Recursos narrativos: o que são, quais são e quais viraram clichê
Recursos narrativos são as técnicas com que o autor decide o que o leitor sabe, quando sabe e o que move a trama: prenúncio, pista falsa, reviravolta, flashback, MacGuffin e deus ex machina, entre outros. Um recurso vira clichê por dois caminhos: falta de preparo, quando resolve o que a história não plantou, e excesso de uso, quando o leitor reconhece a peça antes do efeito. Em 1928, as regras do romance policial de Van Dine já exigiam culpado com papel de certo destaque e listavam truques gastos.
Você leu que a reviravolta prende o leitor e, na mesma semana, que deus ex machina é erro de iniciante. Tem uma virada pronta para o fim do livro e não sabe se ela é um achado ou um clichê que todo leitor do gênero vai ver chegando.
O mapa dos recursos narrativos por função (o que cada um controla, o que precisa estar plantado antes e quando vira clichê) e três perguntas para testar os recursos do próprio manuscrito.
Ouviu falar de plot twist, arma de Tchekhov, deus ex machina e MacGuffin como nomes soltos, uns como elogio e outros como insulto, e não sabe o que cada um resolve nem por que o mesmo truque funciona num livro e estraga outro.
Nesta página
- O que são recursos narrativos?
- Quais são os principais recursos narrativos?
- Como usar prenúncio e pista falsa sem entregar o final?
- Plot twist ou trapaça: o que faz uma reviravolta convencer?
- Como usar flashback sem travar a história?
- Quais recursos viraram clichê, e por quê?
- Perguntas frequentes
- O que fazer com isso
Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.
O que são recursos narrativos?
Um recurso narrativo é uma decisão sobre informação e tempo: o que o leitor sabe, em que momento, por quem, e o que empurra ou resolve a trama (definição desta página). O nome inglês, plot device, cobre qualquer técnica usada para mover o enredo adiante, na definição de Fred Pfeil em Another Tale to Tell (1990), e o teórico francês Gérard Genette, em Figures III (1972), chama de anacronias as duas formas de mexer na ordem do relato, a volta ao passado (analepse) e a antecipação do futuro (prolepse). Lidas juntas, as duas definições sugerem que o recurso trabalha no nível do enredo, e não no da frase.
Por isso recurso narrativo não é figura de linguagem. A metáfora e a ironia de frase decidem como uma coisa é dita, e moram no guia das figuras de linguagem que o ficcionista usa; o recurso decide o que o leitor fica sabendo. A primeira frase de "Missa do galo" (1894), de Machado de Assis, não tem figura nenhuma e faz trabalho de recurso: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora". O leitor entra no conto sabendo que a cena não vai se resolver, e lê cada fala procurando o que ficou por dizer (leitura nossa).
Também não é tropo. Tropo, na definição desta página, é um conteúdo que se repete entre obras, como o casal que se odeia antes de se amar; o guia sobre o que é trope trata dele. Os traços esperados de um gênero são as suas convenções, e a obra costuma ser bem recebida quando anda na borda delas, sem cumpri-las à risca nem rejeitá-las, segundo Heather Murray no Cambridge Handbook of Literacy (2009). Um mesmo livro pode usar um recurso, como a pista falsa, a serviço de uma convenção do gênero.
As técnicas de narração, como escolher quem conta a história e de que ponto de vista, são vizinhas e se cruzam com os recursos, mas são outra decisão: o guia sobre tipos de narrador trata delas. Separadas as camadas, a lista de recursos pode ser organizada pelo que cada um controla.
Quais são os principais recursos narrativos?
