Figuras de linguagem na ficção: o que são, quais são e como os mestres usam
Para o linguista José Luiz Fiorin, figuras de linguagem são operações que trocam um sentido por outro, como a metáfora e a ironia, ou que repetem, suprimem ou trocam de lugar palavras e sons, como a anáfora e a elipse, e com isso intensificam ou atenuam o sentido. Na ficção, o poeta latino Horácio e a romancista Ursula K. Le Guin julgam a figura pelo lugar em que ela aparece: condenam o enfeite fora de hora e a metáfora que para o leitor no meio da história.
Este guia foi feito com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da prosa de ficção, como Aristóteles, Horácio, George Orwell, Ursula K. Le Guin e J. R. R. Tolkien; no Brasil, José Luiz Fiorin, Machado de Assis, Roberto Schwarz, Graciliano Ramos e Clarice Lispector.
Você decorou metáfora, metonímia e hipérbole para a prova, com exemplo de música e de propaganda. Agora relê o capítulo do seu romance e não sabe se ele precisa de mais figura ou de menos. A metáfora de que você mais gostou voltou da leitura beta circulada, com uma palavra na margem: exagero.
- A lista das figuras que a prosa de ficção usa, cada uma com um trecho de romance ou conto, o que ela faz na cena e quem a observou
- a diferença entre alegoria e símbolo e como a ironia funciona numa história, pela boca dos mestres
- o critério de Horácio, Orwell e Le Guin para saber quando a figura vira clichê ou enfeite
- quatro perguntas para revisar as figuras de um capítulo e um exercício de som.
Aprendeu figuras de linguagem na escola, com frase de prova e letra de música, e não sabe o que fazer com elas num romance: o texto sai seco, ou sai cheio de metáfora que o leitor beta marca como exagero ou clichê.
Nesta página
- O que são figuras de linguagem?
- Quais são as figuras de linguagem? Lista com exemplos de livros
- Por que os escritores usam figuras de linguagem?
- Como a metáfora funciona numa história?
- Alegoria e símbolo: qual a diferença na ficção?
- Como a ironia funciona na ficção?
- Como evitar clichês na escrita?
- Como escrever de forma poética sem exagerar na figura?
- Perguntas frequentes
- Como aplicar: quatro perguntas e um exercício
Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.
O que são figuras de linguagem?
Para o linguista José Luiz Fiorin, a figura é instrumento, e não enfeite. Fiorin, autor de Figuras de retórica (Contexto, 2014), que assinou por anos a coluna "Retórica" da revista Língua Portuguesa, avisa logo no começo do livro que não faz um catálogo de figuras: descreve mecanismos de construção de sentido, operações que intensificam ou atenuam o que o discurso diz, "a serviço da persuasão".
O argumento de Fiorin passa pela palavra latina ornatus: para ele, na retórica ela queria dizer "bem equipado para exercer sua função", e por isso não há cisão entre argumentar e usar figuras, que sempre argumentam. Do outro lado estão Perelman e Olbrechts-Tyteca, autores do Tratado da argumentação: para eles, a figura que não muda a perspectiva de quem lê será percebida como ornamento, figura de estilo que pode até ser admirada, mas no plano estético.
A ideia de troca vem de longe. O filósofo grego Aristóteles, na Poética (c. 335 a.C.), definiu a metáfora como a aplicação a uma coisa de um nome que pertence a outra, por transferência, e deu o exemplo da analogia: a taça está para Dioniso como o escudo para Ares, logo a taça pode ser chamada de escudo de Dioniso.
Quais são as figuras de linguagem? Lista com exemplos de livros
Fiorin agrupa as figuras pelas operações que os retóricos antigos descreveram: as que acrescentam ou repetem, aumentando o enunciado; as que suprimem, diminuindo-o; as que trocam elementos de lugar; e as que trocam um sentido por outro, que são os tropos. Nos tropos, Fiorin toma como marco o ensaio "Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia", do linguista Roman Jakobson: a metáfora se constrói pela similaridade entre duas coisas e concentra o sentido; a metonímia, pela contiguidade entre elas, e o expande.
