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Como criar um anti-herói sem o leitor desistir dele

Um anti-herói segura o leitor quando ganha, cedo, uma razão concreta para torcer por ele (um gesto de cuidado, humor, uma meta que importa) e quando a falha, por maior que seja, tem teto no dano aos outros. O leitor fica com quem entende, mesmo sem aprovar.

Esta página foi feita com base nos ensinamentos de especialistas, mestres e autores consagrados da escrita de personagens, como David Corbett e David Weisberg, da Writer's Digest, Jamie Nash e Jessica Brody, do método Save the Cat; no Brasil, Machado de Assis.

Você escreveu um protagonista que mente, trapaceia e machuca quem está perto. Na leitura em voz alta, quem ouviu disse que não aguentava mais a página 20. Agora você olha para ele e não sabe se o problema é a falha, que pesa demais, ou a falta de qualquer motivo para ficar com ele.

O que você leva

Saber como criar um anti-herói que o leitor acompanha, tendo visto o movimento feito num trecho de obra real e com um exercício para aplicar no próprio texto.

Pra quem é

Dosar falha moral e simpatia: o anti-herói sai ou bonzinho demais, e sem graça, ou ruim demais, e o leitor larga.

Nesta página
  1. Como criar um anti-herói que o leitor acompanha?
  2. Até onde a falha pode ir sem o leitor largar?
  3. Como esse movimento aparece em *Memórias póstumas de Brás Cubas*?
  4. Como aplicar no seu texto, e como saber que funcionou?
Pilha de livros antigos de capas gastas sobre uma mesa de madeira.
A página parte de Memórias póstumas de Brás Cubas para mostrar como o leitor continua com um anti-herói. Foto de Suzy Hazelwood no Pexels

Como criar um anti-herói que o leitor acompanha?

Para os instrutores do método Save the Cat, o que mantém o leitor na página vem antes de qualquer pedido de perdão pela falha; a definição de anti-herói e a diferença para o herói estão no guia sobre protagonista, antagonista, vilão e anti-herói. A regra vem de Blake Snyder, autor de Save the Cat!, o livro que dá nome ao método: o personagem salva um gatinho cedo na história. Jamie Nash, no blog do método, amplia a regra num Rooting Resume (currículo de torcida) de seis razões plantadas cedo: o azarão, quem cuida de alguém, quem sonha ser melhor, quem diverte, quem carrega uma dor privada e quem tem uma vida parecida com a nossa.

Jessica Brody, romancista que ensina escrita, lê o gato como metáfora de qualquer ação ou qualidade redimível, de preferência no começo. Nash acrescenta que os itens precisam estar costurados na trama, não colados como momentos soltos.

Há quem ponha o peso em outro lugar. Para David Corbett, que escreve sobre ofício na Writer's Digest, o anti-herói fica no centro de um conflito moral sem solução, e o leitor dá muita paciência a um personagem horrível se ele consegue olhar para si e aprender com o fracasso. A lista de Corbett tem seis alavancas: lutar por uma meta que importa, ter uma contradição, fazer rir, olhar para si com honestidade, cuidar de alguém e ter uma falha que seja virtude levada ao extremo. Sobre o humor, ele observa que o leitor tolera muito mau comportamento de quem o faz rir, "a character who makes us laugh" (um personagem que nos faz rir).

Até onde a falha pode ir sem o leitor largar?

A falha tem um teto, e ele é o grau de dano aos outros. Corbett: "There is a natural limit to the appeal of transgression: the degree of harm to others." David Weisberg, autor do romance The American Plan (2017) sobre um anti-herói, faz duas escolhas: tirar a maldade e pôr engano e ferida ("Only villains are evil"), e não desculpar nem vitimizar o personagem. As falhas do personagem, diz Weisberg, vêm da psicologia comum, só intensificada.

Dois recursos aparecem nos textos lidos. O primeiro é o oponente pior: no tipo que o blog do Reedsy chama de "Hero in Name Only", os inimigos são pintados muito mais maus que ele; Corbett, Weisberg e Jessica Brody também cercam o personagem de gente pior, e Brody sugere ainda exagerar uma falha ou habilidade única até a comédia. O segundo é a lógica própria: Lucy V. Hay, script editor no Reino Unido, descreve o anti-herói como alguém que acha estar certo, mente a si mesmo que é o mocinho no fundo e prefere manipular antes da força.