Na divisão desta página, os principais recursos narrativos se agrupam por cinco funções: antecipar o que vem, revelar o que estava escondido, reordenar o tempo, mover a trama e resolvê-la. As colunas "o que precisa estar antes" e "quando vira clichê" são leitura nossa, tirada da tese do topo e dos casos das seções seguintes; os exemplos vêm das obras.
| função | recurso | o que faz | o que precisa estar antes | quando vira clichê | exemplo |
|---|---|---|---|---|---|
| antecipar | prenúncio | sugere o que vem sem dizer | um aviso que já tem sentido na cena em que aparece | quando o aviso só serve para avisar | O Alienista: o narrador diz que ninguém reparou na "frase final do § 4º" |
| antecipar | arma de Tchekhov | promete que o objeto mostrado vai servir | o objeto com um uso próprio antes do uso decisivo | quando a ênfase entrega o fim | Panorama visto da ponte, de Arthur Miller: o canivete do primeiro ato mata no segundo |
| antecipar | pista falsa | aponta para a conclusão errada | uma explicação que o leitor aceite sozinho | quando o suspeito é óbvio demais para o leitor do gênero | "The Adventure of the Speckled Band": a "faixa" (band) que Helen liga ao bando de ciganos |
| revelar | reviravolta | muda a direção do enredo | as peças da virada mostradas como outra coisa | quando nada a preparou, ou quando é a virada de sempre do gênero | "The Gift of the Magi", de O. Henry: ela vende o cabelo para dar a ele uma corrente para o relógio; ele vende o relógio para dar a ela pentes |
| revelar | narrador não confiável | dá ao leitor uma só versão, que falha | frases verdadeiras com lacunas | quando o narrador mente sem deixar rastro | O assassinato de Roger Ackroyd: os dez minutos que o narrador não conta |
| reordenar | flashback | volta a um fato anterior | uma pergunta aberta no presente | quando abre o livro ou despeja passado | Memórias póstumas de Brás Cubas: a volta ao nascimento no cap. IX |
| reordenar | prolepse | antecipa um fato posterior | um interesse que sobreviva a saber o fim | quando antecipa só para criar mistério | A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, começa pelo epílogo |
| reordenar | começo no meio | abre com a ação já andando | o passado recuperado depois | quando o passado nunca chega | Os Lusíadas: a frota já chegando à África, e a partida de Portugal contada depois |
| reordenar | moldura | uma história serve de ocasião para outras | uma razão para contar | quando a moldura é um sonho que desfaz o resto | As Mil e Uma Noites: Sherazade conta histórias ao sultão |
| mover | MacGuffin | dá às personagens algo para perseguir | que as personagens se importem com ele | quando vira coleção de objetos trocados pelo final | Os 39 degraus, de Hitchcock: os segredos militares |
| mover | cliffhanger | corta no perigo | uma pergunta grande ainda aberta | quando todo capítulo termina igual | A Pair of Blue Eyes, de Thomas Hardy: Knight pendurado no penhasco |
| resolver | deus ex machina | resolve com algo de fora | a possibilidade à vista antes | quando o resgate não foi plantado | O Senhor das Moscas: o oficial que chega à ilha |
As três perguntas para testar os recursos do seu livro
Para cada recurso do manuscrito, três perguntas (ferramenta nossa, tirada da tese):
- Voltando as páginas, o leitor acha o que foi plantado? Vale para os recursos de antecipar e revelar. Um "não" é falta de preparo: a solução existe, mas só o autor sabia dela.
- Se a saída vem de fora da personagem, o texto deixou essa possibilidade à vista antes? Vale para os recursos de revelar e resolver. Um "não" também é falta de preparo, e é o caso do deus ex machina.
- Um leitor do gênero adivinharia a peça antes do efeito? Vale para todos. Um "sim" é excesso de uso: a peça funciona, mas o leitor já a viu muitas vezes.
As três primeiras linhas da tabela dependem de uma coisa só, plantar.
Como usar prenúncio e pista falsa sem entregar o final?
O plantio funciona quando o objeto tem uma função visível na cena em que aparece e outra, escondida, que só o fim revela; a pista falsa é o mesmo gesto, com a função escondida apontada para o lugar errado (leitura nossa). O dramaturgo russo Anton Tchekhov resumiu o lado da promessa numa carta de 1889 a um colega: não se põe no palco um fuzil carregado que ninguém pretende disparar. As versões da frase com a arma pendurada na parede são memória de terceiros, e a história delas está no termo arma de Tchekhov.