A tabela abaixo leva as figuras à prosa: vinte figuras, cada uma com um trecho de livro conferido no texto, quase sempre de romance ou conto, mais a peça Macbeth e, no oxímoro, Os sertões. A coluna "quem observa" dá o mestre que formulou a figura ou leu aquele trecho; onde há um traço, a leitura do que a figura faz é nossa. Trechos em outra língua vão no original, com a tradução nossa ao lado.
| figura | como funciona | exemplo no livro | o que faz na cena | quem observa |
|---|---|---|---|---|
| Comparação (símile) | aproxima duas coisas com "como" | "plate comme un trottoir de rue" (chata como a calçada): a conversa de Charles, em Madame Bovary (Flaubert, 1857) | resume o marido pelo tédio de Emma | Le Guin: no símile a comparação fica aberta |
| Metáfora | diz que uma coisa é outra, sem o "como" | "uma errata pensante": o homem, em Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado, 1881), cap. XXVII | condensa a teoria de vida do narrador | Fiorin; Aristóteles (transferência de nome) |
| Metonímia | troca uma coisa por outra vizinha dela | "a batina do irmão", pelo tio cônego, em Brás Cubas, cap. XI | a roupa diz o ofício e a respeitabilidade que o tio João desrespeita | Jakobson, via Fiorin (contiguidade) |
| Sinédoque | a parte pelo todo | "cabeças congestionadas de sono" nas portas, em O cortiço (Aluísio Azevedo, 1890), cap. III | mostra a massa antes de qualquer pessoa ter nome | — |
| Personificação | dá ação ou corpo humano ao que não é gente | "o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas" | faz do lugar um organismo, a tese naturalista do livro | — |
| Hipérbole | exagera de propósito | Simão Bacamarte, "o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas", em O alienista (Machado, 1882) | infla o herói para o conto desmontá-lo | — |
| Antítese | põe ideias opostas lado a lado | "It was the best of times, it was the worst of times" (foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos), A Tale of Two Cities (Dickens, 1859) | anuncia o livro de duas cidades e de uma época dividida | — |
| Anáfora | repete o começo das frases | o mesmo parágrafo de Dickens, que abre dez orações com "it was the" (foi o, foi a) | dá à abertura ritmo de ladainha | — |
| Paradoxo | une o que parece se excluir | "Fair is foul, and foul is fair" (o belo é feio e o feio é belo), as bruxas em Macbeth (Shakespeare, c. 1606), I.1 | instala a moral invertida da peça antes de Macbeth entrar | — |
| Oxímoro | funde opostos num só termo | "Hércules-Quasímodo", o sertanejo de Os sertões (Euclides da Cunha, 1902) | carrega a tese da força escondida sob a feiura | — |
| Ironia | diz uma coisa e dá a entender outra | Marcela "amou-me durante quinze meses e onze contos de réis", Brás Cubas, cap. XVII | diz que o amor foi comprado sem dizer | Booth: só funciona se o leitor partilha o código |
| Gradação | sobe ou desce em degraus | "já se não destacavam vozes dispersas [...] já se não falava, gritava-se", O cortiço, cap. III | encena o barulho da manhã crescendo | — |
| Polissíndeto | repete o conectivo | a reza de Jake na catedral, "and" (e) atrás de "and", em The Sun Also Rises (Hemingway, 1926) | imita a cabeça que se distrai da reza | — |
| Aliteração | repete o som de consoante | "a dull, dark, and soundless day" (um dia baço, escuro e sem som), em "The Fall of the House of Usher" (Poe, 1839) | prepara a atmosfera antes de a casa aparecer | — |
| Onomatopeia | a palavra imita o som | "chapechape", as alpercatas na lama seca, em Vidas secas (Graciliano Ramos, 1938) | marca o passo da família | — |
| Apóstrofe | fala a alguém fora da cena | "Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa", Brás Cubas, cap. IV | puxa o leitor para a conversa do narrador | — |
| Elipse | cala o que se espera | o cap. CXXXIX de Brás Cubas, "De como não fui ministro d'Estado", feito só de pontos | o silêncio diz a frustração; o capítulo seguinte explica que há coisas que melhor se dizem calando | — |
