Como criar um vilão (ou antagonista) que o leitor não esquece: motivo, ameaça e um exercício
Um vilão que o leitor não esquece pede três coisas: uma convicção própria, a ameaça mostrada em cena e força à altura do herói. Para Laura DiSilverio, autora das séries de mistério Swift Investigations e Readaholics, o mal puro é chato, inverossímil e previsível. A armadilha é o vilão que existe só para a trama ter obstáculo.
Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da ficção, como Lajos Egri, Robert McKee e Laura DiSilverio.
A história está de pé, o herói quer algo e falta quem o impeça. Cada rascunho do vilão sai igual: ele é mau porque a trama precisa, e dá para adivinhar a cena seguinte. O personagem está no arquivo, sem ninguém dentro.
saber como criar um vilão, tendo visto o movimento feito num trecho de obra real e com um exercício para aplicar
Tarefa de quem já tem a história e precisa da força contrária: motivação, ameaça, passado, o vilão que acha que tem razão.
Nesta página
Esta página trata do ofício de construir o vilão; a diferença entre antagonista, vilão e anti-herói está no guia sobre protagonista, antagonista e vilão, e os modelos de vilão estão em tipos de vilões. Os passos abaixo seguem o que mestres do ofício ensinam e usam um único exemplo trabalhado: Simão Bacamarte, o médico de "O alienista" (1882), de Machado de Assis.
Preço vem com a data na frase. O que estiver sublinhado em mostarda é análise nossa; o resto tem fonte no fim da página. Termo com ponto abre a definição ao passar o mouse.
O que o vilão quer e por que acha que tem razão?
O vilão começa pela convicção, não pela maldade. O escritor David Lubar, citado no blog de Darcy Pattison, diz que o vilão pode ser movido por ganância, neuroses ou pela certeza de que a causa é justa, mas é movido por algo, como o herói. Becca Puglisi, coach de escrita e autora de The Emotion Thesaurus, descreve o vilão moral: ele tem uma moral, torta, e vive por ela, e fica mais sinistro quando defende o próprio comportamento como correto.
Bacamarte mostra o movimento. Machado resolve o passado dele em poucas linhas na abertura do capítulo I: é "filho da nobreza da terra", estudou em Coimbra e Pádua e voltou ao Brasil aos 34 anos sem que o rei conseguisse retê-lo. É nessa volta que ele diz ao rei o valor que o move: a ciência é o emprego único e "Itaguahy é o meu universo". A convicção vem como dever nobre, e outra fala dele justifica a Casa Verde: "A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico". O leitor entende o motivo antes de sofrer a consequência, e é isso que faz do personagem alguém com quem se discute, não um cartaz de "mau".
Onde os mestres discordam: o passado do vilão. DiSilverio manda dar profundidade ao antagonista, com origem e algo de bom a mostrar. Yasmin Angoe, autora de thrillers, aconselha escrever um passado para o vilão mesmo que nem tudo entre no livro, porque conhecê-lo molda a personagem. Puglisi trata o passado como ferramenta do vilão moral e o separa do vilão mau por natureza, como o tubarão de Tubarão ou o Exterminador. A saída de Angoe resolve a disputa: o passado completo fica com o autor, e o texto leva só o que explica a convicção. Foi o que Machado fez com Bacamarte: nome, formação e a volta ao Brasil bastam para o leitor entender o critério.
O erro típico: o vilão cuja maldade não precisa de razão. Até o Satanás de John Milton, que no Livro IV de Paraíso perdido (1674) diz "Evil, be thou my good" (mal, sê tu o meu bem), dá a razão nos versos seguintes: com o mal, divide o império com o Rei do Céu. Mesmo o vilão que escolhe o mal quer um ganho.
Como fazer um vilão ameaçador e assustador?
A ameaça convence quando aparece feita sobre gente comum, e não anunciada. É o que Machado faz no capítulo V de "O alienista": Costa é recolhido à Casa Verde, quem protesta é recolhido no dia seguinte, e o texto fecha o quadro numa linha: "Quem podia emigrava". A notícia, diz o narrador, "lançou o terror à alma da população".
A exigência de que o antagonista aguente a luta com o herói vem de Lajos Egri e de Robert McKee e está no guia sobre protagonista, antagonista e vilão, linkado acima. Na prática, Angoe pede um vilão que seja "an equal or greater match to your hero" (um adversário igual ou maior ao herói), e DiSilverio lembra que a vantagem pode ser de outra natureza: a de Lex Luthor é o intelecto; a de Superman, a força.
Para John Truby, autor de The Anatomy of Story, o oponente de verdade disputa com o herói a mesma meta, e é por isso que os dois se chocam de novo e de novo. Em Frankenstein, a criatura e Victor negociam exatamente isso: "If you will comply with my conditions, I will leave them and you at peace;". Se o desejo do vilão não cruza o do herói, falta conflito, por mais violenta que seja a cena.
