Show, don't tell: o que é mostrar em vez de contar e quando contar
Para o crítico Percy Lubbock, que em 1921 deu a forma clássica ao show, don't tell (mostrar em vez de contar), a arte da ficção começa quando a história é exibida de modo a contar-se sozinha, e não entregue como informação. Ligia Chiappini Moraes Leite, da USP, mede a diferença por quanto o narrador intervém, e Wayne C. Booth responde que todo mostrar também conta. Os manuais de ofício, de Orson Scott Card a Renni Browne e Dave King, pedem que se dosem os dois.
Este guia foi feito com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da prosa de ficção, como Percy Lubbock, Wayne C. Booth, Norman Friedman, John Gardner e James Joyce; no Brasil, Ligia Chiappini Moraes Leite, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector.
Você mandou o capítulo para a leitura beta e voltou o comentário de sempre: mostre, não conte. Reescreveu tudo em cena, cada viagem, cada espera, e o capítulo dobrou de tamanho sem ficar melhor. Agora relê um parágrafo e não sabe dizer se ele está contando ou mostrando.
O que é a regra e de onde ela vem, exemplos lidos em Joyce, Graciliano e Clarice, o critério dos mestres para saber quando mostrar e quando contar, a alternância entre cena e sumário, a escala de distância psíquica de Gardner e uma tabela que liga cada situação do texto ao que os mestres fazem.
Ouviu 'mostre, não conte' na oficina ou no comentário da leitura beta, reescreveu tudo em cena e o livro inchou sem melhorar; ou relê o próprio parágrafo e não sabe dizer se ele está contando ou mostrando.
Nesta página
- O que é show, don't tell (mostrar em vez de contar)?
- Quem inventou o "mostre, não conte" (e por que não foi Tchekhov)?
- Quais são exemplos de show, don't tell em livros?
- Quando contar é melhor do que mostrar?
- Cena ou sumário: como alternar?
- Como mostrar em vez de contar?
- Mostrar ou contar? O que os mestres fazem em cada situação do texto
- Perguntas frequentes
- Como aplicar: três perguntas para um parágrafo contado
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O que é show, don't tell (mostrar em vez de contar)?
A professora Ligia Chiappini Moraes Leite, livre-docente em Teoria da Literatura na USP, explica a dupla em O foco narrativo (Ática, 1985), a introdução ao assunto que chegou à 10ª edição: em português, o par vira narrar (telling) e mostrar (showing), e a diferença tem a ver com a intervenção do narrador. "Quanto mais este intervém, mais ele conta e menos mostra", escreve ela. Na cena, os acontecimentos chegam ao leitor diretamente; no sumário, o narrador os conta, resume e condensa.
A fórmula que os cursos de escrita repetem é de Percy Lubbock, editor das cartas de Henry James e autor de The Craft of Fiction (1921), o livro que, segundo Booth quarenta anos depois, ensinou a crítica a acreditar na fórmula. Para Lubbock, a arte da ficção só começa quando o romancista pensa na história como coisa a ser mostrada, "so exhibited that it will tell itself"; entregar os fatos como informação é só enunciar o argumento do livro.
O exemplo que ele dá é o contraste entre dois romancistas, Thackeray, de Esmond, e Maupassant, de La Maison Tellier. Thackeray tem um jeito falador e confidencial, e a história chega ao leitor como um quadro, o que o narrador viu e resume; Maupassant tem um jeito severo, discreto, anônimo, e a história chega como drama, com o leitor perto dos fatos, como se o autor os tivesse pego no ato. Lubbock admite, na mesma página, que Maupassant também está contando: só que a maquinaria do contar passa despercebida, e a história parece contar-se sozinha.
Chiappini lembra que a dupla "já em Platão vem carregada de valor". No livro III da República, Platão separa a narração simples, a imitação e a mistura das duas, passagem lida com o exemplo de Homero no termo discurso direto e indireto; é a distinção que o termo mimese nomeia.
