Exemplos de metáforas: trechos de livros e como criar as suas na ficção
Bons exemplos de metáfora em livros: Julieta é o sol (Shakespeare), a esperança é a coisa com penas (Dickinson), a voz de Daisy é cheia de dinheiro (Fitzgerald), Iracema é a virgem dos lábios de mel (Alencar) e a gente do cortiço que começa a minhocar na lama (Aluísio Azevedo). A metáfora que funciona tira a imagem do mundo da cena e trabalha para a ideia da obra; a de conversa, como "ele é um leão", só repete o que o leitor já sabe.
Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da escrita de ficção, como Aristóteles e George Orwell; no Brasil, José de Alencar.
Você digitou "exemplos de metáforas" e voltou com listas de frases de conversa, "ele é um leão", "coração de pedra", que o uso já gastou. Na sua cena, a imagem que veio é ou comum demais ou estranha demais para ser entendida. "Mostra uma que funciona num livro, e como se chega nela."
A peça de exemplos de metáforas pronta para copiar ou adaptar: trechos de livros com o que cada um faz, o critério para escolher e o modelo para fabricar a própria.
Quem já está escrevendo quer ver metáforas boas e gastas em trechos de livros e um jeito de fabricar as próprias, não a definição do termo.
Nesta página
A definição de metáfora e o lugar dela entre as outras figuras estão no guia sobre figuras de linguagem na ficção. Esta página é a peça de trabalho: trechos para estudar, o teste que separa metáfora viva de gasta e um modelo para fabricar a sua.
Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.
Quais são bons exemplos de metáfora em livros?
As metáforas que duram nos livros não param na frase: crescem em retrato, em cenário e em livro inteiro, como nos cinco casos abaixo, todos em domínio público. Cada trecho vem com o teor (a coisa de que se fala), o veículo (a imagem que a carrega) e o efeito, vocabulário (tenor e vehicle) que I. A. Richards propôs em The Philosophy of Rhetoric (1936).
William Shakespeare, Romeu e Julieta (c. 1597), ato II, cena 2. O dramaturgo inglês faz Romeu dizer "Juliet is the sun!" ao ver a janela se acender: teor Julieta, veículo o sol. O que faz a metáfora durar é que ela não para na frase. O sol deve matar a lua invejosa, "sick and pale with grief", e o veículo vira uma pequena rede de imagens que põe Julieta acima da castidade que a lua representa.
Emily Dickinson, "Hope" (1891). A poeta americana abre com "Hope is the thing with feathers": o teor é abstrato (a esperança) e o primeiro verso mostra só as penas do veículo; o pássaro é nomeado na segunda estrofe, "the little bird", que manteve tantos aquecidos. O que o poema ensina é desenvolver uma metáfora estrofe a estrofe, sem trocar de veículo no meio (leitura nossa).
F. Scott Fitzgerald, O grande Gatsby (1925). O romancista americano usa a metáfora em três escalas. Na frase, "Her voice is full of money", dita por Gatsby: o teor é a voz de Daisy e o veículo, o dinheiro; o narrador Nick Carraway explica em seguida que era isso, o tilintar, o canto de címbalos. No cenário, o "valley of ashes": o veículo, cinzas que tomam forma de casas e de homens que já se desfazem, vira o nome do lugar. No livro, a última frase dá à impossibilidade de repetir o passado o veículo de barcos contra a corrente: "boats against the current, borne back ceaselessly into the past".
José de Alencar, Iracema (1865), cap. II. O teor é a própria heroína, e o romancista põe no retrato dela uma série de imagens em que todo veículo vem da mata: a "virgem dos labios de mel", os cabelos "mais negros que a aza da graúna", a comparação negada em que o favo da jati "não era doce como seo sorriso". O nome dela já é metáfora, e Alencar a explica nas notas: ira, mel, e tembe, lábios. No mesmo capítulo aparece a comparação com conectivo: a água do banho ainda a "roreja, como á doce mangaba que corou em manhã de chuva".
Aluísio Azevedo, O Cortiço (1890). No romance naturalista, a imagem trabalha para a tese de que o meio produz a gente. O teor é a gente do cortiço; o veículo, um organismo que brota da lama: na terra encharcada "um mundo, uma coisa viva, uma geração" começa "a minhocar, a esfervilhar" e se multiplica "como larvas no esterco". Mais adiante, Jerônimo vê Rita Baiana como uma cadeia de metáforas: "ela era a cobra verde e traiçoeira".
Como saber se uma metáfora é boa ou está gasta?
