Estrutura do conto: as partes e os elementos (com exemplo)
A estrutura do conto tem quatro partes, situação inicial, complicação (o conflito), clímax e desfecho, e cinco elementos: o enredo, que é a sequência dessas partes, mais narrador, personagem, tempo e espaço. A armadilha é confundir as duas partes do meio: o conflito começa e cresce; o clímax é o ponto sem volta. Abaixo, partes e elementos marcados frase a frase num conto de Machado de Assis e um esquema em branco para montar o seu.
Você anotou na margem do caderno \"situação inicial, conflito, clímax, desfecho\" e tem a história inteira na cabeça. Na hora de passar para o papel, não sabe se a briga do meio já é o clímax ou ainda é o conflito, nem onde entram o narrador, o tempo e o lugar. O rascunho tem começo, mas não tem esqueleto.
Saber a estrutura do conto, tendo visto o movimento feito num trecho de obra real e com um exercício para aplicar.
Quem vai montar o conto quer o esqueleto (situação inicial, conflito, clímax, desfecho) e os elementos (narrador, personagem, tempo, espaço) aplicados a um exemplo.
Nesta página
O esquema monta e confere o conto parte por parte; o ponto de partida de quem escreve, o efeito decidido antes e a história que fica calada, e a origem da pirâmide da escola estão no guia sobre como escrever um conto.
Quais são as partes do conto e o que cada uma faz?
Dê a cada parte uma pergunta e uma frase do texto que a responda. Os nomes mudam de fonte para fonte, e as funções ficam: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento do Ministério da Educação de 2018, pede ao aluno do 3º ao 5º ano que identifique "conflito gerador" e "resolução"; um plano de aula da professora Joice Eloi Guimarães na Nova Escola, para o 8º ano, põe um desenvolvimento entre o conflito e o clímax; o escritor Steven James, no Writer's Digest (2014), fala em orientação, crise, escalada, descoberta e mudança. A tabela junta os nomes nas quatro funções:
| parte | outros nomes | o que faz | pergunta para o seu texto | erro típico |
|---|---|---|---|---|
| situação inicial | introdução, apresentação, orientação | situa o cenário e o tom e apresenta a protagonista; mostra o que era normal | o que era normal antes? | apresentar tudo antes de algo acontecer |
| complicação | conflito, conflito gerador, crise, escalada; o crescimento dele também se chama desenvolvimento | é o conflito gerador, que vira o mundo da protagonista e não se resolve de imediato; piora por degraus | o que quebrou, e como piora? | resolver o problema na cena em que ele aparece |
| clímax | ponto culminante, descoberta | a protagonista faz uma descoberta que muda sua vida; o problema chega ao ponto sem volta | onde a personagem não pode mais voltar atrás? | um clímax que só se conta, sem um ato que aconteça na cena |
| desfecho | resolução, mudança | mostra o que ficou diferente | o que mudou? | a surpresa forçada; o escritor Juan Bosch quer o final tão natural quanto o começo |
Decida a primeira e a última parte juntas. Bosch, em "Apuntes sobre el arte de escribir cuentos", pede que o conto comece interessando o leitor, porque preso nesse interesse ele fica nas mãos do contista. Decidir o fim antes de escrever é assunto do guia sobre como escrever um conto, e cada ponta tem guia próprio, sobre como começar um conto e sobre como terminar um conto.
Separe o conflito do clímax pelo tipo de coisa que cada um é, a confusão que o plano da Nova Escola põe como objetivo de aula ("Reconhecer as diferenças entre o conflito e o clímax"). O conflito é um estado que dura e cresce; o clímax é um ato que acontece uma vez e não se desfaz. Em "O enfermeiro", de Machado de Assis, o conflito dura meses e cresce até o narrador trazer dentro de si um "fermento de ódio e aversão"; o clímax cabe num verbo, "esganei-o". Se a frase que você marcou como clímax pode se repetir na página seguinte sem mudar nada, ela ainda é conflito.
Nem todo contista aceita as quatro partes como regra. O romancista inglês Somerset Maugham queria um desenho definido, com ponto de partida, clímax e um ponto de prova; o russo Anton Tchekhov achava que o conto não deve ter começo nem fim, só uma fatia de vida sugerida, e não arredondava o final, segundo a estudiosa Gulnaz Fatma em A Short History of the Short Story (2012). A estrutura de quatro partes descreve o conto clássico; a seção do exemplo mostra o que muda quando o desfecho fica aberto.
Quais são os elementos do conto: narrador, personagem, tempo e espaço?