Nem todo mundo aceita a regra. Ernest Hemingway, no ensaio "The Art of the Short Story", zomba dela e valoriza o detalhe que não leva a nada, e Andrea Phillips, num texto de 2010 chamado "The case against Chekhov's gun", diz que dar função a todo detalhe deixa a história previsível.
Na ficção de gênero, um defeito vizinho tem nome: o plot voucher, que Nick Lowe descreveu num ensaio de 1986 no fanzine Ansible como o objeto entregue ao herói no começo, sem propósito declarado, que num ponto arbitrário vira exatamente a saída do aperto. Lido ao lado de Tchekhov, o voucher é a arma plantada sem função visível: o leitor não a guardou como coisa nenhuma, e por isso o pagamento parece conveniência (leitura nossa).
"The Adventure of the Speckled Band" (1892), conto de Arthur Conan Doyle com Sherlock Holmes, mostra os dois gestos ao mesmo tempo. A irmã de Helen Stoner morre gritando "the speckled band!" (a faixa malhada), e Helen liga a palavra band, que em inglês também quer dizer bando, aos ciganos acampados na propriedade e aos lenços pintados que eles usam na cabeça. O assobio baixo que a irmã ouvia às três da manhã chega dito por Helen, e ela mesma o empurra para os ciganos. A pista falsa não precisa de mentira do autor: precisa de uma explicação que a personagem aceita e o leitor aceita com ela.
O plantio verdadeiro vem na vistoria do quarto, cada objeto com uma esquisitice nomeada: o cordão de campainha que não toca, o respiradouro que dá para o quarto vizinho, o pires de leite numa casa sem gato, a cama presa ao chão. O leitor vê tudo o que Holmes vê, sem a ligação.
No fim, a faixa malhada é a cobra enrolada na cabeça do assassino, e Holmes repete a frase da morta no momento da revelação. Depois, ele admite ter chegado a "an entirely erroneous conclusion" (uma conclusão inteiramente errada) por causa dos ciganos e da palavra, e refaz a cadeia do respiradouro à cama. O conto mostra ao leitor como foi enganado, e é essa volta que faz o engano parecer justo.
Não pagar também pode ser escolha. "Missa do galo" carrega uma conversa noturna cheia de sinais e fecha sem disparar nada: no dia seguinte, Conceição está "como sempre", o marido morre, e a última frase diz só que ela se casou com o escrevente dele. Na nossa leitura, num conto de ambiguidade a promessa que não se cumpre é o assunto; numa trama de mistério, a mesma recusa seria furo de enredo, e o que separa os dois é o pacto do gênero com o leitor, o mesmo que decide quando uma reviravolta convence.
Plot twist ou trapaça: o que faz uma reviravolta convencer?
A reviravolta convence quando muda o sentido do que o leitor já leu sem mudar os fatos que ele leu; parece trapaça quando o autor escondeu um fato, e não um sentido (leitura nossa). A base é antiga: o filósofo grego Aristóteles, na Poética, diz que o efeito é maior quando os acontecimentos surpreendem e, ao mesmo tempo, decorrem uns dos outros, ideia que o guia sobre tensão narrativa desenvolve no clímax. O que hoje se chama de reviravolta corresponde em boa parte ao que ele chamava de reconhecimento, a passagem da ignorância ao conhecimento, ao lado da peripécia.
O romance policial transformou isso em regra escrita. Em 1928, o romancista policial S. S. Van Dine abriu as suas "Twenty Rules for Writing Detective Stories" dizendo que o romance policial é uma competição e que o autor precisa jogar limpo com o leitor; a regra 1 diz que o leitor deve ter a mesma chance que o detetive de resolver o mistério, com todas as pistas declaradas. Entre as outras: o detetive nunca pode ser o culpado, o que seria "bald trickery" (trapaça descarada), e a verdade deve estar sempre à vista do leitor perspicaz.