O crítico Norman Friedman, autor de "Point of View in Fiction" (PMLA, 1955), a tipologia de narradores que Chiappini adota como eixo do livro, diz que a cena nasce quando aparecem detalhes específicos, sucessivos e contínuos de tempo, lugar, ação, personagem e diálogo. A régua dele, na tradução de Chiappini, vai "da declaração à inferência", da exposição à apresentação, do explícito ao implícito, "da idéia à imagem".
Quem inventou o "mostre, não conte" (e por que não foi Tchekhov)?
Segundo o dramaturgo Arthur Edwin Krows, o lema circulou no teatro antes da ficção: em Playwriting for Profit (1928, p. 28), ele conta que o dramaturgo e roteirista americano Mark Swan (1871–1942) lhe falou, nos anos 1910, do lema "Show not tell", que mantinha na parede acima da mesa, e "could talk of little else". Em 1927, Swan publicou o manual How You Can Write Plays, que usa a distinção do começo ao fim e pede que os fatos venham em cenas que deem ao ator trabalho emocional, para "sugar-coat the pill".
Na crítica de ficção, Lubbock tomou como modelo o romancista Henry James. Segundo Chiappini, o ideal de James é um narrador discreto que, equilibrando o contar e o mostrar, dê ao leitor a impressão de que a história se conta a si própria, de preferência alojado na mente de uma personagem que sirva de refletor.
Booth, o crítico de The Rhetoric of Fiction (1961), livro que cunhou "autor implícito" e "narrador não confiável", discorda de que James tenha feito disso uma regra. Os prefácios de James, escreve, não oferecem nenhuma redução fácil da técnica a um par contar × mostrar, e o inimigo de James era a preguiça intelectual e artística, não um jeito de narrar. Quem reduziu James a uma coisa só, o romance dramático, foi Lubbock.
A frase que circula como do escritor russo Anton Tchekhov, sobre a lua que brilha e o caco de vidro, não está nas cartas dele com essas palavras: é paráfrase posterior de uma carta de 1886 ao irmão Aleksandr, lida no guia sobre como descrever uma personagem. A omissão que o romancista Ernest Hemingway chamou de iceberg, o que fica de fora e o leitor sente, é o assunto da teoria do iceberg.
Quais são exemplos de show, don't tell em livros?
As pesquisadoras Carolina Lindenberg Lemos e Beatriz Farias Mendes, da UFC, leem em "Amor", de Clarice Lispector, uma confusão urdida "para levar o leitor a sentir, com Ana, a epifania", e Ligia Chiappini acha em Vidas secas, de Graciliano Ramos, "um predomínio quase absoluto da CENA". Lidos lado a lado, "Araby", de James Joyce, Vidas secas e "Amor" nomeiam parte do que a personagem sente e deixam para a coisa vista o que decide a cena. Em "Araby" e no capítulo "Fabiano", o lado contado e o lado mostrado saem do próprio texto; em "Baleia" e em "Amor", dos trechos que Chiappini e Lemos e Mendes transcrevem e comentam. A divisão entre o que se conta e o que se mostra é leitura nossa.
| obra | o que o texto conta | o que o texto mostra |
|---|---|---|
| "Araby", James Joyce (1914) | a vaidade, a angústia e a raiva do menino, na última frase | o bazar fechando: as moedas contadas, a conversa banal, os trocados caindo no bolso, a luz que apaga |
| Vidas secas, Graciliano Ramos (1938), cap. "Fabiano" | que Fabiano acha doidice a cama que a mulher quer | o medo da seca, num olhar para a caatinga e num arrepio |
| "Baleia", em Vidas secas | quase nada: a cadela não sabe que está morrendo | a morte, pelo corpo e pelo sonho |
| "Amor", Clarice Lispector (1960) | o estado de aceitação em que Ana vivia, de que o cego a tira (Lemos e Mendes) | o abalo, no cego mascando chiclete e nos ovos quebrados |
Em "Araby", conto de Dubliners (1914), de James Joyce, o menino chega ao bazar quando ele já está fechando.