| Quiasmo | inverte a ordem dos termos | "um autor defunto, mas um defunto autor", Brás Cubas, cap. I | apresenta o narrador que escreve depois de morto | — |
| Alegoria | conta uma história que significa outra | "Um apólogo" (Machado, 1885): a agulha e a linha discutem quem vale mais | dá forma de fábula a uma moral sobre quem trabalha e quem aparece | Coleridge: a alegoria traduz noções abstratas em imagens |
| Símbolo | um objeto carrega sentido além do literal | o espelho que só devolve a figura de Jacobina quando ele veste a farda, em "O espelho" (Machado, 1882) | dá corpo à "alma exterior" sem traduzi-la numa frase | Coleridge: o símbolo participa da realidade que torna inteligível |
O manual Perrine's Literature, de Arp e Johnson, trata a sinédoque como um subtipo comum da metonímia, a da parte pelo todo, como as cabeças que estão pelos moradores do cortiço. Três linhas da tabela saem da mesma manhã do cap. III de O cortiço, que empilha personificação, sinédoque e gradação numa página; o lado sensorial dessa página, o cheiro e a luz, está no guia de descrição sensorial. A tabela fica nas figuras que se leem num trecho curto de prosa; os catálogos de retórica passam de cem.
Por que os escritores usam figuras de linguagem?
Para Aristóteles, a metáfora ensina; para George Lakoff e Mark Johnson, autores de Metaphors We Live By (1980), o pensamento comum já funciona por metáforas. Na Retórica (III.10), Aristóteles diz que todos acham naturalmente agradável aprender com facilidade, e que a metáfora faz isso: quando o poeta chama a velhice de caule seco, transmite uma ideia nova pela noção de viço perdido, comum às duas coisas.
O exemplo deles, DISCUSSÃO É GUERRA, está no termo metáfora. O argumento de Fiorin vai na mesma direção por outro caminho, o da retórica: a figura sempre argumenta.
A tensão está em saber se o talento se aprende. Para Aristóteles, na Poética, ter talento para a metáfora é de longe o mais importante e é a única coisa que não se pode tomar de outro, porque fazer boas metáforas exige um olho para semelhanças. O ensaísta inglês George Orwell, autor de 1984, transformou a imagem nova, em "Politics and the English Language" (1946), num teste que qualquer um aplica frase a frase, a pergunta sobre se a imagem é fresca o bastante, desenvolvida no termo imagem sensorial. Os dois não discutem um com o outro; lidos juntos, o dom acha a semelhança e o teste recusa a que já foi achada por outro (leitura nossa).
Como a metáfora funciona numa história?
Para o crítico James Wood, em How Fiction Works (2008), numa narração colada à personagem uma palavra avaliativa pode pertencer a ela e não ao autor: é o estilo indireto livre. O crítico Frank Kermode objetou na resenha que nem todo leitor faz essa atribuição com a facilidade que Wood supõe. O exemplo de Wood, uma única palavra que revela o constrangimento da personagem, é lido no guia sobre como descrever uma personagem.
Em Madame Bovary, do romancista francês Gustave Flaubert, a conversa de Charles é "plate comme un trottoir de rue", chata como a calçada, por onde as ideias de todo mundo desfilam em roupa comum; a comparação vem logo depois do desapego íntimo de Emma.
Machado de Assis, autor de Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, põe a metáfora na fala de uma personagem. Em Dom Casmurro (1899), o velho tenor Marcolini define a vida como "uma opera e uma grande opera" e desdobra a imagem: o tenor e o barítono lutam pelo soprano diante do baixo.
Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador corrige Pascal: o homem não é um caniço pensante, mas "uma errata pensante", e cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior. Fiorin lê ali uma predicação impertinente, porque errata é coisa de escrito, e é a tensão entre o que se mantém e o que muda a cada edição que dá sentido à frase.
