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Exemplos de metáforas: trechos de livros e como criar as suas na ficção

Bons exemplos de metáfora em livros: Julieta é o sol (Shakespeare), a esperança é a coisa com penas (Dickinson), a voz de Daisy é cheia de dinheiro (Fitzgerald), Iracema é a virgem dos lábios de mel (Alencar) e a gente do cortiço que começa a minhocar na lama (Aluísio Azevedo). A metáfora que funciona tira a imagem do mundo da cena e trabalha para a ideia da obra; a de conversa, como "ele é um leão", só repete o que o leitor já sabe.

Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da escrita de ficção, como Aristóteles e George Orwell; no Brasil, José de Alencar.

Você digitou "exemplos de metáforas" e voltou com listas de frases de conversa, "ele é um leão", "coração de pedra", que o uso já gastou. Na sua cena, a imagem que veio é ou comum demais ou estranha demais para ser entendida. "Mostra uma que funciona num livro, e como se chega nela."

O que você leva

A peça de exemplos de metáforas pronta para copiar ou adaptar: trechos de livros com o que cada um faz, o critério para escolher e o modelo para fabricar a própria.

Pra quem é

Quem já está escrevendo quer ver metáforas boas e gastas em trechos de livros e um jeito de fabricar as próprias, não a definição do termo.

Nesta página
  1. Quais são bons exemplos de metáfora em livros?
  2. Como saber se uma metáfora é boa ou está gasta?
  3. Como criar uma metáfora própria, passo a passo?
  4. Como adaptar o modelo ao seu texto?
Livro aberto ao lado de um caderno com uma caneta sobre a página em branco
Os trechos para estudar ficam de um lado; a metáfora própria se escreve do outro. Foto de Kindel Media no Pexels

A definição de metáfora e o lugar dela entre as outras figuras estão no guia sobre figuras de linguagem na ficção. Esta página é a peça de trabalho: trechos para estudar, o teste que separa metáfora viva de gasta e um modelo para fabricar a sua.

Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.

Quais são bons exemplos de metáfora em livros?

As metáforas que duram nos livros não param na frase: crescem em retrato, em cenário e em livro inteiro, como nos cinco casos abaixo, todos em domínio público. Cada trecho vem com o teor (a coisa de que se fala), o veículo (a imagem que a carrega) e o efeito, vocabulário (tenor e vehicle) que I. A. Richards propôs em The Philosophy of Rhetoric (1936).

William Shakespeare, Romeu e Julieta (c. 1597), ato II, cena 2. O dramaturgo inglês faz Romeu dizer "Juliet is the sun!" ao ver a janela se acender: teor Julieta, veículo o sol. O que faz a metáfora durar é que ela não para na frase. O sol deve matar a lua invejosa, "sick and pale with grief", e o veículo vira uma pequena rede de imagens que põe Julieta acima da castidade que a lua representa.

Emily Dickinson, "Hope" (1891). A poeta americana abre com "Hope is the thing with feathers": o teor é abstrato (a esperança) e o primeiro verso mostra só as penas do veículo; o pássaro é nomeado na segunda estrofe, "the little bird", que manteve tantos aquecidos. O que o poema ensina é desenvolver uma metáfora estrofe a estrofe, sem trocar de veículo no meio (leitura nossa).

F. Scott Fitzgerald, O grande Gatsby (1925). O romancista americano usa a metáfora em três escalas. Na frase, "Her voice is full of money", dita por Gatsby: o teor é a voz de Daisy e o veículo, o dinheiro; o narrador Nick Carraway explica em seguida que era isso, o tilintar, o canto de címbalos. No cenário, o "valley of ashes": o veículo, cinzas que tomam forma de casas e de homens que já se desfazem, vira o nome do lugar. No livro, a última frase dá à impossibilidade de repetir o passado o veículo de barcos contra a corrente: "boats against the current, borne back ceaselessly into the past".