Joyce mostra: dois homens contando dinheiro numa bandeja ("I listened to the fall of the coins"), a moça do balcão que conversa bobagens com dois rapazes e atende o menino num tom nada encorajador, as duas moedas de um pêni que ele deixa cair contra a de seis no bolso, a voz que avisa que a luz apagou. Só então conta, com todas as letras: o menino se vê como criatura movida e ridicularizada pela vaidade, e "my eyes burned with anguish and anger".
Graciliano Ramos, autor de S. Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), faz o mesmo em menos espaço. No capítulo "Fabiano", Sinha Vitória quer uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira, e o narrador conta o juízo do marido: "Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice." O medo vem depois, sem nome: "Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava." Pensa na seca que pode chegar. "Arrepiou-se." Para Chiappini, em Vidas secas "não há propriamente narrador": a história vem pela mente das personagens.
No capítulo "Baleia", no trecho que Chiappini transcreve, a cadela morre sem que a palavra apareça: a tremura sobe da barriga ao peito, do peito para trás é tudo insensibilidade, a pedra está fria, Baleia quer dormir e sonha que vai lamber as mãos de "um Fabiano enorme". Graciliano consegue isso, escreve Chiappini, "com a maior simplicidade", juntando aos pensamentos ingênuos da cadela os sinais do dia a dia e o sonho final.
Em "Amor", conto de Laços de família (1960), Clarice Lispector, que Chiappini lê entre os mestres brasileiros da onisciência seletiva e do indireto livre, põe Ana num bonde e faz que ela veja um cego parado no ponto, mascando chiclete. Segundo Lemos e Mendes, é a visão do cego que tira Ana do estado de aceitação, e a arrancada do bonde, com os ovos que se quebram na sacola, sela a perda de controle. No bonde que sacode, "o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito".
A epifania de Clarice, para a crítica Olga de Sá, autora do primeiro estudo de fôlego sobre o tema (A escritura de Clarice Lispector, 1979), é um recurso de estilo, um misto de sensações que chegam pelos sentidos.
Quando contar é melhor do que mostrar?
Wayne C. Booth, Orson Scott Card e Ligia Chiappini apontam três casos em que o contar tem a vez: quando o leitor precisa de uma informação para entrar na história (Booth), quando o tempo passa entre as cenas (Card) e quando o efeito buscado é o juízo e a ironia do narrador (Machado, lido por Chiappini).
Para Wayne C. Booth, a regra está certa em algum sentido, mas levanta mais perguntas do que responde. A primeira é dele: por que um episódio contado pelo romancista Henry Fielding, de Joseph Andrews (1742), pode parecer mais realizado do que muitas cenas mostradas com escrúpulo pelos imitadores de James e de Hemingway? O argumento central de Booth é que tudo o que o autor mostra serve para contar: "the line between showing and telling is always to some degree an arbitrary one", e o autor pode escolher disfarces, nunca desaparecer.
O contar autoritário é o mais antigo da narrativa, lembra Booth: o Livro de Jó abre dizendo que o homem era íntegro e reto, informação que nunca temos sobre gente real e que o leitor precisa aceitar para entrar na história.
Machado de Assis, autor de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899), deixa o narrador contar e comentar à vista do leitor. No capítulo L de Quincas Borba (1891), o narrador para a história para falar com as leitoras: "Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido". Para Chiappini, essa interferência, que comenta, freia a história e se põe no lugar das leitoras, "é típica de Machado" e cria um distanciamento irônico que chama a atenção para os implícitos da história.
Chiappini lembra que o narrador intruso saiu de moda no meio do século XIX, com a neutralidade naturalista e com Flaubert, mas que Machado, "antecipando vertentes ultra modernas", o usa para romper a verossimilhança: o leitor não esquece que está diante de uma ficção. O preço, segundo ela, é a absorção: o leitor fica sem identificação com nenhuma personagem e com pausas frequentes para a reflexão crítica. Pela leitura de Chiappini, o narrador que comenta compra o distanciamento irônico e paga com a absorção.
