Verse Enciclopédia

Exemplos de crônicas (curtas, do dia a dia, reflexivas) e como escrever a sua

Quatro crônicas curtas do cronista Lima Barreto, textos breves de jornal hoje em domínio público, servem de modelo, uma por tipo: "De Cascadura ao Garnier" (narrativa, do dia a dia), "Uma lembrança" (humorística), "Elogio da morte" (reflexiva) e "As enchentes" (jornalística, de fato do dia). Todas partem de um ponto concreto e fecham num juízo ou numa imagem. Abaixo, cada uma desmontada em abertura, virada e fecho, e o modelo em branco para a sua.

Você abriu três páginas de \"exemplos de crônicas\" e achou só trechos soltos, sem saber onde o texto começa, vira e termina. Quer escrever a sua e não sabe se o assunto de hoje serve. \"Mas por onde se começa uma crônica?\"

O que você leva

Quatro crônicas curtas desmontadas, um critério para escolher o tipo e o modelo em branco para escrever a sua

Pra quem é

Quem quer escrever crônica aprende pelo modelo: crônicas prontas por tipo, desmontadas, e o passo a passo para escrever a própria.

Nesta página
  1. Qual crônica curta serve de modelo para cada tipo?
  2. Qual é a estrutura de uma crônica?
  3. Como escrever a sua crônica, passo a passo?
Jornal impresso dobrado sobre a mesa de um café, ao lado de uma xícara.
A crônica nasceu para o jornal e para o ritmo do dia. Foto de Vavaleyli no Pexels

Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.

Qual crônica curta serve de modelo para cada tipo?

Cada tipo parte de um material diferente, uma cena, um ato oficial, uma máxima ou um problema público, e as quatro crônicas abaixo mostram qual. A crônica deste guia é a brasileira, o texto breve de jornal; a crónica hispano-americana é outro gênero, como mostra o termo crônica. Como a crônica se distingue do conto e da novela está no guia sobre conto, crônica ou novela.

Crônica Tipo Onde saiu Tamanho O que ela ensina Escolha quando
"De Cascadura ao Garnier" narrativa, do dia a dia Careta, 29/07/1922 cerca de 480 palavras contar um trajeto como cena, no presente o ponto de partida é algo que você viveu ou viu acontecer, como um trajeto
"Uma lembrança" humorística Careta, 16/10/1915 cerca de 300 palavras ridicularizar um fato da semana com falsa seriedade o fato da semana é um ato oficial que se desmonta pelo exagero
"Elogio da morte" reflexiva reunida em Marginália cerca de 550 palavras partir de uma máxima e virar a reflexão para si o ponto de partida é uma ideia ou uma máxima, não um fato
"As enchentes" jornalística Correio da Noite, 19/01/1915 cerca de 235 palavras cobrar uma solução a partir do fato do dia o fato é um problema público com um responsável a cobrar

Os rótulos de tipo mudam de quem ensina para quem ensina. As tipologias dos críticos, de Afrânio Coutinho a Massaud Moisés, estão no termo crônica; a disciplina de crônica da UFRGS trabalha flânerie, humor, crônica especializada e crítica social. Esta página usa quatro tipos por função, nossa escolha para ter um modelo de cada, e não os rótulos de um só autor. Para humor, o romancista e cronista Machado de Assis tem um segundo modelo, mais longo: "Bons Dias!" de 20-21 de maio de 1888 faz do fato da semana uma paródia do Evangelho, "No princípio era Cotejipe".

Qual é a estrutura de uma crônica?

Linha com três pontos em sequência: abertura, virada e fecho de uma crônica.
O esqueleto que as quatro crônicas da página compartilham. Diagrama: Verse

Leia a crônica três vezes, cada uma procurando uma coisa: onde ela abre, onde vira e como fecha. "De Cascadura ao Garnier" mostra o percurso inteiro em cerca de 480 palavras.

Abertura: um fato ou uma cena, em uma ou duas frases. O texto começa com "Embarco em Cascadura. É de manhã.": o cronista já está dentro do bonde, no presente, antes de qualquer opinião.

Virada: o ponto em que o cronista deixa de olhar e pensa. Depois de descrever o motorneiro e a velha Estrada Real, ele para: "o passado é um veneno. Fujo dele". É a virada do episódio para a reflexão, e o bonde segue andando.

Fecho: uma imagem que o leitor leva. No Largo de São Francisco, o cronista desce, entra na livraria Garnier e ouve um poeta; fecha com "Então de novo me lembro da Estrada Real". A crônica termina onde começou o pensamento, sem lição declarada.

