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Autobiografia exemplo: modelo de uma página e como abrir e fechar um livro de memórias

Uma autobiografia de exemplo, seja o texto de uma página pedido em escola ou seleção, seja a abertura de um livro de memórias, tem seis peças: o motivo de escrever, o recorte, uma cena de partida, os acontecimentos em ordem, o presente e o fecho. O modelo desta página vem da carta em que José de Alencar contou, em 1873, como se fez romancista, e aparece abaixo em branco e preenchido.

Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da escrita de memórias, como William Zinsser, Adair Lara e Paula Balzer; no Brasil, José de Alencar e Joaquim Nabuco.

O cursor pisca numa página vazia e a única frase que veio foi "Nasci em". Você já procurou exemplos: uns são redação de escola, outros são a vida de gente famosa em centenas de páginas, e nenhum mostra como a sua começa nem como termina. Falta ver uma autobiografia de verdade, aberta e fechada, para saber o que copiar.

O que você leva

A peça de autobiografia exemplo pronta para copiar ou adaptar, com o critério para escolher entre o texto curto de uma página e a abertura de um livro de memórias

Pra quem é

Quem já decidiu escrever quer ver o texto pronto, um começo, um fim e a estrutura de uma autobiografia real, para copiar a forma e não o método; a busca em português mistura o texto escolar de uma página com o livro de memórias

Nesta página
  1. O que uma autobiografia de exemplo precisa ter?
  2. Como abrem e como fecham as autobiografias que vale copiar?
  3. Qual modelo de autobiografia copiar?
  4. Como adaptar o modelo ao seu caso?
Livro antigo aberto sobre uma mesa de madeira, ao lado de uma pilha de livros de capa de pano gastos.
Aprender o modelo é ler como outros abriram e fecharam a própria vida. Foto de Suzy Hazelwood no Pexels

O que uma autobiografia de exemplo precisa ter?

"Autobiografia exemplo" serve a dois textos diferentes, e o primeiro passo é saber qual. O primeiro é o texto de uma página pedido em processo seletivo: o Governo de Goiás define o memorial do programa LiderAção como "autobiografia" da trajetória acadêmico-profissional, de no máximo uma página e em primeira pessoa, com identificação, apresentação, formação, experiência, motivo de fazer o curso e conclusão. O Mestrado em Serviço Social da PUC Goiás pede o mesmo gênero em oito partes, da capa às conclusões, sem limite de páginas, mas "sintético e objetivo". Nos dois casos, o edital manda mais do que qualquer modelo.

O segundo é a abertura de um livro de memórias, e aí o método da vida inteira mora no guia sobre como escrever um livro sobre a sua vida, que parte do método de William Zinsser, autor do manual de não-ficção On Writing Well: um episódio por manhã. O que esta página isola é o texto que se copia: a primeira página e a última, mais a ordem do meio.

Alencar e Trollope começam fixando o recorte. Anthony Trollope, que fez da literatura carreira e meio de ganhar o pão, escreveu An Autobiography em 1875–76, publicada só em 1883, depois da morte dele; no início avisa logo no início que falará menos da vida privada e mais do que fez na literatura, e que contar tudo de si é, para ele, impossível. Mário de Alencar apresentou a carta do pai como autobiografia literária sobre as circunstâncias que despertaram a vocação de escritor, não como história de uma vida.

Depois vem o começo. Adair Lara, colunista e autora de memórias, escreveu na Writer's Digest que o lance mais importante vem perto do começo, o dia em que o problema começou, precedido por uma cena do cotidiano de antes. Paula Balzer, agente literária e autora de Writing & Selling Your Memoir, chama o ponto em que a história do memorialista começa de momento da descoberta (moment of discovery). A Reedsy, plataforma de serviços para autores, sugere abrir com um momento forte do meio ou até do fim da história.