No ano seguinte, o autor Ronald Knox publicou um decálogo cuja primeira regra diz que o criminoso deve ser mencionado no começo da história e não pode ser alguém cujos pensamentos o leitor acompanhou.
O assassinato de Roger Ackroyd (1926), romance policial de Agatha Christie, é o caso que mede a regra: o narrador, o médico Sheppard, é o assassino, e no último capítulo mostra que só escreveu frases verdadeiras, deixando de fora os minutos do crime; como ele esconde sem mentir, frase a frase, está em como fazer um plot twist.
O livro teve elogio na estreia: a resenha do New York Times disse que ele "cannot be too highly praised" (não pode ser elogiado o bastante), e uma defesa é que Sheppard não mente ao leitor, só deixa lacunas, como resume Caroline Crampton num texto de 2019 no site oficial de Christie. Na nossa leitura, o livro fere a letra da regra de Knox, escrita três anos depois, porque o leitor acompanha os pensamentos do culpado, e cumpre a de Van Dine, porque a verdade esteve à vista o tempo todo.
"O Alienista" (1882), de Machado de Assis, faz a reviravolta sem esconder fato nenhum. A regra é dada no capítulo IV: a razão é "o perfeito equilíbrio de todas as faculdades". No capítulo XI, o médico Simão Bacamarte inverte a teoria, solta os internados e declara doente quem tem equilíbrio, e o narrador avisa que ninguém reparou na "frase final do § 4º", uma frase "cheia de experiências futuras".
No XIII, depois de curar todos, Bacamarte acha em si mesmo o perfeito equilíbrio e se recolhe à Casa Verde. A virada vem da regra do próprio conto, levada ao único caso que faltava; e a última frase, sobre o boato de que nunca houve outro louco em Itaguaí, deixa o sentido aberto.
Quando o sentido nunca fecha, a reviravolta vira dúvida. Em Dom Casmurro (1899), o leitor só tem a versão de Bento, e o livro termina perguntando se a Capitu adulta já estava dentro da menina. Críticos brasileiros como Lúcia Miguel-Pereira (1936) deram o adultério como certo; a estudiosa Helen Caldwell, em 1960, leu o romance contra o narrador, pelo laço com Otelo, segundo um balanço da recepção publicado na revista Machado de Assis em Linha. O narrador de cuja versão o leitor aprende a desconfiar tem nome próprio: narrador não confiável.
Um estudo sugere que saber o final não estraga o conto para o leitor. Num artigo publicado na Psychological Science em 2011, os pesquisadores Jonathan Leavitt e Nicholas Christenfeld deram a 819 participantes da Universidade da Califórnia em San Diego contos com final surpresa, de mistério e literários, em versões com e sem spoiler; as versões com spoiler foram avaliadas igual ou um pouco melhor. O resultado sugere, na nossa leitura, que a reviravolta agrada mais pela cadeia que o leitor refaz do que pelo susto.
Duas páginas tratam do resto do assunto. O passo a passo de armar a virada, plantar e esconder sem trapacear está em como fazer um plot twist que o leitor não adivinha. As viradas famosas de livros e filmes, uma a uma, estão em exemplos de plot twist.
Como usar flashback sem travar a história?
O flashback serve quando responde a uma pergunta que o presente já abriu; trava quando entra antes dela ou sem avisar que entrou (leitura nossa). A autora Nancy Kress, num artigo de 2008 na Writer's Digest, dá três regras: o flashback vem depois de uma cena forte e nunca é a primeira cena; logo no começo situa o leitor no tempo e no espaço, porque há transições tão desajeitadas que o leitor nem tem certeza, até a metade da cena, de que está num flashback; e usa o tempo verbal para marcar a entrada e a saída.
Antecipar o futuro é raro, e Genette explica por quê: em Figures III, ele observa que a prolepse é bem menos frequente que a analepse na tradição ocidental, porque o cuidado com o suspense do romance clássico se acomoda mal a ela, e acha poucas em Balzac, Dickens e Tolstói.