As outras três seguem o mesmo esqueleto com outros materiais:

  • "Uma lembrança" (humorística). Abre no fato, a Diretoria de Saúde Pública que "inaugurou uma Escola Prática de Enfermeiros"; vira quando o cronista diz ter um programa "muito melhor", justificado por não ser médico nem enfermeiro, e o atribui a escolas da Alemanha; fecha em "Aí fica a lembrança." depois de listar disciplinas absurdas para enfermeiros.
  • "Elogio da morte" (reflexiva). Abre numa máxima, "Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte."; vira em "Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo."; fecha em "Ao vencedor, as batatas!", a frase de Machado, depois de o cronista aplicar a reflexão à própria pobreza.
  • "As enchentes" (jornalística). Abre nas "chuvaradas de verão" que inundam o Rio; vira quando o cronista entra em primeira pessoa, "Não sei nada de engenharia"; fecha cobrando que a cidade cuide do essencial e não das fachadas.

Nas quatro, o cronista fala de si em primeira pessoa e a virada vem entre a metade e dois terços do texto, o que é uma regularidade destas quatro, não regra de gênero (leitura nossa dos textos).

O que dá errado: a crônica que só descreve sem virar vira relato, e a que só opina sem fato vira artigo. "As enchentes", a mais opinativa das quatro, sustenta-se porque abre num fato verificável do dia.

Como escrever a sua crônica, passo a passo?

Escreva a crônica na ordem em que ela se desmonta: ponto de partida, voz, abertura, virada, fecho, medida.

  1. Aqueça por escrito antes de decidir o tipo. A Reedsy sugere a quem começa em não ficção criativa escolher um tema da própria vida ou uma experiência comum e escrever solto por cinco a dez minutos.
  2. Escolha o ponto de partida concreto. As quatro crônicas abrem num fato (a enchente, a escola de enfermeiros), numa cena (o bonde) ou numa máxima (a vida feita pela morte). Se o ponto de partida não cabe em uma frase, ainda não há crônica.
  3. Defina quem fala. Nas quatro crônicas acima o cronista fala em primeira pessoa; decida isso antes de escrever a primeira frase.
  4. Abra numa cena e deixe o desfecho para o fim. A recomendação para ensaio pessoal é abrir numa cena que prenda o leitor, sem entregar o final no começo.
  5. Marque a virada. O ensaio pessoal costuma ter três estágios, o estado inicial, o encontro com algo de fora e o estado novo; na crônica, a virada é o encontro. Escreva a frase em que o cronista muda de olhar.
  6. Feche com o que o leitor leva. Uma lição, um momento memorável ou um riso; "Aí fica a lembrança." faz isso em quatro palavras.
  7. Meça pelo espaço. As quatro acima têm de 235 a 550 palavras; em coluna de jornal, o espaço é fixo e cada texto deve ser peça fechada.

Modelo explicado, campo a campo

Campo O que escrever
Ponto de partida o fato, a cena ou a máxima, em uma frase
Tipo narrativa, humorística, reflexiva ou jornalística
Quem fala primeira pessoa (cronista presente) ou observador
Abertura a primeira ou as duas primeiras frases
Virada a frase em que o cronista muda de olhar
Fecho a última imagem ou frase, sem resumir
Tamanho de 235 a 550 palavras, como as quatro acima

Versão para copiar

Copie o modelo e escreva a sua crônica
CRÔNICA: [título]
Ponto de partida (uma frase): ______
Tipo: ______
Quem fala: ______
Abertura: ______
Virada (o que o cronista percebe): ______
Fecho (a imagem que fica): ______
Tamanho-alvo: ______ palavras

Exemplo preenchido: "De Cascadura ao Garnier"

CRÔNICA: De Cascadura ao Garnier (Lima Barreto, Careta, 29/07/1922)
Ponto de partida: uma viagem de bonde, de Cascadura ao centro do Rio
Tipo: narrativa, do dia a dia
Quem fala: o cronista, em primeira pessoa, no presente
Abertura: "Embarco em Cascadura. É de manhã."
Virada: "o passado é um veneno. Fujo dele"
Fecho: "Então de novo me lembro da Estrada Real"
Tamanho: cerca de 480 palavras

Para adaptar à sua, troque o ponto de partida por algo visto esta semana e mantenha a ordem dos campos; escreva a virada primeiro, se for mais fácil, e depois volte à abertura. Ao terminar, há na mão uma crônica com começo, virada e fecho, dentro do espaço combinado.

Continue por aqui

O guia-mãeConto, crônica ou novela: qual a diferença e qual forma escolher para a sua história — O conto é uma ficção breve fechada num só efeito; a crônica é um texto breve feito para o jornal, que parte de um fato, do cotidiano ou de um tema histórico; a novela fica entre o conto e o romance, com vários acontecimentos sob controle num espaço curto.

