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Como escrever um ensaio, um livro-reportagem ou um true crime: a não-ficção que prende

Um ensaio começa pelo assunto e para onde se sente completo, ensinou o filósofo Theodor Adorno; um livro-reportagem ou um true crime usa as ferramentas do romance que o repórter Tom Wolfe listou, a cena à frente, para o que o editor Mark Kramer pede do jornalismo literário: revelar o que de fato acontece. Na nossa leitura, as técnicas passam de uma forma à outra; o pacto de exatidão com o leitor, de Kramer, não passa, e decide o que o autor faz com o eu e com os fatos.

Este guia foi feito com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da não-ficção, como Michel de Montaigne, Virginia Woolf, George Orwell, Joan Didion, Phillip Lopate, Tom Wolfe, Gay Talese, Mark Kramer, John McPhee e Janet Malcolm; no Brasil, Edvaldo Pereira Lima, Eliane Brum, Caco Barcellos, Daniela Arbex e Ilana Casoy.

Você tem o material: as anotações de uma conversa que não sai da cabeça, um caso que acompanhou de perto, uma ideia que volta toda noite. Começou três vezes, uma como reportagem, outra como texto pessoal, outra como se fosse romance, e nenhuma pegou. E no meio da página veio a dúvida que paralisa: até onde dá para reconstruir uma conversa que ninguém gravou.

O que você leva
  1. A forma escolhida entre ensaio, perfil, livro-reportagem e true crime, com o contrato que cada uma assina com o leitor
  2. o que os mestres ensinam sobre começar, estruturar e apurar
  3. a linha entre reconstruir e inventar
  4. e a ética e a lei brasileira de contar um crime real.
Pra quem é

Tem uma história verdadeira ou uma ideia que não sai da cabeça, mas não sabe se ela vira ensaio, reportagem ou livro de crime, trava na estrutura e tem medo de inventar o que não devia ou de ferir as pessoas reais da história.

Nesta página
  1. Como escrever um livro de não-ficção: ensaio, reportagem ou true crime?
  2. Como escrever um ensaio literário?
  3. Como escrever um ensaio pessoal: quanto de você entra?
  4. Como estruturar não-ficção: cena ou reflexão?
  5. Como apurar uma reportagem narrativa?
  6. Como fazer um perfil jornalístico?
  7. Como fazer um livro-reportagem?
  8. Posso inventar diálogo na não-ficção?
  9. Como escrever true crime sem explorar a vítima?
  10. Perguntas frequentes
  11. O que fazer com isso
Máquina de escrever antiga sobre uma mesa, entre livros velhos, cartas manuscritas e uma lupa, sob luz quente
Ensaio, reportagem e true crime partem do mesmo gesto: ler, anotar e organizar o que se encontrou. Foto de KoolShooters no Pexels

Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.

Como escrever um livro de não-ficção: ensaio, reportagem ou true crime?

Kramer, Lopate e Chris Anderson separam as formas da não-ficção pelo que cada uma faz com o fato e com o eu, sobre uma base comum que Lee Gutkind, editor-fundador da revista Creative Nonfiction (1993) e quem popularizou o nome do gênero, descreveu em cinco partes, os "cinco Rs" de um ensaio de 1996. São a vida real (a imersão), a reflexão (os sentimentos e as reações de quem escreve, que para ele são permitidos e encorajados), a pesquisa (até o ensaio mais pessoal costuma ser cheio de detalhe sobre um assunto), a leitura (do material e dos mestres da forma) e a escrita.

As doses mudam de uma forma para outra. Anderson, que organizou em 1989 uma antologia de teoria da não-ficção literária, propõe duas subcategorias, o ensaio pessoal e o ensaio jornalístico. Phillip Lopate, ensaísta americano, lê não-ficção "to follow an interesting mind" (para seguir uma mente interessante) e defende a não-ficção em que o pensamento é o protagonista. Kramer, que organizou com Norman Sims a antologia Literary Journalism (1995), define o jornalismo literário pelo uso das artes de estilo e construção narrativa da ficção para revelar o que de fato acontece, que é a essência do jornalismo.

No true crime, Patrick Radden Keefe, repórter da New Yorker, põe a promessa na história: conta que escolheu o assunto de Say Nothing (2018), o sequestro e a morte de uma mãe pelo IRA, por ser um causo, personagens fortes jogados numa situação extrema, e avisa que o livro não pretende ser um relato equilibrado e completo do conflito.