Para Orson Scott Card (Characters & Viewpoint, 1988), mostrar toma tanto tempo que fica para as cenas dramáticas, e o que acontece entre elas pode ser contado; Renni Browne e Dave King (Self-Editing for Fiction Writers, 2ª ed., 2004) pedem equilíbrio entre mostrar e contar, resumo e ação, com ritmo e tom. Peter Selgin (By Cunning & Craft, 2007) põe a conta em palavras: mostrar pede mais, e contar cobre mais tempo com menos.
O argumento de outra natureza, o do escritor Viet Thanh Nguyen sobre a regra como norma de uma população particular, está no guia sobre como descrever uma personagem. E na não ficção, Frederico Dollo Linardi defende, em artigo de 2025 na revista Matraga, da UERJ, que cena e sumário não são antagonistas e recusa a crença de que o sumário deve ser evitado.
Cena ou sumário: como alternar?
Para Chiappini, cena e sumário convivem em toda obra: é sempre "uma questão de predominância e não de exclusividade". Lubbock, lido por ela, tem quatro termos, não dois. A apresentação pode ser cênica ou panorâmica, e o tratamento, dramático (cena, discurso direto), pictórico (sumário, discurso indireto) ou pictórico-dramático, quando os dois se refletem na mente de uma personagem, em indireto livre. "A CENA restringe a ação, apresentando-a num tempo presente e próxima do leitor", resume Chiappini; o sumário amplia a ação no tempo e no espaço e afasta o leitor. Ela avisa que "sumário" traduz summary melhor que o "panorama" da tradução portuguesa de Lubbock.
Lubbock declara que a escolha depende da adequação ao tema e ao efeito, mas Chiappini nota nele uma forte preferência pelo tratamento dramático. Ele observa que certos romancistas corrigem a fraqueza de um método com a força do outro, mas a direção que aponta é dramatizar tudo, até o sumário.
Friedman dá a medida de cada um. O sumário narrativo é o relato generalizado de uma série de eventos ao longo de um período e de vários lugares, "o modo normal, simples, de narrar"; a cena imediata surge quando detalhes específicos, sucessivos e contínuos começam a aparecer. Chiappini registra a observação de Friedman de que a cena predomina nas narrativas modernas e o sumário nas tradicionais. O andamento que essa alternância dá ao livro é o assunto do termo ritmo narrativo.
O romancista americano John Gardner, autor de Grendel (1971), professor de escrita a vida toda e autor de dois manuais, The Art of Fiction e On Becoming a Novelist (1983), chamou de distância psíquica o quanto o narrador está longe ou perto da consciência da personagem. A romancista Emma Darwin, autora de The Mathematics of Love (2006), que diz usar a escala há quase vinte anos e dá oficinas sobre ela, a reproduz em cinco degraus (tradução nossa):
| degrau | a frase de Gardner | o que o narrador faz (leitura nossa) |
|---|---|---|
| 1 | Era inverno do ano de 1853. Um homem grande saiu de uma porta. | crônica, de fora e de longe |
| 2 | Henry J. Warburton nunca gostou muito de nevascas. | nomeia e resume o gosto da personagem |
| 3 | Henry odiava nevascas. | ainda conta, mais perto |
| 4 | Deus, como ele odiava essas malditas nevascas. | a voz da personagem entra na frase |
| 5 | Neve. Debaixo da sua gola, dentro dos seus sapatos, congelando e entupindo sua alma miserável… | a consciência dela, sem narrador visível |
Para Darwin, nos degraus de longe o texto tende a contar, resumir e explicar; nos de perto, tende a mostrar o momento pela experiência imediata da personagem. Mas nem sempre: "You can still make your Telling Showy".