Marque cada elemento com uma coisa concreta no texto: uma voz, um desejo, uma data, um lugar com nome. O enredo é a sequência das partes da seção anterior; os outros quatro estão na tabela abaixo. A BNCC lista os elementos da estrutura narrativa como enredo, tempo, espaço, personagens e narrador, e do 6º ao 9º ano separa o espaço físico do psicológico e o tempo cronológico do psicológico. O Reedsy Blog, no texto de Tom Bromley atualizado em 13/11/2025, junta lugar e tempo num elemento só, o cenário; separar os dois, como faz a BNCC, obriga o autor a decidir cada um.
| elemento | pergunta para o seu texto | marca em "O enfermeiro" | o que conferir |
|---|---|---|---|
| narrador | quem conta, de quando e para quem? | Procópio, em primeira pessoa, escreve a um "caro senhor" já perto de morrer | se a voz é a mesma do começo ao fim |
| personagem | o que ela quer e o que a impede? | Procópio quer voltar à Corte para gastar os ordenados guardados; o coronel o prende | se o desejo aparece antes do clímax |
| tempo | quando acontece, quanto dura, como passa? | chegada em agosto de 1859; a noite de 24 de agosto de 1860, hora a hora; depois, anos resumidos numa frase | se a hora do clímax é precisa |
| espaço | onde acontece, e como o lugar muda? | Niterói, uma vila do interior, a casa e o quarto do coronel, o Rio | se o espaço fecha quando o conflito aperta |
Escolha o narrador sabendo o que ele esconde. Em "O enfermeiro", quem conta é quem matou, e ele mesmo admite, perto do fim: "Pode ser que eu, involuntariamente, exagerasse a descrição que então lhes fiz". A BNCC pede ao aluno que diferencie narrativas em primeira e em terceira pessoa; no conto, a escolha decide o que o leitor sabe e de quem ele desconfia.
Apresente a personagem pelo que os outros dizem dela antes de ela entrar. O coronel Felisberto chega à página pela fama na vila: "Gastava mais enfermeiros que remédios". Bosch lembra que no conto, ao contrário do romance, os personagens não ficam soltos: o contista é "el padre y el dictador de sus criaturas".
Dê hora ao clímax e resuma o resto. Em "O enfermeiro", a noite do crime vem no relógio: "Às onze horas passou pelo sono", e o remédio seria dado à meia-noite; os anos seguintes cabem numa frase, "Os anos foram andando, a memória tornou-se cinzenta e desmaiada". A BNCC separa o tempo cronológico do psicológico: aqui o primeiro se conta no relógio, o segundo na memória que desbota.
Deixe o espaço mudar junto com a personagem. Na volta à vila para receber a herança, Procópio vê que "as cercanias da vila tinham um aspecto de tragédia"; meses depois, com a vila inteira falando mal do morto, "a vista dos lugares foi perdendo para mim a feição tenebrosa". É o espaço psicológico que a BNCC pede para identificar. O contista Horacio Quiroga, no "Decálogo del perfecto cuentista", dá a medida: conte como se a história só interessasse ao pequeno ambiente dos personagens.
Exemplo: a estrutura de "O enfermeiro", de Machado de Assis
"O enfermeiro" está em Várias histórias (Laemmert, 1896), tem cerca de 3 mil palavras e é de domínio público, com texto integral no Wikisource. Um copista de 42 anos vira enfermeiro de um coronel doente e cruel numa vila do interior, mata-o numa noite de raiva e herda tudo dele. Leia a tabela com o conto aberto ao lado:
| parte | onde está | a frase | o que ela faz |
|---|---|---|---|
| moldura | 1º parágrafo | "o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro?" | o narrador fala do fim da vida; o leitor sabe que algo grave aconteceu |
| situação inicial | 4º parágrafo | copia estudos de teologia para um padre de Niterói, em agosto de 1859, e aceita ir servir de enfermeiro ao coronel Felisberto | quem, onde, quando e o normal |
| complicação | chegada à vila | "Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous deles quebrou a cara." | o problema entra |
| complicação crescendo | do oitavo dia ao começo de agosto | lua de mel de sete dias; bengaladas; testamento; "fermento de ódio e aversão"; prazo de um mês para sair | cada degrau aperta mais |
| clímax | noite de 24 de agosto | "atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o." | o ato sem volta, numa frase curta |
| desfecho, 1º tempo | a madrugada e o enterro | esconde as marcas no pescoço e volta ao Rio | a consequência imediata |
| desfecho, 2º tempo | sete dias depois, no Rio, e a volta à vila | descobre que é "o herdeiro universal" do coronel; pergunta-se "Crime ou luta?" | a virada que dá sentido ao conto |
| última frase | último parágrafo | "Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados." | fecha a moldura e vira a moral do avesso |
Repare que o desfecho tem dois tempos. O primeiro só resolve o crime; o segundo, a herança, muda o que o crime significa, e é ali que a ironia do conto aparece. Os dois extremos se respondem: os parágrafos de abertura e o último se dirigem ao mesmo interlocutor, o "caro senhor", e os dois falam da morte do narrador, a confissão que só sai depois dela e o túmulo de mármore que ele pede.
