Orelha do livro
Orelha é cada uma das extremidades da capa ou da sobrecapa de um livro que ficam dobradas para dentro e que, em geral, trazem um texto sobre o autor ou sobre o livro, na definição da NBR 6029, a norma da ABNT para a apresentação de livros. Não é a orelha do corpo, que domina a busca pela palavra, mas uma aba de papel, e a palavra nomeia também o texto impresso nela, como registra o dicionário Caldas Aulete. A orelha serve para apresentar a obra e o autor a quem pega o livro, e é opcional pela norma. Quando o texto vem assinado por alguém conhecido no meio do livro, ele funciona como aval: para o pesquisador Vinícius Lourenço Linhares, do Instituto Federal de Minas Gerais, quem assina a orelha empresta à obra o próprio prestígio.
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Primeira e segunda orelha
Qual aba leva qual texto é escolha da editora, e a norma não arbitra. A primeira orelha continua a capa, e a segunda continua a quarta capa; o gabarito de sobrecapa da IngramSpark, distribuidora americana de impressão sob demanda, chama as duas de front flap e back flap. A NBR 6029 recomenda a biografia do autor e um comentário sobre a obra, sem dizer em qual aba, e admite o público a que o livro se destina e outras informações. Um guia do blog do Grupo Lê, empresa do mercado editorial brasileiro, descreve a primeira orelha com sinopse, trecho ou comentários sobre a obra e a segunda, normalmente, com uma breve biografia do autor. Há livros que juntam as duas: em O sol na cabeça, contos de Geovani Martins (Companhia das Letras, 2018), um único texto de apresentação, assinado pelo escritor Antonio Prata, ocupa as duas orelhas.
Capa ou sobrecapa, e como se diz em inglês
O lugar da orelha muda de um mercado para outro. Em inglês, a orelha é a flap (jacket flap ou book flap), e no glossário de bibliofilia ABC for Book Collectors, de John Carter e Nicolas Barker, a palavra designa antes de tudo as partes da sobrecapa dobradas sobre as guardas e, por extensão, o texto impresso nelas. A brochura com orelhas tem nome à parte, French flaps, que o glossário do site americano The Independent Bookseller trata como sinal de acabamento caprichado. Em português, o Aulete e o Priberam aceitam a orelha na própria capa, e o Priberam registra também badana para a mesma aba. Em francês, Genette chama as abas de rabats ou volets.
De onde vêm a aba e o texto
A aba é o resto de uma dobra, e o texto que ela carrega veio de outro suporte. O teórico francês Gérard Genette, em Seuils (1987), o livro em que estudou o paratexto, o que cerca o texto, trata as abas da capa como restos atrofiados de uma dobra antiga, que hoje podem hospedar o prière d'insérer, o manifesto da coleção e a lista de obras do autor ou da coleção; e observa que uma aba em branco, como todo desperdício, é marca de prestígio.
Na tradição francesa, parte do texto que hoje vai na capa e na orelha descende do prière d'insérer (literalmente, favor inserir). Ele começou como encarte impresso que o editor enviava aos jornais para divulgar o livro, virou um breve resumo da obra dirigido à crítica e depois ao público, e foi parar na capa ou na orelha, segundo a resenha de Nicoletta Cherobin, da UFSC, à tradução brasileira de Genette, Paratextos editoriais (Ateliê, 2009). A passagem do folheto solto para o livro ganhou uma data simbólica: a pesquisadora Héloïse Cabiron, num capítulo do livro coletivo Genèse des seuils (2019), lembra que Genette aponta 1969 como o ano em que a Gallimard teria deixado de encartar o folheto.
No inglês, o texto promocional da capa e das orelhas ganhou nome próprio: blurb. Carter e Barker contam que a palavra nasceu no meio editorial para designar a descrição elogiosa impressa na capa de papel ou nas abas da sobrecapa, às vezes com uma frase de endosso de um escritor de autoridade, e que o blurb é essencialmente persuasivo.
Quem escreve e quem assina a orelha
A orelha de apresentação é um elogio assinado, e, para Linhares, quem assina empresta ao livro o próprio prestígio. Em artigo de 2020 na revista Linguagem em (Dis)curso, ele descreve a orelha como o lugar de um gênero que apresenta a obra de modo apreciativo, em geral assinado por alguém conhecido e reconhecido no meio a que o livro pertence. Em O sol na cabeça, ele lê o texto de Antonio Prata, colunista da Folha de S.Paulo e autor da mesma editora, como empréstimo de prestígio: a orelha afirma que Geovani Martins "é um escritor, ponto" e fecha opondo a trama dos contos às "supostas experimentações formais" da literatura brasileira contemporânea, um critério de boa literatura que, para Linhares, reforça a cadeia editorial de que Prata faz parte e de que Martins passa a fazer.
Nem toda orelha é de convidado. Na experiência do escritor americano de livros infantojuvenis Avi, quem costuma escrever o texto da aba é o editor, às vezes alguém do marketing; o rascunho muitas vezes, mas nem sempre, passa pelo autor, e ele já reescreveu um inteiro.