Ao saber da morte da mulher, Macbeth, de Shakespeare, encadeia metáforas em seis versos: a vela breve, a sombra que anda, o ator pobre que se agita sua hora no palco, o conto contado por um idiota, "full of sound and fury" (cheio de som e fúria). Em "Hills Like White Elephants" (1927), do contista americano Ernest Hemingway, a moça devolve a imagem dos montes como moeda da briga do casal, caso desenvolvido no guia sobre como escrever diálogos naturais.
Alegoria e símbolo: qual a diferença na ficção?
Para o poeta e crítico inglês Samuel Taylor Coleridge, autor da Biographia Literaria, a alegoria traduz e o símbolo participa. A distinção, que ficou clássica, está em The Statesman's Manual (1816): a alegoria é só a tradução de noções abstratas numa linguagem de imagens, ela mesma uma abstração; o símbolo tem uma "translucence" (translucidez), a do geral que transparece no particular, e sempre participa da realidade que torna inteligível.
Orwell declarou a alegoria de A revolução dos bichos. No prefácio à edição ucraniana (1947), conta que quis destruir o mito soviético e que a ideia veio de ver um menino de uns dez anos chicoteando um enorme cavalo de carroça: se esses animais tomassem consciência da própria força, nós não teríamos poder sobre eles. No mesmo prefácio, ele diz que tratou os episódios da história russa de modo esquemático e mudou a ordem deles, porque a simetria da história pedia.
J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, escreveu o contrário no prefácio da segunda edição do livro (1966): detesta cordialmente a alegoria em todas as manifestações e prefere a história, verdadeira ou inventada, com a aplicabilidade variada que ela tem para o pensamento e a experiência dos leitores. Muitos confundem aplicabilidade com alegoria, diz ele, mas uma mora na liberdade do leitor, e a outra, no domínio proposital do autor. É a mesma linha de Coleridge, vista de quem escreve: na alegoria o autor fixa a chave; no símbolo e na aplicabilidade, o leitor a encontra (leitura nossa).
Machado escreveu as duas coisas. Em "Um apólogo" (1885), a agulha e a linha discutem quem vale mais; a linha vai ao baile no vestido, a agulha volta para a caixa, e o conto fecha com um "professor de melancolia" que diz ter servido de agulha a muita linha ordinária. Em "O espelho" (1882), Jacobina, sozinho no sítio, não se reconhece no vidro até vestir a farda de alferes: aí "o vidro reproduziu então a figura integral", e ele diz que achava, enfim, "a alma exterior".
No cap. 42 de Moby-Dick (1851), do romancista Herman Melville, Ishmael diz que era a brancura da baleia o que acima de tudo o apavorava e passa o capítulo tentando dizer o que ela significa: a brancura é, ao mesmo tempo, o símbolo mais carregado das coisas espirituais e o agente que intensifica o que mais apavora o homem.
Os graus da alegoria, no contínuo do crítico Northrop Frye, estão no termo alegoria.
O símbolo como recurso, assunto do termo simbolismo, não se confunde com o Simbolismo, a escola literária lançada pelo manifesto de Jean Moréas no Le Figaro em 1886.
Como a ironia funciona na ficção?
Para o crítico Wayne C. Booth, em A Rhetoric of Irony (1974), a ironia só funciona com três acordos entre autor e leitor: a língua em comum, os valores culturais partilhados e a experiência do gênero; o livro pergunta por que tantas vezes não conseguimos partilhar ironias. O risco do leitor que não percebe a ironia do narrador aparece também no guia sobre mostrar em vez de contar.
O crítico D. C. Muecke, em The Compass of Irony (1969), descreve toda ironia em dois andares: embaixo, a situação como aparece à vítima, ou como o ironista a apresenta; em cima, a situação como o observador a vê.
Em "A Modest Proposal" (Dublin, 1729), o escritor Jonathan Swift dá a voz a um projetista sensato, que propõe resolver a miséria irlandesa vendendo os filhos dos pobres como comida, com o aval de um americano muito entendido de que uma criança sadia de um ano é alimento delicioso, "stewed, roasted, baked, or boiled" (ensopada, assada, ao forno ou cozida). O panfleto fecha com o autor jurando desinteresse, porque não tem filhos dos quais possa tirar um tostão.
