Exemplos de crônicas (curtas, do dia a dia, reflexivas) e como escrever a sua
Quatro crônicas curtas do cronista Lima Barreto, textos breves de jornal hoje em domínio público, servem de modelo, uma por tipo: "De Cascadura ao Garnier" (narrativa, do dia a dia), "Uma lembrança" (humorística), "Elogio da morte" (reflexiva) e "As enchentes" (jornalística, de fato do dia). Todas partem de um ponto concreto e fecham num juízo ou numa imagem. Abaixo, cada uma desmontada em abertura, virada e fecho, e o modelo em branco para a sua.
Você abriu três páginas de \"exemplos de crônicas\" e achou só trechos soltos, sem saber onde o texto começa, vira e termina. Quer escrever a sua e não sabe se o assunto de hoje serve. \"Mas por onde se começa uma crônica?\"
Quatro crônicas curtas desmontadas, um critério para escolher o tipo e o modelo em branco para escrever a sua
Quem quer escrever crônica aprende pelo modelo: crônicas prontas por tipo, desmontadas, e o passo a passo para escrever a própria.
Nesta página
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Qual crônica curta serve de modelo para cada tipo?
Cada tipo parte de um material diferente, uma cena, um ato oficial, uma máxima ou um problema público, e as quatro crônicas abaixo mostram qual. A crônica deste guia é a brasileira, o texto breve de jornal; a crónica hispano-americana é outro gênero, como mostra o termo crônica. Como a crônica se distingue do conto e da novela está no guia sobre conto, crônica ou novela.
| Crônica | Tipo | Onde saiu | Tamanho | O que ela ensina | Escolha quando |
|---|---|---|---|---|---|
| "De Cascadura ao Garnier" | narrativa, do dia a dia | Careta, 29/07/1922 | cerca de 480 palavras | contar um trajeto como cena, no presente | o ponto de partida é algo que você viveu ou viu acontecer, como um trajeto |
| "Uma lembrança" | humorística | Careta, 16/10/1915 | cerca de 300 palavras | ridicularizar um fato da semana com falsa seriedade | o fato da semana é um ato oficial que se desmonta pelo exagero |
| "Elogio da morte" | reflexiva | reunida em Marginália | cerca de 550 palavras | partir de uma máxima e virar a reflexão para si | o ponto de partida é uma ideia ou uma máxima, não um fato |
| "As enchentes" | jornalística | Correio da Noite, 19/01/1915 | cerca de 235 palavras | cobrar uma solução a partir do fato do dia | o fato é um problema público com um responsável a cobrar |
Os rótulos de tipo mudam de quem ensina para quem ensina. As tipologias dos críticos, de Afrânio Coutinho a Massaud Moisés, estão no termo crônica; a disciplina de crônica da UFRGS trabalha flânerie, humor, crônica especializada e crítica social. Esta página usa quatro tipos por função, nossa escolha para ter um modelo de cada, e não os rótulos de um só autor. Para humor, o romancista e cronista Machado de Assis tem um segundo modelo, mais longo: "Bons Dias!" de 20-21 de maio de 1888 faz do fato da semana uma paródia do Evangelho, "No princípio era Cotejipe".
Qual é a estrutura de uma crônica?
Leia a crônica três vezes, cada uma procurando uma coisa: onde ela abre, onde vira e como fecha. "De Cascadura ao Garnier" mostra o percurso inteiro em cerca de 480 palavras.
Abertura: um fato ou uma cena, em uma ou duas frases. O texto começa com "Embarco em Cascadura. É de manhã.": o cronista já está dentro do bonde, no presente, antes de qualquer opinião.
Virada: o ponto em que o cronista deixa de olhar e pensa. Depois de descrever o motorneiro e a velha Estrada Real, ele para: "o passado é um veneno. Fujo dele". É a virada do episódio para a reflexão, e o bonde segue andando.
Fecho: uma imagem que o leitor leva. No Largo de São Francisco, o cronista desce, entra na livraria Garnier e ouve um poeta; fecha com "Então de novo me lembro da Estrada Real". A crônica termina onde começou o pensamento, sem lição declarada.
As outras três seguem o mesmo esqueleto com outros materiais:
- "Uma lembrança" (humorística). Abre no fato, a Diretoria de Saúde Pública que "inaugurou uma Escola Prática de Enfermeiros"; vira quando o cronista diz ter um programa "muito melhor", justificado por não ser médico nem enfermeiro, e o atribui a escolas da Alemanha; fecha em "Aí fica a lembrança." depois de listar disciplinas absurdas para enfermeiros.
- "Elogio da morte" (reflexiva). Abre numa máxima, "Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte."; vira em "Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo."; fecha em "Ao vencedor, as batatas!", a frase de Machado, depois de o cronista aplicar a reflexão à própria pobreza.
- "As enchentes" (jornalística). Abre nas "chuvaradas de verão" que inundam o Rio; vira quando o cronista entra em primeira pessoa, "Não sei nada de engenharia"; fecha cobrando que a cidade cuide do essencial e não das fachadas.