Os mestres medem a metáfora pelo efeito que ela ainda produz no leitor, e a frescura é só a primeira condição. A frescura da imagem é o teste do ensaísta George Orwell em "Politics and the English Language" (Horizon, 1946), que o guia sobre imagem sensorial desenvolve. Passada por ele, "coração de pedra" falha: já se leu pronta, e o literal "coração duro" diz o mesmo.
Há três condições além da frescura. A primeira é a distância certa. Para o filósofo grego Aristóteles, na Retórica (livro III), a metáfora deve vir de coisas aparentadas à original, "and yet not obviously so related" (e ainda assim não aparentadas de modo óbvio), e quem dá nome ao que não tem nome deve buscar em coisas afins, não remotas. Perto demais, vira o literal; longe demais, enigma (leitura nossa).
A segunda é o mundo de quem fala. Alencar, na carta que fecha Iracema, conta que os indígenas chamavam o guia de "senhor do caminho", e não de sabedor: o caminho na mata não é coisa de saber, faz-se na marcha, e quem o tem e o dá é senhor dele. Para ele, as imagens indígenas só entram em "termos e frases" que pareçam "naturaes na boca do selvagem". O mesmo veículo muda de sentido conforme o teor: a palmeira, a baunilha e o mel que cercam Iracema voltam em Rita Baiana, agora puxados para o desejo e o veneno (leitura nossa).
A terceira é a dose. Relendo o próprio livro impresso, Alencar anota como defeito o "excesso de comparações" e a "semelhança entre algumas imagens". E há a escolha de forma: o editor Robert Lee Brewer, no Writer's Digest (2010), prefere na poesia a metáfora ao símile, porque tirar o "como" poupa uma palavra que desvia o sentido, e reserva o símile para quando a clareza pede. Para o mesmo Brewer (2019), a analogia é outra coisa: um argumento que diz em que ponto a comparação vale.
Como criar uma metáfora própria, passo a passo?
Os passos abaixo reúnem o que cada mestre ensina, na ordem em que se aplica; a ordem é nossa.
- Diga o teor sem figura. A primeira pergunta de Orwell ao escritor escrupuloso é o que ele está tentando dizer. Sem o teor claro, o veículo não tem a que servir.
- Ache o traço comum. É o que teor e veículo partilham, e é por ele que a metáfora ensina, como lê Aristóteles no guia sobre figuras de linguagem. Em Fitzgerald, é o narrador quem nomeia o traço: o tilintar do dinheiro no timbre da voz.
- Tire o veículo do mundo da cena. Faça como Alencar: o guia é "senhor do caminho" porque na mata o caminho se faz na marcha, e a graúna, a palmeira e a jati do retrato de Iracema são do mundo dela.
- Passe o teste de frescor. A pergunta de Orwell: a imagem é fresca o bastante para ter efeito? Se já a viu pronta, volte ao passo 2 e busque outro traço.
- Escolha a forma e corte. Brewer, que escreve sobre poesia, fica com a metáfora direta, que tem mais autoridade, e guarda o símile para quando a clareza pede; e Alencar, relendo Iracema, anotou como defeito o "excesso de comparações" e a "semelhança entre algumas imagens".
O modelo, campo a campo
Cada campo é uma decisão dos passos acima; o efeito na cena se decide junto com o teor, antes de procurar a imagem.
- Teor: a coisa de que se fala, dita sem figura.
- Efeito na cena: o que o leitor deve sentir ou entender depois da imagem.
- Traço comum: o que teor e veículo compartilham; é a ponte (passo 2).
- Veículo: a imagem escolhida, e de que mundo ela vem (passo 3).
- Forma: metáfora direta (A é B), símile (A é como B) ou desenvolvida em mais de um verso ou frase.
- Frase pronta: a metáfora escrita como vai entrar no texto.
- Teste de frescor e de corte: já li isto pronto? Tirando o veículo, a frase literal diz o mesmo? Se diz, a metáfora sai (passo 5).
A versão em branco, para copiar
Teor (sem figura):
Efeito na cena:
Traço comum:
Veículo (do mundo de quem?):
Forma (metáfora / símile / desenvolvida):
Frase pronta:
Teste de frescor e de corte (já li isto pronto? sim / não;
tirando o veículo, a frase diz o mesmo? se sim, corte):
O modelo preenchido: "Versos íntimos", de Augusto dos Anjos
O poeta Augusto dos Anjos publicou o soneto em Eu (1912), e a obra está em domínio público. Dois momentos servem de caso.