O erro típico: o vilão desastrado. Hallie Ephron, autora best-seller de suspense e mistério, escreve que personagens burras e atrapalhadas servem para alívio cômico, mas fazem vilões péssimos. Outro tropeço é a abstração: para DiSilverio, corporação, doença ou guerra viram antagonista distante, e ela manda dar um rosto humano à abstração. Bacamarte é isso: a ciência como poder ganha um médico com nome e endereço. Angoe admite vilão não humano, desde que mova a trama e empurre o herói a ser melhor.
Como dar voz ao vilão sem virar clichê?
A voz do vilão convence quando ele justifica os atos com calma, no vocabulário do ofício dele. Bacamarte nunca confessa maldade: diz que "a ciência era a ciência, e que ele não podia deixar na rua um mentecapto", e a internação vira laudo. O efeito vem do contraste entre o tom e o ato.
A criatura de Mary Shelley mostra a versão em que o vilão tem queixa legítima: "misery made me a fiend" (a miséria me fez um demônio), diz ela a Victor Frankenstein, e cobra do criador o dever dele. A voz do vilão pede um agravo e uma lógica, não adjetivos de maldade. A gargalhada com mãos esfregadas é o clichê do vilão de melodrama.
Ephron propõe entrar na cabeça do vilão e ver o crime da perspectiva dele; os laudos de Bacamarte são essa perspectiva posta no papel.
Exercício: como criar o vilão da sua história?
Responda por escrito às cinco perguntas abaixo, uma de cada vez, antes de escrever a cena em que ele aparece.
Ficha em branco (copie):
- Qual a convicção do vilão, dita na voz dele, numa frase? ______
- Que valor nobre justifica o que ele faz? ______
- Que dano a gente comum sofre por causa dele, e em que cena o leitor o vê? ______
- Em que ele é igual ou superior ao herói, e que meta os dois disputam? ______
- Que frase ele diria para justificar o pior ato, sem usar a palavra "mau"? ______
Ficha preenchida com Simão Bacamarte ("O alienista", caps. I e V):
- "Itaguahy é o meu universo": a ciência é o único emprego dele.
- Cuidar da saúde da alma é a ocupação mais digna do médico.
- Costa, e no dia seguinte quem protesta, são recolhidos à Casa Verde; quem pode emigra.
- Superior em autoridade: a ciência dele decide quem é recolhido, e a vila só tem como emigrar. A meta em disputa é o juízo sobre quem é são (leitura nossa).
- A ciência era a ciência, e ele "não podia deixar na rua um mentecapto".
Como saber que funcionou: releia a cena do vilão sem o nome dele. Se ainda for possível dizer o que ele quer e por que acha que está certo, o vilão se sustenta. Se a resposta for "ele é mau", volte à pergunta 1.
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O guia-mãeTipos de personagens: protagonista, antagonista, vilão e anti-herói — Os tipos de personagens de uma história são o protagonista, que move a ação, o antagonista, que se opõe a ele, e os secundários à volta.Guias do mesmo assunto
Quem fala sobre isso 6pessoas
- Lajos Egri †dramaturgo e professor de escrita criativa húngaro-americano (1888–1967)
Obra sobre o tema: The Art of Dramatic Writing, 1942, com os capítulos "Pivotal Character" e "The Antagonist".
Página ↗ - Vladimir Propp †folclorista e filólogo russo (1895–1970)
Obra sobre o tema: Morfologia do conto maravilhoso, 1928, que descreve o conto pelos papéis do vilão, do herói e do falso herói.
Página ↗ - Orson Scott Cardromancista norte-americano de ficção científica, autor de O jogo do exterminador; escreveu manuais de escrita pela Writer's Digest Books
Obra sobre o tema: Characters & Viewpoint, 1988, livro sobre personagens que divide o elenco em figurante, secundário e principal.
Página ↗ - Martin Cavannaghprofissional do mercado editorial, com mais de dez anos em estratégia de conteúdo e formação de autores (bio, 2025); escreve no blog da Reedsy, plataforma que vende serviços a autores
Obra sobre o tema: "Protagonist vs. Antagonist", Reedsy, 2025, artigo que define protagonista, antagonista, vilão e anti-vilão.
Página ↗ - Luiz Gonzaga Mottaprofessor titular da Universidade de Brasília, pesquisador de narrativa (2011)
Obra sobre o tema: "A narrativa mediada e a permanência da tradição: percurso de um anti-herói brasileiro", 2011, artigo que lê um anti-herói brasileiro com a morfologia de Propp.