José de Alencar, Iracema (1865), cap. II. O teor é a própria heroína, e o romancista põe no retrato dela uma série de imagens em que todo veículo vem da mata: a "virgem dos labios de mel", os cabelos "mais negros que a aza da graúna", a comparação negada em que o favo da jati "não era doce como seo sorriso". O nome dela já é metáfora, e Alencar a explica nas notas: ira, mel, e tembe, lábios. No mesmo capítulo aparece a comparação com conectivo: a água do banho ainda a "roreja, como á doce mangaba que corou em manhã de chuva".

Aluísio Azevedo, O Cortiço (1890). No romance naturalista, a imagem trabalha para a tese de que o meio produz a gente. O teor é a gente do cortiço; o veículo, um organismo que brota da lama: na terra encharcada "um mundo, uma coisa viva, uma geração" começa "a minhocar, a esfervilhar" e se multiplica "como larvas no esterco". Mais adiante, Jerônimo vê Rita Baiana como uma cadeia de metáforas: "ela era a cobra verde e traiçoeira".

Como saber se uma metáfora é boa ou está gasta?

Os mestres medem a metáfora pelo efeito que ela ainda produz no leitor, e a frescura é só a primeira condição. A frescura da imagem é o teste do ensaísta George Orwell em "Politics and the English Language" (Horizon, 1946), que o guia sobre imagem sensorial desenvolve. Passada por ele, "coração de pedra" falha: já se leu pronta, e o literal "coração duro" diz o mesmo.

Há três condições além da frescura. A primeira é a distância certa. Para o filósofo grego Aristóteles, na Retórica (livro III), a metáfora deve vir de coisas aparentadas à original, "and yet not obviously so related" (e ainda assim não aparentadas de modo óbvio), e quem dá nome ao que não tem nome deve buscar em coisas afins, não remotas. Perto demais, vira o literal; longe demais, enigma (leitura nossa).

A segunda é o mundo de quem fala. Alencar, na carta que fecha Iracema, conta que os indígenas chamavam o guia de "senhor do caminho", e não de sabedor: o caminho na mata não é coisa de saber, faz-se na marcha, e quem o tem e o dá é senhor dele. Para ele, as imagens indígenas só entram em "termos e frases" que pareçam "naturaes na boca do selvagem". O mesmo veículo muda de sentido conforme o teor: a palmeira, a baunilha e o mel que cercam Iracema voltam em Rita Baiana, agora puxados para o desejo e o veneno (leitura nossa).

A terceira é a dose. Relendo o próprio livro impresso, Alencar anota como defeito o "excesso de comparações" e a "semelhança entre algumas imagens". E há a escolha de forma: o editor Robert Lee Brewer, no Writer's Digest (2010), prefere na poesia a metáfora ao símile, porque tirar o "como" poupa uma palavra que desvia o sentido, e reserva o símile para quando a clareza pede. Para o mesmo Brewer (2019), a analogia é outra coisa: um argumento que diz em que ponto a comparação vale.

Como criar uma metáfora própria, passo a passo?

Diagrama em sequência dos campos do modelo de metáfora, do teor ao teste de frescor e de corte
O modelo percorre a metáfora do teor ao teste que decide se ela fica. Diagrama: Verse

Os passos abaixo reúnem o que cada mestre ensina, na ordem em que se aplica; a ordem é nossa.

  1. Diga o teor sem figura. A primeira pergunta de Orwell ao escritor escrupuloso é o que ele está tentando dizer. Sem o teor claro, o veículo não tem a que servir.
  2. Ache o traço comum. É o que teor e veículo partilham, e é por ele que a metáfora ensina, como lê Aristóteles no guia sobre figuras de linguagem. Em Fitzgerald, é o narrador quem nomeia o traço: o tilintar do dinheiro no timbre da voz.
  3. Tire o veículo do mundo da cena. Faça como Alencar: o guia é "senhor do caminho" porque na mata o caminho se faz na marcha, e a graúna, a palmeira e a jati do retrato de Iracema são do mundo dela.
  4. Passe o teste de frescor. A pergunta de Orwell: a imagem é fresca o bastante para ter efeito? Se já a viu pronta, volte ao passo 2 e busque outro traço.
  5. Escolha a forma e corte. Brewer, que escreve sobre poesia, fica com a metáfora direta, que tem mais autoridade, e guarda o símile para quando a clareza pede; e Alencar, relendo Iracema, anotou como defeito o "excesso de comparações" e a "semelhança entre algumas imagens".