No Brasil, o crítico Roberto Schwarz descreveu como a ironia do narrador de Machado se organiza. Em "Uma prosa e suas implicações" (1985), parte do estudo que virou Um mestre na periferia do capitalismo (1990), Schwarz descreve a volubilidade do narrador de Brás Cubas, que de frase a frase muda de personalidade, de dicção, de gênero literário ou de ponto de vista; não é capricho, é "a regra formal da narrativa", e cada mudança é uma espécie de vitória do narrador sobre o leitor.
Os manuais dividem a ironia em verbal, situacional e dramática; os tipos estão no termo ironia, e a dramática, que trabalha mais no enredo do que na frase, em ironia dramática.
Como evitar clichês na escrita?
Pela regra de Orwell, o clichê de frase é a figura que você está acostumado a ver impressa; lidos juntos, Orwell e Guimarães Rosa dão remédios opostos, cortar a figura ou renovar a língua (leitura nossa). A primeira das seis regras de "Politics and the English Language" manda nunca usar metáfora, comparação ou outra figura que você está acostumado a ver impressa.
Ele descreve a prosa feita assim como frases pregadas umas nas outras "like the sections of a prefabricated hen-house" (como as seções de um galinheiro pré-fabricado), e admite que, no próprio ensaio, cometeu várias vezes as faltas contra as quais protesta. A sexta regra relativiza as outras cinco: quebre qualquer uma delas antes de dizer algo francamente bárbaro.
Le Guin, cujo A mão esquerda da escuridão (1969) ganhou os prêmios Hugo e Nebula de melhor romance, aponta onde o clichê se esconde. No glossário de Steering the Craft (1998), ela lembra que muito da língua é metafórico, a começar pelos insultos, e que o escritor precisa vigiar as metáforas comuns, mortas, que, misturadas, voltam terrivelmente à vida, como na ordem ao departamento inteiro para pôr o chapéu de pensar e ir direto ao ponto. Para o escritor Martin Amis, no livro de ensaios The War Against Cliché (2001), toda escrita é, idealmente, uma campanha contra o clichê, da pena, da mente e do coração.
O romancista Guimarães Rosa, de Grande sertão: veredas, propôs o caminho oposto ao corte. Na entrevista a Günter Lorenz, em Gênova (1965), disse que a língua serve para expressar ideias, mas que a linguagem corrente "expressa apenas clichês e não idéias", e que só renovando a língua se renova o mundo.
Um aviso de atribuição: "Métaphores. Il y en a toujours trop dans le style." (metáforas: há sempre demais no estilo) não é conselho de Flaubert. É uma entrada do Dicionário das ideias feitas, em que ele cataloga com ironia o lugar-comum da época, ao lado de "Littérature. Occupation des oisifs." (literatura: ocupação dos ociosos). O clichê de enredo, o da situação e não o da frase, está no guia dos recursos narrativos.
Como escrever de forma poética sem exagerar na figura?
Horácio e Le Guin condenam o ornamento fora de hora; Graciliano Ramos e Clarice Lispector, a palavra que só enfeita. Horácio, na Arte poética (c. 19 a.C.), fala das obras de começo nobre e grandes promessas em que se costuram um ou dois remendos de púrpura, feitos para brilhar ao longe: o bosque e o altar de Diana, o riacho que serpenteia entre campos, o Reno, o arco-íris. Para essas coisas há lugar, diz ele, mas não agora; e talvez você saiba pintar um cipreste, mas de que serve, se lhe pagaram para pintar um náufrago nadando para escapar?
Le Guin dá a regra da prosa narrativa em Steering the Craft: o dever básico e invisível de uma frase narrativa é levar à próxima. A frase não serve bem à história se o ritmo é tão inesperado, a beleza tão chamativa ou as metáforas tão deslumbrantes que param o leitor, mesmo que seja para ele dizer "Ooh, Ah!"; a poesia pode fazer isso, a prosa costuma pôr a beleza mais fundo, escondida na obra inteira.