O fim tem duas regras que se complementam. Lara define o fim pela linha de desejo, o ponto em que quem narra consegue o que queria, não consegue ou deixa de querer, e pede que esse lance seja dramatizado em cena. William Zinsser, autor do manual On Writing Well, dá a regra de parada: "when you're ready to stop, stop", sem resumir o que o leitor acabou de ler.

Como abrem e como fecham as autobiografias que vale copiar?

Alencar e Trollope abrem declarando o que vão cobrir e fecham no presente de quem escreve, não no balanço da vida; Nabuco faz o contrário nas duas pontas: abre relendo os próprios artigos e fecha num balanço em imagem.

Obra Como abre Como fecha O que copiar
José de Alencar, Como e porque sou romancista (carta de 1873) "Meu amigo": cita o pedido feito numa conversa, "alguns pormenores dessa parte intima de nossa existencia", e anuncia que fará o rascunho de um capítulo. No presente: o contrato com o editor Garnier e o livro como "desastre financeiro" no Brasil; depois, data e assinatura. Destinatário e motivo na primeira linha; data e assinatura no fim.
Anthony Trollope, An Autobiography (escrita em 1875–76, publicada em 1883) Declara o recorte antes de contar: menos a vida privada, mais a carreira literária. Fala do que lê e do que pretende fazer se viver mais alguns anos, e se despede de "all who have cared to read". A frase do que fica de fora; a despedida a quem leu.
Joaquim Nabuco, Minha formação (1900) Prefácio: diz que as páginas saíram antes como artigos, relê-as em livro e pergunta que impressão deixarão. Uma imagem só para a vida inteira: "Olhei a vida nas diversas epochas através de vidros differentes". O balanço numa imagem, em vez de uma lista de fases.

A tabela deixa de fora o começo pelo nascimento, que também existe e funciona. Benjamin Franklin, que escreveu a primeira parte da Autobiography em 1771, abre com uma carta ao filho, com lugar e data no cabeçalho, e diz por que escreve: "I have ever had pleasure in obtaining any little anecdotes of my ancestors". Frederick Douglass, que se apresenta no título como "an American Slave", abre a Narrative de 1845 pelo lugar de nascimento e, na frase seguinte, pelo que não sabe: a própria idade, porque nunca viu registro dela. Os dois fazem o contrário do que a Reedsy recomenda e funcionam porque o primeiro dado já traz o problema do livro: o motivo da carta, no caso de Franklin; a idade que o escravizado não pôde saber, no de Douglass.

Quando a abertura pelo nascimento não carrega nenhum problema, vale a regra de Allison K. Williams, autora de Seven Drafts, no blog de Jane Friedman: abrir num momento de ação ou decisão, avançar um pouco, voltar ao passado e reencontrar a cena. Em Wild, as memórias de Cheryl Strayed sobre a trilha que percorreu, a primeira frase é "I lost my boot off the side of a cliff".

Qual modelo de autobiografia copiar?

Esquema com os seis campos do modelo de autobiografia em ordem, do motivo ao fecho.
Os seis campos do modelo, na ordem em que entram no texto. Diagrama: Verse

O modelo tem três camadas: explicado campo a campo, em branco e preenchido com uma obra real. Serve ao texto de uma página, com cada campo reduzido a uma frase, e à abertura de um livro, com cada campo virando um parágrafo.

O modelo explicado.

  1. Motivo. Abra dizendo a quem escreve e por quê, como Alencar abre com o pedido do amigo. Comece pelo motivo, não pelo nascimento, a menos que o nascimento já traga o problema do texto: Zinsser avisa que, se a primeira frase não leva à segunda, o texto morre.
  2. Recorte. Diga numa frase o que o texto cobre e o que deixa de fora. Alencar prometeu apenas "um capitulo", o das circunstâncias que o levaram ao romance.
  3. Cena de partida. Abra a primeira cena com ano, lugar e uma pessoa, não com o resumo da infância. Alencar volta a 1840, ao colégio da rua do Lavradio, n. 17, e ao diretor de sapatos que rangiam.
  4. Acontecimentos em ordem. Conte de três a cinco, cada um com o que mudou. A Reedsy pede para ordenar as histórias cronologicamente e mostrar como se lidou com os obstáculos.
  5. Presente. Diga onde você está hoje. Alencar e Trollope fecham no presente e não no balanço.
  6. Fecho. Pare quando estiver pronto para parar, e feche com data e assinatura se o texto for carta ou documento.