Como mostrar em vez de contar?
Para John Gardner, mostrar serve a um fim: a verdadeira obra de ficção cria na mente do leitor "a vivid and continuous dream", que ele chama de a noção mais importante da teoria que expõe. O caminho até esse sonho está na régua de Friedman: da declaração à inferência, "da idéia à imagem".
O romancista Vladimir Nabokov pedia atenção ao detalhe concreto: "Caress the details", dizia aos alunos de Cornell, segundo a lembrança do ex-aluno Ross Wetzteon que o romancista John Updike cita na introdução de Lectures on Literature. Em quatro experimentos com textos instrucionais concretos e abstratos, M. Sadoski, E. T. Goetz e J. B. Fritz (Journal of Educational Psychology, 1993) acharam que a concretude, a facilidade de formar imagem, foi de longe a variável mais ligada à compreensibilidade do texto e à lembrança. O estudo mediu textos instrucionais, não ficção, e não compara mostrar com contar.
O crítico russo Viktor Chklóvski, em "A arte como procedimento" (1917), chamou de estranhamento o procedimento de descrever a coisa como se fosse vista pela primeira vez, para devolver a sensação dela. A crítica Gilda de Mello e Souza, professora de Estética da USP, chamou de "visão de míope" o olhar de A maçã no escuro, de Clarice, e Chiappini o estende aos contos: um olhar em que as coisas muito próximas "adquirem uma luminosa nitidez de contornos". Chklóvski e Gilda de Mello e Souza, lidos juntos, põem a percepção no lugar do nome da coisa.
Para Yves Lavandier, autor do manual Constructing a Story, dá para mostrar só com diálogo, e ele analisa uma cena da série Prison Break para provar. O que a fala revela sem dizer está no guia sobre como escrever diálogos naturais.
O romancista Chuck Palahniuk mira, num exercício, o verbo que resume, como pensar, saber e lembrar; o exercício está no guia sobre como descrever uma personagem. Mostrar a emoção sem dizer o nome dela, emoção por emoção, é o assunto do guia sobre como descrever sentimentos na escrita.
Mostrar ou contar? O que os mestres fazem em cada situação do texto
Lubbock, Friedman, Card, Booth, Bell, Gardner e Chiappini respondem, cada um, a uma situação do texto, com os exemplos de Graciliano, Clarice e Machado; a tabela junta essas respostas, e a última coluna, o sinal de que a escolha errou, é leitura nossa.
| situação no texto | o que os mestres fazem | quem ensina | o sinal de que errou |
|---|---|---|---|
| A virada da história | mostrar em cena o que decide | Lubbock (a história que se conta sozinha); Graciliano (o arrepio de Fabiano) | o leitor fica sabendo da virada por uma frase de resumo |
| Tempo que passa, viagem, rotina | sumário | Friedman (o modo normal de narrar); Card (contar o que fica entre as cenas) | páginas de cena em que nada muda |
| A emoção que decide a cena | pelo corpo e pela coisa vista | Graciliano ("Arrepiou-se"); Clarice (o cego mascando chiclete) | o nome da emoção com um "muito" na frente |
| A informação de que o leitor precisa para entrar | contar | Booth (o Livro de Jó) | uma cena inventada só para entregar um dado |
| Juízo e ironia sobre a personagem | o narrador que comenta | Machado, lido por Chiappini | o leitor não percebe a ironia que o autor queria |
| Tudo em close, o leitor cansa | alternar cena e sumário | Card (contar o que fica entre as cenas); Bell (mostrando o tempo todo, o leitor cansa); Chiappini (predominância, não exclusividade) | o capítulo dobrou e a história não andou |
| A percepção da personagem | narrar por dentro dela | Chiappini sobre Vidas secas e sobre Clarice | "ela viu", "ela sentiu" em fila |
| O narrador longe demais | aproximar a distância psíquica | Gardner, como Emma Darwin reproduz | a cena importante no degrau 1 ou 2 da escala |
Perguntas frequentes
Show, don't tell é uma regra?