Teor: o afeto de quem se aproxima de um homem caído.
Efeito na cena: transformar o carinho em aviso de traição.
Traço comum: o gesto que vem antes, e anuncia, o de desprezo.
Veículo: "a vespera do escarro" (mundo: o corpo, o cuspe).
Frase pronta: "O beijo, amigo, é a vespera do escarro."
Forma: metáfora-sentença.
Teste de frescor e de corte: o beijo da traição é velho; o veículo,
a véspera do cuspe, não vem pronto. Tirando o veículo, "o beijo
é falso" perde o anúncio do escarro, o desprezo que vem depois
do carinho; a metáfora fica.
O soneto repete a operação uma segunda vez e depois a inverte: "a mão que affaga é a mesma que apedreja", e nos tercetos as metáforas viram ordens, "Escarra nessa bocca que te beija!". Antes, a ingratidão aparece como "esta panthera", com o veículo posto em aposto.
Como adaptar o modelo ao seu texto?
Comece pelo trecho em que a imagem já veio. Preencha o modelo com ela e olhe o campo do corte: se a frase literal diz o mesmo, a metáfora é enfeite e sai (passo 5). Se a resposta ao teste de frescor for "sim", mude o traço comum antes de mudar a imagem.
Depende da voz e do lugar da imagem: o narrador de Fitzgerald pode explicar a metáfora depois de dita; a de Dickinson se explica sozinha, estrofe a estrofe. Em descrição de lugar, a imagem pode crescer até virar o nome do cenário, como o vale de cinzas de Fitzgerald. Quando terminar, o parágrafo deve ter uma metáfora que o leitor não esperava e que ele consegue desmontar em teor, veículo e traço comum.
Continue por aqui
O guia-mãeFiguras de linguagem na ficção: o que são, quais são e como os mestres usam — Figuras de linguagem são modos de trocar um sentido por outro, como a metáfora e a ironia, ou de repetir, suprimir ou trocar de lugar palavras e sons, como a anáfora e a elipse; para o linguista José Luiz Fiorin, elas intensificam ou atenuam o sentido.Termos usados nesta página
Quem fala sobre isso 6pessoas
- George Lakofflinguista cognitivo norte-americano (n. 1941), professor de linguística da Universidade da Califórnia em Berkeley de 1972 a 2016
Obra sobre metáfora: o livro Metaphors We Live By (University of Chicago Press, 1980), com Mark Johnson.
Página ↗ - Mark Johnsonfilósofo norte-americano (n. 1949), Knight Professor of Liberal Arts and Sciences no Departamento de Filosofia da Universidade do Oregon
Obra sobre metáfora: o livro Metaphors We Live By (University of Chicago Press, 1980), com George Lakoff.
Página ↗ - Zoltán Kövecseslinguista húngaro (n. 1946), professor emérito da Escola de Estudos Ingleses e Americanos da Universidade Eötvös Loránd
Obra sobre metáfora: o livro Metaphor: A Practical Introduction (Oxford University Press, 2002).
Página ↗ - Ward Farnsworthprofessor de direito norte-americano (n. 1967), W. Page Keeton Chair na Faculdade de Direito da Universidade do Texas; autor de livros de retórica
Obra sobre metáfora: o livro Farnsworth's Classical English Metaphor (Godine, 2016).
Página ↗ - Robert Lee Brewereditor da revista Writer's Digest (senior editor na bio do artigo, 2010)
Obra sobre metáfora: o artigo "Simile vs. Metaphor: Smackdown!" (Writer's Digest, 2010).
Página ↗ - George Orwell †escritor e jornalista britânico (1903–1950)
Obra sobre metáforas gastas: o ensaio "Politics and the English Language" (Horizon, 1946), cuja primeira regra é sobre metáfora.
Página ↗
O que a rede diz 5 vozes
YouTubeUma metáfora visual é uma imagem que representa um conceito maior do que ela mesma, e o canal a trata como um dos jeitos mais fortes de mostrar em vez de contar num roteiro: o público a percebe de várias formas sem que ninguém precise explicar.
Rolê do RoteiroYouTube ↗
YouTubeA professora define metáfora como uma comparação implícita, sem o elemento comparativo, e na descrição do vídeo publica uma errata: um item do exercício era, na verdade, comparação, como parte do público percebeu.
Professora AldaYouTube ↗
YouTubeA aula responde a uma dúvida que volta sempre: qual a diferença entre metáfora e comparação.