O rótulo do jornalismo literário não agrada a todos: João Moreira Salles, que criou a revista piauí em 2006, recusa chamá-la assim e prefere falar em apuração, narrativa e escrita. A tabela abaixo compara as formas pelo que o autor promete, com o dono de cada regra entre parênteses.

Quatro escolhas, o que cada uma promete

Ensaio, reportagem, livro-reportagem ou true crime: o que cada um promete
escolha o que promete ao leitor onde fica o eu o que a apuração pede o que o contrato proíbe referência estrangeira referência brasileira
Ensaio pessoal ou literário seguir uma mente interessante (Lopate) é a matéria do livro (Montaigne) ou some como numa vidraça (Orwell) até o ensaio mais pessoal é cheio de detalhe (Gutkind) o engano e a ocultação (E. B. White) Montaigne, Woolf, Orwell, Didion, Lopate Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, no ensaio de interpretação do Brasil
Perfil e reportagem narrativa revelar o que de fato acontece com as artes da ficção (Kramer) voz íntima: a personalidade do escritor é a marca do gênero (Kramer) imersão por meses (Kramer); pelo menos uma centena de entrevistas para o perfil de Sinatra (Talese) cena composta, cronologia trocada, citação inventada (Kramer) Wolfe, Talese, Joseph Mitchell, Kramer Eliane Brum, a revista Realidade, a piauí
Livro-reportagem ir além da cobertura diária pela pauta, pela captação e pelo texto (Edvaldo Pereira Lima) fora do centro: no livro-reportagem-perfil, o assunto é o lado humano do personagem (Lima) aprofundar um tema ou abrir os subtemas dele (Lima) inventar: o rigor é o da reportagem de rua (Caco Barcellos) John Hersey, Hiroshima Caco Barcellos, Daniela Arbex
True crime a história, não um relato equilibrado e completo, no livro de Keefe; o estilo romanesco que, em geral, se credita a A sangue frio o autor escolhe o lado: não julgar (Arbex) ou escrever contra os matadores (Barcellos) ler o processo antes de decidir o livro (Ilana Casoy); cruzar entrevistas entre si e com a imprensa da época (Keefe) juntar várias pessoas numa só, liberdade que a ficção dá e o livro sobre um caso não (Casoy) Truman Capote, Norman Mailer, Janet Malcolm, Keefe Ilana Casoy, Ivan Mizanzuk, Caco Barcellos, Daniela Arbex

As definições de cada forma estão nos termos ensaio, jornalismo literário, livro-reportagem, perfil jornalístico e true crime. Quem quer contar a própria vida tem outro contrato, o das memórias e da autoficção, no guia sobre como escrever a história da sua vida; e o livro que orienta o leitor, em vez de narrar, está no guia sobre o livro de autoajuda, técnico ou motivacional.

Como escrever um ensaio literário?

Mão com uma caneta marcando trechos da página de um livro aberto
O ensaio nasce da leitura que pensa: sublinhar e anotar já é começar a argumentar. Foto de cottonbro studio no Pexels

Michel de Montaigne (1533–1592), o escritor francês que deu nome à forma, chamou seus textos de essais, tentativas, e elas cresceram do hábito de comentar citações recolhidas num caderno de lugares-comuns.

Theodor Adorno, filósofo alemão que escreveu entre 1954 e 1958 "O ensaio como forma", diz que o ensaio "does not begin with Adam and Eve but with what it wants to discuss" (não começa por Adão e Eva, mas por aquilo de que quer falar). O ensaio diz o que está em questão e para onde se sente completo, não onde não resta nada a dizer; procede, nas palavras de Adorno, metodicamente sem método, pensa em fragmentos e pode parar a qualquer momento.

O ensaio livre de Montaigne e de Adorno não é a redação escolar dos manuais de composição. György Lukács, crítico húngaro, viu na modéstia do título de Montaigne uma cortesia arrogante: o ensaísta dispensa a pretensão de chegar perto da última palavra.

Virginia Woolf, romancista e ensaísta, deu em "The Modern Essay" (1925) o princípio que governa o ensaio: dar prazer. O ensaio deve enfeitiçar com a primeira palavra e só soltar o leitor na última, e a erudição precisa vir fundida pela escrita, de modo que nenhum fato salte para fora e nenhum dogma rasgue a superfície.

Joan Didion, ensaísta americana de Slouching Towards Bethlehem (1968) e The White Album (1979), conta em "Why I Write" (1976) que escreve "entirely to find out what I'm thinking" (inteiramente para descobrir o que estou pensando). John McPhee, repórter da New Yorker que reuniu o próprio método em Draft No. 4 (2017), dá o conselho prático para o primeiro rascunho: jogar palavras como barro na parede, qualquer coisa, para ter um núcleo, e só então lapidar as frases.