As exceções que ele dá são Manon Lescaut, em que se sabe antes de começar a história que ela termina numa deportação, e A morte de Ivan Ilitch, que começa pelo epílogo. Antecipar o fim troca a pergunta do leitor, de "o que vai acontecer" para "como se chegou lá" (leitura nossa), troca que o guia sobre tensão narrativa trata como a diferença entre suspense e curiosidade.
Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) é o caso brasileiro dessa família: começa pela morte do narrador, escolha que o guia sobre como começar um livro examina. O que interessa aqui é a volta. O nascimento só chega no capítulo IX, e Machado exibe a costura, gabando-se da "fina arte" com que faz "a maior transição deste livro": desce do delírio a Virgília, de Virgília à juventude, da juventude à meninice, da meninice ao nascimento, em 20 de outubro de 1805. É o que a regra de Kress pede, feito às claras: o leitor sabe onde está, sabe que entrou no passado e sabe por quê.
Abrir com a ação já andando e recuperar o antes depois é o começo no meio, e contar histórias dentro de uma história é a narrativa moldura. Os dois correm o mesmo risco do flashback: o passado que chega antes da pergunta.
Quais recursos viraram clichê, e por quê?
O clichê não é o recurso: é o recurso que ficou visível antes do efeito, por falta de preparo ou por excesso de uso; a convenção que o gênero promete ao leitor não é clichê (leitura nossa). A palavra vem da gráfica: cliché, termo do jargão gráfico francês registrado em 1825, era a chapa de estereótipo que reproduzia o mesmo texto ou imagem muitas vezes. Um clichê é, ao pé da letra, uma peça que sai igual a cada impressão.
O caminho da falta de preparo já era criticado na Antiguidade, e já tinha exceção. Aristóteles pede, na Poética, que o desenlace saia da própria trama e não da "máquina" do teatro, como na Medeia de Eurípides, ideia que o guia sobre tensão narrativa aplica ao clímax; o poeta latino Horácio, na Arte poética, admite: que um deus não intervenha, a menos que o nó seja digno de tal libertador.
O termo deus ex machina passou a nomear, segundo o Concise Oxford Dictionary of Literary Terms (2004), qualquer artifício improvável que resolve a trama sem ter sido preparado, o oposto do final resolvido do guia sobre como terminar um livro; o recurso favorito do romance vitoriano era a descoberta de um testamento perdido. O romancista William Golding chamou de "gimmick" (truque) o final de O Senhor das Moscas, em que um oficial da Marinha resgata os meninos.
A defesa da saída de fora existe e tem condição. J. R. R. Tolkien, autor de O Hobbit, no ensaio "On Fairy-Stories" (1947), chamou de eucatástrofe a virada súbita e alegre do conto de fadas, uma graça "never to be counted on to recur" (com que nunca se pode contar de novo). Ela só vale, para ele, porque a derrota era possível: a possibilidade da tristeza e do fracasso é necessária à alegria da libertação. É a segunda pergunta da tabela: a saída de fora funciona quando o leitor sabia que o mundo da história a permitia.
O romance A Guerra dos Mundos (1898), de H. G. Wells, está na fronteira. A Greenwood Encyclopedia of Science Fiction and Fantasy (2005) o lista entre os exemplos de deus ex machina: os marcianos morrem de bactérias, sem ação humana.
Mas, na nossa leitura, o livro planta a saída. Ao descrever o corpo dos marcianos, o narrador diz, como detalhe "very trivial" (muito trivial), que os micro-organismos nunca apareceram em Marte ou foram eliminados pela ciência sanitária de lá; e a erva vermelha que eles trouxeram morre de uma doença bacteriana antes deles. O próprio narrador escreve que ele e muitos outros "might have foreseen" (poderiam ter previsto) o desfecho e, no epílogo, diz que a explicação bacteriana lhe parece tão provável que quase se pode tê-la como provada, e que foi ela que ele assumiu no corpo da narrativa. A saída vem de fora das personagens, mas não de fora do texto.