Orelha, quarta capa e sinopse
Orelha e quarta capa são lugares do livro; a sinopse é um texto que pode ir em qualquer um dos dois. Para Linhares, a quarta capa tradicionalmente contextualiza o teor do livro para o leitor e pode trazer comentários elogiosos, em geral curtos, assinados por gente de prestígio no meio; a orelha abriga a apresentação apreciativa da obra. O sol na cabeça mostra a divisão entre apresentação e elogio: o texto de Antonio Prata ocupa as duas orelhas, e a quarta capa traz dois comentários curtos, um de João Moreira Salles e o "Fiquei chapado." de Chico Buarque. O resumo do conteúdo, a NBR 6029 admite na quarta capa, e o guia do Grupo Lê o põe na primeira orelha. Como escrever o texto da orelha e a biografia do autor é assunto da página como escrever a sinopse e o blurb do livro.
Quando o livro tem orelha, e de que tamanho
A orelha é opcional pela NBR 6029, e na impressão sob demanda ela depende do formato. No Clube de Autores, plataforma brasileira, as orelhas têm largura fixa de 8 cm e acompanham a altura do livro (8 × 21 cm no formato A5), e não existem nos formatos A4, quadrado e de bolso. Na sobrecapa da IngramSpark, cada aba mede 3,25 polegadas (82,55 mm), com uma faixa de 6 mm entre a capa e a aba para a dobra. Segundo o portal de instruções da gráfica sob demanda Fábrica do Livro, a dobra não cai sempre no mesmo lugar; por isso ela recomenda a mesma cor na capa e na orelha ou, com cores diferentes, uma capa alguns milímetros maior, para que a variação apareça na orelha e não na capa.
Deixar o livro sem orelha também é decisão de projeto. A editora Instante explica que as dispensa quando a capa, a quarta capa e o lado de dentro da capa já dão conta do que o leitor precisa ver na primeira olhada, e que as usa quando a ilustração da capa pode continuar por elas; a trilogia da escritora Ariana Harwicz que ela publicou (Morra, amor, A débil mental e Precoce) saiu sem orelhas, e O mundo que habita em nós, da escritora Liliane Prata, saiu com a ilustração da capa seguindo pelas orelhas.
Outros sentidos da palavra
Fora do livro, a orelha é antes de tudo a do corpo, e o Priberam registra ainda acepções de arquitetura, de botânica, do arado e do martelo. Já "orelha-de-burro", nos dicionários abertos, é nome de planta (o Aulete registra quatro; o Priberam tem a entrada sem definição publicada), e a dobra no canto da página não aparece em nenhum dos dois.
Para quem escreve
Entre as peças da parte de fora do livro, descritas uma a uma em as partes de um livro, no sistema O livro físico, a orelha pede duas decisões de natureza diferente. Uma é de produção: ter ou não orelha no formato escolhido e deixar no arquivo da capa o espaço da aba e a folga da dobra. A outra é de texto: quem assina a apresentação, se houver, e o que vai na biografia. A primeira se resolve com a gráfica, antes de fechar o arquivo da capa; a segunda, com a editora, e, quando a apresentação for assinada, com alguém que conheça o livro e tenha nome no meio dele, porque é esse nome que a orelha empresta.
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O guia completoAs partes de um livro, da capa ao colofão — A ordem das partes de um livro é costume de oficina, não regra de lei.Termos vizinhos
Em breve
Lidas no texto integral
- ABNT NBR 6029:2023, Informação e documentação: livros e folhetos: apresentação, 3.37 e 4.1.5.
- John Carter e Nicolas Barker, ABC for Book Collectors, 8ª ed. (Oak Knoll / British Library, 2004), verbetes "Blurb" (p. 46–47) e "Flaps" (p. 104).
- Vinícius Lourenço Linhares, "Capa, orelhas e quarta capa como espaços enunciativos de promoção de obras literárias", Linguagem em (Dis)curso, v. 20, n. 3, 2020, p. 517–532. doi:10.1590/1982-4017-200307-10919 (reproduz a orelha de Antonio Prata e a quarta capa de O sol na cabeça).
- Nicoletta Cherobin, resenha de Gérard Genette, Paratextos editoriais (trad. Álvaro Faleiros, Ateliê, 2009), Cadernos de Tradução (UFSC), n. 28, 2011.
- Dicionário Caldas Aulete (Aulete Digital), verbetes "orelha" e "orelha-de-burro"; Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verbetes "orelha", "badana" e "orelha-de-burro".
- IngramSpark, File Creation Guide, seção da sobrecapa (dust jacket).
- Clube de Autores, central de ajuda, "Qual é o tamanho das orelhas em cada formato de livro?".
- Editora Instante, "Com orelha ou sem?", newsletter Só Um Instante, 9/12/2022.
- Grupo Lê, "Partes do livro: um guia completo e ilustrado", 10/6/2024.
- Avi, "Dust Jacket Flap", blog do autor, 10/3/2015.
- The Independent Bookseller, "Glossary", verbete "French Flaps".
- Gérard Genette, Seuils (Seuil, 1987), capítulo "Le péritexte éditorial" (trecho sobre as abas, lido em excerto sem paginação).
- Héloïse Cabiron, "Prière d'insérer et quatrième de couverture", em Genèse des seuils (Presses universitaires de Franche-Comté, 2019), que cita Seuils, p. 113.
- Fábrica do Livro, Portal de Instruções, "Livro com orelha" (resumo da página).
VERSE MEDIA. Orelha do livro. Enciclopédia Verse, 24 set. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/producao-editorial/fisico/orelha. Acesso em: [data].
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