No Brasil, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda escreveram ensaios de livro inteiro para interpretar o país: Casa-grande & senzala (1933) e Raízes do Brasil (1936). O crítico Antonio Candido os pôs, num prefácio de 1967 a Raízes do Brasil, entre os livros que deram à sua geração "o sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu após a Revolução de 1930".

Para ler ensaios inteiros, de "Des cannibales", de Montaigne, ao "Stranger in the Village", do ensaísta americano James Baldwin, com o que cada um ensina, há a página de exemplos de ensaio literário.

Como escrever um ensaio pessoal: quanto de você entra?

Para Montaigne o eu é a matéria do livro, para Orwell a boa prosa some como uma vidraça, e entre os dois Woolf pede que o ensaísta nunca seja ele mesmo e, no entanto, sempre. Montaigne abriu os Ensaios com um aviso ao leitor, datado de 1580, em que se pinta sem artifício e diz, na tradução inglesa de Charles Cotton, "myself am the matter of my book" (eu mesmo sou a matéria do meu livro), assunto que ele chama de frívolo e vão. No último ensaio, "Da experiência", diz estudar a si mesmo mais do que a qualquer outro assunto.

Woolf chama a personalidade de a ferramenta mais própria e mais perigosa do ensaísta, e resume o problema: "Never to be yourself and yet always" (nunca ser você mesmo e, no entanto, sempre). George Orwell, ensaísta de "Why I Write" (1946), vai para o outro lado: só se escreve algo legível lutando para apagar a própria personalidade, e "Good prose is like a windowpane" (a boa prosa é como uma vidraça). Para Didion, escrever é o ato de dizer eu, de se impor às outras pessoas.

Lopate dá o método para quem fica com o eu, no ensaio "The Personal Essay and the First-Person Character" (2007): construir a si mesmo como personagem, sabendo que nunca se projeta o eu inteiro; o erro do iniciante, para ele, é achar que transmitiu com a sílaba "eu" mais do que transmitiu. E a honestidade do ensaísta, diz Lopate, é perguntar "is this what I actually think?" (é isso que eu realmente penso?), e não o que os outros acham que ele deveria pensar. O ensaísta E. B. White, no prefácio dos seus ensaios reunidos (1977), permite ao ensaísta vestir qualquer camisa conforme o humor ou o assunto, menos o engano e a ocultação, porque ele será descoberto, como desenvolve o termo ensaio pessoal.

Gutkind encoraja a reflexão; Jack Hart, que editou reportagens premiadas no The Oregonian e escreveu Storycraft (2011), separa o relato, que passa informação, da história, que passa experiência. Na nossa leitura, o ensaio pessoal reflete às claras; a reportagem narrativa deixa a experiência para a cena. A persona do narrador nas memórias, que a ensaísta Vivian Gornick estudou, é assunto do guia sobre a história da sua vida.

Como estruturar não-ficção: cena ou reflexão?

Wolfe fez da cena a unidade da reportagem, Lopate recusou que ela fosse obrigatória, e Hart mostra que há mais de uma estrutura possível. No ensaio que abre a antologia The New Journalism (1973), Wolfe diz que o realismo tirou seu poder de quatro recursos: a construção cena a cena, o diálogo completo, o ponto de vista em terceira pessoa e os detalhes de status, os gestos e objetos com que as pessoas mostram sua posição no mundo.

Na Esquire de 1972, Wolfe escreveu que a unidade básica da reportagem deixava de ser o dado e passava a ser a cena. Barbara Lounsberry, estudiosa da não-ficção americana, também pôs a cena entre os quatro traços do gênero, em The Art of Fact (1990).

Lopate discorda: "not every piece of nonfiction has to have scenes or dialogue" (nem toda não-ficção precisa de cenas ou diálogo), e não vê motivo para ensinar todos os alunos de oficina a escrever assim. Hart, no Storycraft, dá a saída: o arco completo do romance (exposição, complicação, ação crescente, virada, desfecho) é só uma das estruturas; outra é a narrativa explicativa, uma linha de ação com digressões frequentes, que ele chama de forma clássica da New Yorker, e há formas híbridas. O erro comum, diz ele, é forçar no arco completo um material que pede a narrativa explicativa.

Kramer descreve uma estrutura parecida: narrativa principal com histórias e digressões, e o sentido construído pela reação do leitor, uma passagem depois da outra.