O caminho do excesso de uso aparece nas listas de proibição. A última das regras de Van Dine, de 1928, abre com uma lista de recursos de que "no self-respecting detective-story writer" (nenhum autor de romance policial que se respeite) vai mais se servir: truques que ele já via como gastos. Outra regra veta o criado como culpado, por ser solução fácil demais. Knox, em 1929, proíbe o veneno desconhecido e o aparelho que precisa de longa explicação científica no fim, e admite gêmeos só se o leitor tiver sido preparado para eles.
Nick Lowe fez o mesmo para a ficção de gênero em 1986: além do plot voucher, nomeou o plot coupon, os objetos que o herói coleciona e troca pelo desfecho. Nem tudo nessas listas era lógica do recurso. Van Dine também proibia romance amoroso no policial e descrição longa, e Knox tinha uma regra racista sobre personagens chineses: parte das regras era o gosto e o preconceito da época. Lidas hoje, as listas sugerem que o clichê é relativo ao leitor de cada gênero e de cada época (leitura nossa).
Dois clichês de que muito se fala ficam fora da tabela. O "era tudo um sonho", que desfaz o que o leitor viveu, é a moldura de sonho, variante da narrativa moldura; o despertar e o tempo nas primeiras linhas são problema de abertura, e o guia sobre como começar um livro mostra quando eles funcionam.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre recurso narrativo e figura de linguagem?
Na definição desta página, o recurso narrativo decide o que o leitor sabe e quando, e trabalha no enredo; a figura de linguagem decide como uma frase diz alguma coisa, e trabalha na frase. A metáfora é figura; a pista falsa é recurso. As figuras estão no guia das figuras de linguagem que o ficcionista usa.
Qual a diferença entre arma de Tchekhov e prenúncio?
O prenúncio sugere ao leitor o que vem; a arma de Tchekhov é o princípio de que o elemento mostrado com peso precisa servir para alguma coisa. Um olha para o futuro, o outro cobra o que foi mostrado. As definições estão nos termos prenúncio e arma de Tchekhov.
Plot twist e reviravolta são a mesma coisa?
Sim: reviravolta é o nome em português para plot twist, a mudança radical na direção do enredo, e, quando ela vem perto do fim, fala-se em final surpresa. O termo está em reviravolta, e o passo a passo de armar uma, em como fazer um plot twist.
Deus ex machina é sempre um erro?
Não; a crítica e a defesa do recurso, do teatro grego aos críticos de hoje, estão no termo deus ex machina. Pela segunda pergunta da tabela, a saída de fora funciona quando o texto a deixou à vista antes, a condição que Horácio e Tolkien já punham.
MacGuffin é clichê?
Não por si; o debate sobre quanto o público deve se importar com o objeto, de Hitchcock a George Lucas, está no termo MacGuffin. Na nossa leitura, vira clichê quando a trama é só uma coleção de objetos trocados pelo final, o que Nick Lowe chama de plot coupon.
Clichê e tropo são a mesma coisa?
Não. Tropo é um conteúdo que se repete entre obras; clichê, na definição desta página, é uma peça gasta, que o leitor vê chegar antes do efeito. Um tropo vira clichê quando é usado sem nada novo; o que é tropo está no guia sobre o que é trope.
O que são técnicas narrativas modernas?
A expressão não tem definição única; nesta página, ela aponta para escolhas de narração, como quem conta e de que ponto de vista, e para a quebra da ordem linear, a anacronia, que os romancistas modernistas experimentaram. As escolhas de quem conta e de que ponto de vista estão no guia sobre tipos de narrador.
Como saber se meu livro está cheio de clichês?
Passe cada recurso pelas três perguntas da tabela: o leitor acha o plantio voltando as páginas, a saída de fora estava à vista, e um leitor do gênero adivinharia a peça. Os dois primeiros "não" pedem plantio; o "sim" do terceiro pede outra peça ou outro lugar para ela.