A régua de Martin Cavannagh, no blog do Reedsy, ajuda a posicionar a dose: cada tipo de anti-herói tem menos moral que o anterior, e quanto mais alto na escala, menor a chance de ele se reformar. O leitor quer poder torcer ao menos um pouco; no vilão-protagonista, o autor deliberadamente não dá esse motivo. A dose se lê pela posição na escala: quanto mais alto o personagem, mais a página precisa dar ao leitor em troca.

Como esse movimento aparece em *Memórias póstumas de Brás Cubas*?

Machado de Assis faz, em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), três dos movimentos descritos acima (o humor e a franqueza, a meta que importa, a falha sem desculpa), um fecho sem redenção e um quinto que a leitura do livro acrescenta: a consequência que volta sem sermão.

Humor e franqueza logo na porta. No "Ao leitor", Brás se rebaixa antes de o leitor julgá-lo: prevê dez leitores, "talvez cinco", e diz ter escrito o livro "com a penna da galhofa e a tinta da melancholia". É o humor de Corbett, ganho antes de qualquer falha moral. Mais adiante o narrador transforma a confissão em pacto: "a franqueza é a primeira virtude de um defunto", pois, morto, ele já não tem plateia a temer.

A meta que puxa o leitor. O que move Brás é a glória do emplasto, que ele lembra no último capítulo: "Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os homens". É a meta que importa de Corbett e o sonho de ser melhor de Nash.

A falha mostrada sem desculpa. No capítulo XI, Brás conta a violência de infância contra uma escrava, a cena do "menino diabo" que o guia sobre como criar personagens traz, no mesmo tom leve de travessura. A obra não o absolve nem o faz vítima, que é o que Weisberg pede. O contraste entre o tom e o ato incomoda sem expulsar o leitor. A cena também mexe no teto de Corbett: o menino fere quem não pode revidar, e o livro só segura o leitor porque quem conta é o adulto morto, de longe, sem pedir perdão, e porque a conta volta depois, no vergalho.

A consequência sem sermão. No capítulo LXVIII, a violência da infância volta passada adiante, na cena do vergalho que o guia sobre como criar personagens conta; o que ela acrescenta aqui é a conta cobrada sem sermão: Brás só pede que Prudêncio perdoe o outro, e ouve "Nhonhô manda, não pede."

O fecho sem redenção. No último capítulo, "Das negativas", Brás faz a conta: não alcançou a celebridade do emplasto, não foi ministro, não casou. Sobra "um pequeno saldo": não ter filhos, não transmitir a ninguém "o legado da nossa miseria". É o desfecho que Weisberg descreve para o seu anti-herói: sozinho, sem redenção, "somehow changed" (de algum modo mudado).

Como aplicar no seu texto, e como saber que funcionou?

Os cinco passos abaixo são a nossa aplicação do que os mestres acima ensinam, em ordem de escrita. A versão em branco, para copiar, está logo depois.

  1. Escreva a falha numa frase, sem adjetivo ("Ele rouba de quem confia nele"). Corbett observa que a falha que ofende costuma ser uma virtude levada ao extremo; se for, nomeie a virtude.
  2. Escreva o teto: o que ele não faz. O grau de dano aos outros é o limite que Corbett aponta.
  3. Escolha duas razões para torcer das listas de Nash e Corbett e plante as duas nas primeiras cenas, costuradas na ação.
  4. Escreva uma cena em que o texto confessa a falha no tom do personagem, sem desculpa, como Brás no capítulo XI.
  5. Escreva a cobrança: a cena em que a falha volta em forma de consequência, como no vergalho.

Versão em branco (copiar):

  • Falha, numa frase: ______
  • Virtude da qual ela é o extremo: ______
  • O que ele nunca faz (teto): ______
  • Razão para torcer 1 (azarão, cuida de alguém, sonha ser melhor, diverte, dor privada, vida comum; ou meta que importa, contradição, olhar honesto para si), com cena e página: ______
  • Razão para torcer 2 (da mesma lista), com cena e página: ______
  • Cena em que ele confessa a falha: ______
  • Cena em que a falha volta como consequência: ______

Como saber que funcionou. Dê as primeiras vinte páginas a alguém e peça que marque onde largaria o personagem. Se a marca cair antes da primeira razão para torcer, o problema é a ordem; se cair depois de uma cena em que ele fere quem não pode revidar e o texto não cobra a conta, o teto está alto demais. Se ninguém marcar nada, mas ninguém lembrar dele, a falha está pequena. No livro de Machado, o fecho é o "pequeno saldo" do último capítulo: a conta fechada sem redenção, com o narrador ainda inteiro na cabeça do leitor.

