Apêndice
Apêndice é a matéria suplementar que se junta ao texto de um livro, em geral depois do fim, para esclarecê-lo ou documentá-lo. A palavra também nomeia o apêndice cecal, a pequena saliência em forma de verme no começo do intestino grosso; aqui, a parte do livro. O Aulete e o Priberam dão anexo como sinônimo de apêndice; a norma brasileira separa os dois pela autoria.
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Apêndice ou anexo: qual a diferença?
A diferença é quem escreveu. A NBR 6029, norma da ABNT para a apresentação de livros, define o apêndice como texto ou documento elaborado pelo próprio autor para completar a argumentação, "sem prejuízo da unidade nuclear do trabalho", e o anexo como texto ou documento que o autor não elaborou e que serve de fundamentação, comprovação e ilustração. O guia de normalização da biblioteca do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp, que resume a NBR 14724, a norma dos trabalhos acadêmicos, dá um exemplo de cada: a tabela montada pelo autor é apêndice; o certificado do comitê de ética, documento de outra autoria, é anexo. O mesmo tipo de material cai de um lado ou do outro conforme a origem: a tabela que o autor montou é apêndice, a que veio pronta de outro documento é anexo.
Fora da norma, as palavras se misturam. O Aulete Digital define apêndice como anexo que complementa uma obra e dá anexo e adendo como sinônimos; o Priberam põe anexo e suplemento entre os equivalentes. Adendo, no Michaelis, é coisa adicionada, do latim addendum (literalmente, o que deve ser acrescentado), e o exemplo do dicionário é um acréscimo escrito à mão depois da assinatura de uma carta. Pelo exemplo, o adendo chega depois de a obra estar pronta; o apêndice costuma ser planejado com ela.
Outras peças do fim do livro também completam o texto, com outra função. Pela NBR 6029, o posfácio é a matéria posterior à conclusão que altera ou confirma o conteúdo, e abre os elementos pós-textuais; o glossário é a lista em ordem alfabética das palavras técnicas ou de sentido obscuro usadas no texto, com as definições; a errata é a lista das páginas e linhas com erro e das correções, em papel avulso acrescido depois da impressão, e a norma a põe logo depois da folha de rosto, no começo do livro. A nota de rodapé é a indicação, observação ou aditamento feito ao texto pelo autor, pelo tradutor ou pelo editor, no pé da página ou na margem. O Chicago Manual trata as notas de fim como peça própria da matéria final, separada dos apêndices.
A NBR identifica apêndice e anexo pelo termo, um travessão e o título. Não levam número: quando há mais de um, recebem letras maiúsculas em sequência ("APÊNDICE A", "APÊNDICE B"), e letras dobradas quando o alfabeto acaba ("APÊNDICE AA"). As referências usadas num apêndice ou anexo vão em nota de rodapé nele mesmo ou numa lista própria. Os dois são elementos opcionais, e no fim do livro o apêndice fica depois do glossário e antes do anexo e do índice, na ordem que a tabela de partes de um livro mostra peça a peça.
Apêndice no TCC
Nos trabalhos acadêmicos vale a mesma divisão, pela NBR 14724. Na edição de 2024 da norma, apêndice e anexo são elementos pós-textuais opcionais, na ordem referências, glossário, apêndice, anexo e índice; entre eles, só as referências são obrigatórias. O que vai no apêndice são informações que esclarecem ou ilustram o texto: tabelas, figuras, formulários, questionários usados na pesquisa. As tabelas e figuras de um apêndice continuam a numeração das que estão no texto, e as folhas seguem a paginação do trabalho.
O apêndice entra no sumário. A NBR 6027, norma do sumário, proíbe ali só os elementos pré-textuais, e o exemplo dela termina em "APÊNDICE A – FORMULÁRIO DE COLETA DE DADOS" e "ANEXO A – MANUAL DO PROGRAMA LINUX". No corpo do trabalho, cada apêndice é citado pela letra, como no exemplo do guia de normas da ESPM: "com base na entrevista (apêndice A)".