Para McPhee, o leitor não deve notar a estrutura, que precisa ser tão visível quanto os ossos de alguém; e ele conta as semanas em que não conseguiu achar a forma de The Pine Barrens, lutando contra o medo e o pânico. A ferramenta de mesa vem de Kim Cross, repórter e autora de In Light of All Darkness: nas oficinas, ela pede que cada cena vire tópicos num cartão 3×5; e Gay Talese, perfilista da Esquire, lembra ela, cortava em quatro os papelões de camisa para levá-los no bolso e anotar.

Gornick separa a situação (o contexto, às vezes o enredo) da história (a experiência emocional, o que o autor veio dizer).

Ivan Mizanzuk, que fez o podcast O caso Evandro, pôs a estrutura a serviço do gancho: queria ganchos poderosos e tratou o caso como quase um exercício estético.

Para escolher a estrutura, ajuda ver o que cada lista dos mestres exige. A coluna "o que só ela pede" é comparação nossa, feita com o texto das próprias listas.

As listas dos mestres lado a lado

lista ano o que exige o que só ela pede como a lemos
Os quatro recursos do New Journalism (Tom Wolfe) 1973 cena a cena; diálogo completo; ponto de vista em terceira pessoa; detalhes de status o detalhe de status citada em resenha da Partisan Review (1974)
Os quatro traços da não-ficção (Barbara Lounsberry) 1990 assunto documentável do mundo real; pesquisa exaustiva; cena; prosa literária o assunto documentável do mundo real, não inventado, como traço do gênero pela referência
As regras quebráveis (Mark Kramer) 1995 imersão; pactos de exatidão com leitor e fontes; eventos de rotina; voz íntima; estilo simples; posição móvel; estrutura com digressões; sentido pela reação do leitor o pacto com o leitor e com as fontes texto integral
Os cinco Rs (Lee Gutkind) 1996 vida real; reflexão; pesquisa; leitura; escrita a leitura dos mestres e a reflexão por resumo

Como apurar uma reportagem narrativa?

Mãos sobre um caderno com anotações, ao lado de um celular e de dois microfones numa mesa de entrevista
A reportagem narrativa se sustenta no que foi anotado, gravado e conferido antes da escrita. Foto de George Milton no Pexels

Para Kramer, Wolfe e Hart, o jornalismo literário começa pela apuração, antes da primeira frase. A primeira regra de Kramer é a imersão no mundo dos personagens e na pesquisa de fundo, por meses ou anos, e a terceira diz que o jornalista literário escreve sobretudo sobre eventos de rotina, porque o acesso longo leva ao cotidiano que se pode revisitar. Ele cita o escritor Tracy Kidder: tem de ser verdade, e a apuração leva meses. Wolfe chamava isso de saturação, ficar com o assunto dias e semanas a fio.

Hart dá o exercício de quem está aprendendo: sair e anotar, de forma muito específica, as coisas concretas que acontecem diante dos olhos. Kim Cross mostra como a entrevista produz cena: ela pede o detalhe até o fim ("Which hand? Which finger?"), pergunta como era e como foi sentir, e, como última entrevista, telefona ao personagem e lê as cenas escritas do ponto de vista dele. Só considera o trabalho feito se ele as achar "not only accurate, but true" (não só exatas, mas verdadeiras).

Talese escreveu "Frank Sinatra Has a Cold" (Esquire, 1966) sem entrevistar Sinatra, que recusou: ouviu pelo menos uma centena de pessoas do entorno e ficou como personagem à margem. Keefe se define como empirista: fala com todos que aceitam falar e cruza as entrevistas entre si e com a imprensa da época, o que ele chama de triangulação.

No Brasil, Eliane Brum, repórter de A vida que ninguém vê (2006) e O olho da rua (2008), escreve que mais importante do que saber perguntar é saber ouvir a resposta: "Eu não arranco nada. Só me comprometo a ouvir". Para ela, escutar é apreender o ritmo, o tom, a espessura das palavras e o silêncio. Daniela Arbex, que voltou mais de 50 vezes a Barbacena para escrever Holocausto brasileiro (2013), resume a entrevista: é preciso fazer com que as pessoas confiem em você e queiram contar a sua história.

Talese não usa gravador, porque não quer que a fita contradiga a citação que ele acha melhor. O outro lado, o da história oral, que nasce da gravação e da transcrição, está no guia sobre como escrever a biografia de outra pessoa.

Como fazer um perfil jornalístico?

Para Talese, o perfil se faz como o diretor de cinema faz, com "the roving eye, the camera" (o olho errante, a câmera). Wolfe conta que o primeiro texto do novo estilo que leu foi "Joe Louis at Fifty", de Talese (Esquire, 1962): não parecia artigo de revista, parecia conto, e abria com uma cena íntima entre o boxeador e a terceira mulher. Talese diz querer escrever não ficção sobre gente comum.