Nas quatro, o cronista fala de si em primeira pessoa e a virada vem entre a metade e dois terços do texto, o que é uma regularidade destas quatro, não regra de gênero (leitura nossa dos textos).
O que dá errado: a crônica que só descreve sem virar vira relato, e a que só opina sem fato vira artigo. "As enchentes", a mais opinativa das quatro, sustenta-se porque abre num fato verificável do dia.
Como escrever a sua crônica, passo a passo?
Escreva a crônica na ordem em que ela se desmonta: ponto de partida, voz, abertura, virada, fecho, medida.
- Aqueça por escrito antes de decidir o tipo. A Reedsy sugere a quem começa em não ficção criativa escolher um tema da própria vida ou uma experiência comum e escrever solto por cinco a dez minutos.
- Escolha o ponto de partida concreto. As quatro crônicas abrem num fato (a enchente, a escola de enfermeiros), numa cena (o bonde) ou numa máxima (a vida feita pela morte). Se o ponto de partida não cabe em uma frase, ainda não há crônica.
- Defina quem fala. Nas quatro crônicas acima o cronista fala em primeira pessoa; decida isso antes de escrever a primeira frase.
- Abra numa cena e deixe o desfecho para o fim. A recomendação para ensaio pessoal é abrir numa cena que prenda o leitor, sem entregar o final no começo.
- Marque a virada. O ensaio pessoal costuma ter três estágios, o estado inicial, o encontro com algo de fora e o estado novo; na crônica, a virada é o encontro. Escreva a frase em que o cronista muda de olhar.
- Feche com o que o leitor leva. Uma lição, um momento memorável ou um riso; "Aí fica a lembrança." faz isso em quatro palavras.
- Meça pelo espaço. As quatro acima têm de 235 a 550 palavras; em coluna de jornal, o espaço é fixo e cada texto deve ser peça fechada.
Modelo explicado, campo a campo
| Campo | O que escrever |
|---|---|
| Ponto de partida | o fato, a cena ou a máxima, em uma frase |
| Tipo | narrativa, humorística, reflexiva ou jornalística |
| Quem fala | primeira pessoa (cronista presente) ou observador |
| Abertura | a primeira ou as duas primeiras frases |
| Virada | a frase em que o cronista muda de olhar |
| Fecho | a última imagem ou frase, sem resumir |
| Tamanho | de 235 a 550 palavras, como as quatro acima |
Versão para copiar
CRÔNICA: [título]
Ponto de partida (uma frase): ______
Tipo: ______
Quem fala: ______
Abertura: ______
Virada (o que o cronista percebe): ______
Fecho (a imagem que fica): ______
Tamanho-alvo: ______ palavras
Exemplo preenchido: "De Cascadura ao Garnier"
CRÔNICA: De Cascadura ao Garnier (Lima Barreto, Careta, 29/07/1922)
Ponto de partida: uma viagem de bonde, de Cascadura ao centro do Rio
Tipo: narrativa, do dia a dia
Quem fala: o cronista, em primeira pessoa, no presente
Abertura: "Embarco em Cascadura. É de manhã."
Virada: "o passado é um veneno. Fujo dele"
Fecho: "Então de novo me lembro da Estrada Real"
Tamanho: cerca de 480 palavras
Para adaptar à sua, troque o ponto de partida por algo visto esta semana e mantenha a ordem dos campos; escreva a virada primeiro, se for mais fácil, e depois volte à abertura. Ao terminar, há na mão uma crônica com começo, virada e fecho, dentro do espaço combinado.
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O guia-mãeConto, crônica ou novela: qual a diferença e qual forma escolher para a sua história — O conto é uma ficção breve fechada num só efeito; a crônica é um texto breve feito para o jornal, que parte de um fato, do cotidiano ou de um tema histórico; a novela fica entre o conto e o romance, com vários acontecimentos sob controle num espaço curto.Guias do mesmo assunto
Quem fala sobre isso 6pessoas
- Arthur Dapievejornalista e cronista brasileiro (n. 1963); colunista do O Globo por 25 anos e professor de jornalismo da PUC-Rio (2021)
Ensina a escrever crônica: deu a Oficina da Crônica do Instituto Estação das Letras em janeiro de 2021 e, em entrevista daquele mês, falou do que faz uma crônica servir ao leitor.
Página ↗ - Edgar Allan Poe †contista, poeta e crítico norte-americano (1809–1849)
Obra sobre o conto: a resenha de Twice-Told Tales, de Hawthorne, em 1842, em que definiu o conto como a narrativa lida de uma sentada, com um efeito único.
Página ↗ - Julio Cortázar †contista, romancista e tradutor argentino (1914–1984)
Obra sobre o conto: a conferência "Algunos aspectos del cuento", Havana, 1962, que compara o conto à fotografia e o romance ao cinema.