O que fazer com isso
Antes de cortar um recurso por medo de clichê, passe-o pelas três perguntas. O que falha na primeira pede plantio mais cedo, com uma função visível na cena; o que falha na segunda pede que a possibilidade da saída apareça antes; o que falha na terceira pede outra peça, ou a mesma num lugar onde o leitor do gênero não a espera.
O resto do livro está nos guias vizinhos: como estruturar um livro, para os modelos; como começar um livro, para a abertura; como manter a tensão no meio do livro, para o meio e o clímax; como terminar um livro, para os tipos de final; e o guia geral da estrutura narrativa, para o tema inteiro.
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Guias que saem daqui
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Termos usados nesta página
Em breve
Quem fala sobre isso 3pessoas
- Gérard Genette †teórico da literatura francês (1930–2018); lecionou na École des hautes études en sciences sociales
Obra sobre o tema: Figures III, 1972, em que o ensaio "Discours du récit" nomeia as anacronias do relato, a analepse e a prolepse.
Página ↗ - S. S. Van Dine †pseudônimo do crítico de arte e romancista policial norte-americano Willard Huntington Wright (1888–1939), criador do detetive Philo Vance
Obra sobre o tema: "Twenty Rules for Writing Detective Stories", 1928, regras de jogo limpo com o leitor e lista de truques do romance policial.
Página ↗ - Nancy Kressescritora de ficção científica norte-americana (nascida em 1948); colunista da Writer's Digest
Obra sobre o tema: "3 Tips for Writing Successful Flashbacks", 2008, três regras para usar o flashback.
Página ↗
O que a rede diz 5 vozes
TikTokPropõe uma conversa sobre os recursos narrativos preguiçosos.
@julinuxaTikTok ↗
TikTokUma pistola, uma carta, um objeto que parece não ter importância: às vezes é o menor detalhe que faz a história encaixar. Conta de onde vem a ideia, com Tchekhov no século XIX, e sugere usá-la para reler o próprio manuscrito (em espanhol).
@terra.editorialTikTok ↗
TikTokSobre começar no meio da ação: muitas vezes quem escreve usa recursos narrativos sem perceber, e nem o leitor, fora professores e estudantes de literatura, costuma parar para notar cada um deles (em espanhol).
@xie.tina_30TikTok ↗
YouTubeApresenta recursos para contar uma história interessante: plantar e pagar depois, a surpresa, o suspense e a ironia dramática, com exemplos de roteiro (em espanhol).
Aprendercine.comYouTube ↗
YouTubeTrês chaves para a história dentro da história: serve para dar unidade a um livro de contos ou enriquecer um romance, e o recurso aparece com outros nomes, como caixa chinesa (em espanhol).
VERBALINA Cursos y Mentorías para EscritoresYouTube ↗
O que está acontecendo
- Vendas de livro de autor canadense acusado de escrever com uso de IA disparam na França ↗
Obra de Thélyson Orélien, retirada da seleção do Prêmio Goncourt, teve mais de 18 mil exemplares vendidos em uma semana na França
- Jeferson Tenório, do best-seller 'O Avesso da Pele', estreia curso de escrita na CasaFolha ↗
Aulas com vencedor do Prêmio Jabuti já estão disponíveis para assinantes da plataforma
- When bots write books ↗
Artificial intelligence is transforming the publishing industry. What does that mean for human authors?
- I Asked AI to Write a Novel. It’s Not So Bad. ↗
What does this tell us about the future of writing?
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Lidas no texto integral
- Arthur Conan Doyle, "The Adventure of the Speckled Band", 1892, em The Adventures of Sherlock Holmes (Project Gutenberg #1661).
- Agatha Christie, The Murder of Roger Ackroyd, 1926, caps. IV, V e XXVII (Project Gutenberg #69087).
- Machado de Assis, "O Alienista", em Papéis avulsos, Lombaerts, 1882, caps. IV, XI–XIII (Wikisource).
