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Estrutura do conto: as partes e os elementos (com exemplo)

A estrutura do conto tem quatro partes, situação inicial, complicação (o conflito), clímax e desfecho, e cinco elementos: o enredo, que é a sequência dessas partes, mais narrador, personagem, tempo e espaço. A armadilha é confundir as duas partes do meio: o conflito começa e cresce; o clímax é o ponto sem volta. Abaixo, partes e elementos marcados frase a frase num conto de Machado de Assis e um esquema em branco para montar o seu.

Você anotou na margem do caderno \"situação inicial, conflito, clímax, desfecho\" e tem a história inteira na cabeça. Na hora de passar para o papel, não sabe se a briga do meio já é o clímax ou ainda é o conflito, nem onde entram o narrador, o tempo e o lugar. O rascunho tem começo, mas não tem esqueleto.

O que você leva

Saber a estrutura do conto, tendo visto o movimento feito num trecho de obra real e com um exercício para aplicar.

Pra quem é

Quem vai montar o conto quer o esqueleto (situação inicial, conflito, clímax, desfecho) e os elementos (narrador, personagem, tempo, espaço) aplicados a um exemplo.

Nesta página
  1. Quais são as partes do conto e o que cada uma faz?
  2. Quais são os elementos do conto: narrador, personagem, tempo e espaço?
  3. Exemplo: a estrutura de "O enfermeiro", de Machado de Assis
  4. Como montar o esqueleto do seu conto? (exercício)
Caderno aberto com um esquema rabiscado a lápis, sobre uma mesa de madeira, com uma caneta ao lado.
O esqueleto do conto começa como rabisco no caderno. Foto de Jessica Lewis 🦋 thepaintedsquare no Pexels

O esquema monta e confere o conto parte por parte; o ponto de partida de quem escreve, o efeito decidido antes e a história que fica calada, e a origem da pirâmide da escola estão no guia sobre como escrever um conto.

Quais são as partes do conto e o que cada uma faz?

Dê a cada parte uma pergunta e uma frase do texto que a responda. Os nomes mudam de fonte para fonte, e as funções ficam: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento do Ministério da Educação de 2018, pede ao aluno do 3º ao 5º ano que identifique "conflito gerador" e "resolução"; um plano de aula da professora Joice Eloi Guimarães na Nova Escola, para o 8º ano, põe um desenvolvimento entre o conflito e o clímax; o escritor Steven James, no Writer's Digest (2014), fala em orientação, crise, escalada, descoberta e mudança. A tabela junta os nomes nas quatro funções:

parte outros nomes o que faz pergunta para o seu texto erro típico
situação inicial introdução, apresentação, orientação situa o cenário e o tom e apresenta a protagonista; mostra o que era normal o que era normal antes? apresentar tudo antes de algo acontecer
complicação conflito, conflito gerador, crise, escalada; o crescimento dele também se chama desenvolvimento é o conflito gerador, que vira o mundo da protagonista e não se resolve de imediato; piora por degraus o que quebrou, e como piora? resolver o problema na cena em que ele aparece
clímax ponto culminante, descoberta a protagonista faz uma descoberta que muda sua vida; o problema chega ao ponto sem volta onde a personagem não pode mais voltar atrás? um clímax que só se conta, sem um ato que aconteça na cena
desfecho resolução, mudança mostra o que ficou diferente o que mudou? a surpresa forçada; o escritor Juan Bosch quer o final tão natural quanto o começo

Decida a primeira e a última parte juntas. Bosch, em "Apuntes sobre el arte de escribir cuentos", pede que o conto comece interessando o leitor, porque preso nesse interesse ele fica nas mãos do contista. Decidir o fim antes de escrever é assunto do guia sobre como escrever um conto, e cada ponta tem guia próprio, sobre como começar um conto e sobre como terminar um conto.

Separe o conflito do clímax pelo tipo de coisa que cada um é, a confusão que o plano da Nova Escola põe como objetivo de aula ("Reconhecer as diferenças entre o conflito e o clímax"). O conflito é um estado que dura e cresce; o clímax é um ato que acontece uma vez e não se desfaz. Em "O enfermeiro", de Machado de Assis, o conflito dura meses e cresce até o narrador trazer dentro de si um "fermento de ódio e aversão"; o clímax cabe num verbo, "esganei-o". Se a frase que você marcou como clímax pode se repetir na página seguinte sem mudar nada, ela ainda é conflito.