Página ↗ - Henry James †romancista e crítico norte-americano naturalizado britânico (1843–1916)
Obra sobre a novela: o prefácio de 1909 ao volume de The Lesson of the Master, em que chamou a nouvelle de forma ideal e descreveu o trabalho dela como uma ciência do controle.
Página ↗ - Ian McEwanromancista britânico (n. 1948)
Obra sobre a novela: o ensaio "Some Notes on the Novella", na New Yorker, em 2012, que defende a novela como a forma perfeita da ficção em prosa.
Página ↗ - Antonio Candido †crítico literário e sociólogo brasileiro, professor da USP (1918–2017)
Obra sobre a crônica: o ensaio "A vida ao rés-do-chão", de 1992, sobre o gênero que parece menor e por isso fica perto do leitor.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
TikTokPara quem não sabe como começar uma crônica, sugere aberturas que partem de um dia comum em que um detalhe faz olhar tudo de outro jeito.
@teachercassiagTikTok ↗
YouTubeEscrever sobre o cotidiano parece simples, mas o trabalho do cronista é transformar cenas comuns em texto; apresenta a crônica como o gênero que faz da vida palavra.
Lara BrennerYouTube ↗
YouTubeLeitura em voz alta de "A bola", crônica de Luis Fernando Verissimo do livro Comédias para se ler na escola (Objetiva, 2001).
História ItineranteYouTube ↗
YouTubeEnsina, em cinco passos rápidos e objetivos, a fazer uma crônica para trabalhos escolares.
Literatura e Redação com Ana Rita UchôaYouTube ↗
TikTokPergunta quais são os tipos de crônica e se o público sabia que existiam tantas variedades.
@jounkerboxTikTok ↗
TikTokEscrever crônica começa por aprender a olhar o cotidiano com curiosidade, e só depois vem a escrita; é o que ensina numa turma de escrita.
@lucaoescritorTikTok ↗
O que está acontecendo
- Cherise Saywell wins national short story award for ‘tender’ tale of a child facing violence – read an extract here ↗
The Edinburgh-based writer takes £15,000 prize for Ditto, a ‘beautifully told’ story about domestic abuse in a small Australian town
- Exposição sobre Luis Fernando Verissimo busca a imortalidade desejada pelo cronista gaúcho ↗
Com mais de 300 itens, a maioria exibida pela primeira vez, a mostra ‘Traçando Verissimo – O mundo fabuloso do mestre do humor’, em cartaz em São Paulo, reconstitui o lado secreto do escritor
- Por que Martha Batalha diz que a crônica é um dos textos mais políticos de um jornal ↗
Ao responder a cartas de leitores que classificaram o texto 'Filosofias do português', publicado no jornal, como uma 'obra-prima', ela reflete sobre a literatura e língua portuguesa
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Os quatro textos de Lima Barreto e o de Machado foram lidos integralmente no Wikisource em 07/10/2026; os trechos citados têm até 15 palavras. As recomendações de escrita vêm de páginas de ensino em inglês (Reedsy e Writer's Digest), lidas por extração de texto; a divisão de tipos da UFRGS vem da ementa da disciplina. A desmontagem em abertura, virada e fecho e o modelo em branco são nossa leitura dos textos.
Lidas no texto integral
- Lima Barreto, "De Cascadura ao Garnier", Careta, 29/07/1922 · https://pt.wikisource.org/wiki/De_Cascadura_ao_Garnier
- Lima Barreto, "Uma lembrança", Careta, 16/10/1915 · https://pt.wikisource.org/wiki/Uma_lembran%C3%A7a_(Lima_Barreto)
- Lima Barreto, "Elogio da morte", in Marginália · https://pt.wikisource.org/wiki/Elogio_da_morte_(Lima_Barreto)
- Lima Barreto, "As enchentes", Correio da Noite, 19/01/1915 · https://pt.wikisource.org/wiki/As_enchentes
- Machado de Assis, "Bons Dias!", 20-21/05/1888 · https://pt.wikisource.org/wiki/Bons_Dias!_(20-21_de_maio_de_1888)
- Savannah Cordova, "Creative Nonfiction", Reedsy Blog, 15/10/2025 · https://reedsy.com/blog/guide/creative-writing/creative-nonfiction/
- Robert Lee Brewer, "A Few Tips for Writing Personal Essays", Writer's Digest, 18/10/2021 · https://www.writersdigest.com/write-better-nonfiction/a-few-tips-for-writing-personal-essays
- Noelle Sterne, "Want to Write a Column?", Writer's Digest, 17/03/2016 · https://www.writersdigest.com/write-better-nonfiction/want-to-write-a-column-here-are-7-key-tips-you-need-to-know
- UFRGS, Territórios da Escrita, "Crônica" · https://www.ufrgs.br/territoriosdaescrita/cronica/
VERSE MEDIA. Exemplos de crônicas (curtas, do dia a dia, reflexivas) e como escrever a sua. Enciclopédia Verse, 7 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/formas-narrativas/exemplos-de-cronica. Acesso em: [data].
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