A estrutura muda quando o desfecho fica aberto. Em "Missa do galo", também de Machado (1894), o narrador avisa logo na primeira frase: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora". O espaço é uma casa assobradada da rua do Senado, no Rio, onde às dez e meia todos dormem.
No ponto de maior tensão, os dois ficam calados e um grito de fora corta a cena: "Missa do galo! missa do galo!". No dia seguinte, Conceição age como sempre; meses depois, viúva, ela mora no Engenho Novo, e o narrador nem a visita nem a encontra. Há situação inicial e complicação, mas o clímax é um silêncio interrompido e o desfecho não resolve nada. Na leitura desta página, o desenho bate com o que Ricardo Piglia, nas "Tesis sobre el cuento", chama de versão moderna do conto, a que abandona o final surpresa e a estrutura fechada, assunto do guia sobre como escrever um conto.
Como montar o esqueleto do seu conto? (exercício)
Copie o esquema e preencha cada linha com uma frase só, antes de escrever ou sobre o rascunho que você já tem. A BNCC pede o mesmo movimento ao 6º e 7º ano: criar narrativas observando enredo, personagens, tempo, espaço e narrador.
ESQUELETO DO CONTO
O conto em uma linha: ______________________________
PARTES
1. Situação inicial (o que era normal): ______________
Primeira frase do conto: ___________________________
2. Complicação (o que quebra o normal): _____________
Degrau 1: ________ Degrau 2: ________ Degrau 3: ________
3. Clímax (o ato sem volta, numa frase): _____________
4. Desfecho (o que ficou diferente): _________________
Última frase do conto: _____________________________
ELEMENTOS
Narrador: quem conta? de quando? para quem? __________
Personagem: o que quer? o que impede? _______________
Tempo: quando? quanto dura? a hora do clímax: _______
Espaço: onde? como o lugar muda no fim? _____________
Preencha nesta ordem:
- Escreva o conto em uma linha, com a personagem, o que ela quer e o que a impede.
- Escreva o desfecho e a última frase antes do meio, para saber desde a primeira palavra aonde o conto vai, como manda Quiroga.
- Escreva o clímax como um ato, com verbo no passado, que não se desfaz.
- Escreva três degraus de complicação, cada um pior que o anterior, como as bengaladas, o testamento e o ódio de Procópio.
- Escreva a situação inicial e a primeira frase por último, já sabendo aonde elas levam.
- Dê a cada elemento uma marca concreta: um nome, uma data ou hora, um lugar com nome.
O esquema funcionou quando você lê a primeira e a última frase em seguida e vê o que mudou, quando o clímax é uma frase diferente de todos os degraus do conflito e quando cada elemento tem uma palavra do texto que o marca. Se o desfecho só explica o que o clímax já mostrou, corte-o: Tchekhov aceitou que o editor A. S. Suvorin cortasse o fim de um conto seu e agradeceu o conselho, em carta de 21 de fevereiro de 1886. O resultado é uma folha com doze linhas preenchidas e o conto inteiro visível nela, do normal ao que mudou.
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O guia-mãeComo escrever um conto: as etapas, da ideia ao envio — Para escrever um conto, siga sete etapas: ache a ideia, decida o efeito e o fim, separe a história visível da que fica calada, escreva a primeira frase a serviço do efeito, avance o meio pelo concreto, termine sem comentar e revise cortando.Guias do mesmo assunto
Termos usados nesta página
Quem fala sobre isso 3pessoas
- Horacio Quiroga †contista uruguaio (1878–1937)
Obra sobre o tema: "Decálogo del perfecto cuentista", 1927, preceitos para quem escreve contos, entre eles saber desde a primeira palavra aonde o conto vai.
Página ↗ - Juan Bosch †escritor e político dominicano (1909–2001); presidente da República Dominicana em 1963
Obra sobre o tema: "Apuntes sobre el arte de escribir cuentos", 1958, sobre como o conto começa, avança sem desvio e termina.
Página ↗ - Ricardo Piglia †escritor e crítico argentino (1941–2017)
Obra sobre o tema: "Teses sobre o conto", publicadas em 1994 e reunidas em Formas breves, sobre o conto que conta duas histórias e a versão moderna que abandona a estrutura fechada.