Nem todo contista aceita as quatro partes como regra. O romancista inglês Somerset Maugham queria um desenho definido, com ponto de partida, clímax e um ponto de prova; o russo Anton Tchekhov achava que o conto não deve ter começo nem fim, só uma fatia de vida sugerida, e não arredondava o final, segundo a estudiosa Gulnaz Fatma em A Short History of the Short Story (2012). A estrutura de quatro partes descreve o conto clássico; a seção do exemplo mostra o que muda quando o desfecho fica aberto.

Quais são os elementos do conto: narrador, personagem, tempo e espaço?

Diagrama com narrador, personagem, tempo e espaço como faixas que cruzam as quatro partes do conto.
Os elementos estão presentes em todas as partes, não numa só. Diagrama: Verse

Marque cada elemento com uma coisa concreta no texto: uma voz, um desejo, uma data, um lugar com nome. O enredo é a sequência das partes da seção anterior; os outros quatro estão na tabela abaixo. A BNCC lista os elementos da estrutura narrativa como enredo, tempo, espaço, personagens e narrador, e do 6º ao 9º ano separa o espaço físico do psicológico e o tempo cronológico do psicológico. O Reedsy Blog, no texto de Tom Bromley atualizado em 13/11/2025, junta lugar e tempo num elemento só, o cenário; separar os dois, como faz a BNCC, obriga o autor a decidir cada um.

elemento pergunta para o seu texto marca em "O enfermeiro" o que conferir
narrador quem conta, de quando e para quem? Procópio, em primeira pessoa, escreve a um "caro senhor" já perto de morrer se a voz é a mesma do começo ao fim
personagem o que ela quer e o que a impede? Procópio quer voltar à Corte para gastar os ordenados guardados; o coronel o prende se o desejo aparece antes do clímax
tempo quando acontece, quanto dura, como passa? chegada em agosto de 1859; a noite de 24 de agosto de 1860, hora a hora; depois, anos resumidos numa frase se a hora do clímax é precisa
espaço onde acontece, e como o lugar muda? Niterói, uma vila do interior, a casa e o quarto do coronel, o Rio se o espaço fecha quando o conflito aperta

Escolha o narrador sabendo o que ele esconde. Em "O enfermeiro", quem conta é quem matou, e ele mesmo admite, perto do fim: "Pode ser que eu, involuntariamente, exagerasse a descrição que então lhes fiz". A BNCC pede ao aluno que diferencie narrativas em primeira e em terceira pessoa; no conto, a escolha decide o que o leitor sabe e de quem ele desconfia.

Apresente a personagem pelo que os outros dizem dela antes de ela entrar. O coronel Felisberto chega à página pela fama na vila: "Gastava mais enfermeiros que remédios". Bosch lembra que no conto, ao contrário do romance, os personagens não ficam soltos: o contista é "el padre y el dictador de sus criaturas".

Dê hora ao clímax e resuma o resto. Em "O enfermeiro", a noite do crime vem no relógio: "Às onze horas passou pelo sono", e o remédio seria dado à meia-noite; os anos seguintes cabem numa frase, "Os anos foram andando, a memória tornou-se cinzenta e desmaiada". A BNCC separa o tempo cronológico do psicológico: aqui o primeiro se conta no relógio, o segundo na memória que desbota.

Deixe o espaço mudar junto com a personagem. Na volta à vila para receber a herança, Procópio vê que "as cercanias da vila tinham um aspecto de tragédia"; meses depois, com a vila inteira falando mal do morto, "a vista dos lugares foi perdendo para mim a feição tenebrosa". É o espaço psicológico que a BNCC pede para identificar. O contista Horacio Quiroga, no "Decálogo del perfecto cuentista", dá a medida: conte como se a história só interessasse ao pequeno ambiente dos personagens.