Joseph Mitchell, da New Yorker desde 1938, ficou conhecido pelos retratos de excêntricos e de gente à margem de Nova York. Edvaldo Pereira Lima, referência dos estudos brasileiros de jornalismo literário, chama de livro-reportagem-perfil o que evidencia o lado humano de uma personalidade pública ou de um anônimo que se torna de interesse.

O vínculo com o perfilado tem dois lados. Arbex diz ter se apaixonado pelos personagens de Holocausto brasileiro e conta que o olhar de Débora, filha de Sueli, uma das personagens, a ajudou a contar a história da mãe. Didion avisa do outro: a presença dela vai contra o interesse de quem ela retrata, "And it always does" (e sempre vai). A definição do gênero está no termo perfil jornalístico, e os perfis e livros que valem estudar, em exemplos de jornalismo literário.

Como fazer um livro-reportagem?

Para Edvaldo Pereira Lima, o livro-reportagem vai além da cobertura diária por três caminhos: a extensão pela pauta, a complementação pela captação e a fruição pelo texto, na leitura que Camila Maia faz de Páginas ampliadas em monografia da UnB (2011). O livro nasceu da tese de doutorado de Lima na ECA-USP, em 1990, e a amplitude que ele pede pode ser vertical, aprofundando um tema, horizontal, abrindo os subtemas, ou as duas.

Para escolher o tipo de livro, Lima organiza o livro-reportagem em treze classificações, que, na leitura de Maia, quase sempre se misturam na prática: Abusado, do repórter Caco Barcellos, é perfil, com Marcinho VP como fio condutor, mas também tem atualidade e propósito de denúncia. A lista inteira está no termo livro-reportagem.

Hiroshima e A sangue frio saíram antes na revista. Hiroshima, do repórter John Hersey, contou seis sobreviventes da bomba e ocupou a edição inteira da New Yorker de 31 de agosto de 1946; saiu em livro pela Knopf menos de dois meses depois e passou de 3 milhões de exemplares. A sangue frio saiu em série na New Yorker em 1965 antes do livro. No Brasil, a revista Realidade (1966–1976) e a piauí (2006), que tem a Realidade e a New Yorker entre as referências, deram casa à grande reportagem narrativa.

Euclides da Cunha conta, na Nota Preliminar de Os sertões (1902), que o livro, escrito "nos raros intervallos de folga de uma carreira fatigante", começou como história da Campanha de Canudos e ganhou outra feição quando saiu tarde. Rota 66 (1992), de Barcellos, foi feito de modo independente da redação, embora o trabalho diário dele o alimentasse; o livro identificou a cor da pele de 3.944 das 4.179 vítimas identificadas da PM paulista. Lima diz que o livro-reportagem penetra, por vezes, em temas pouco explorados pelos periódicos, e Rota 66 entrou num deles.

Posso inventar diálogo na não-ficção?

Kramer e Barcellos põem o limite no que a apuração sustenta; Wolfe e Talese reconstroem cenas e pensamentos a partir da entrevista; e o caso em que a fronteira foi contestada é A sangue frio. Entre os pactos de Kramer estão nada de cena composta, de cronologia trocada e de citação inventada: o escritor faz o que parece fazer e não inventa. Ele reconhece que mestres antigos, como Joseph Mitchell, usaram personagens e cenas compostos, exceção de outra época.

Barcellos diz que, se o objetivo é não ficção, o rigor é o mesmo da reportagem de rua, e que ficção é outro universo. Ilana Casoy, criminóloga e autora de true crime, separa as duas coisas pelo mesmo ponto: a ficção dá a liberdade de juntar coisas, o livro sobre um caso não.

Wolfe e Talese defendiam que o novo jornalismo parecia ficção mas era reportagem. Para entrar na cabeça de gente real, a solução de Wolfe era entrevistar a pessoa sobre os pensamentos e as emoções dela, além de todo o resto; Talese chegava pela apuração ao monólogo interior. Talese resume: "It's like fiction. But it's not necessarily fakery or fabrication" (é como ficção, mas não é necessariamente fingimento nem fabricação). Hunter S. Thompson, o do jornalismo gonzo, se separava dos dois: quase nunca tentava reconstruir uma história.