O romancista Graciliano Ramos, de Vidas secas, levou o mesmo cuidado para a palavra. Numa conversa com o jornalista Joel Silveira, registrada nas memórias dele (Na fogueira, 1998) e recolhida em Conversas (Record, 2014), comparou o escritor às lavadeiras de Alagoas, que molham, torcem, ensaboam, torcem de novo e enxáguam antes de pendurar a roupa: "A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso". A escritora Clarice Lispector disse o mesmo de si, na entrevista à TV Cultura de 1977: "eu escrevo simples. Eu não enfeito."
A própria Le Guin, porém, dá como primeiro exercício do livro o "Being Gorgeous", ser deslumbrante: lembra que costumamos pensar a poesia como a que pode ser deslumbrante e a prosa como a que tem de ser simples, e manda escrever narrativa para ler em voz alta, cheia de efeitos de som. Lidos juntos, Horácio e Le Guin dão a condição: a figura forte cabe quando a cena a pede, e o excesso se treina para depois escolher (leitura nossa).
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre metáfora e comparação?
A romancista Ursula K. Le Guin resume: no símile a comparação fica aberta, com um conectivo como "como", e na metáfora o "como" desaparece. A distinção, com exemplos, está no termo metáfora.
O que é linguagem figurada?
É a que usa as palavras em sentido diferente do literal, como quando se chama a velhice de caule seco. As figuras de linguagem são as formas que esse desvio toma; a oposição entre figurado e literal está no termo linguagem figurada.
Quantas figuras de linguagem existem?
Não há número fechado. O manual The Garden of Eloquence (1577), de Henry Peacham, catalogou 184, e o linguista José Luiz Fiorin trata de mais de uma centena em Figuras de retórica. Para quem escreve ficção, a tabela desta página reúne vinte que se leem num trecho curto de romance ou conto.
Figura de linguagem é o mesmo que recurso narrativo?
Não. A figura é um modo de dizer numa frase; o recurso narrativo trabalha no enredo, no que o leitor fica sabendo e quando. A diferença está no guia dos recursos narrativos.
Qual a diferença entre símbolo e motivo?
O símbolo é um objeto, gesto ou imagem que carrega sentido além do literal, como o espelho de Machado em "O espelho". O motivo, elemento que se repete ao longo da obra, é o assunto do termo motivo literário.
O que é ironia dramática?
É a ironia em que o público sabe o que a personagem não sabe. Ela trabalha mais no enredo do que na frase, e o mecanismo está no termo ironia dramática.
Onde achar exemplos de metáforas de livros?
Na página de exemplos de metáforas, com trechos de romance e um jeito de criar as próprias. Aqui, a metáfora aparece pelo que faz na cena, na "errata pensante" de Brás Cubas e na ópera de Marcolini.
Como aplicar: quatro perguntas e um exercício
As quatro perguntas abaixo saem de Wood, de Perelman e Olbrechts-Tyteca, de Horácio e Le Guin e de Orwell. Para aplicar o que eles ensinam, escolha um capítulo do próprio texto, marque cada figura e faça as perguntas a ela:
- De quem é esta figura, do narrador ou da personagem que vê a cena? Wood mostra que, no estilo indireto livre, a palavra avaliativa pode ser da personagem.
- Ela muda o que o leitor entende da cena, ou só enfeita? É o critério de Perelman e Olbrechts-Tyteca, lembrado na resenha de Pistori ao livro de Fiorin.
- Este é o lugar dela? Horácio aceita o trecho ornado, desde que não seja na hora do naufrágio; Le Guin corta o que para o leitor.
- Já vi esta figura impressa? É a regra 1 de Orwell, em "Politics and the English Language".
Depois, o exercício 1 de Le Guin, "Being Gorgeous": um parágrafo a uma página, de 150 a 300 palavras, de narrativa feita para ler em voz alta, com onomatopeia, aliteração, repetição, efeitos de ritmo, palavras inventadas ou dialeto, sem rima nem métrica. A leitura em voz alta aplicada à fala das personagens está no guia sobre como escrever diálogos naturais, e a imagem que faz o leitor ver a cena, no guia sobre mostrar em vez de contar.