- Machado de Assis, "Missa do galo", 1894 (Wikisource).
- Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, Typographia Nacional, 1881, caps. I e IX.
- Machado de Assis, Dom Casmurro, H. Garnier, 1899, cap. CXLVIII.
- Thomas Hardy, A Pair of Blue Eyes, 1872–73, caps. XXI–XXII (Project Gutenberg #224).
- H. G. Wells, The War of the Worlds, 1898, Livro II, caps. II, VI, VIII e X (Project Gutenberg #36).
- O. Henry, "The Gift of the Magi", em The Four Million, 1906 (Project Gutenberg #2776).
- Aristóteles, Poética, caps. IX, XI e XV, trad. S. H. Butcher, Macmillan, 1895.
- Horácio, Ars Poetica, v. 191–192 (The Latin Library).
- Anton Tchekhov, carta a A. S. Lazarev (Grúzinski), 01/11/1889, em Obras completas, Cartas, t. 3, Naúka, 1976.
- S. S. Van Dine, "Twenty Rules for Writing Detective Stories", The American Magazine, set/1928, regras 1–4, 8, 10, 11, 15, 16 e a abertura da 20 (transcrição da University of Missouri–St. Louis).
- Nick Lowe, "The Well-Tempered Plot Device", Ansible 46, jul/1986.
- Nancy Kress, "3 Tips for Writing Successful Flashbacks", Writer's Digest, 11/03/2008.
- Catherine Ramond, "Usage des prolepses et statut de la feintise", Fabula / Les Colloques, 31/08/2018.
- Caroline Crampton, "Playing by the Rules: Christie's Unconventional Crimes", agathachristie.com, 12/04/2019.
- Fabian Quevedo da Rocha, "Do conto de fadas ao épico: a mudança no tom narrativo em O Hobbit", Literartes (USP), n. 12, 2020.
- "Dom Casmurro's critical legacy in English: state of the art", Machado de Assis em Linha (SciELO).
- Jake Rossen, "Research Argues Spoilers Make Stories Better", Mental Floss, 20/07/2016.
Lidas em resumo ou pela referência
- Gérard Genette, Figures III, Seuil, 1972, p. 105–106 (pela citação de Ramond).
- Ronald Knox, "Ten Commandments", prefácio a The Best Detective Stories of the Year 1928, 1929 (pela seleção de Engelhardt, Open University).
- Jonathan Leavitt e Nicholas Christenfeld, "Story spoilers don't spoil stories", Psychological Science 22(9), 2011, p. 1152–1154.
- Helen Caldwell, The Brazilian Othello of Machado de Assis, 1960.
- J. R. R. Tolkien, "On Fairy-Stories", 1947 (pela citação de Rocha).
- Fred Pfeil, Another Tale to Tell, Verso, 1990, p. 267.
- Heather Murray, "Conventions of Reading", em The Cambridge Handbook of Literacy, 2009, p. 200–201.
- Chris Baldick, The Concise Oxford Dictionary of Literary Terms, OUP, 2004, verbete "deus ex machina".
- Friedman, William Golding's Lord of the Flies, 2008, p. 67–68.
- The Greenwood Encyclopedia of Science Fiction and Fantasy, v. 1, 2005, p. 195.
- Ernest Hemingway, "The Art of the Short Story", The Paris Review, 1981.
- Andrea Phillips, "The case against Chekhov's gun", 06/10/2010.
- I. Ia. Gurliand, memórias de Tchekhov, Teatr i iskusstvo, 1904, n. 28, p. 521.
- S. Chtchukin, memórias de Tchekhov, 1911, p. 44; E. J. Simmons, Chekhov: A Biography, 1970, p. 190.
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- Ralph Stuart Singleton, Filmmaker's Dictionary, 2000, p. 229.
- Etymonline, verbete "cliche".
VERSE MEDIA. Recursos narrativos: o que são, quais são e quais viraram clichê. Enciclopédia Verse, 5 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/estrutura/recursos-narrativos. Acesso em: [data].
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