Nem Lubbock nem Booth, dois críticos que a discutem a fundo, a tratam como regra sem exceção. Lubbock, que a formulou para o romance, admite que até Maupassant está contando, e Booth diz que a linha entre mostrar e contar é sempre, em algum grau, arbitrária.
Quem criou o "mostre, não conte"?
Antes da ficção, o lema circulou no teatro: o dramaturgo americano Mark Swan falou dele a Arthur Edwin Krows nos anos 1910 e o mantinha na parede acima da mesa, segundo Krows (1928). Na ficção, a forma clássica é de Percy Lubbock, em The Craft of Fiction (1921).
Como se diz show, don't tell em português?
Mostrar em vez de contar, ou mostre, não conte. Na teoria literária brasileira, Ligia Chiappini Moraes Leite traduz o par como narrar (telling) e mostrar (showing), e prefere "sumário" a "panorama" para o lado do contar.
Mostrar é o mesmo que descrever?
Não pela régua dos críticos. Para Chiappini, a diferença é quanto o narrador intervém, e para Friedman a cena nasce de detalhes específicos e contínuos de tempo, lugar, ação, personagem e diálogo; nenhum dos dois põe a diferença no tamanho da descrição.
Como mostrar um sentimento sem dizer o nome dele?
Graciliano mostra o medo de Fabiano pelo corpo e pelo que ele vê: Fabiano olha a caatinga amarela, pensa na seca e se arrepia, sem que o medo seja nomeado. O repertório por emoção está no guia sobre como descrever sentimentos na escrita.
O que é descrição sensorial?
É a descrição que usa os sentidos para fazer uma cena ou um lugar existir no texto; o método está no guia de descrição sensorial. A linguagem que evoca os sentidos tem nome técnico, imagem sensorial.
Dá para mostrar demais?
Para Peter Selgin e James Scott Bell, dá. Selgin lembra que mostrar pede mais palavras e contar cobre mais tempo com menos; e James Scott Bell, autor de manuais de escrita, avisa que, mostrando o tempo todo, as partes que deviam se destacar deixam de se destacar e o leitor cansa.
Como aplicar: três perguntas para um parágrafo contado
Para aplicar o que Lubbock, Card, Gardner, Joyce e Graciliano ensinam, escolha um parágrafo do seu texto que pareça contado e faça três perguntas, uma para cada lição. A primeira vem de Lubbock e Card: é uma virada ou é tempo que passa? Se é virada, vire cena; se é passagem, deixe no sumário. A segunda vem da escala de Gardner: em que degrau está o narrador, e é o degrau que a cena pede? A terceira vem de Joyce e Graciliano: o que decide a cena está nomeado? Se está, procure a coisa vista que pode carregar o mesmo sentido, e decida, como em "Araby", se o nome ainda precisa vir depois.
A fala que mostra está no guia sobre como escrever diálogos naturais, e a imagem que mostra em poucas palavras, a metáfora e o símbolo, em figuras de linguagem que o ficcionista usa.
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Em breve
Quem fala sobre isso 6pessoas
- Percy Lubbock †crítico, ensaísta e biógrafo inglês (1879–1965), editor das cartas de Henry James
Obra sobre o tema: The Craft of Fiction, 1921, livro em que a arte da ficção começa quando a história é mostrada de modo que se conte sozinha.
Página ↗ - Wayne C. Booth †crítico literário norte-americano (1921–2005), professor emérito da Universidade de Chicago
Obra sobre o tema: The Rhetoric of Fiction, 1961, que abre com o capítulo "Telling and Showing".
Página ↗ - Ligia Chiappini Moraes Leitecrítica literária e professora brasileira nascida no Uruguai (n. 1945); professora de Teoria da Literatura da USP de 1972 a 1997 e, desde 1997, de Literatura Brasileira na Universidade Livre de Berlim
Obra sobre o tema: O foco narrativo, Ática, 1985, que traduz o par como narrar (telling) e mostrar (showing).