O modelo, campo a campo

Cada campo é uma decisão dos passos acima; o efeito na cena se decide junto com o teor, antes de procurar a imagem.

  • Teor: a coisa de que se fala, dita sem figura.
  • Efeito na cena: o que o leitor deve sentir ou entender depois da imagem.
  • Traço comum: o que teor e veículo compartilham; é a ponte (passo 2).
  • Veículo: a imagem escolhida, e de que mundo ela vem (passo 3).
  • Forma: metáfora direta (A é B), símile (A é como B) ou desenvolvida em mais de um verso ou frase.
  • Frase pronta: a metáfora escrita como vai entrar no texto.
  • Teste de frescor e de corte: já li isto pronto? Tirando o veículo, a frase literal diz o mesmo? Se diz, a metáfora sai (passo 5).

A versão em branco, para copiar

Copie o modelo e monte a sua metáfora
Teor (sem figura):
Efeito na cena:
Traço comum:
Veículo (do mundo de quem?):
Forma (metáfora / símile / desenvolvida):
Frase pronta:
Teste de frescor e de corte (já li isto pronto? sim / não;
  tirando o veículo, a frase diz o mesmo? se sim, corte):

O modelo preenchido: "Versos íntimos", de Augusto dos Anjos

O poeta Augusto dos Anjos publicou o soneto em Eu (1912), e a obra está em domínio público. Dois momentos servem de caso.

Teor: o afeto de quem se aproxima de um homem caído.
Efeito na cena: transformar o carinho em aviso de traição.
Traço comum: o gesto que vem antes, e anuncia, o de desprezo.
Veículo: "a vespera do escarro" (mundo: o corpo, o cuspe).
Frase pronta: "O beijo, amigo, é a vespera do escarro."
Forma: metáfora-sentença.
Teste de frescor e de corte: o beijo da traição é velho; o veículo,
  a véspera do cuspe, não vem pronto. Tirando o veículo, "o beijo
  é falso" perde o anúncio do escarro, o desprezo que vem depois
  do carinho; a metáfora fica.

O soneto repete a operação uma segunda vez e depois a inverte: "a mão que affaga é a mesma que apedreja", e nos tercetos as metáforas viram ordens, "Escarra nessa bocca que te beija!". Antes, a ingratidão aparece como "esta panthera", com o veículo posto em aposto.

Como adaptar o modelo ao seu texto?

Comece pelo trecho em que a imagem já veio. Preencha o modelo com ela e olhe o campo do corte: se a frase literal diz o mesmo, a metáfora é enfeite e sai (passo 5). Se a resposta ao teste de frescor for "sim", mude o traço comum antes de mudar a imagem.

Depende da voz e do lugar da imagem: o narrador de Fitzgerald pode explicar a metáfora depois de dita; a de Dickinson se explica sozinha, estrofe a estrofe. Em descrição de lugar, a imagem pode crescer até virar o nome do cenário, como o vale de cinzas de Fitzgerald. Quando terminar, o parágrafo deve ter uma metáfora que o leitor não esperava e que ele consegue desmontar em teor, veículo e traço comum.

Continue por aqui

O guia-mãeFiguras de linguagem na ficção: o que são, quais são e como os mestres usam — Figuras de linguagem são modos de trocar um sentido por outro, como a metáfora e a ironia, ou de repetir, suprimir ou trocar de lugar palavras e sons, como a anáfora e a elipse; para o linguista José Luiz Fiorin, elas intensificam ou atenuam o sentido.