Página ↗
O que a rede diz 6 vozes
YouTubeExiste uma estrutura para escrever conto? O autor mostra a que usou no próprio conto, publicado no Wattpad.
FicçomosYouTube ↗
YouTubeToda estrutura de conto passa por apresentação, aumento da tensão, clímax, desfecho e resolução.
Instituto Conhecimento LibertaYouTube ↗
YouTubeA estrutura básica de um conto, numa aula de curso de produção literária.
TEXTO VIVOYouTube ↗
YouTubePasso a passo da estrutura narrativa para escrever um conto simples, e por que ela é diferente da de outras narrativas.
Juliana FelizYouTube ↗
TikTokA estrutura clássica segundo Dean Koontz: jogar a protagonista em apuros o quanto antes, fazer cada tentativa de sair piorar tudo até parecer sem saída, e então ela vence ou perde contra tudo (em inglês).
@b.a.slightlyTikTok ↗
TikTokA estrutura do conto muda conforme o efeito que o autor quer causar no leitor, mas vale conhecer a clássica para começar; Juan Bosch dizia que o conto é o gênero mais difícil (em espanhol).
@la.tutoria.colectivTikTok ↗
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A Verse Media faz infraestrutura para quem escreve e publica livros no Brasil. A Enciclopédia é a parte pública disso: páginas escritas a partir de fonte aberta, com preço e data na frase, para que um autor decida sem depender de quem vende o serviço. Toda afirmação de fato tem fonte listada. O que é análise nossa está marcado no texto. Fato que nenhuma fonte sustenta não entra. A pesquisa e a redação usam modelos de linguagem com regras de fonte e checagem independente; a revisão é humana.
Os dois contos de Machado de Assis foram baixados do Wikisource e lidos inteiros, e cada frase da tabela do exemplo foi conferida no texto. A lista de elementos e os nomes das partes vêm da BNCC, lida no PDF oficial, e de um plano de aula da Nova Escola; as regras de ofício, do decálogo de Quiroga, lido inteiro, e do ensaio de Bosch. As páginas do Reedsy e do Writer's Digest serviram de comparação e dão os nomes de etapa e de elemento citados no texto; a carta de Tchekhov a Suvorin foi lida na edição do Project Gutenberg, e as posições de Maugham e Tchekhov vêm do livro de Gulnaz Fatma, pela referência. O esquema e a ordem de preenchimento são da Verse.
Lidas no texto integral
- Machado de Assis, "O enfermeiro", Várias histórias, Rio de Janeiro: Laemmert, 1896, p. 169–189 · https://pt.wikisource.org/wiki/O_Enfermeiro
- Machado de Assis, "Missa do galo", 1894 · https://pt.wikisource.org/wiki/Missa_do_galo
- Ministério da Educação, Base Nacional Comum Curricular, versão final, 2018, p. 134, 136, 160 e 172 · http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf
- Horacio Quiroga, "Decálogo del perfecto cuentista" · https://es.wikisource.org/wiki/Dec%C3%A1logo_del_perfecto_cuentista
- Anton Tchekhov, carta a A. S. Suvorin, 21/02/1886, em Letters of Anton Chekhov to His Family and Friends, trad. Constance Garnett · https://www.gutenberg.org/cache/epub/6408/pg6408.txt
Lidas em resumo ou pela referência
- Juan Bosch, "Apuntes sobre el arte de escribir cuentos", em Ciudad Seva · https://ciudadseva.com/texto/apuntes-sobre-el-arte-de-escribir-cuentos/
- Steven James, "The 5 Essential Story Ingredients", Writer's Digest, 09/05/2014 · https://www.writersdigest.com/whats-new/the-5-essential-story-ingredients
- Tom Bromley, "7 Elements of a Story", Reedsy Blog, atualizado em 13/11/2025 · https://reedsy.com/blog/elements-of-a-story/
- Joice Eloi Guimarães, "Estrutura da narrativa no gênero conto de terror e suspense", plano de aula, Nova Escola · https://novaescola.org.br/planos-de-aula/fundamental/8ano/lingua-portuguesa/estrutura-da-narrativa-no-genero-conto-de-terror-e-suspense/4529
- Gulnaz Fatma, A Short History of the Short Story: Western and Asian Traditions, Modern History Press, 2012, p. 2–3 (Maugham e Tchekhov)
VERSE MEDIA. Estrutura do conto: as partes e os elementos (com exemplo). Enciclopédia Verse, 7 out. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/generos-e-tropes/formas-narrativas/estrutura-do-conto. Acesso em: [data].
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