O modelo em branco, para copiar.

Copie o modelo: a autobiografia em seis partes, em branco e preenchida
[Título: seu nome e o recorte. Ex.: "Como virei..."]

1. MOTIVO — Para quem escrevo e por quê: [destinatário / pedido / ocasião].
2. RECORTE — Este texto cobre [tema ou período] e deixa de fora [o que fica de fora].
3. CENA DE PARTIDA — [Ano], [lugar], [uma pessoa], [uma ação ou objeto].
4. ACONTECIMENTOS (de três a cinco, em ordem)
   - [Ano]: [o que aconteceu] → o que mudou em mim: [uma frase].
   - [Ano]: [o que aconteceu] → o que mudou em mim: [uma frase].
   - [Ano]: [o que aconteceu] → o que mudou em mim: [uma frase].
5. PRESENTE — Hoje eu [o que faz, onde está, o que usa do que viveu].
6. FECHO — [Uma imagem, um plano ou uma despedida. Sem resumo.]

[Local], [data]. [Nome]

O exemplo preenchido: a carta de Alencar.

Campo O que Alencar escreveu em 1873
1. Motivo O amigo pediu "pormenores dessa parte intima" da vida; ele responde com a carta.
2. Recorte Um capítulo só: as circunstâncias que o levaram ao romance. Antes dele, diz que já pensou em escrever essa autobiografia literária para os filhos.
3. Cena de partida 1840, o colégio da rua do Lavradio, n. 17, e o diretor Januário Matheus Ferreira.
4. Acontecimentos O dia em que o olhar do diretor "gelou" sua voz na sala de aula; o cargo de ledor da mãe em casa; o primeiro livro, o romancete Cinco Minutos, escrito em meia dúzia de folhetins no fim de 1856; O Guarani, escrito dia a dia para o folhetim do Diário entre fevereiro e abril de 1857, pela memória dele.
5. Presente Vinte e dois anos de imprensa até achar o editor Garnier, em meados de 1870.
6. Fecho O livro como "desastre financeiro" no Brasil, a desculpa por ter se alongado ("Excedi-me além do que devia"), a data, "Maio de 1873", e a assinatura.

Copie a data e a assinatura, não a frase final: a nota da edição registra que ela ficou interrompida.

O mesmo modelo preenchido, no formato de copiar (os dados da carta de Alencar passados para a primeira pessoa; não é texto dele):

Como e porque sou romancista

1. MOTIVO — Escrevo a um amigo que, numa conversa, pediu "alguns pormenores
   dessa parte intima de nossa existencia".
2. RECORTE — Um capítulo só: as circunstâncias que me levaram ao romance.
3. CENA DE PARTIDA — 1840, o colégio da rua do Lavradio, n. 17; o diretor,
   Januário Matheus Ferreira, e seus sapatos que rangiam.
4. ACONTECIMENTOS
   - Na sala de aula, um olhar do diretor gela a minha voz → fica em mim
     uma dúvida sobre o caráter dele.
   - Em casa, viro o ledor da minha mãe, de cartas, jornais e romances.
   - Fim de 1856: Cinco Minutos, meu primeiro livro, em meia dúzia de folhetins.
   - Fevereiro a abril de 1857: O Guarani, dia por dia no folhetim do Diário.
5. PRESENTE — Depois de vinte e dois anos de imprensa, tenho um editor,
   Garnier, desde meados de 1870.
6. FECHO — O bom livro, no Brasil, é "desastre financeiro". Excedi-me
   além do que devia.

Maio de 1873. José de Alencar.

Como adaptar o modelo ao seu caso?