Truman Capote, autor de A sangue frio, apresentou o livro como um romance de não ficção, uma forma de arte nova, em entrevista a George Plimpton no New York Times de 16 de janeiro de 1966. Alvin Dewey, o investigador do livro, disse que a cena final, a visita aos túmulos da família Clutter, foi invenção de Capote, e em 2013 arquivos reencontrados contestaram fatos do livro. Segundo o jornalista Ben Yagoda, na Slate em 2013, Capote admitiu a invenção antes de morrer, em 1984. E o crítico Mark Muggli lê na própria Didion, em ensaio de 1987, detalhes e falas inventados, uma leitura de crítico que bate de frente com o pacto da não ficção.

Kramer resume o limite: o escritor faz o que parece fazer. A memória falha de quem conta a própria vida tem outras regras, no guia sobre como escrever a história da sua vida.

Como escrever true crime sem explorar a vítima?

Mãos abrindo uma pasta de arquivo com uma ficha de impressões digitais
O true crime responsável trabalha a partir de documentos e registros, não de sensacionalismo. Foto de cottonbro studio no Pexels

Ilana Casoy conta que leu o processo antes de decidir que seria um livro, e Janet Malcolm, Joan Didion e Patrick Radden Keefe põem a ética do gênero na relação com as pessoas reais. Casoy queria "contar um júri" sem nada definido; no caso Richthofen estava dentro da perícia, e no caso Nardoni pediu ao juiz para ler o processo, passou dez dias lendo os volumes e só no fim decidiu que seria um livro. Ivan Mizanzuk conta o crime do caso Evandro como a história de uma cidade e de um momento, atrás das repercussões na família e na sociedade.

O gênero é anterior a Capote: Thomas De Quincey já tratava do assassinato como arte em 1827, e A sangue frio é em geral creditado como o livro que fixou o estilo romanesco moderno; a história está no termo true crime.

A crítica ao ofício também veio de dentro. Janet Malcolm, repórter da New Yorker, abriu The Journalist and the Murderer (1990) dizendo que todo jornalista que não seja estúpido ou cheio de si demais sabe que o que faz é moralmente indefensável: "He is a kind of confidence man" (é uma espécie de vigarista), na abertura citada pelo próprio alvo, Joe McGinniss. O alvo era o autor de Fatal Vision (1983), livro sobre o médico Jeffrey MacDonald; segundo a resenha da Kirkus, o caso de Malcolm é o suposto engano de McGinniss, que MacDonald processou em 1984 por fazê-lo crer que o livro proclamaria a inocência dele.

McGinniss respondeu no epílogo de 1989 que as omissões, distorções e erros de fato de Malcolm eram numerosos e graves. Didion diz algo parecido numa frase, no prefácio de 1968: "writers are always selling somebody out" (escritores estão sempre entregando alguém).

Keefe conta um procedimento seu: uma semana antes de um trecho de Say Nothing sair no Sunday Times, escreveu uma carta aos filhos de Jean McConville, a mãe morta no centro do livro, porque, diz ele, "It's not a grenade that I'm throwing into the lives of real people" (não é uma granada jogada na vida de pessoas reais). Há também críticas ao gênero: true crime produzido sem o consentimento da família pode retraumatizá-la, como relatou uma família britânica no Guardian, em 2016.

No Brasil, dois mestres recusam a neutralidade e divergem no julgamento. Caco Barcellos pôs uma única condição ao vender Rota 66 para virar série: que o livro não virasse uma obra a favor dos matadores, como, diz ele, em Tropa de Elite, "o herói era o matador". Daniela Arbex diz que a imparcialidade não existe, mas que ao escrever era preciso não julgar, e que a ética está em dar a chance de todos os envolvidos falarem.

O STF já cassou a proibição de um livro sobre um crime real e, noutro caso, decidiu que os excessos se julgam depois. Uma liminar da Justiça paulista suspendeu a venda de Suzane: assassina e manipuladora, do jornalista Ullisses Campbell; o ministro Alexandre de Moraes, do STF, cassou a proibição, negando a censura prévia, e Luiz Fux rejeitou depois um segundo pedido de Suzane von Richthofen para barrar o livro.

Em 11 de fevereiro de 2021, no caso da família de Aída Curi contra a TV Globo, o STF fixou que é incompatível com a Constituição um direito ao esquecimento que impeça, pela passagem do tempo, a divulgação de fatos verdadeiros e obtidos licitamente; os excessos se julgam caso a caso, pela honra, pela imagem e pela privacidade. A regra sobre biografias não autorizadas está no guia sobre a história da sua vida; o crime inventado, com detetive e enigma, é do guia sobre como escrever suspense e mistério.

Perguntas frequentes

Posso inventar diálogo num livro de não-ficção?