Guias do mesmo assunto

Quem fala sobre isso 6pessoas

  • Arthur Dapievejornalista e cronista brasileiro (n. 1963); colunista do O Globo por 25 anos e professor de jornalismo da PUC-Rio (2021)

    Ensina a escrever crônica: deu a Oficina da Crônica do Instituto Estação das Letras em janeiro de 2021 e, em entrevista daquele mês, falou do que faz uma crônica servir ao leitor.

    Página ↗
  • Edgar Allan Poe †contista, poeta e crítico norte-americano (1809–1849)

    Obra sobre o conto: a resenha de Twice-Told Tales, de Hawthorne, em 1842, em que definiu o conto como a narrativa lida de uma sentada, com um efeito único.

    Página ↗
  • Julio Cortázar †contista, romancista e tradutor argentino (1914–1984)

    Obra sobre o conto: a conferência "Algunos aspectos del cuento", Havana, 1962, que compara o conto à fotografia e o romance ao cinema.

    Página ↗
  • Henry James †romancista e crítico norte-americano naturalizado britânico (1843–1916)

    Obra sobre a novela: o prefácio de 1909 ao volume de The Lesson of the Master, em que chamou a nouvelle de forma ideal e descreveu o trabalho dela como uma ciência do controle.

    Página ↗
  • Ian McEwanromancista britânico (n. 1948)

    Obra sobre a novela: o ensaio "Some Notes on the Novella", na New Yorker, em 2012, que defende a novela como a forma perfeita da ficção em prosa.

    Página ↗
  • Antonio Candido †crítico literário e sociólogo brasileiro, professor da USP (1918–2017)

    Obra sobre a crônica: o ensaio "A vida ao rés-do-chão", de 1992, sobre o gênero que parece menor e por isso fica perto do leitor.

    Página ↗

O que a rede diz 6 vozes

  • Capa do post de @teachercassiagTikTok

    Para quem não sabe como começar uma crônica, sugere aberturas que partem de um dia comum em que um detalhe faz olhar tudo de outro jeito.

    @teachercassiagTikTok ↗
  • Capa do post de Lara Brenner: Crônica: o gênero que transforma a vida em palavraYouTube

    Escrever sobre o cotidiano parece simples, mas o trabalho do cronista é transformar cenas comuns em texto; apresenta a crônica como o gênero que faz da vida palavra.

    Lara BrennerYouTube ↗
  • Capa do post de História Itinerante: Crônica: A bola - Luis Fernando VerissimoYouTube

    Leitura em voz alta de "A bola", crônica de Luis Fernando Verissimo do livro Comédias para se ler na escola (Objetiva, 2001).

    História ItineranteYouTube ↗
  • Capa do post de Literatura e Redação com Ana Rita Uchôa: COMO FAZER UMA CRÔNICA EM 5 PASSOS?YouTube

    Ensina, em cinco passos rápidos e objetivos, a fazer uma crônica para trabalhos escolares.

    Literatura e Redação com Ana Rita UchôaYouTube ↗
  • Capa do post de @jounkerboxTikTok

    Pergunta quais são os tipos de crônica e se o público sabia que existiam tantas variedades.

    @jounkerboxTikTok ↗
  • Capa do post de @lucaoescritorTikTok

    Escrever crônica começa por aprender a olhar o cotidiano com curiosidade, e só depois vem a escrita; é o que ensina numa turma de escrita.

    @lucaoescritorTikTok ↗

O que está acontecendo

Como esta página foi feita

A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.

Autoria: Verse MediaRevisado em 8 out. 2026Passos conferidos em 8 out. 2026Publicado em 8 out. 20269 fontes · 9 no integral

Os quatro textos de Lima Barreto e o de Machado foram lidos integralmente no Wikisource em 07/10/2026; os trechos citados têm até 15 palavras. As recomendações de escrita vêm de páginas de ensino em inglês (Reedsy e Writer's Digest), lidas por extração de texto; a divisão de tipos da UFRGS vem da ementa da disciplina. A desmontagem em abertura, virada e fecho e o modelo em branco são nossa leitura dos textos.

Cite esta página
VERSE MEDIA. Exemplos de crônicas (curtas, do dia a dia, reflexivas) e como escrever a sua. Enciclopédia Verse, 7 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/formas-narrativas/exemplos-de-cronica. Acesso em: [data].

Achou um erro ou um número vencido? Escreva para enciclopedia@versemedia.com.br com o endereço desta página.

Enciclopédia Verse · Formas Narrativas Voltar ao topo