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O guia-mãeTipos de personagens: protagonista, antagonista, vilão e anti-herói — Os tipos de personagens de uma história são o protagonista, que move a ação, o antagonista, que se opõe a ele, e os secundários à volta.

Guias do mesmo assunto

Quem fala sobre isso 6pessoas

  • Lajos Egri †dramaturgo e professor de escrita criativa húngaro-americano (1888–1967)

    Obra sobre o tema: The Art of Dramatic Writing, 1942, com os capítulos "Pivotal Character" e "The Antagonist".

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  • Vladimir Propp †folclorista e filólogo russo (1895–1970)

    Obra sobre o tema: Morfologia do conto maravilhoso, 1928, que descreve o conto pelos papéis do vilão, do herói e do falso herói.

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  • Orson Scott Cardromancista norte-americano de ficção científica, autor de O jogo do exterminador; escreveu manuais de escrita pela Writer's Digest Books

    Obra sobre o tema: Characters & Viewpoint, 1988, livro sobre personagens que divide o elenco em figurante, secundário e principal.

    Página ↗
  • Martin Cavannaghprofissional do mercado editorial, com mais de dez anos em estratégia de conteúdo e formação de autores (bio, 2025); escreve no blog da Reedsy, plataforma que vende serviços a autores

    Obra sobre o tema: "Protagonist vs. Antagonist", Reedsy, 2025, artigo que define protagonista, antagonista, vilão e anti-vilão.

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  • Luiz Gonzaga Mottaprofessor titular da Universidade de Brasília, pesquisador de narrativa (2011)

    Obra sobre o tema: "A narrativa mediada e a permanência da tradição: percurso de um anti-herói brasileiro", 2011, artigo que lê um anti-herói brasileiro com a morfologia de Propp.

    Página ↗
  • Margrethe Bruun Vaagepesquisadora de cinema e televisão da Universidade de Kent, Reino Unido (School of Arts, 2015)

    Obra sobre o tema: The Antihero in American Television, 2015, livro sobre por que o espectador se liga ao anti-herói das séries.

    Página ↗

O que a rede diz 6 vozes

  • Capa do post de Vevsvaladares: Passeando pela Teoria Literária #2: Os personagens | VevsvaladaresYouTube

    Num passeio pela teoria literária, avisa para não confundir antagonista com vilão e chama atenção para o peso dos personagens secundários, com a Morfologia do conto maravilhoso, de Propp, entre as leituras indicadas.

    VevsvaladaresYouTube ↗
  • Capa do post de Marcelo Spalding: A função dos personagens na narrativa | Escrita Criativa | Formação de EscritoresYouTube

    Explica a função de cada personagem na narrativa pelos modelos de Propp e Greimas (protagonista, objetivo, oponente, coadjuvante, destinador e destinatário), com exemplos de Romeu e Julieta e Harry Potter.

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  • Capa do post de Vanessa Sueroz: Tipos de personagensYouTube

    Responde, em dicas rápidas, à dúvida de quem começa um livro novo sobre quais tipos de personagens podem entrar na história.

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  • Capa do post de Amanda Andrade: Tipos de personagensYouTube

    Num módulo de curso, apresenta os tipos de personagens lado a lado: planos e redondos, protagonistas e antagonistas, coadjuvantes e figurantes.

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  • Capa do post de @jwnstories_TikTok

    Diz que quatro tipos de personagens aparecem em toda história (o herói, o vilão, o aliado e o mentor) e pergunta ao público com qual deles se identifica.

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  • Capa do post de @kimmariaillustratesTikTok

    Diz que todo personagem de ficção tem um papel a cumprir na história e mostra, em ilustrações, os papéis que criou.

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Autoria: Verse MediaRevisado em 20 out. 2026Passos conferidos em 20 out. 2026Publicado em 20 out. 20267 fontes · 7 no integral

A técnica vem de seis textos de ofício lidos na íntegra (dois da Writer's Digest, Reedsy, Save the Cat, Jessica Brody, Writers Helping Writers), comparados entre si; os trechos de *Brás Cubas* foram conferidos no texto do Project Gutenberg. Os cinco passos do exercício são a nossa síntese do que esses autores ensinam, não um método deles.

Cite esta página
VERSE MEDIA. Como criar um anti-herói sem o leitor desistir dele. Enciclopédia Verse, 18 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/oficio-narrativo/personagem/como-escrever-um-anti-heroi. Acesso em: [data].

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