Suspensão de descrença
Suspensão de descrença é a disposição do leitor de pôr a descrença de lado por um momento diante da ficção, nome que o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge deu em 1817 (willing suspension of disbelief). O guia sobre recursos narrativos trata do que o autor planta para que o leitor aceite o que a história exige.
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Quem criou a expressão "suspensão de descrença"?
Coleridge, no capítulo XIV da Biographia Literaria (1817). Ao explicar o plano das Lyrical Ballads (1798), feito com o também poeta William Wordsworth, ele conta que coube a ele tratar de personagens sobrenaturais ou românticos, transferindo da nossa natureza interior um interesse humano e uma aparência de verdade suficientes para obter a suspensão voluntária da descrença por um momento, o que, nas palavras dele, constitui a fé poética. No original: "that willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith".
A tarefa de Wordsworth seria a oposta: dar o encanto da novidade às coisas do cotidiano. Dessa divisão saiu, segundo o próprio Coleridge, The Rime of the Ancient Mariner, em português A Balada do Velho Marinheiro.
A ideia já existia antes de Coleridge?
Sim: segundo David Chandler, em Notes and Queries (1996), Coleridge tirou a ideia de Johann Jakob Brucker, autor de Historia Critica Philosophiae, que nela Historia Critica Philosophiae escrevia "assensus suspensione", versão moderna do "adsensionis retentio" de Cícero nas Academica.
Tolkien concordava com a expressão?
Não exatamente. O escritor J. R. R. Tolkien argumenta, em "On Fairy-Stories" (1947), que a suspensão da descrença só é necessária quando a obra falhou em criar o que ele chama de crença secundária: a boa fantasia faz o leitor acreditar dentro do mundo dela.
O que a suspensão de descrença muda para quem escreve?
No texto de Coleridge, a suspensão é o efeito que o autor precisa obter: cabe a ele transferir às personagens interesse humano e aparência de verdade, e é a isso que o leitor responde (leitura nossa a partir do trecho). Por isso o deus ex machina é criticado: ele pede ao leitor que aceite o que a história não preparou. O guia sobre deus ex machina trata da saída que vem de fora da história, e o guia sobre furo de enredo, da lacuna que contraria a lógica do enredo.
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O guia completoRecursos narrativos: o que são, quais são e quais viraram clichê — Recursos narrativos são as técnicas com que o autor decide o que o leitor sabe, quando sabe e o que move a trama: prenúncio, pista falsa, reviravolta, flashback, MacGuffin e deus ex machina, entre outros.Termos vizinhos
Lidas no texto integral
- Samuel Taylor Coleridge, Biographia Literaria, 1817, cap. XIV, https://www.gutenberg.org/ebooks/6081
Lidas em resumo ou pela referência
- David Chandler, Notes and Queries 43(1), 1996, p. 39–41. doi:10.1093/nq/43.1.39
- J. R. R. Tolkien, "On Fairy-Stories", em The Monsters and the Critics, Allen & Unwin, 1983, p. 109–161.
VERSE MEDIA. Suspensão de descrença. Enciclopédia Verse, 5 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/estrutura/suspensao-de-descrenca. Acesso em: [data].
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