Exemplo: a estrutura de "O enfermeiro", de Machado de Assis

"O enfermeiro" está em Várias histórias (Laemmert, 1896), tem cerca de 3 mil palavras e é de domínio público, com texto integral no Wikisource. Um copista de 42 anos vira enfermeiro de um coronel doente e cruel numa vila do interior, mata-o numa noite de raiva e herda tudo dele. Leia a tabela com o conto aberto ao lado:

parte onde está a frase o que ela faz
moldura 1º parágrafo "o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro?" o narrador fala do fim da vida; o leitor sabe que algo grave aconteceu
situação inicial 4º parágrafo copia estudos de teologia para um padre de Niterói, em agosto de 1859, e aceita ir servir de enfermeiro ao coronel Felisberto quem, onde, quando e o normal
complicação chegada à vila "Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous deles quebrou a cara." o problema entra
complicação crescendo do oitavo dia ao começo de agosto lua de mel de sete dias; bengaladas; testamento; "fermento de ódio e aversão"; prazo de um mês para sair cada degrau aperta mais
clímax noite de 24 de agosto "atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o." o ato sem volta, numa frase curta
desfecho, 1º tempo a madrugada e o enterro esconde as marcas no pescoço e volta ao Rio a consequência imediata
desfecho, 2º tempo sete dias depois, no Rio, e a volta à vila descobre que é "o herdeiro universal" do coronel; pergunta-se "Crime ou luta?" a virada que dá sentido ao conto
última frase último parágrafo "Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados." fecha a moldura e vira a moral do avesso

Repare que o desfecho tem dois tempos. O primeiro só resolve o crime; o segundo, a herança, muda o que o crime significa, e é ali que a ironia do conto aparece. Os dois extremos se respondem: os parágrafos de abertura e o último se dirigem ao mesmo interlocutor, o "caro senhor", e os dois falam da morte do narrador, a confissão que só sai depois dela e o túmulo de mármore que ele pede.

A estrutura muda quando o desfecho fica aberto. Em "Missa do galo", também de Machado (1894), o narrador avisa logo na primeira frase: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora". O espaço é uma casa assobradada da rua do Senado, no Rio, onde às dez e meia todos dormem.

No ponto de maior tensão, os dois ficam calados e um grito de fora corta a cena: "Missa do galo! missa do galo!". No dia seguinte, Conceição age como sempre; meses depois, viúva, ela mora no Engenho Novo, e o narrador nem a visita nem a encontra. Há situação inicial e complicação, mas o clímax é um silêncio interrompido e o desfecho não resolve nada. Na leitura desta página, o desenho bate com o que Ricardo Piglia, nas "Tesis sobre el cuento", chama de versão moderna do conto, a que abandona o final surpresa e a estrutura fechada, assunto do guia sobre como escrever um conto.

Como montar o esqueleto do seu conto? (exercício)

Copie o esquema e preencha cada linha com uma frase só, antes de escrever ou sobre o rascunho que você já tem. A BNCC pede o mesmo movimento ao 6º e 7º ano: criar narrativas observando enredo, personagens, tempo, espaço e narrador.

Monte o esqueleto do seu conto em doze linhas
ESQUELETO DO CONTO

O conto em uma linha: ______________________________

PARTES
1. Situação inicial (o que era normal): ______________
   Primeira frase do conto: ___________________________
2. Complicação (o que quebra o normal): _____________
   Degrau 1: ________ Degrau 2: ________ Degrau 3: ________
3. Clímax (o ato sem volta, numa frase): _____________
4. Desfecho (o que ficou diferente): _________________
   Última frase do conto: _____________________________

ELEMENTOS
Narrador: quem conta? de quando? para quem? __________
Personagem: o que quer? o que impede? _______________
Tempo: quando? quanto dura? a hora do clímax: _______
Espaço: onde? como o lugar muda no fim? _____________

Preencha nesta ordem:

  1. Escreva o conto em uma linha, com a personagem, o que ela quer e o que a impede.
  2. Escreva o desfecho e a última frase antes do meio, para saber desde a primeira palavra aonde o conto vai, como manda Quiroga.
  3. Escreva o clímax como um ato, com verbo no passado, que não se desfaz.
  4. Escreva três degraus de complicação, cada um pior que o anterior, como as bengaladas, o testamento e o ódio de Procópio.
  5. Escreva a situação inicial e a primeira frase por último, já sabendo aonde elas levam.
  6. Dê a cada elemento uma marca concreta: um nome, uma data ou hora, um lugar com nome.

O esquema funcionou quando você lê a primeira e a última frase em seguida e vê o que mudou, quando o clímax é uma frase diferente de todos os degraus do conflito e quando cada elemento tem uma palavra do texto que o marca. Se o desfecho só explica o que o clímax já mostrou, corte-o: Tchekhov aceitou que o editor A. S. Suvorin cortasse o fim de um conto seu e agradeceu o conselho, em carta de 21 de fevereiro de 1886. O resultado é uma folha com doze linhas preenchidas e o conto inteiro visível nela, do normal ao que mudou.