Escolha pelo destino do texto. Se o destino é processo seletivo, siga o edital e use o modelo como esqueleto: no memorial do Governo de Goiás cabe uma página em primeira pessoa, com o motivo de fazer o curso e uma conclusão, então os campos 1 a 6 viram uma frase cada. Se o destino é o mestrado da PUC Goiás, os campos viram as oito partes do modelo da universidade, e o campo 4 vira a "trajetória" da introdução e do desenvolvimento.

Se o destino é um livro, o campo 3 vira a cena inteira e o campo 4 vira capítulos. Escolha entre abrir num momento de ação do meio da história, como recomendam a Reedsy e Allison K. Williams, e abrir pela origem, como Franklin e Douglass, perguntando se o primeiro dado do seu nascimento já traz o problema do livro. Se traz, comece por ele; se não, comece pelo dia em que o problema começou.

Quem termina o preenchimento fica com uma página: um motivo na primeira linha, um recorte que dispensa o resto da vida, uma cena datada, alguns acontecimentos com o que mudou e uma última linha que pode ser lida sozinha.

Continue por aqui

O guia-mãeComo escrever um livro sobre minha vida: memórias, autobiografia e autoficção — Para escrever um livro sobre a própria vida, William Zinsser, que ensinava memórias a adultos na New School, propõe um método: um episódio vívido por manhã, de três a cinco páginas, e só meses depois, com os episódios no chão, o fio do livro.

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Quem fala sobre isso 4pessoas

  • Adair Laracolunista do San Francisco Chronicle e autora de livros de memórias e de escrita, entre eles Hold Me Close, Let Me Go e Naked, Drunk, and Writing

    Artigo sobre a estrutura das memórias, do começo ao fim: "The Key Elements of Writing a Good Memoir", Writer's Digest, 2010.

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  • Paula Balzeragente literária, fundadora e dona da The Paula Balzer Agency, que representa autores de memórias; autora de Writing and Selling Your Memoir

    Artigo sobre onde a história das memórias começa e termina: "Framing Your Memoir: 3 Parameters You Need to Know", Writer's Digest, 2015, trecho do livro Writing and Selling Your Memoir.

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  • Allison K. Williamsmemorialista, ensaísta e editora; editora de redes sociais da revista Brevity; autora de Seven Drafts (Woodhall Press, 2021)

    Artigo sobre duas estruturas para livros de memórias, com abertura num momento de ação: "2 Methods for Structuring Your Memoir", no site de Jane Friedman, 2020.

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  • Martin Cavannaghprofissional do mercado editorial independente, com mais de dez anos em estratégia de conteúdo e formação de autores; escreve guias no blog da Reedsy, plataforma de serviços para autores

    Guia de esboço de livro de memórias, com modelo: "How to Outline a Memoir in 6 Steps (with Template)", blog da Reedsy, atualizado em 2025.

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Autoria: Verse MediaRevisado em 28 out. 2026Passos conferidos em 28 out. 2026Publicado em 28 out. 202612 fontes · 6 no integral

Os textos de Alencar, Trollope, Nabuco e o capítulo de Zinsser foram lidos na íntegra, e é deles que saem as aberturas, os fechos e o exemplo preenchido. Os editais de Goiás e da PUC Goiás foram lidos nos PDFs oficiais. Os guias da Reedsy, da *Writer's Digest* e de Jane Friedman, e os textos de Franklin e Douglass, foram lidos por extração, e delas saem só a orientação de abrir e fechar e o começo das duas obras, não o fim. O modelo em branco e a escolha entre abertura pelo meio e pela origem são análise desta página, não regra de uma fonte. Conferido em 28/10/2026.

Lidas no texto integral

Lidas em resumo ou pela referência

Cite esta página
VERSE MEDIA. Autobiografia exemplo: modelo de uma página e como abrir e fechar um livro de memórias. Enciclopédia Verse, 28 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/nao-ficcao/exemplos-de-autobiografia. Acesso em: [data].

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