Onde fica o apêndice
A norma brasileira só prevê o apêndice depois do texto; o manual americano admite outro lugar. O Chicago Manual of Style, na seção 1.66 citada pelos próprios editores no serviço de perguntas do manual, diz que os apêndices em geral vêm depois do último capítulo, mas que um apêndice pode fechar um capítulo quando o que contém é essencial para entender aquele capítulo. Na mesma resposta, os editores dizem que juntar as tabelas num apêndice só ou fazer um por tabela fica a critério do autor: se não há razão para a escolha importar ao leitor, provavelmente não importa.
Um caso brasileiro põe o apêndice no meio do livro. Em Memorial de um Passageiro de Bonde, livro de textos curtos do escritor Amadeu Amaral, o "Apêndice do Gato" vem logo depois de "O Gato", e não no fim. O narrador volta ao texto anterior para corrigir uma "inadvertência galucha": ter posto o cavalo e o elefante logo depois do gato entre os animais bonitos, sem lembrar que os vertebrados, em geral, são belos. O apêndice vira recurso de voz, o autor que se emenda em público, colado ao texto que complementa, num lugar parecido com o que a Chicago admite e que a NBR não prevê.
A palavra: *appendix*, o que fica pendurado
Apêndice vem do latim appendix, acréscimo ou coisa presa a outra, derivado de appendere, fazer pender, de ad (a) e pendere (pendurar). O Online Etymology Dictionary registra em inglês o sentido de acréscimo ao fim de um documento ou livro desde a década de 1540, e o anatômico só a partir da década de 1610: ali, a peça do livro veio antes do órgão. O plural latino é appendices, forma que o inglês mantém ao lado de appendixes, a que o Chicago Manual usa.
O apêndice de *1984*
Em 1984, de George Orwell (1949), o apêndice vem depois da última linha do romance e do "THE END": "The Principles of Newspeak", os princípios da Novafala, a língua criada para atender às necessidades ideológicas do Ingsoc, o socialismo inglês do Partido. O livro manda o leitor para lá logo no capítulo 1: na primeira vez que a palavra aparece, uma nota entre colchetes explica que a Novafala era a língua oficial da Oceania e remete ao apêndice.
O apêndice fala da Novafala no passado. A primeira frase diz que ela era a língua oficial da Oceania; o narrador chama o inglês de "Standard English, as we should call it", um "nós" que, lido assim, já está fora do regime; e a substituição completa do inglês estava prevista para cerca de 2050, data tardia porque antes seria preciso traduzir para a língua do Partido Shakespeare, Milton, Swift, Byron e Dickens. A escritora canadense Margaret Atwood, autora de O conto da aia, tirou daí uma leitura do fim do livro: como o ensaio está escrito em inglês padrão, na terceira pessoa e no passado, o regime caiu, e a língua e a individualidade sobreviveram; para quem escreveu o apêndice, o mundo de 1984 acabou. O romancista Thomas Pynchon, no prefácio da edição do centenário de Orwell (2003), segundo a resenha do crítico Cornel Bonca, acrescenta que o apêndice não mostra no estilo nenhum sinal da Novafala: o Grande Irmão pode ter conquistado o amor de Winston, mas perdeu a batalha final.
Orwell recusou cortar o apêndice para o Book-of-the-Month Club, o clube do livro americano. Os editores da edição do clube queriam tirar o longo trecho do livro de Goldstein e o apêndice sobre a Novafala; Orwell resistiu, e o clube escolheu o romance mesmo assim, segundo o crítico Paul O'Flinn. No Brasil, a tradução da Companhia das Letras (2009), de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn, mantém o apêndice e trocou a "novilíngua" de traduções anteriores por "novafala", que os tradutores consideraram mais próxima do newspeak original; a edição traz ainda os posfácios de Erich Fromm (1961) e de Ben Pimlott (1989) e o texto de Pynchon.