Na Wikipedia ↗ - Phillip Lopateensaísta e escritor norte-americano (n. 1943); professor de escrita da Universidade Columbia até 2023
Obra sobre o tema: To Show and to Tell: The Craft of Literary Nonfiction, Free Press, 2013, sobre mostrar e contar na não ficção.
Página ↗ - Sandra Gerthescritora e editora alemã (n. 1978), que assina romances como Jae; editora sênior da Ylva Publishing, a casa que publicou o livro
Obra sobre o tema: Show, Don't Tell, Ylva Publishing, 2016, guia de escrita sobre a diferença entre mostrar e contar.
Página ↗ - Frederico Dollo Linardipesquisador de escrita criativa, doutor em Letras pela PUCRS (2020–2024), afiliado à PUCRS no artigo de 2025
Obra sobre o tema: o artigo "Sobre mostrar e não contar", revista Matraga (UERJ), 2025, sobre cena e sumário na não ficção.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
YouTubeCada escritor define mostrar e contar de um jeito; para ela, contar é quando um momento importante da história fica sem profundidade de detalhe ou de voz narrativa. O vídeo abre com a frase da lua e do caco de vidro atribuída a Tchekhov (em inglês).
Diane Callahan - Quotidian WriterYouTube ↗
YouTubeDo jeito que é repetido, o conselho engana; o vídeo começa pela escolha da palavra específica antes de chegar ao mostrar e ao erro mais comum de quem escreve (em inglês).
Hello Future MeYouTube ↗
YouTubeTrês versões exageradas do conselho que muita gente repete e que não se sustentam: nunca dar nome à emoção, nunca descrever a personalidade e nunca fazer exposição (em inglês).
Jerry F. WestingerYouTube ↗
YouTubeMostrar tudo pode piorar o livro: ritmo arrastado, contagem de palavras inchada e construção de mundo confusa vêm de seguir o conselho ao pé da letra (em inglês).
Brianna SarovskiYouTube ↗
TikTokQuem edita vê o mesmo padrão o tempo todo: resumir a emoção em vez de deixar o leitor vivê-la, passar correndo pelos momentos importantes e apoiar-se em afirmações abstratas; o conselho é muito repetido e pouco explicado (em inglês).
@notablecameoTikTok ↗
TikTokTodo mundo repete o conselho e pouca gente diz como usar; jeitos de mostrar sem transformar cada emoção em três parágrafos de batimento cardíaco: um hábito pequeno, um objeto que a personagem não consegue jogar fora, o silêncio quando certa pessoa entra na sala (em inglês).
@jtgrote.booksTikTok ↗
O que está acontecendo
- "O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter", diz a escritora Martha Batalha ↗
Autora do aclamado "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" fala sobre a trajetória, a experiência como cronista e o livro mais recente, "O Algoritmo Sou Eu", que reúne 58 textos sobre o cotidiano
- Cato on Returning to Raymond Carver’s Writing ↗
“I’ve been happiest with the narrative of my paintings when there’s an open-ended moment, as with Carver’s stories,” says the artist, who relates to the author, and his editor, through imagination, intuition and their way of seeing the world
- O que se sabe sobre caso de escritor que admitiu plágios após ser acusado de usar IA para produzir livro ↗
Thélyson Orélien reconheceu ter reproduzido textos de outros autores em trabalhos anteriores; livro mais recente foi retirado da disputa pelo principal prêmio literário francês
- The 2026 Booker Prize shortlist is 'writing at its best' ↗
This year's shortlist is made up of former Booker winners and debut authors, with tales spanning a wide range of genres, from historical fiction to campus novel to dystopian fiction.