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Em breve
Quem fala sobre isso 6pessoas
- José Luiz Fiorinlinguista brasileiro, professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP; mestre e doutor em Linguística pela USP (bio da editora)
Obra sobre figuras de linguagem: o livro Figuras de retórica (Contexto, 2014).
Página ↗ - Wayne C. Booth †crítico literário e professor de retórica norte-americano (1921–2005), Universidade de Chicago
Obra sobre a ironia como figura: o livro A Rhetoric of Irony (University of Chicago Press; © 1975 na ficha da editora).
Página ↗ - Henry Peacham †clérigo e escritor inglês (1547–1634), conhecido como Henry Peacham, o Velho
Obra sobre figuras de linguagem: o tratado The Garden of Eloquence, "conteyning the figures of grammer and rhetorike" (1577).
Página ↗ - Mark Forsythescritor britânico (n. 1977), autor de livros sobre palavras e retórica e do blog The Inky Fool
Obra sobre figuras de linguagem: o livro The Elements of Eloquence (2013), um capítulo por figura.
Página ↗ - Ward Farnsworthprofessor de direito norte-americano (n. 1967), W. Page Keeton Chair na Faculdade de Direito da Universidade do Texas; autor de livros de retórica
Obra sobre figuras de linguagem: o livro Farnsworth's Classical English Rhetoric (Godine; brochura de 2016), as figuras clássicas na prosa inglesa.
Página ↗ - Maria Helena Cruz Pistoripesquisadora de estudos do discurso, PUC-SP/CNPq (afiliação na resenha, 2014)
Obra sobre figuras de linguagem: a resenha de Figuras de retórica, de Fiorin, na revista Bakhtiniana (2014).
Página ↗
O que a rede diz 5 vozes
YouTubeA aula para o Enem parte de que a figura de linguagem não está ali para enfeitar: é uma escolha que muda o sentido do texto, e a prova pergunta pelo efeito que ela produz, mais do que pelo nome. Metáfora e comparação aproximam ideias, a ironia diz o contrário do que afirma, o eufemismo suaviza e a hipérbole exagera.
DescomplicaYouTube ↗
YouTubePara o professor, as figuras de linguagem são ferramentas de quem lê e de quem escreve, tanto na hora de interpretar quanto na de produzir um texto literário; a aula passa pelas principais figuras com esse duplo uso em vista.
Prof. Fagner AraújoYouTube ↗
YouTubeO canal pergunta para que servem as figuras de linguagem e as separa pelo que mexem: o significado da palavra, o pensamento, o som e a estrutura da frase.
Literatura com AlencarYouTube ↗
YouTubeNa primeira de duas aulas, o professor começa pela diferença entre denotação e conotação, o sentido literal e o figurado, antes de chegar à comparação, à metáfora e às outras figuras.
Professor NoslenYouTube ↗
TikTokO post resume as figuras de linguagem como recursos para deixar a comunicação mais expressiva e criativa, que levam quem fala ou escreve para além do sentido literal e passam emoção, ideia e imagem com mais força; cita metáfora, comparação, hipérbole, personificação e ironia como as principais.
@alanimaiaTikTok ↗
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Nesta quarta-feira, dia 14 de outubro de 2026, a escritora, tradutora e agitadora cultural, Julia Raiz, participou do programa Universo Literário e conversou com a apresentadora Michelle Bruck sobre a vida, obra a tradução da escritora canadense Anne Carson, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura…
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This year's shortlist is made up of former Booker winners and debut authors, with tales spanning a wide range of genres, from historical fiction to campus novel to dystopian fiction.
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Lidas no texto integral
- Aristóteles, Poética, trad. S. H. Butcher, Aristotle's Theory of Poetry and Fine Art, Macmillan.
- Aristóteles, Retórica, livro III, trad. W. Rhys Roberts (MIT Internet Classics Archive).
- Horácio, Ars poetica (latim); trad. H. Rushton Fairclough, Satires, Epistles and Ars Poetica, Loeb Classical Library, 1926 (archive.org).
- Samuel Taylor Coleridge, The Statesman's Manual (1816), em Lay Sermons, ed. 1852 (archive.org).