Continue por aqui

O guia-mãeComo escrever um conto: as etapas, da ideia ao envio — Para escrever um conto, siga sete etapas: ache a ideia, decida o efeito e o fim, separe a história visível da que fica calada, escreva a primeira frase a serviço do efeito, avance o meio pelo concreto, termine sem comentar e revise cortando.

Guias do mesmo assunto

Termos usados nesta página

Quem fala sobre isso 3pessoas

  • Horacio Quiroga †contista uruguaio (1878–1937)

    Obra sobre o tema: "Decálogo del perfecto cuentista", 1927, preceitos para quem escreve contos, entre eles saber desde a primeira palavra aonde o conto vai.

    Página ↗
  • Juan Bosch †escritor e político dominicano (1909–2001); presidente da República Dominicana em 1963

    Obra sobre o tema: "Apuntes sobre el arte de escribir cuentos", 1958, sobre como o conto começa, avança sem desvio e termina.

    Página ↗
  • Ricardo Piglia †escritor e crítico argentino (1941–2017)

    Obra sobre o tema: "Teses sobre o conto", publicadas em 1994 e reunidas em Formas breves, sobre o conto que conta duas histórias e a versão moderna que abandona a estrutura fechada.

    Página ↗

O que a rede diz 6 vozes

  • Capa do post de Ficçomos: ESTRUTURA PARA ESCREVER CONTOSYouTube

    Existe uma estrutura para escrever conto? O autor mostra a que usou no próprio conto, publicado no Wattpad.

    FicçomosYouTube ↗
  • Capa do post de Instituto Conhecimento Liberta: Qual é a estrutura de um conto? - Minuto ICLYouTube

    Toda estrutura de conto passa por apresentação, aumento da tensão, clímax, desfecho e resolução.

    Instituto Conhecimento LibertaYouTube ↗
  • Capa do post de TEXTO VIVO: A ESTRUTURA BÁSICA DE UM CONTO   Produção LiteráriaYouTube

    A estrutura básica de um conto, numa aula de curso de produção literária.

    TEXTO VIVOYouTube ↗
  • Capa do post de Juliana Feliz: COMO ESCREVER UM CONTO SIMPLES DE UM JEITO FÁCIL? SEGREDOS E PASSO A PASSO DA ESTRUTURA NARRATIVA.YouTube

    Passo a passo da estrutura narrativa para escrever um conto simples, e por que ela é diferente da de outras narrativas.

    Juliana FelizYouTube ↗
  • Capa do post de @b.a.slightlyTikTok

    A estrutura clássica segundo Dean Koontz: jogar a protagonista em apuros o quanto antes, fazer cada tentativa de sair piorar tudo até parecer sem saída, e então ela vence ou perde contra tudo (em inglês).

    @b.a.slightlyTikTok ↗
  • Capa do post de @la.tutoria.colectivTikTok

    A estrutura do conto muda conforme o efeito que o autor quer causar no leitor, mas vale conhecer a clássica para começar; Juan Bosch dizia que o conto é o gênero mais difícil (em espanhol).

    @la.tutoria.colectivTikTok ↗

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Autoria: Verse MediaRevisado em 8 out. 2026Passos conferidos em 8 out. 2026Publicado em 8 out. 202610 fontes · 5 no integral

Os dois contos de Machado de Assis foram baixados do Wikisource e lidos inteiros, e cada frase da tabela do exemplo foi conferida no texto. A lista de elementos e os nomes das partes vêm da BNCC, lida no PDF oficial, e de um plano de aula da Nova Escola; as regras de ofício, do decálogo de Quiroga, lido inteiro, e do ensaio de Bosch. As páginas do Reedsy e do Writer's Digest serviram de comparação e dão os nomes de etapa e de elemento citados no texto; a carta de Tchekhov a Suvorin foi lida na edição do Project Gutenberg, e as posições de Maugham e Tchekhov vêm do livro de Gulnaz Fatma, pela referência. O esquema e a ordem de preenchimento são da Verse.

Lidas no texto integral

Lidas em resumo ou pela referência

Cite esta página
VERSE MEDIA. Estrutura do conto: as partes e os elementos (com exemplo). Enciclopédia Verse, 7 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/formas-narrativas/estrutura-do-conto. Acesso em: [data].

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