Toda MatériaYouTube ↗
TikTokA editora ensina a amarrar a metáfora à identidade da personagem para fugir da prosa genérica: a imagem sai de quem a personagem é, o que dá originalidade ao texto sem enchê-lo de floreio (em espanhol).
@edicionobarbarieTikTok ↗
TikTokEla propõe um exercício de escrita criativa para trabalhar metáforas sustentadas ao longo de uma história, e não numa frase só (em espanhol).
@virginiaargumosaTikTok ↗
O que está acontecendo
- Tradutora Julia Raiz comenta vida, obra e tradução de Anne Carson, Nobel de Literatura 2026 ↗
Nesta quarta-feira, dia 14 de outubro de 2026, a escritora, tradutora e agitadora cultural, Julia Raiz, participou do programa Universo Literário e conversou com a apresentadora Michelle Bruck sobre a vida, obra a tradução da escritora canadense Anne Carson, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura…
- As veredas de Guimarães Rosa ↗
O livro Para ler Grande sertão: Veredas (Autêntica, 112 pp, R$ 44,90), de Italo Moriconi, é composto de duas partes independentes, mas estreitamente relacionadas entre si. A primeira é formada pelo diário de leitura de Moriconi, apresentando os impasses e os atrativos que o leitor vai encontrando e…
- Anne Carson wins Nobel prize in literature 2026 ↗
Most prestigious literature prize goes to Canadian known for genre-crossing works such as Autobiography of Red
- Máire Zepf on why verse novels break down barriers for reluctant readers ↗
The first time I opened the pages of a verse novel, I didn’t know what to expect. We all come to poetry with baggage. For some, there is actual fear – that it will be too complex, too clever, too opaque.
- The 2026 Booker Prize shortlist is 'writing at its best' ↗
This year's shortlist is made up of former Booker winners and debut authors, with tales spanning a wide range of genres, from historical fiction to campus novel to dystopian fiction.
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Os trechos foram conferidos no texto das obras em domínio público e nas páginas citadas. A técnica vem de Aristóteles, Orwell, Alencar e Brewer; o modelo, a ordem dos passos e as leituras marcadas são nossos. Os trechos não repetem os que outras páginas da Enciclopédia já usam.
Lidas no texto integral
- Shakespeare, William. Romeo and Juliet, c. 1597. Project Gutenberg #1513. https://www.gutenberg.org/cache/epub/1513/pg1513.txt
- Dickinson, Emily. "Hope", em Poems, Second Series, 1891. Project Gutenberg #12242. https://www.gutenberg.org/cache/epub/12242/pg12242.txt
- Fitzgerald, F. Scott. The Great Gatsby, 1925, caps. II, III, VII e IX. Texto integral local.
- Alencar, José de. Iracema, Typ. de Vianna & Filhos, 1865: cap. II, notas e "Carta ao Dr. Jaguaribe". Wikisource pt (Iracema/II, Iracema/Posfácio).
- Azevedo, Aluísio. O Cortiço, 1890, cap. I e a cena de Rita Baiana vista por Jerônimo. Texto integral local.
- Anjos, Augusto dos. "Versos intimos", em Eu, 1912, p. 101. Wikisource pt, "Eu (Augusto dos Anjos, 1912)/Versos intimos".
- Orwell, George. "Politics and the English Language", Horizon, abril de 1946. Texto em The Orwell Foundation.
- Aristóteles. Retórica, livro III, trad. W. Rhys Roberts. http://classics.mit.edu/Aristotle/rhetoric.3.iii.html
- Brewer, Robert Lee. "Simile vs. Metaphor: Smackdown!", Writer's Digest, 16/09/2010. https://writersdigest.com/improve-my-writing/simile-vs-metaphor-smackdown
- Brewer, Robert Lee. "Analogy vs. Metaphor vs. Simile (Grammar Rules)", Writer's Digest, 04/11/2019. https://writersdigest.com/write-better-fiction/analogy-vs-metaphor-vs-simile-grammar-rules
Lidas em resumo ou pela referência
- Richards, I. A. The Philosophy of Rhetoric, Oxford University Press, 1936, p. 119–127 (pela referência).
VERSE MEDIA. Exemplos de metáforas: trechos de livros e como criar as suas na ficção. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/prosa-e-estilo/exemplos-de-metaforas. Acesso em: [data].
Achou um erro ou um número vencido? Escreva para enciclopedia@versemedia.com.br com o endereço desta página.
Enciclopédia Verse · Prosa e Estilo Voltar ao topo