Termos usados nesta página

Quem fala sobre isso 6pessoas

  • George Lakofflinguista cognitivo norte-americano (n. 1941), professor de linguística da Universidade da Califórnia em Berkeley de 1972 a 2016

    Obra sobre metáfora: o livro Metaphors We Live By (University of Chicago Press, 1980), com Mark Johnson.

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  • Mark Johnsonfilósofo norte-americano (n. 1949), Knight Professor of Liberal Arts and Sciences no Departamento de Filosofia da Universidade do Oregon

    Obra sobre metáfora: o livro Metaphors We Live By (University of Chicago Press, 1980), com George Lakoff.

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  • Zoltán Kövecseslinguista húngaro (n. 1946), professor emérito da Escola de Estudos Ingleses e Americanos da Universidade Eötvös Loránd

    Obra sobre metáfora: o livro Metaphor: A Practical Introduction (Oxford University Press, 2002).

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  • Ward Farnsworthprofessor de direito norte-americano (n. 1967), W. Page Keeton Chair na Faculdade de Direito da Universidade do Texas; autor de livros de retórica

    Obra sobre metáfora: o livro Farnsworth's Classical English Metaphor (Godine, 2016).

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  • Robert Lee Brewereditor da revista Writer's Digest (senior editor na bio do artigo, 2010)

    Obra sobre metáfora: o artigo "Simile vs. Metaphor: Smackdown!" (Writer's Digest, 2010).

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  • George Orwell †escritor e jornalista britânico (1903–1950)

    Obra sobre metáforas gastas: o ensaio "Politics and the English Language" (Horizon, 1946), cuja primeira regra é sobre metáfora.

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O que a rede diz 5 vozes

  • Capa do post de Rolê do Roteiro: COMO ESCREVER METÁFORAS VISUAIS NO SEU ROTEIROYouTube

    Uma metáfora visual é uma imagem que representa um conceito maior do que ela mesma, e o canal a trata como um dos jeitos mais fortes de mostrar em vez de contar num roteiro: o público a percebe de várias formas sem que ninguém precise explicar.

    Rolê do RoteiroYouTube ↗
  • Capa do post de Professora Alda: 📌 Figuras de linguagem: O que é metáfora [Prof. Alda]YouTube

    A professora define metáfora como uma comparação implícita, sem o elemento comparativo, e na descrição do vídeo publica uma errata: um item do exercício era, na verdade, comparação, como parte do público percebeu.

    Professora AldaYouTube ↗
  • Capa do post de Toda Matéria: METÁFORA e COMPARAÇÃO - Qual a diferença?YouTube

    A aula responde a uma dúvida que volta sempre: qual a diferença entre metáfora e comparação.

    Toda MatériaYouTube ↗
  • Capa do post de @edicionobarbarieTikTok

    A editora ensina a amarrar a metáfora à identidade da personagem para fugir da prosa genérica: a imagem sai de quem a personagem é, o que dá originalidade ao texto sem enchê-lo de floreio (em espanhol).

    @edicionobarbarieTikTok ↗
  • Capa do post de @virginiaargumosaTikTok

    Ela propõe um exercício de escrita criativa para trabalhar metáforas sustentadas ao longo de uma história, e não numa frase só (em espanhol).

    @virginiaargumosaTikTok ↗

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Autoria: Verse MediaRevisado em 18 out. 2026Passos conferidos em 18 out. 2026Publicado em 18 out. 202611 fontes · 10 no integral

Os trechos foram conferidos no texto das obras em domínio público e nas páginas citadas. A técnica vem de Aristóteles, Orwell, Alencar e Brewer; o modelo, a ordem dos passos e as leituras marcadas são nossos. Os trechos não repetem os que outras páginas da Enciclopédia já usam.

Cite esta página
VERSE MEDIA. Exemplos de metáforas: trechos de livros e como criar as suas na ficção. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/prosa-e-estilo/exemplos-de-metaforas. Acesso em: [data].

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