Página ↗ - Margrethe Bruun Vaagepesquisadora de cinema e televisão da Universidade de Kent, Reino Unido (School of Arts, 2015)
Obra sobre o tema: The Antihero in American Television, 2015, livro sobre por que o espectador se liga ao anti-herói das séries.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
YouTubeNum passeio pela teoria literária, avisa para não confundir antagonista com vilão e chama atenção para o peso dos personagens secundários, com a Morfologia do conto maravilhoso, de Propp, entre as leituras indicadas.
VevsvaladaresYouTube ↗
YouTubeExplica a função de cada personagem na narrativa pelos modelos de Propp e Greimas (protagonista, objetivo, oponente, coadjuvante, destinador e destinatário), com exemplos de Romeu e Julieta e Harry Potter.
Marcelo Spalding (Formação de Escritores)YouTube ↗
YouTubeResponde, em dicas rápidas, à dúvida de quem começa um livro novo sobre quais tipos de personagens podem entrar na história.
Vanessa SuerozYouTube ↗
YouTubeNum módulo de curso, apresenta os tipos de personagens lado a lado: planos e redondos, protagonistas e antagonistas, coadjuvantes e figurantes.
Amanda AndradeYouTube ↗
TikTokDiz que quatro tipos de personagens aparecem em toda história (o herói, o vilão, o aliado e o mentor) e pergunta ao público com qual deles se identifica.
@jwnstories_TikTok ↗
TikTokDiz que todo personagem de ficção tem um papel a cumprir na história e mostra, em ilustrações, os papéis que criou.
@kimmariaillustratesTikTok ↗
O que está acontecendo
- A Leste do Éden na Netflix traz Florence Pugh como Cathy ↗
A Leste do Éden na Netflix adapta o clássico de John Steinbeck com Florence Pugh, mas sua abordagem de Cathy enfraquece o dilema moral da obra.
- Sherlock Holmes, But Make It Rom-Com: Lucy Hale to Lead Roku Series ↗
She'll play the title character in 'Scarlett Holmes,' who solves mysteries related to love and dating.
- The Age of Antiheroes ↗
The best shows of TV’s best age featured the worst of people. And we loved it.
A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Os capítulos I e V de "O alienista", o capítulo 10 de *Frankenstein*, o Livro IV de *Paraíso perdido* e os artigos da Writer's Digest e do Writers Helping Writers foram lidos no texto. Egri, McKee, Truby, Lubar e Senn entram pela referência que outras fontes dão. O exercício é aplicação nossa do que os autores ensinam, e o final do item 4 da ficha preenchida é leitura nossa do conto.
Lidas no texto integral
- Machado de Assis. "O alienista", caps. I e V, em Papéis avulsos, 1882. https://pt.wikisource.org/wiki/O_Alienista/I e https://pt.wikisource.org/wiki/O_Alienista/V
- Laura DiSilverio. "6 Ways to Write Better Bad Guys". Writer's Digest, atualizado em 30/07/2026. https://www.writersdigest.com/write-better-fiction/6-ways-to-write-better-bad-guys
- Hallie Ephron. "3 Techniques For Crafting a Better Villain". Writer's Digest, 12/07/2010. https://www.writersdigest.com/improve-my-writing/3-techniques-for-crafting-your-villain
- Yasmin Angoe. "5 Tips for Helping Readers Empathize With Your Villain". Writer's Digest, 09/09/2023. https://www.writersdigest.com/write-better-fiction/5-tips-for-helping-readers-empathize-with-your-villain
- Becca Puglisi. "Creating a Moral Villain". Writers Helping Writers, 09/02/2023. https://writershelpingwriters.net/2023/02/the-moral-villain/
- Mary Shelley. Frankenstein (ed. 1831), cap. 10. https://en.wikisource.org/wiki/Frankenstein,_or_the_Modern_Prometheus_(Revised_Edition,_1831)/Chapter_10
- John Milton. Paradise Lost (1674), Livro IV. https://en.wikisource.org/wiki/Paradise_Lost_(1674)/Book_IV
Lidas em resumo ou pela referência
- Lajos Egri. The Art of Dramatic Writing, 1946 (revisão de How to Write a Play, 1942), cap. "The Antagonist".
- Robert McKee. Story. ReganBooks, 1997, cap. 14, citado por Jane Friedman, janefriedman.com.
- John Truby. The Anatomy of Story. Farrar, Straus and Giroux, 2007, p. 46–47.
- David Lubar, citado por Darcy Pattison, darcypattison.com, 28/01/2008.
- Bryan Senn. Golden Horrors. McFarland, 1996, p. 481.
VERSE MEDIA. Como criar um vilão (ou antagonista) que o leitor não esquece: motivo, ameaça e um exercício. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/personagem/como-criar-um-vilao. Acesso em: [data].
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