Pelas regras de Mark Kramer, não: nada de citação inventada nem de cena composta, e o escritor faz o que parece fazer. Caco Barcellos diz o mesmo com outras palavras: na não ficção o rigor é o da reportagem de rua, e a ficção é outro universo. Wolfe e Talese reconstruíam cenas e pensamentos a partir da entrevista.

Como lidar com a família da vítima num livro de true crime?

Patrick Radden Keefe escreveu aos filhos da vítima uma semana antes de um trecho de Say Nothing sair no Sunday Times, porque o livro, diz ele, não é uma granada jogada na vida de pessoas reais. Daniela Arbex, que recusa julgar os personagens, diz que a ética está em dar a todos os envolvidos a chance de falar.

Posso usar nomes reais num livro de true crime?

O STF não admitiu proibir o livro de antemão: no caso do livro de Ullisses Campbell sobre Suzane von Richthofen, cassou a liminar que suspendia a venda, negando a censura prévia. Desde 2021 o STF também não reconhece um direito ao esquecimento que impeça contar fatos verdadeiros antigos, mas os excessos contra a honra e a privacidade se julgam caso a caso.

Onde acho exemplos para estudar?

Para ensaios, a página de exemplos de ensaio literário; para perfis e livros-reportagem, "Frank Sinatra Has a Cold", de Talese, e Hiroshima, de Hersey, e a página de exemplos de jornalismo literário. As duas comentam o que cada texto ensina.

E livro de autoajuda ou técnico, é a mesma coisa?

Não: o livro que orienta o leitor, em vez de narrar, tem outro contrato e outra estrutura. O guia sobre como escrever um livro de autoajuda, técnico ou motivacional trata desse outro contrato.

O que fazer com isso

Adorno deixa o ensaio parar onde se sente completo; Kramer prende o jornalismo literário a pactos de exatidão com leitor e fontes; Keefe avisa que o true crime dele conta uma história, não o panorama. A cena de Wolfe, a estrutura de McPhee e a escuta de Brum servem às três formas.

Quem vai contar a própria vida segue para o guia sobre como escrever a história da sua vida; quem vai contar a vida de outra pessoa, para como escrever a biografia de outra pessoa; e, com o livro pronto, o caminho até a livraria está em como publicar um livro.

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TermoEnsaioEnsaio, no sentido literário, é um texto em prosa, geralmente não muito longo, em que o autor trata um tema de forma analítica, especulativa ou interpretativa, sem esgotá-lo, segundo o dicionário Priberam.TermoLivro-reportagemLivro-reportagem é o veículo impresso não periódico que dá à reportagem uma amplitude maior do que a do jornalismo de jornais e revistas, na definição de Edvaldo Pereira Lima, autor de Páginas ampliadas (4ª ed., 2009).TermoTrue CrimeTrue crime é o gênero de não ficção que centra a narrativa em crimes reais, em geral assassinatos, segundo a Encyclopedia of Crime and Punishment (2002).TermoEnsaio PessoalEnsaio pessoal é o ensaio em que predomina o elemento pessoal (autorrevelação, gostos e experiências individuais, tom confidencial), traço que C.TermoJornalismo LiterárioJornalismo literário é, para o editor Mark Kramer, a não ficção em que as artes de estilo e de construção narrativa associadas à ficção servem para revelar o que de fato acontece, que é a essência do jornalismo.TermoPerfil jornalísticoPerfil jornalístico é o texto biográfico que, para Aparecido Santos do Carmo e Cristóvão Domingos de Almeida (2025), retrata a vida de uma pessoa, famosa ou anônima, para ajudar a entender um fenômeno que afeta as pessoas.TermoNew JournalismNew Journalism é o rótulo que, nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970, passou a designar a reportagem que toma da ficção os seus recursos, como já a definia o editor Seymour Krim em 1967, e que ficou popular com a antologia The New Journalism (1973), organizaTermoNão ficçãoNão ficção é a categoria de livros que contam histórias ou fatos do mundo real, e o tesauro de Gêneros Literários da UFRGS (2022) a descreve pela linguagem literária.

Quem fala sobre isso 6pessoas

  • Mark Kramerjornalista, autor e professor americano; diretor-fundador do programa de jornalismo narrativo da Fundação Nieman, em Harvard, e da conferência Power of Narrative (1998–2008)

    Escreveu as regras do jornalismo literário em "Breakable Rules for Literary Journalists", texto da antologia Literary Journalism (Ballantine, 1995), que organizou com Norman Sims.

