alteração entre a ordem dos eventos da história e a ordem em que o texto os apresenta.TermoProlepse (flashforward)Prolepse é, na narrativa, o recurso que antecipa um fato posterior ao ponto da história em que o relato está.TermoArma de TchekhovA arma de Tchekhov é o princípio dramático, associado ao dramaturgo russo Anton Tchekhov, de que todo elemento posto em cena com peso precisa entrar em jogo antes do fim.TermoIn medias resIn medias res é a locução latina, "no meio das coisas", que nomeia o começo de uma narrativa no meio dos acontecimentos, e não no início cronológico.TermoNarrativa molduraNarrativa moldura é a história que serve sobretudo de ocasião para contar outras, como a das Mil e Uma Noites, dos Contos da Cantuária e do Decamerão.TermoCliffhangerCliffhanger é um recurso de ficção que deixa uma personagem central numa situação precária e sem solução, como um perigo súbito, um dilema difícil ou uma revelação chocante, ao fim de um episódio ou capítulo, segundo o Oxford Dictionary of Literary Terms, de CTermoFuro de enredoFuro de enredo é, na escrita de ficção, a lacuna ou incoerência que contraria a lógica do próprio enredo; corresponde ao termo inglês plot hole, que o Oxford Dictionaries define assim.TermoPeripéciaPeripécia é, na poética clássica, a mudança pela qual uma sequência de ação produz o oposto do efeito pretendido, segundo o filósofo grego Aristóteles, na Poética.TermoAto (estrutura)Ato é, no teatro, a divisão principal de uma peça, segundo o dicionário Priberam.TermoRecurso narrativoRecurso narrativo é o meio de que o autor se vale para mover a trama: o Priberam define recurso como "meio; o que serve para alcançar um fim", e Fred Pfeil, em Another Tale to Tell (1990), descreve o plot device como qualquer técnica usada para mover a trama aTermoSuspensão de descrençaSuspensão de descrença é a disposição do leitor de pôr a descrença de lado por um momento diante da ficção, nome que o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge deu em 1817 (willing suspension of disbelief).

Em breve

figuras de linguagem que o ficcionista usao que e trope e por quetipos de narrador e como usar cadanarrador nao confiavelclicheestrutura tudo sobre

Quem fala sobre isso 3pessoas

  • Gérard Genette †teórico da literatura francês (1930–2018); lecionou na École des hautes études en sciences sociales

    Obra sobre o tema: Figures III, 1972, em que o ensaio "Discours du récit" nomeia as anacronias do relato, a analepse e a prolepse.

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  • S. S. Van Dine †pseudônimo do crítico de arte e romancista policial norte-americano Willard Huntington Wright (1888–1939), criador do detetive Philo Vance

    Obra sobre o tema: "Twenty Rules for Writing Detective Stories", 1928, regras de jogo limpo com o leitor e lista de truques do romance policial.

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  • Nancy Kressescritora de ficção científica norte-americana (nascida em 1948); colunista da Writer's Digest

    Obra sobre o tema: "3 Tips for Writing Successful Flashbacks", 2008, três regras para usar o flashback.

    Página ↗

O que a rede diz 5 vozes

  • Capa do post de @julinuxaTikTok

    Propõe uma conversa sobre os recursos narrativos preguiçosos.

    @julinuxaTikTok ↗
  • Capa do post de @terra.editorialTikTok

    Uma pistola, uma carta, um objeto que parece não ter importância: às vezes é o menor detalhe que faz a história encaixar. Conta de onde vem a ideia, com Tchekhov no século XIX, e sugere usá-la para reler o próprio manuscrito (em espanhol).

    @terra.editorialTikTok ↗
  • Capa do post de @xie.tina_30TikTok

    Sobre começar no meio da ação: muitas vezes quem escreve usa recursos narrativos sem perceber, e nem o leitor, fora professores e estudantes de literatura, costuma parar para notar cada um deles (em espanhol).

    @xie.tina_30TikTok ↗
  • Capa do post de Aprendercine.com: RECURSOS NARRATIVOS - Cómo CONTAR UNA HISTORIA interesante ✅YouTube

    Apresenta recursos para contar uma história interessante: plantar e pagar depois, a surpresa, o suspense e a ironia dramática, com exemplos de roteiro (em espanhol).

    Aprendercine.comYouTube ↗
  • Capa do post de VERBALINA Cursos y Mentorías para Escritores: ✨ La historia dentro de la historia ▶️ 3 CLAVES de la NARRACIÓN ENMARCADA | Técnicas narrativas #5YouTube

    Três chaves para a história dentro da história: serve para dar unidade a um livro de contos ou enriquecer um romance, e o recurso aparece com outros nomes, como caixa chinesa (em espanhol).

    VERBALINA Cursos y Mentorías para EscritoresYouTube ↗

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Autoria: Verse MediaRevisado em 6 out. 2026Passos conferidos em 6 out. 2026Publicado em 6 out. 202640 fontes · 20 no integral

Lidas no texto integral

Lidas em resumo ou pela referência

  • Gérard Genette, Figures III, Seuil, 1972, p. 105–106 (pela citação de Ramond).
  • Ronald Knox, "Ten Commandments", prefácio a The Best Detective Stories of the Year 1928, 1929 (pela seleção de Engelhardt, Open University).
  • Jonathan Leavitt e Nicholas Christenfeld, "Story spoilers don't spoil stories", Psychological Science 22(9), 2011, p. 1152–1154.
  • Helen Caldwell, The Brazilian Othello of Machado de Assis, 1960.
  • J. R. R. Tolkien, "On Fairy-Stories", 1947 (pela citação de Rocha).
  • Fred Pfeil, Another Tale to Tell, Verso, 1990, p. 267.
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VERSE MEDIA. Recursos narrativos: o que são, quais são e quais viraram clichê. Enciclopédia Verse, 5 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/estrutura/recursos-narrativos. Acesso em: [data].

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