- Ursula K. Le Guin, Steering the Craft, Eighth Mountain Press, 1998.
- George Orwell, "Politics and the English Language", Horizon, abril de 1946 (The Orwell Foundation).
- George Orwell, prefácio à edição ucraniana de Animal Farm, março de 1947 (The Orwell Foundation; retradução do ucraniano, o original inglês se perdeu).
- Jonathan Swift, A Modest Proposal, Dublin, 1729 (Project Gutenberg #1080).
- Gustave Flaubert, Dictionnaire des idées reçues, ed. Conard, 1910 (Wikisource); Madame Bovary, 1857.
- Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881; Dom Casmurro, 1899; O alienista e "O espelho", em Papéis avulsos, 1882; "Um apólogo", 1885 (Wikisource e Project Gutenberg).
- Aluísio Azevedo, O cortiço, Garnier, 1890 (Wikisource).
- Euclides da Cunha, Os sertões, 1902, parte "O homem", cap. III (Wikisource).
- Graciliano Ramos, Vidas secas (1938), cap. "Fabiano" (Wikisource).
- Charles Dickens, A Tale of Two Cities, 1859 (Project Gutenberg #98).
- William Shakespeare, Macbeth (Project Gutenberg #1533).
- Herman Melville, Moby-Dick, 1851, cap. 42 (Project Gutenberg #2701).
- Ernest Hemingway, "Hills Like White Elephants", em Men Without Women, Scribner, 1927; The Sun Also Rises, 1926.
- Edgar Allan Poe, "The Fall of the House of Usher", 1839 (Project Gutenberg #2148).
- Roberto Schwarz, "Uma prosa e suas implicações", Língua e Literatura (FFLCH-USP), n. 14, 1985.
- Jean Pierre Chauvin, "Graciliano Ramos sob o fio da palavra empenhada", Teresa, n. 16, USP, 2015 (sobre Conversas, Record, 2014).
- Marcus Mota, "Clarice em performance: uma análise da entrevista de 1977", Cerrados (UnB).
- Günter Lorenz, "Diálogo com Guimarães Rosa" (1965), em Diálogo com a América Latina, EPU, 1973 (reprodução integral).
Lidas em resumo ou pela referência
- José Luiz Fiorin, Figuras de retórica, Contexto, 2014 (pela resenha de Maria Helena Cruz Pistori, Bakhtiniana, v. 9, n. 1, 2014).
- Perelman e Olbrechts-Tyteca, Tratado da argumentação, Martins Fontes, 1996 (pela mesma resenha).
- Roman Jakobson, "Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia" (pela mesma resenha e por Fiorin).
- James Wood, How Fiction Works, 2008 (pela resenha de Frank Kermode, "The Art of Noticing", The New Republic, 30/07/2008).
- J. R. R. Tolkien, "Foreword to the Second Edition", The Lord of the Rings, Allen & Unwin, 1966 (por reprodução do texto).
- George Lakoff e Mark Johnson, Metaphors We Live By, University of Chicago Press, 1980, cap. 1–3.
- Northrop Frye, Anatomy of Criticism, Princeton University Press, 1957.
- D. C. Muecke, The Compass of Irony, 1969.
- Wayne C. Booth, A Rhetoric of Irony, University of Chicago Press, 1974.
- Corbett e Connors, Classical Rhetoric for the Modern Student, 1999, p. 69–70.
- Arp e Johnson, Perrine's Literature: Structure, Sound and Sense, p. 712.
- Martin Amis, The War Against Cliché: Essays and Reviews 1971–2000, 2001.
- Henry Peacham, The Garden of Eloquence, 1577.
- Jean Moréas, manifesto do Simbolismo, Le Figaro, suplemento literário, 18/09/1886.
- Jo Walton, "Bright the Hawk's Flight on the Empty Sky: Ursula K. Le Guin", Tor.com, 24/01/2018.
VERSE MEDIA. Figuras de linguagem na ficção: o que são, quais são e como os mestres usam. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/prosa-e-estilo/figuras-de-linguagem-que-o-ficcionista-usa. Acesso em: [data].
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