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  • Theodor W. Adorno †filósofo e crítico alemão (1903–1969), da Escola de Frankfurt

    Escreveu sobre a forma do ensaio em "O ensaio como forma" (1958; em inglês, "The Essay as Form", New German Critique, 1984).

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  • Phillip Lopateensaísta, romancista e poeta americano (nascido em 1943); em 2008, professor de inglês na Universidade Hofstra e no mestrado do Bennington College; organizador de The Art of the Personal Essay (1994)

    Organizou a antologia The Art of the Personal Essay (1994) e falou sobre o ensaio pessoal e a não-ficção literária em entrevista à Poets & Writers (2008).

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  • Janet Malcolm †jornalista da revista The New Yorker e escritora americana (1934–2021)

    Livro sobre a relação entre o repórter e a pessoa retratada num caso de crime real: The Journalist and the Murderer (Knopf, 1990).

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  • Edvaldo Pereira Limajornalista e pesquisador brasileiro do jornalismo literário; professor da USP (desde 1986, hoje aposentado, segundo o ORCID dele)

    Livro sobre o livro-reportagem: Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura (4ª ed., Manole, 2009).

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  • Lee Gutkindescritor americano; fundou em 1993 a revista Creative Nonfiction; professor da Arizona State University

    Fundou a revista Creative Nonfiction (1993) e descreveu o gênero em cinco partes no ensaio "The 5 R's of Creative Nonfiction" (1996).

    Na Wikipedia ↗

O que a rede diz 6 vozes

  • Capa do post de Samy Bersi: Por que todo mundo deveria escrever ensaios? (a era da Escrita Autoral)YouTube

    Defende que todo mundo deveria escrever ensaios e abre, num diário de escrita, o caminho de um ensaio pessoal dela: das primeiras linhas despretensiosas no caderno de papel até a publicação.

    Samy BersiYouTube ↗
  • Capa do post de Por Teodoro: Escreva ensaios para pensar melhorYouTube

    Diz que o ensaio não é só a redação chata da faculdade: é uma das ferramentas mais fortes para aprender de verdade, e o processo de escrever importa mais do que o texto pronto.

    Por TeodoroYouTube ↗
  • Capa do post de vinicius Grijó: A Essência do Ensaio LiterárioYouTube

    Resume o ensaio literário como reflexão pessoal somada a análise crítica e liberdade de estilo: o autor aparece, opina e questiona, e o texto é pensamento em movimento, não conclusão final.

    vinicius GrijóYouTube ↗
  • Capa do post de estudoshumeanos: O Ensaio como Método: MontaigneYouTube

    Numa conferência de um colóquio sobre ceticismo na Biblioteca Nacional, o professor de história da filosofia moderna Celso Azar, da UFF, apresenta o ensaio de Montaigne como método.

    estudoshumeanosYouTube ↗
  • Capa do post de @aescrevedeiraTikTok

    Pergunta como transformar fatos em narrativa sem abrir mão do rigor da apuração, e o que escritores e jornalistas têm a aprender uns com os outros, ao apresentar um curso do jornalista Rafael Cariello sobre como as grandes reportagens são construídas.

    @aescrevedeiraTikTok ↗
  • Capa do post de Roda Viva: Como fazer uma boa entrevista?YouTube

    No Roda Viva, o jornalista e escritor Ruy Castro explica o método que usa para fazer uma boa entrevista.

    Roda VivaYouTube ↗

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A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.

Autoria: Verse MediaRevisado em 28 out. 2026Passos conferidos em 28 out. 2026Publicado em 28 out. 202655 fontes · 17 no integral

Esta página parte da pesquisa da Verse Media sobre não-ficção (a parte sobre ensaio e a parte sobre jornalismo literário, New Journalism, livro-reportagem, perfil e true crime) e de quatro leituras feitas para ela em 28/10/2026: a concorrência em inglês e em português, os mestres estrangeiros do ofício, os brasileiros e uma rodada final para as lacunas do roteiro. Montaigne, Woolf, Orwell, Adorno, Kramer, a Nota Preliminar de Euclides, a entrevista de Barcellos e as falas de Arbex, Mizanzuk e Casoy na imprensa foram lidos no texto; o que veio por resenha, resumo ou referência está na segunda lista de fontes. A página foi revisada e checada contra esse material; o que nem o material nem a fonte aberta sustentaram foi cortado.

Lidas no texto integral

Lidas em resumo ou pela referência

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VERSE MEDIA. Como escrever um ensaio, um livro-reportagem ou um true crime: a não-ficção que prende. Enciclopédia Verse, 28 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/nao-ficcao/ensaio-jornalismo-literario-e-true-crime. Acesso em: [data].

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