Apêndice em *O Senhor dos Anéis*
Tolkien guardou no apêndice uma história de amor. Os apêndices de O Senhor dos Anéis ocupam o fim do terceiro volume, O retorno do rei, com material de fundo sobre a história, as personagens e suas culturas. Numa carta de maio de 1955 ao editor Rayner Unwin, leiloada pela Bonhams em 2014, J. R. R. Tolkien conta que trabalhava nos apêndices e nos mapas com o volume já em provas, e que o poeta W. H. Auden, que leu as provas dos apêndices, questionou a inclusão do "Conto de Aragorn e Arwen"; Tolkien o defendeu como uma alegoria da esperança nua.
Outros sentidos
Na anatomia, apêndice é o apêndice cecal, antes chamado ileocecal ou vermiforme, uma pequena saliência do ceco, no começo do intestino grosso; o apêndice xifoide é a ponta de baixo do esterno. No sentido geral, é a coisa presa a outra, maior, da qual é acessória, e daí o uso para quem ou o que só depende de outro; no uso informal, o Priberam registra ainda o nariz.
Para quem escreve
O material vai para o apêndice quando o leitor pode querer consultá-lo e o texto andaria pior com ele no meio: a tabela, o questionário, o documento que o próprio autor montou. Se veio de outra mão, é anexo; se é a lista das palavras difíceis do texto, é glossário, peça própria pela norma. Se o capítulo não se entende sem ele, a Chicago admite o apêndice no fim daquele capítulo. Onde cada peça entra e com que nome faz parte da montagem das partes de um livro, no sistema Físico.
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O guia completoAs partes de um livro, da capa ao colofão — A ordem das partes de um livro é costume de oficina, não regra de lei.Termos vizinhos
Em breve
Lidas no texto integral
- ABNT, NBR 6029:2023 — Informação e documentação — Livros e folhetos — Apresentação, 3ª ed., 22/03/2023, 3.2, 3.3, 3.20, 3.26, 3.36, 3.40, 4.2.1.3 e 4.2.3.1–4.2.3.5.
- ABNT, NBR 14724:2024 — Informação e documentação — Trabalhos acadêmicos — Apresentação, 4ª ed., 16/12/2024 (versão corrigida de 01/04/2025), Esquema 1.
- ABNT, NBR 6027:2012 — Informação e documentação — Sumário — Apresentação, 2ª ed., 5.2 e 6.3.
- George Orwell, Nineteen Eighty-Four (Secker & Warburg, 1949), parte I, cap. 1, e "Appendix: The Principles of Newspeak" (Project Gutenberg Australia).
- Margaret Atwood, "Orwell and me", The Guardian, 16/06/2003.
- Paul O'Flinn, "Rereading Nineteen Eighty-Four in 1984" (1984), no Encyclopaedia of Trotskyism On-Line.
- Amadeu Amaral, Memorial de um Passageiro de Bonde, "Apêndice do Gato" (transcrição da Wikisource em português).
- Biblioteca do ICT/Unesp (São José dos Campos), Guia Prático de Normalização: TCC — Apêndice / Anexo — NBR 14724.
- ESPM, Normas ABNT, página "Apêndice (opcional)".
- Dicionários Michaelis (verbetes "apêndice" e "adendo"), Aulete Digital e Priberam (verbete "apêndice").
- Douglas Harper, Online Etymology Dictionary, "appendix (n.)" e "appendices (n.)".
- Julio Daio Borges, "1984, de George Orwell, com Fromm, Pimlott e Pynchon", Digestivo Cultural, nota 1591.
- Bonhams, comunicado do leilão Books, Maps, Manuscripts and Historical Photographs (Londres, 2014), sobre a carta de J. R. R. Tolkien a Rayner Unwin de 12/05/1955.
- University of Chicago Press, The Chicago Manual of Style, § 1.66, citada no Chicago Manual of Style Online, Q&A "Manuscript Preparation" (faq0117); ordem das seções da matéria final (1.65–1.77) pelo sumário do manual.
- Thomas Pynchon, prefácio a Nineteen Eighty-Four (edição do centenário, 2003), via a resenha de Cornel Bonca, "Pynchon meets Orwell", Sacramento News & Review, 01/01/2004.
VERSE MEDIA. Apêndice. Enciclopédia Verse, 24 set. 2026. Disponível em: https://www.versemedia.com.br/enciclopedia/producao-editorial/fisico/apendice. Acesso em: [data].
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