- Machado de Assis, precursor da literatura negra moderna ↗
Há descobertas literárias que não dependem de encontrar um manuscrito perdido, uma carta desconhecida ou um romance esquecido. Às vezes, basta abrir um livro antigo e descobrir que um escritor estava…
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Lidas no texto integral
- Percy Lubbock, The Craft of Fiction, Jonathan Cape, 1921 (archive.org).
- Wayne C. Booth, The Rhetoric of Fiction, 2ª ed., University of Chicago Press, 1983 (1ª ed. 1961), caps. I e II.
- Platão, A República, livro III, trad. Benjamin Jowett, Project Gutenberg #1497.
- Ligia Chiappini Moraes Leite, O foco narrativo (ou A polêmica em torno da ilusão), Ática, série Princípios, 1985 (10ª ed.).
- James Joyce, "Araby", em Dubliners, Grant Richards, 1914, Project Gutenberg #2814.
- Graciliano Ramos, Vidas sêcas (1938), cap. "Fabiano", Obras, vol. 4, 2ª ed., José Olympio, 1947, Wikisource.
- Carolina Lindenberg Lemos e Beatriz Farias Mendes, "As tensões do jardim: a construção discursiva da epifania no conto 'Amor', de Clarice Lispector", Revista do GELNE, v. 26, n. 1, 2024.
- Emma Darwin, "Psychic Distance: What It Is and How To Use It", This Itch of Writing.
Lidas em resumo ou pela referência
- Norman Friedman, "Point of View in Fiction: The Development of a Critical Concept", PMLA, 1955, p. 119–120 (pela tradução de Chiappini).
- Machado de Assis, Quincas Borba (1891), cap. L (pela citação de Chiappini).
- Graciliano Ramos, Vidas secas, cap. "Baleia", ed. Record, 1980, p. 91 (pela citação de Chiappini).
- Gilda de Mello e Souza, "O vertiginoso relance", em Exercício de leitura, Duas Cidades, 1980, p. 79 (pela citação de Chiappini).
- Clarice Lispector, "Amor", em Laços de família (1960) (pela citação de Lemos e Mendes).
- Olga de Sá, A escritura de Clarice Lispector, Vozes, 1979 (pela citação de Lemos e Mendes).
- Arthur Edwin Krows, Playwriting for Profit, Longmans, 1928, p. 28; Mark Swan, How You Can Write Plays, 1927, p. 53–54.
- Orson Scott Card, Characters & Viewpoint, 1988, p. 140–142.
- Renni Browne e Dave King, Self-Editing for Fiction Writers, 2ª ed., 2004, p. 12–14.
- Peter Selgin, By Cunning & Craft, 2007, p. 31.
- James Scott Bell, Exception to the Rule, 2003, p. 20.
- John Gardner, The Art of Fiction: Notes on Craft for Young Writers, Knopf, 1983 (pela resenha da Kirkus Reviews e pela reprodução de Emma Darwin); On Becoming a Novelist, 1983.
- John Updike, introdução a Vladimir Nabokov, Lectures on Literature (1980), p. xxiii (pela lista NABOKV-L, Nabokov Society).
- M. Sadoski, E. T. Goetz e J. B. Fritz, "Impact of concreteness on comprehensibility, interest, and memory for text", Journal of Educational Psychology, v. 85, n. 2, 1993 (resumo).
- Viktor Chklóvski, "A arte como procedimento" (1917); Crawford, Comparative Literature, v. 36, n. 3, 1984.
- Yves Lavandier, Constructing a Story; "HOTTS!-04: Dialogue that shows", 2015.
- Frederico Dollo Linardi, "Sobre mostrar e não contar: considerações acerca do uso de cena e sumário em narrativas de não-ficção", Matraga (UERJ), v. 32, n. 64, 2025 (resumo).
- Viet Thanh Nguyen, The New York Times Book Review, 26/04/2017.
VERSE MEDIA. Show, don't tell: o que é mostrar em vez de contar e quando contar. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/prosa-e-estilo/mostrar-em-vez-de-contar. Acesso em: [data].
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